sábado, 4 de julho de 2026

UE aposta em euro digital para reduzir domínio dos EUA

Esperava-se que as moedas digitais, ou criptomoedas, revolucionassem a forma como se executam pagamentos por bens e serviços. Ainda assim, em 2026, quando um europeu entra em uma loja ou compra algo online, ele recorre ao dinheiro em espécie ou ao cartão.

A volatilidade e a complexidade do bitcoin impediram que ele se tornasse um meio de pagamento cotidiano. Mas, agora, o Banco Central Europeu (BCE), responsável pela gestão do euro na União Europeia (UE), tem planos para uma moeda digital estável.

Para os consumidores, o euro digital promete uma forma simples de realizar pagamentos seguros — em lojas, online ou de pessoa para pessoa — com respaldo direto do BCE. No entanto, o avanço do euro digital não é apenas uma atualização tecnológica. Ele tem se tornado cada vez mais uma necessidade geopolítica.

<><> Busca pela soberania monetária

Sob o presidente Donald Trump, os Estados Unidos mostraram que podem rapidamente reescrever regras comerciais, impor tarifas ou endurecer controles de exportação de inteligência artificial (IA). Por isso, formuladores de políticas da UE acreditam que a soberania monetária é uma proteção essencial.

Mesmo usando o euro, a União Europeia depende fortemente de sistemas de pagamento dos EUA, como Visa e Mastercard. As carteiras digitais e os aplicativos, incluindo Google Pay, Apple Pay e PayPal, adicionam outra camada de dependência. 

A utilização crescente de instrumentos financeiros como ferramentas de pressão geopolítica tem levado governos e bancos centrais a intensificarem as discussões sobre como reduzir a dependência de infraestruturas financeiras controladas por terceiros. Foi o caso do Brasil com o Pix, que colocou a soberania digital no centro da tensão com os EUA. 

"Se globalmente todas essas transações passarem a ser denominadas em dólar sem um euro digital, isso limitaria a eficácia da política monetária do BCE sobre o euro tradicional", afirma Bas van Donselaar, sócio‑administrador da consultoria PaymentGenes.

À medida que mais comércio e pagamentos migram para o ambiente online — e cada vez mais para moedas digitais estrangeiras —, a previsão é que o euro digital também ajudará o BCE a gerenciar melhor a oferta de dinheiro, responder a crises econômicas e proteger a moeda contra choques externos.

Outras grandes economias estão avançando mais rapidamente, incluindo a China com o yuan digital, ou e‑CNY. Desde seus primeiros testes em 2020, mais de 230 milhões de carteiras pessoais e cerca de 18,8 milhões de carteiras corporativas foram criadas.

Até o fim de novembro, a moeda digital chinesa já havia processado mais de 3,48 bilhões de transações de varejo acumuladas, totalizando cerca de 16,7 trilhões de yuans (R$ 12,81 trilhões), segundo a agência de notícias Xinhua.

Pequim agora avança ainda mais, expandindo o uso transfronteiriço e até permitindo remuneração sobre saldos em yuan digital.

<><> Protegendo a estabilidade financeira da UE

Para o euro digital, no entanto, um desafio fundamental é garantir que ele não funcione como uma conta bancária tradicional completa. Se isso ocorresse, bancos europeus poderiam perder depósitos — especialmente durante crises como corridas aos bancos — com consumidores transferindo suas economias para o euro digital.

"Se não houver limite para a quantidade de euros digitais que as pessoas podem ter, ele se torna um substituto de contas bancárias”, alertou Emmanuelle Auriol, professora de economia da Toulouse School of Economics.

Para evitar isso, o BCE incorporou salvaguardas. Um possível limite de 3 mil euros (R$ 17.7 mil) para saldos em euro digital redirecionaria automaticamente qualquer valor excedente para uma conta bancária vinculada.

O euro digital também não pagaria juros, eliminando incentivos para transferir poupanças para fora dos bancos. Empresas seriam impedidas de manter grandes saldos permanentes.

<><> Preocupações com vigilância

Entre os consumidores, a privacidade continua sendo uma das maiores preocupações. Alguns temem que uma moeda digital de banco central (CBDC, na sigla em inglês) permita monitoramento estatal dos gastos, traçando paralelos com o sistema de crédito social da China.

Na China, cidadãos recebem pontuações com base em seu comportamento, incluindo confiabilidade financeira. Pontuações baixas podem restringir acesso a empréstimos, empregos, serviços públicos ou viagens. No entanto, Auriol rejeitou qualquer associação com o euro digital.

"Sistemas de crédito social (como na China) não têm nada a ver com isso”, disse ela à DW. "Proteções de privacidade podem ser equilibradas com medidas anticrime sem criar ferramentas de controle social."

O BCE também planeja permitir pagamentos diretos de pessoa para pessoa entre celulares. Isso preservaria uma anonimidade semelhante à do dinheiro em espécie para pequenas transações cotidianas, ao mesmo tempo em que cumpriria regras de combate à lavagem de dinheiro.

Evelien Witlox, diretora do euro digital no BCE, descreveu a moeda proposta como "uma opção pública segura para pagamentos digitais, combinando a facilidade e a conveniência dos métodos modernos com a confiança e a estabilidade do dinheiro em espécie".

<><> Convencendo os bancos 

Um dos maiores desafios na implementação do euro digital é o impacto potencial nas receitas dos bancos europeus.

Atualmente, comerciantes perdem uma parte de cada pagamento com cartão para taxas — frequentemente entre 0,5% e 1,5% em uma transação de 100 euros, dividida entre o banco e o processador de pagamento. O euro digital tem como objetivo reduzir esses custos.

Muitos bancos de varejo argumentam que carregarão o principal ônus de construir e operar a nova infraestrutura, ao mesmo tempo em que perderão receita significativa com tarifas. Por isso, diversas instituições defendem limites de saldo maiores para usuários e uma compensação justa.

"O equilíbrio entre modelos de compensação para bancos e comerciantes é crucial”, disse van Donselaar. "Embora taxas mais baixas para comerciantes sejam compreensíveis, os bancos também precisam de um modelo de negócios viável.”

<><> Adoção facilitada pelo consumidor

Para garantir aceitação pública, o BCE propõe conceder ao euro digital o status de moeda de curso legal em toda a zona do euro. Pelas propostas atuais, qualquer comerciante com terminal de pagamento teria que aceitar euros digitais pelo valor integral, sem taxas adicionais para o consumidor.

"Assim como o dinheiro físico, seu valor será garantido pelo Eurosistema — o Banco Central Europeu e os bancos centrais nacionais —, portanto, 1 euro digital sempre será igual a 1 euro comum. Ao contrário das criptomoedas, seu valor é estável e não oscila", afirmou Witlox.

Países da UE que não fazem parte da zona do euro poderão optar por oferecer a moeda. O euro digital também funcionará offline, uma utilidade durante quedas de energia ou em áreas com conexão limitada.

Na semana passada, o Comitê de Assuntos Econômicos e Monetários do Parlamento Europeu aprovou sua posição sobre o regulamento, abrindo caminho para negociações finais sobre a implementação do euro digital.

Formuladores de políticas públicas da UE agora buscam adotar o marco legal ainda este ano, com um projeto‑piloto previsto para 2027 e lançamento completo potencial em 2029.

¨       Suécia obriga comércio a aceitar pagamentos em dinheiro

Um pequeno passo para trás no paraíso dos pagamentos com cartão da Suécia: desde esta quinta-feira (01/07), supermercados e farmácias do país escandinavo são obrigados, após uma mudança na legislação, a aceitar dinheiro em espécie. Com isso, a Suécia pretende estar mais preparada para possíveis falhas técnicas em situações de crise. Ao mesmo tempo, busca evitar que pessoas que têm dificuldade com formas de pagamento digitais sejam excluídas.

Entretanto, muitos supermercados do país já oferecem essa opção. "Em algumas situações, quando a tecnologia falha, moedas e cédulas podem ser a única forma de pagamento que funciona", afirmou Carlos Cancino, da rede de supermercados Coop, à agência de notícias TT.

Fora dessas situações, a grande maioria dos suecos prefere pagar com cartão ou celular. Alguns comerciantes, porém, não estão satisfeitos por terem que voltar a aceitar dinheiro em espécie. Segundo a TT, alguns já anunciaram que não pretendem cumprir a medida.

<><> Não é retorno total ao pagamento em espécie

A mudança na lei não representa exatamente um retorno pleno do uso de dinheiro em espécie. Além disso, existem diversas exceções à regra – por exemplo, supermercados que não possuem mais caixas atendidos por funcionários ou lojas onde a aceitação de dinheiro poderia colocar os empregados em risco.

Os comerciantes também podem argumentar com os custos envolvidos na manutenção de um sistema para recebimento de dinheiro em espécie. As lojas não são obrigadas a aceitar mais de 25 moedas em uma única transação. Além disso, ainda não existe um plano definido sobre como eventuais infrações à nova regulamentação serão fiscalizadas ou punidas.

O uso de dinheiro em espécie vem diminuindo na Suécia há muitos anos. Em uma pesquisa realizada pelo Banco Central da Suécia, em setembro do ano passado, apenas 5% dos entrevistados afirmaram ter pagado sua última compra em dinheiro.

O governo sueco, porém, vê o dinheiro em espécie como uma forma de preparação para crises. A agência de proteção civil e o Banco Central do país recomendam há algum tempo que os suecos mantenham sempre em casa o equivalente a cerca de 90 euros (R$ 534) em dinheiro. Em caso de crise, esse valor seria suficiente para comprar ao menos o essencial.

¨     OpenAI discute ceder participação de 5% ao governo dos EUA

A OpenAI discutiu a possibilidade de conceder ao governo dos Estados Unidos uma participação de 5% na empresa, enquanto a companhia de inteligência artificial (IA) busca melhorar suas relações com a Casa Branca de presidente Donald Trump, reportou o jornal Financial Times nesta quinta-feira (02/07).

O diretor executivo Sam Altman tem defendido que oferecer ao público uma participação financeira na empresa, avaliada em 852 bilhões de dólares (R$ 4,5 trilhões), seria a melhor forma de compartilhar os benefícios da IA.

Segundo a reportagem, que cita fontes com conhecimento das conversas, Altman levantou a proposta em encontros com várias autoridades, incluindo Trump, o secretário de Comércio, Howard Lutnick, e o secretário do Tesouro, Scott Bessent.

O modelo sugerido prevê que outras grandes empresas de IA dos EUA transfiram uma participação semelhante, de cerca de 5%, para um veículo de investimento especial. A ideia seria inspirada no Fundo Permanente do Alaska, que investe receitas geradas pelo petróleo e distribui dividendos à população do estado.

As negociações estariam em estágio inicial, e qualquer acordo desse tipo exigiria aprovação do Congresso, segundo o Financial Times.

<><> Pressão política crescente

Empresas de IA enfrentam crescente pressão política em Washington, onde legisladores e parte da opinião pública expressam preocupações com a construção de grandes centros de processamento de dados, a possível substituição de empregos e riscos de segurança digital.

A OpenAI e a concorrente Anthropic tiveram recentemente os lançamentos de modelos avançados limitados ou adiados após escrutínio do governo dos EUA. A proposta de Altman poderia ajudar a estreitar laços com um governo que vem assumindo cada vez mais um papel ativo na regulamentação da tecnologia.  

Nas últimas semanas, o CEO conversou também com o senador democrata Bernie Sanders, que tem defendido que cerca de metade de cada empresa de IA dos EUA passe a ser de propriedade pública por meio de um fundo soberano. Ele argumenta que a tecnologia se baseia em conhecimento humano utilizado sem permissão e sem remuneração.

No mês passado, Trump afirmou que pretendia se reunir com as principais empresas de inteligência artificial para discutir a possibilidade de o governo adquirir participação acionária.

<><> Estratégia antes da oferta pública inicial

A ideia surge no momento em que a OpenAI se prepara para abrir o capital, embora a empresa enfrente uma pressão financeira significativa devido aos custos crescentes da infraestrutura de IA — despesas que estão gerando cada vez mais dúvidas entre os investidores de Wall Street sobre o caminho do setor rumo à lucratividade. 

Lidar com a incerteza regulatória é fundamental para a OpenAI e a Anthropic antes das suas planejadas ofertas públicas iniciais.

Analista da Forrester, Indranil Bandyopadhyay afirma que uma participação do governo poderia amenizar as preocupações dos investidores quanto aos riscos relacionados à regulamentação nos EUA, mas poderia desencadear demandas semelhantes de outros países.

"É de se esperar que outras jurisdições exijam acordos análogos como condição para o acesso ao mercado e que compradores corporativos na Europa e na Ásia-Pacífico reavaliem as premissas de soberania e neutralidade de dados em relação aos provedores que seguem o modelo norte-americano."

A OpenAI já havia proposto um "fundo de riqueza pública” para investir em empresas de IA e distribuir os rendimentos aos cidadãos, enquanto a Anthropic sugeriu um "dividendo digital”, ou seja, pagamentos aos americanos financiados por impostos sobre o setor de IA. 

 

Fonte: DW Brasil

 

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