UE
aposta em euro digital para reduzir domínio dos EUA
Esperava-se
que as moedas digitais, ou criptomoedas, revolucionassem a
forma como se executam pagamentos por bens e serviços. Ainda assim, em 2026,
quando um europeu entra em uma loja ou compra algo online, ele recorre ao
dinheiro em espécie ou ao cartão.
A
volatilidade e a complexidade do bitcoin impediram que
ele se tornasse um meio de pagamento cotidiano. Mas, agora, o Banco Central Europeu (BCE), responsável pela
gestão do euro na União Europeia (UE), tem planos para uma
moeda digital estável.
Para os
consumidores, o euro digital promete uma forma simples de realizar
pagamentos seguros — em lojas, online ou de pessoa para pessoa — com respaldo
direto do BCE. No entanto, o avanço do euro digital não é apenas uma
atualização tecnológica. Ele tem se tornado cada vez mais uma necessidade
geopolítica.
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Busca pela soberania monetária
Sob o
presidente Donald Trump, os Estados Unidos mostraram que podem
rapidamente reescrever regras comerciais, impor tarifas ou endurecer controles
de exportação de inteligência artificial (IA). Por isso,
formuladores de políticas da UE acreditam que a soberania monetária é uma
proteção essencial.
Mesmo
usando o euro, a União Europeia depende fortemente de sistemas de
pagamento dos EUA, como Visa e Mastercard. As carteiras digitais e os
aplicativos, incluindo Google Pay, Apple Pay e PayPal, adicionam outra camada
de dependência.
A
utilização crescente de instrumentos financeiros como ferramentas de pressão
geopolítica tem levado governos e bancos centrais a intensificarem as
discussões sobre como reduzir a dependência de infraestruturas financeiras
controladas por terceiros. Foi o caso do Brasil com o Pix, que colocou a soberania digital no centro da
tensão com os EUA.
"Se
globalmente todas essas transações passarem a ser denominadas em dólar sem um
euro digital, isso limitaria a eficácia da política monetária do BCE sobre o
euro tradicional", afirma Bas van Donselaar, sócio‑administrador da
consultoria PaymentGenes.
À
medida que mais comércio e pagamentos migram para o ambiente online — e cada
vez mais para moedas digitais estrangeiras —, a previsão é que o euro digital
também ajudará o BCE a gerenciar melhor a oferta de dinheiro, responder a
crises econômicas e proteger a moeda contra choques externos.
Outras
grandes economias estão avançando mais rapidamente, incluindo a China com o
yuan digital, ou e‑CNY. Desde seus primeiros testes em 2020, mais de 230
milhões de carteiras pessoais e cerca de 18,8 milhões de carteiras corporativas
foram criadas.
Até o
fim de novembro, a moeda digital chinesa já havia processado mais de 3,48
bilhões de transações de varejo acumuladas, totalizando cerca de 16,7 trilhões
de yuans (R$ 12,81 trilhões), segundo a agência de notícias Xinhua.
Pequim
agora avança ainda mais, expandindo o uso transfronteiriço e até permitindo
remuneração sobre saldos em yuan digital.
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Protegendo a estabilidade financeira da UE
Para o
euro digital, no entanto, um desafio fundamental é garantir que ele não
funcione como uma conta bancária tradicional completa. Se isso ocorresse,
bancos europeus poderiam perder depósitos — especialmente durante crises como
corridas aos bancos — com consumidores transferindo suas economias para o euro
digital.
"Se
não houver limite para a quantidade de euros digitais que as pessoas podem ter,
ele se torna um substituto de contas bancárias”, alertou Emmanuelle Auriol,
professora de economia da Toulouse School of Economics.
Para
evitar isso, o BCE incorporou salvaguardas. Um possível limite de 3 mil euros
(R$ 17.7 mil) para saldos em euro digital redirecionaria automaticamente
qualquer valor excedente para uma conta bancária vinculada.
O euro
digital também não pagaria juros, eliminando incentivos para transferir
poupanças para fora dos bancos. Empresas seriam impedidas de manter grandes
saldos permanentes.
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Preocupações com vigilância
Entre
os consumidores, a privacidade continua sendo uma das maiores preocupações.
Alguns temem que uma moeda digital de banco central (CBDC, na sigla em inglês)
permita monitoramento estatal dos gastos, traçando paralelos com o sistema de
crédito social da China.
Na
China, cidadãos recebem pontuações com base em seu comportamento, incluindo
confiabilidade financeira. Pontuações baixas podem restringir acesso a
empréstimos, empregos, serviços públicos ou viagens. No entanto, Auriol
rejeitou qualquer associação com o euro digital.
"Sistemas
de crédito social (como na China) não têm nada a ver com isso”, disse ela à DW.
"Proteções de privacidade podem ser equilibradas com medidas anticrime sem
criar ferramentas de controle social."
O BCE
também planeja permitir pagamentos diretos de pessoa para pessoa entre
celulares. Isso preservaria uma anonimidade semelhante à do dinheiro em espécie
para pequenas transações cotidianas, ao mesmo tempo em que cumpriria regras de
combate à lavagem de dinheiro.
Evelien
Witlox, diretora do euro digital no BCE, descreveu a moeda proposta como
"uma opção pública segura para pagamentos digitais, combinando a
facilidade e a conveniência dos métodos modernos com a confiança e a
estabilidade do dinheiro em espécie".
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Convencendo os bancos
Um dos
maiores desafios na implementação do euro digital é o impacto potencial nas
receitas dos bancos europeus.
Atualmente,
comerciantes perdem uma parte de cada pagamento com cartão para taxas —
frequentemente entre 0,5% e 1,5% em uma transação de 100 euros, dividida entre
o banco e o processador de pagamento. O euro digital tem como objetivo reduzir
esses custos.
Muitos
bancos de varejo argumentam que carregarão o principal ônus de construir e
operar a nova infraestrutura, ao mesmo tempo em que perderão receita
significativa com tarifas. Por isso, diversas instituições defendem limites de
saldo maiores para usuários e uma compensação justa.
"O
equilíbrio entre modelos de compensação para bancos e comerciantes é crucial”,
disse van Donselaar. "Embora taxas mais baixas para comerciantes sejam
compreensíveis, os bancos também precisam de um modelo de negócios viável.”
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Adoção facilitada pelo consumidor
Para
garantir aceitação pública, o BCE propõe conceder ao euro digital o status de
moeda de curso legal em toda a zona do euro. Pelas propostas atuais, qualquer
comerciante com terminal de pagamento teria que aceitar euros digitais pelo
valor integral, sem taxas adicionais para o consumidor.
"Assim
como o dinheiro físico, seu valor será garantido pelo Eurosistema — o Banco
Central Europeu e os bancos centrais nacionais —, portanto, 1 euro digital
sempre será igual a 1 euro comum. Ao contrário das criptomoedas, seu valor é
estável e não oscila", afirmou Witlox.
Países
da UE que não fazem parte da zona do euro poderão optar por oferecer a moeda. O
euro digital também funcionará offline, uma utilidade durante quedas de energia
ou em áreas com conexão limitada.
Na
semana passada, o Comitê de Assuntos Econômicos e Monetários do Parlamento
Europeu aprovou sua posição sobre o regulamento, abrindo caminho para
negociações finais sobre a implementação do euro digital.
Formuladores
de políticas públicas da UE agora buscam adotar o marco legal ainda este ano,
com um projeto‑piloto previsto para 2027 e lançamento completo potencial em
2029.
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Suécia obriga comércio a aceitar pagamentos em dinheiro
Um
pequeno passo para trás no paraíso dos pagamentos com cartão da Suécia:
desde esta quinta-feira (01/07), supermercados e farmácias do país escandinavo
são obrigados, após uma mudança na legislação, a aceitar dinheiro em espécie.
Com isso, a Suécia pretende estar mais preparada para possíveis falhas técnicas em situações de
crise. Ao mesmo tempo, busca evitar que pessoas que têm dificuldade com formas
de pagamento digitais sejam excluídas.
Entretanto,
muitos supermercados do país já oferecem essa opção. "Em algumas
situações, quando a tecnologia falha, moedas e cédulas podem ser a única forma
de pagamento que funciona", afirmou Carlos Cancino, da rede de
supermercados Coop, à agência de notícias TT.
Fora
dessas situações, a grande maioria dos suecos prefere pagar com cartão ou
celular. Alguns comerciantes, porém, não estão satisfeitos por terem que voltar
a aceitar dinheiro em espécie. Segundo a TT, alguns já anunciaram que não
pretendem cumprir a medida.
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Não é retorno total ao pagamento em espécie
A
mudança na lei não representa exatamente um retorno pleno do uso de dinheiro em
espécie. Além disso, existem diversas exceções à regra – por exemplo,
supermercados que não possuem mais caixas atendidos por funcionários ou lojas
onde a aceitação de dinheiro poderia colocar os empregados em risco.
Os
comerciantes também podem argumentar com os custos envolvidos na manutenção de
um sistema para recebimento de dinheiro em espécie. As lojas não são obrigadas
a aceitar mais de 25 moedas em uma única transação. Além disso, ainda não
existe um plano definido sobre como eventuais infrações à nova regulamentação
serão fiscalizadas ou punidas.
O uso
de dinheiro em espécie vem diminuindo na Suécia há muitos anos. Em uma pesquisa
realizada pelo Banco Central da Suécia, em setembro do ano passado, apenas 5%
dos entrevistados afirmaram ter pagado sua última compra em dinheiro.
O
governo sueco, porém, vê o dinheiro em espécie como uma forma de preparação
para crises. A agência de proteção civil e o Banco Central do país recomendam
há algum tempo que os suecos mantenham sempre em casa o equivalente a cerca
de 90 euros (R$ 534) em
dinheiro. Em caso de crise, esse valor seria suficiente para comprar ao menos o
essencial.
¨ OpenAI discute ceder
participação de 5% ao governo dos EUA
A OpenAI discutiu a
possibilidade de conceder ao governo dos Estados Unidos uma
participação de 5% na empresa, enquanto a companhia de inteligência artificial (IA) busca melhorar
suas relações com a Casa Branca de presidente Donald Trump, reportou o jornal Financial Times nesta
quinta-feira (02/07).
O
diretor executivo Sam Altman tem defendido
que oferecer ao público uma participação financeira na empresa, avaliada em 852
bilhões de dólares (R$ 4,5 trilhões), seria a melhor forma de compartilhar os
benefícios da IA.
Segundo
a reportagem, que cita fontes com conhecimento das conversas, Altman levantou a
proposta em encontros com várias autoridades, incluindo Trump, o secretário de
Comércio, Howard Lutnick, e o secretário do Tesouro, Scott Bessent.
O
modelo sugerido prevê que outras grandes empresas de IA dos EUA transfiram uma
participação semelhante, de cerca de 5%, para um veículo de investimento
especial. A ideia seria inspirada no Fundo Permanente do Alaska, que investe
receitas geradas pelo petróleo e distribui
dividendos à população do estado.
As
negociações estariam em estágio inicial, e qualquer acordo desse tipo exigiria
aprovação do Congresso, segundo o Financial Times.
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Pressão política crescente
Empresas
de IA enfrentam crescente pressão política em Washington, onde legisladores e
parte da opinião pública expressam preocupações com a construção de grandes
centros de processamento de dados, a possível substituição de empregos e riscos
de segurança digital.
A
OpenAI e a concorrente Anthropic tiveram recentemente os lançamentos de modelos avançados limitados ou adiados após escrutínio
do governo dos EUA. A proposta de Altman poderia ajudar a estreitar laços com
um governo que vem assumindo cada vez mais um papel ativo na regulamentação da
tecnologia.
Nas
últimas semanas, o CEO conversou também com o senador democrata Bernie Sanders,
que tem defendido que cerca de metade de cada empresa de IA dos EUA passe a ser
de propriedade pública por meio de um fundo soberano. Ele argumenta que a
tecnologia se baseia em conhecimento humano utilizado sem permissão e sem
remuneração.
No mês
passado, Trump afirmou que pretendia se reunir com as principais empresas de
inteligência artificial para discutir a possibilidade de o governo adquirir
participação acionária.
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Estratégia antes da oferta pública inicial
A ideia
surge no momento em que a OpenAI se prepara para abrir o capital, embora a
empresa enfrente uma pressão financeira significativa devido aos custos
crescentes da infraestrutura de IA — despesas que estão gerando cada vez mais
dúvidas entre os investidores de Wall Street sobre o caminho do setor rumo à
lucratividade.
Lidar
com a incerteza regulatória é fundamental para a OpenAI e a Anthropic antes das
suas planejadas ofertas públicas iniciais.
Analista
da Forrester, Indranil Bandyopadhyay afirma que uma participação do governo
poderia amenizar as preocupações dos investidores quanto aos riscos
relacionados à regulamentação nos EUA, mas poderia desencadear demandas
semelhantes de outros países.
"É
de se esperar que outras jurisdições exijam acordos análogos como condição para
o acesso ao mercado e que compradores corporativos na Europa e na Ásia-Pacífico
reavaliem as premissas de soberania e neutralidade de dados em relação aos
provedores que seguem o modelo norte-americano."
A
OpenAI já havia proposto um "fundo de riqueza pública” para investir em
empresas de IA e distribuir os rendimentos aos cidadãos, enquanto a Anthropic
sugeriu um "dividendo digital”, ou seja, pagamentos aos americanos
financiados por impostos sobre o setor de IA.
Fonte:
DW Brasil

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