sábado, 4 de julho de 2026

Ruído e silêncio

Quando Ulisses partiu da ilha de Eeia, de retorno a Ítaca, Circe, deusa feiticeira de belas tranças, versada em venenos e drogas, deitou-se ao seu lado e o advertiu sobre o canto das “sereias” (as aspas são propositais). As vozes harmoniosas dessas criaturas traiçoeiras enfeitiçavam os homens para devorá-los. O Canto 12 da Odisseia diz que elas eram mulheres com corpo de ave, nada tinham das figuras cativantes, em forma de donzelas marítimas (“mermaid” = mar + moça), que habitam nossa imaginação.

O mito é assombrado pelas sirenas, elas cantam, não os peixes. Ao ser amarrado ao mastro do navio Ulisses pediu aos marinheiros que tapassem os ouvidos com cera, estariam assim ao abrigo do sussurrar sedutor desses pássaros híbridos e aterradores.

Theodor Adorno e Max Horkheimer fizeram uma leitura icônica desta passagem célebre, em Dialética do esclarecimento. Diziam que nas sociedades de massas teria havido uma regressão da audição; Ulisses, solto do mastro da embarcação, e os remadores, sem a cera nos ouvidos, permaneceriam alheios à melodia de outras músicas.

As amarras para se proteger da sedução das sereias deixariam assim de existir; diante da incapacidade do sujeito (os indivíduos) em ouvir algo dissonante de sua realidade confortável, se tornariam inúteis. O espaço público teria se transformado em um lugar monocórdio no qual predominaria a platitude dos sons.

Ortega y Gasset também recorre à figura da audição para falar dos tempos em que vivia em A rebelião das massas); para ele o homem contemporâneo teria perdido essa virtude essencial, “já não haveria mais razão para ouvir”. Enquanto “massa” ele alienaria sua subjetividade a um padrão coercitivo coletivo, expressão deformada de seu próprio destino. A musicalidade unidimensional de uma nova época imporia a todos uma surdez seletiva.

Como o passar dos anos o espaço público se transformou, entretanto, a metáfora das vozes e da audição permaneceu. A situação monocórdica da “sociedade de massas” já não é mais a mesma, constitui agora uma multiplicidade de ruídos e sons. O ocaso do que se denominou de fordismo significa uma diversificação das intenções que se adapta mal ao formato massivo que conhecíamos antes.

Em tempos flexíveis o espaço público encontra-se atravessado por “vozes” distintas e concorrentes entre si; demandam ser reconhecidas e escutadas, essa é a reivindicação das minorias. “Falas” sufocadas em se exprimir enquanto tal, encontram desta forma um lugar para se manifestar. Diversidade sonora torna-se uma condição. Porém, ela não se resume às expressões de natureza política, é toda uma gama de novos timbres que agora se prefigura.

Umberto Eco em um texto irônico (“Veline e Silêncio”, em Construindo o inimigo) diz que certos programas de televisão (refere-se às “velines”, moças que dançam e ilustram os noticiários italianos), através do ruído atuam como uma espécie de censores, sua estridência reduziria todo o resto ao silêncio. O advento das redes sociais aprofunda essa dimensão do mundo, a afirmação do “mínimo eu” não mais se conforma ao domínio da privacidade, cada um, em seu isolamento digital, exige ser escutado.

Ou como diz Umberto Eco em relação à internet: vive-se “o máximo de ruído através do qual não se recebe nenhuma informação”. Sublinho: a noção de censura não possui neste caso um significado negativo, isto é, aquilo que deve ser oculto, proibido (uma das origens do termo “veline” durante o fascismo na Itália).

Ela se aplica a algo que se manifesta positivamente, “é”, uma exposição espalhafatosa e sensacionalista na cena pública, sua presença hiperbólica nos tornaria surdos. A audição estaria assim comprometida pelo excesso de ruído, a impossibilidade de se discernir a tonalidade das coisas.

Dizem os semiólogos que o silêncio é a respiração da frase, a pausa necessária para que o sentido se explicite. Sem ele, a sequência das palavras se transformaria em uma cacofonia ininteligível. A língua portuguesa (como outros idiomas, latinos ou não) permite expressar o hiato entre ouvir e escutar. O primeiro termo refere-se a uma capacidade específica da condição humana, a audição (diz o ditado popular: “entrar por um ouvido e sair pelo outro”); o segundo remete à vida íntima daquilo que se ouve.

Escutar é um movimento interno da subjetividade, um desdobramento sobre si mesmo, a pausa que significa o mundo (os psicanalistas dizem que a escuta é um artifício para se estimular a autorreflexão). Estabelece-se, portanto, um hiato entre o ouvido e a submersão em nós mesmos, a autonomia da existência, isto é, uma interpretação ana-chronos e defasada daquilo que se impõe como imanente e audível.

O contemporâneo é povoado pelo alarido que nos cerca – mensagens, vídeos, alarmes, lembretes, emojis, filmes, músicas, filmagens, performances, pedidos de ajuda, marketing, publicidade, cenas da vida quotidiana etc. Diante do volume das informações é preciso captar o silêncio dos sons. Em tempos digitais talvez o mito helênico devesse ser reinterpretado. Ulisses, amarrado ao mastro do navio, com a cera dos remadores no ouvido, nas águas turvas de Eeia, se resguardaria da dissonância do canto das sirenas.

<><> O futuro e a crença

A função social do oráculo é prever o futuro, tornar o indeterminado e o indefinido presumíveis; isso significa que aquilo que virá encontra-se prefigurado de antemão. Podem existir algumas dúvidas a seu respeito, uma neblina que se interpõe entre o atual e os fatos que acontecerão. Entretanto, o oráculo possui a capacidade e a sabedoria para contornar tais adversidades.

No antigo mundo helênico, acreditava-se que Delfos ocupava o centro do universo. Conta-se que Zeus tinha enviado duas águias para voarem em direções contrárias; após terem percorrido toda a Terra, elas se encontraram em um mesmo local, o umbigo do mundo. Delfos era uma instituição de prestígio na arte divinatória, ali residiam as pítias, porta-vozes de Apolo, o deus-sol. A consulta se fazia oralmente.

O interessado perguntava à entidade (uma mulher – os eruditos debatem se elas entravam ou não em transe) o que desejava saber, ela respondia de maneira enigmática. Entre os iorubás ocorria o mesmo, mas a consultação não se fazia na forma de diálogo. A mediação com o sagrado realizava-se através do rosário de Ifá, colar com pendentes de fava de opelé que permitia desvendar o futuro. A posição das favas, lançadas em um tabuleiro, indicava o sentido do que estaria por vir.

A profecia anunciava assim o destino por ela preconizado, como no mito de Édito, que ainda na infância anteviu sua sorte trágica: o assassinato do pai e o matrimônio com a mãe (Jocasta). A vida seria a realização de um vaticínio anunciado. Os atos de cada um corresponderiam a um imperativo que os transcenderia; diante do caminho traçado pelos deuses ou pelos orixás, restaria aos indivíduos o fardo de sua existência.

Dificilmente a verdade manifesta nos mitos sobreviveria aos tempos atuais. Na hipermodernidade o indivíduo se imagina – essa é a ilusão – como demiurgo do mundo. A noção de destino como uma vontade transcendente colide com sua idiossincrasia, ela não se dobra a uma imposição alheia a seu próprio ser. Porém, a crença em se prever o futuro, longe de fenecer, permanece; com outra roupagem transforma-se e se fortalece.

Seria insensato tomar ao pé-da-letra as palavras enigmáticas das pítias quando se sabe que a mitologia helênica se perdeu com a Antiguidade. Ou, ao se consultar a ialorixá de um candomblé, nos convencermos inteiramente das afirmações ditadas pelo jogo dos búzios. Essas práticas subsistem entre nós, mas perdem em convicção coletiva. Por isso a crença necessita ser remodelada, recomposta.

A futurologia (existem cursos acadêmicos sobre essa quimera, faculdades, universidades, think-tanks) cumpre esse papel, ela encontra na ciência os argumentos para fundar sua legitimidade. Sua primeira preocupação é distinguir-se das crendices do passado, isto é, estabelece uma ruptura epistemológica com esse legado incômodo. O mantra de seu devaneio deve, portanto, ser repetido a exaustão: “baseado em evidências prever o futuro tornou-se uma ciência”.

Ela se afasta assim das vertentes tradicionais, busca-se por algo “sólido”, socialmente convincente para se amparar. A futurologia é uma prática heteróclita que combina métodos oriundos de saberes distintos e discrepantes: estatística, modelos matemáticos, história, estudos populacionais, sociologia, psicologia, biologia, etc. (com o advento da Inteligência artificial a esperança em sua imprecisão aumentou). Parcelas de disciplinas desconexas são costuradas para sustentar a credibilidade de um conjunto frágil.

O intuito deste tipo de operação simbólica é claro, dar consistência ao que é instável. O raciocínio que a define é, entretanto, circular. Ele diz: ao se utilizar métodos científicos para se antever o que não existe ainda, a prática que o desvenda é necessariamente científica. Essa é a tautologia manifesta (também no kardecismo a “ciência” é utilizada para provar a existência dos espíritos). As divindades perdem o monopólio da arte da adivinhação e são substituídas por uma instância com maior credibilidade.

Há ainda um traço que afasta a futurologia da tradição divinatória: a maleabilidade do destino. Esforça-se para que, de alguma maneira, o que se encontra desenhado previamente possa ser adulterado. Com os recursos científicos disponíveis, imagina-se a produção de cenários que eventualmente configurariam no presente uma alternativa ao que se esperar adiante (esse tipo de “metodologia” é celebrado sobretudo pelas grandes empresas na realização de seus negócios). Entretanto, a lógica de cartomante que funda a premonição permanece: “se tudo se passar como previsto, tudo assim será”.

Nem todos alcançam o futuro, apenas alguns privilegiados são ungidos pelos deuses. Entre o presente e o desconhecido há uma linha de separação, um pouco como o contraste entre o sagrado e o profano; entre eles existe uma zona liminar na qual se situam os agentes intermediários. Sua tarefa: colocar em contato esferas distintas.

Arnold Van Gennep dizia que os rituais de passagem tinham como objetivo estabelecer a comunicação entre o sagrado e o profano. Para isso era necessário a presença de mediadores, ao abrir ou fechar as portas desses compartimentos, seriam capazes de controlar o fluxo entre eles. Desta maneira, torna-se inteligível o que se encontrava fora do alcance dos mortais.

As pítias ou aqueles que interpretam os segredos de Ifá preenchem esta função, propiciam o liame entre o excepcional e o ordinário. Os futurólogos são os mediadores das crenças modernas, sua posição ambivalente, como Janus, olham para trás e para frente, lhes permite interpelar o presente e vislumbrar adiante. Mas em seu caminho conhecem os percalços da vida. Dizem que os profetas para terem êxito devem pregar para além do deserto, a doutrina professada necessita de acólitos, sem o que sua verdade seria vã.

Felizmente, porém, a distância entre a crença e a realidade favorece a escuridão, a fresta na qual a suspeita se aloja. Entre a certeza preconizada e a vastidão do deserto as palavras se arrastam, resvalam em seu solo árido e se dissolvem na areia.

 

Fonte: Por Renato Ortiz, em A Terra é Redonda 

 

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