Proteção
de defensores é vista como ‘péssima’ na Amazônia
Os
Estados da Amazônia Legal mais pressionados pelo extrativismo predatório e pelo
desmatamento são aqueles que apresentam os melhores mecanismos de governança em
participação e justiça. Mas isso não significa maior proteção e segurança de
quem está na linha de frente. Ao contrário. O Índice de Democracia Ambiental
(IDA) 2026, lançado nesta quinta-feira (2), revela que a proteção de defensores
ambientais e de direitos humanos é a dimensão mais crítica na região. A média é
de apenas 15,1 pontos em uma escala de zero a cem, um resultado classificado
como “péssimo” e bem abaixo da realidade nacional (62,8 pontos).
O
estudo, elaborado pela Transparência Internacional – Brasil e pelo Instituto
Centro de Vida (ICV), avaliou mais de 120 indicadores relacionados à governança
ambiental nos Estados do Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Mato Grosso, Rondônia,
Roraima, Tocantins e Maranhão. A média geral da região ficou em 41 pontos,
considerada “regular”. Mas o que os pesquisadores observaram é o contraste,
para não dizer abismo, entre as quatro dimensões analisadas: enquanto o acesso
à Justiça alcançou média de 65,9 (boa), o acesso à informação ficou em 44,7
(regular), a participação social em 37,6 (ruim) e a proteção aos defensores
desabou para o nível mais baixo.
Essa
variação expõe contradições graves. O Acre lidera a dimensão de acesso à
Justiça, com 70,1 pontos, mas despenca para 2,9 em proteção de defensores
ambientais. Tocantins registra boa participação (49,4), mas beira o quase zero
no quesito segurança dos defensores (5,7). Na média geral do Índice de
Democracia Ambiental, Mato Grosso (36,4), Maranhão (32,3) e Pará (27,7)
obtiveram as melhores avaliações em proteção, embora todas abaixo do
satisfatório. A pior situação na Amazônia Legal está em Roraima, com apenas 0,8
ponto, seguido por Rondônia (5,4) e Amapá (10,4).
Casos
emblemáticos, como o assassinato de Ari Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia, em 2020,
que se tornou símbolo da violência contra defensores ambientais na Amazônia
Legal, ou as mortes do jornalista Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira,
no Vale do Javari (AM), em 2022, expõem a fragilidade em territórios onde as
notas de proteção do IDA revelam um cenário desolador. No IDA, o Amazonas
recebeu nota 14,8 em relação à proteção de defensores ambientais, também
considerada “péssima”. Essa classificação “péssima” indica uma ausência quase
total de mecanismos de proteção de defensores e defensoras ambientais.
Os
indicadores mais críticos dos dados levantados pela TI Brasil e pelo ICV
envolvem a proteção de mulheres, indígenas e comunidades tradicionais, ausência
de programas descentralizados, monitoramento da violência contra jornalistas e
comunicadores e falta de protocolos e capacitação das forças de segurança para
atuar em conflitos socioambientais.
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Políticas que não chegam ao território
A
fragilidade institucional se reflete na ausência de estruturas estaduais.
Apenas Pará, Maranhão e Mato Grosso possuem programas próprios e específicos de
proteção a defensores. Em relação ao
orçamento previsto para o programa no ano de 2025, só Maranhão e Mato
Grosso o executaram integralmente; Pará
executou parcialmente o recurso. Nos outros seis Estados – Amazonas, Acre,
Amapá, Rondônia, Roraima e Tocantins – não há programas estruturados, e as
demandas dependem exclusivamente da estrutura federal. Mesmo onde o programa
existe, o IDA aponta limitações como equipes reduzidas, recursos insuficientes
e atuação concentrada nas capitais. Apenas o Pará possui uma estrutura
descentralizada para o interior.
Segundo
Olivia Ainbinder, advogada e Coordenadora do Programa de Integridade
Socioambiental da TI Brasil, os dados revelam que a proteção de defensoras e
defensores ambientais ainda é uma agenda pouco institucionalizada na Amazônia
Legal, justamente porque a maioria dos estados avaliados não dispõe de
estruturas e mecanismos considerados essenciais para prevenir riscos, proteger
pessoas ameaçadas e responder de forma adequada a situações de violência
relacionadas à defesa do meio ambiente.
“Embora
o IDA não analise casos de violência em si, seus resultados mostram que os
instrumentos institucionais para enfrentar esse cenário ainda são
insuficientes. Isso reforça a necessidade de fortalecer programas de proteção,
protocolos de atuação das forças de segurança, mecanismos efetivos de denúncia
e a coordenação entre os diferentes órgãos públicos responsáveis por essa
agenda”, explicou.
A
ausência de equipes descentralizadas foi um dos principais gargalos
identificados pelo estudo. Segundo o relatório IDA, a concentração das
estruturas de proteção nas capitais dos estados dificulta o atendimento de
defensores e defensoras que vivem em territórios rurais e de difícil acesso.
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Invisibilidade e resistência
Os
pesquisadores analisaram o orçamento destinado à política de proteção,
protocolos de atuação das forças de segurança, canais públicos de denúncia e
mecanismos de acolhimento e atendimento para pessoas ameaçadas, incluindo
jornalistas e comunicadores. Os resultados apontaram déficits estruturais na
Amazônia Legal, com destaque para a baixa existência de programas de proteção
aos defensores(as) de direitos humanos, comunicadores(as) e ambientalistas.
A
fragilidade dessas políticas públicas se reflete na experiência de quem vive
sob ameaça. Uma liderança extrativista do sul do Amazonas, que pediu para não
ser identificada por questões de segurança, relatou à Amazônia Real diversos
tipos de violências que sofreu em razão da sua atuação na defesa dos
territórios, desde ameaças virtuais a ameaças presenciais. Nos episódios mais
graves, chegou a ser agredida de forma física e verbal.
“Em
algumas situações houve apoio, outras não, inclusive uma delas a minha vida
pessoal foi assunto de uma sessão na Câmara de Vereadores, e o MPF [Ministério
Público Federal] foi contra eu entrar com um processo, alegando que isso
poderia piorar a situação. Nunca foi fácil conseguir apoio nesses momentos”,
disse.
Os
agressores saíram impunes, segundo a liderança, que lamenta ter hoje uma vida
social limitada por conta do seu trabalho em defesa dos direitos humanos e da
natureza. “Ainda falta uma política pública adequada e de prioridade para as
lideranças. Uma polícia preparada com conhecimento dos territórios, menos
corrupção, e mais ação. O que mais dificulta é a lentidão da justiça, isso
quando acontece. Na maioria das vezes eles ficam impunes”, definiu.
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Quem defende os defensores?
Informações
sobre os programas de proteção raramente estão disponíveis nos portais
oficiais. Apenas Maranhão e Pará divulgaram algum dado que permitiu o
atendimento parcial dos indicadores analisados pelo Índice de Democracia
Ambiental, enquanto no Mato Grosso não foram encontradas informações públicas
completas e sistematizadas sobre aspectos básicos da governança e implementação
da política.
Uma
liderança de povos e comunidades tradicionais do Mato Grosso, que também pede
sigilo, disse ter sofrido uma ameaça em 2018, período em que estava em
julgamento e pauta a extinção de uma unidade de conservação do Estado. Na
ocasião, por ser defensora ambiental, ela começou a publicar posts em suas
redes sociais, cobrando posicionamentos de políticos e chamando a atenção da
população local.
Um
político da região fez um comentário alertando que ela estava “muito atuante” e
lembrando que toda a sua família morava na pequena cidade. “Entendi isso como
uma ameaça, e uma ameaça não só a mim, mas à minha família também. Não foi uma
ameaça física, porque existem outras formas de ameaça aos defensores, que é uma
forma de calar e de deter a visibilidade que essa pessoa tem de engajar pessoas
e outros atores na pauta que ela está denunciando”, afirmou.
Sem
conseguir recorrer a mecanismos formais de proteção, a liderança precisou mudar
sua forma de atuação. Para preservar a própria segurança e a de familiares,
deixou de fazer publicações sobre o caso e passou a atuar nos bastidores da
mobilização em defesa do meio ambiente. “Eu me retirei estrategicamente e
busquei outras formas de continuar lutando.”
Essa
liderança cobra que, além de programas voltados à proteção, o Estado brasileiro
se comprometa a combater a violência contra defensores ambientais regularizando
e demarcando os territórios tradicionais. “Não dá para você pensar num programa
de proteção a defensores desvinculado de um processo de regularização fundiária
e de proteção aos territórios de povos indígenas e comunidades tradicionais. Os
defensores ambientais que são de segmentos de povos indígenas e comunidades
tradicionais são mais vulnerabilizados em vários aspectos, e são os que mais
morrem. São os que mais precisam de proteção, porque os seus territórios estão
mais distantes”, disse.
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Programas insuficientes
O
Índice de Democracia Ambiental também verificou a existência de estruturas
especializadas no Judiciário, como varas ambientais e fundiárias, iniciativas
para ampliar o acesso à justiça em regiões remotas, portais de transparência e
mecanismos para garantir a participação de mulheres, povos indígenas e
comunidades tradicionais em consultas e audiências públicas sobre temas
socioambientais.
Os
organizadores do IDA defendem que os Estados da Amazônia Legal ampliem e
fortaleçam os programas de proteção a defensores ambientais, criem estruturas
especializadas para lidar com conflitos ambientais, aprimorem os instrumentos
de participação social e ampliem a transparência das informações públicas
relacionadas ao meio ambiente.
Para a
advogada Olivia Ainbinder, o primeiro passo para mudar essa realidade de
violência é fortalecer os programas de proteção de defensoras e defensores
ambientais nos níveis federal e estadual na Amazônia, com recursos adequados,
garantia de participação social e capilaridade em regiões remotas.
Ela
destaca que a aprovação do Acordo de Escazú pelo Senado Federal representaria
um avanço importante, ao consolidar compromissos para fortalecer os direitos de
acesso em questões ambientais e a proteção de defensoras e defensores
ambientais no Brasil. Além disso, ampliar a transparência de informações
ambientais, garantir a participação efetiva da sociedade nas decisões
ambientais e fortalecer o acesso à justiça são medidas que reduzem a
vulnerabilidade de defensoras e defensores e aumentam a capacidade do Estado de
prevenir conflitos e responsabilizar os autores de ilícitos ambientais.
“Também
é fundamental que os estados adotem protocolos específicos para a atuação das
forças de segurança em casos envolvendo defensores ambientais, invistam na
capacitação de policiais, além de fortalecer canais de denúncia, ouvidorias e
mecanismos de monitoramento de ameaças e violências. Ao mesmo tempo, a proteção
dessas pessoas não pode ser dissociada do fortalecimento das demais dimensões
da democracia ambiental”, definiu.
Fonte:
Por Nicoly Ambrosio, da Amazônia Real

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