Ruído
e silêncio
Quando
Ulisses partiu da ilha de Eeia, de retorno a Ítaca, Circe, deusa feiticeira de
belas tranças, versada em venenos e drogas, deitou-se ao seu lado e o advertiu
sobre o canto das “sereias” (as aspas são propositais). As vozes harmoniosas
dessas criaturas traiçoeiras enfeitiçavam os homens para devorá-los. O Canto 12
da Odisseia diz que elas eram mulheres com corpo de ave, nada tinham das
figuras cativantes, em forma de donzelas marítimas (“mermaid” = mar + moça),
que habitam nossa imaginação.
O mito
é assombrado pelas sirenas, elas cantam, não os peixes. Ao ser amarrado ao
mastro do navio Ulisses pediu aos marinheiros que tapassem os ouvidos com cera,
estariam assim ao abrigo do sussurrar sedutor desses pássaros híbridos e
aterradores.
Theodor
Adorno e Max Horkheimer fizeram uma leitura icônica desta passagem célebre, em
Dialética do esclarecimento. Diziam que nas sociedades de massas teria havido
uma regressão da audição; Ulisses, solto do mastro da embarcação, e os
remadores, sem a cera nos ouvidos, permaneceriam alheios à melodia de outras
músicas.
As
amarras para se proteger da sedução das sereias deixariam assim de existir;
diante da incapacidade do sujeito (os indivíduos) em ouvir algo dissonante de
sua realidade confortável, se tornariam inúteis. O espaço público teria se
transformado em um lugar monocórdio no qual predominaria a platitude dos sons.
Ortega
y Gasset também recorre à figura da audição para falar dos tempos em que vivia
em A rebelião das massas); para ele o homem contemporâneo teria perdido essa
virtude essencial, “já não haveria mais razão para ouvir”. Enquanto “massa” ele
alienaria sua subjetividade a um padrão coercitivo coletivo, expressão
deformada de seu próprio destino. A musicalidade unidimensional de uma nova
época imporia a todos uma surdez seletiva.
Como o
passar dos anos o espaço público se transformou, entretanto, a metáfora das
vozes e da audição permaneceu. A situação monocórdica da “sociedade de massas”
já não é mais a mesma, constitui agora uma multiplicidade de ruídos e sons. O
ocaso do que se denominou de fordismo significa uma diversificação das
intenções que se adapta mal ao formato massivo que conhecíamos antes.
Em
tempos flexíveis o espaço público encontra-se atravessado por “vozes” distintas
e concorrentes entre si; demandam ser reconhecidas e escutadas, essa é a
reivindicação das minorias. “Falas” sufocadas em se exprimir enquanto tal,
encontram desta forma um lugar para se manifestar. Diversidade sonora torna-se
uma condição. Porém, ela não se resume às expressões de natureza política, é
toda uma gama de novos timbres que agora se prefigura.
Umberto
Eco em um texto irônico (“Veline e Silêncio”, em Construindo o inimigo) diz que
certos programas de televisão (refere-se às “velines”, moças que dançam e
ilustram os noticiários italianos), através do ruído atuam como uma espécie de
censores, sua estridência reduziria todo o resto ao silêncio. O advento das
redes sociais aprofunda essa dimensão do mundo, a afirmação do “mínimo eu” não
mais se conforma ao domínio da privacidade, cada um, em seu isolamento digital,
exige ser escutado.
Ou como
diz Umberto Eco em relação à internet: vive-se “o máximo de ruído através do
qual não se recebe nenhuma informação”. Sublinho: a noção de censura não possui
neste caso um significado negativo, isto é, aquilo que deve ser oculto,
proibido (uma das origens do termo “veline” durante o fascismo na Itália).
Ela se
aplica a algo que se manifesta positivamente, “é”, uma exposição espalhafatosa
e sensacionalista na cena pública, sua presença hiperbólica nos tornaria
surdos. A audição estaria assim comprometida pelo excesso de ruído, a
impossibilidade de se discernir a tonalidade das coisas.
Dizem
os semiólogos que o silêncio é a respiração da frase, a pausa necessária para
que o sentido se explicite. Sem ele, a sequência das palavras se transformaria
em uma cacofonia ininteligível. A língua portuguesa (como outros idiomas,
latinos ou não) permite expressar o hiato entre ouvir e escutar. O primeiro
termo refere-se a uma capacidade específica da condição humana, a audição (diz
o ditado popular: “entrar por um ouvido e sair pelo outro”); o segundo remete à
vida íntima daquilo que se ouve.
Escutar
é um movimento interno da subjetividade, um desdobramento sobre si mesmo, a
pausa que significa o mundo (os psicanalistas dizem que a escuta é um artifício
para se estimular a autorreflexão). Estabelece-se, portanto, um hiato entre o
ouvido e a submersão em nós mesmos, a autonomia da existência, isto é, uma
interpretação ana-chronos e defasada daquilo que se impõe como imanente e
audível.
O
contemporâneo é povoado pelo alarido que nos cerca – mensagens, vídeos,
alarmes, lembretes, emojis, filmes, músicas, filmagens, performances, pedidos
de ajuda, marketing, publicidade, cenas da vida quotidiana etc. Diante do
volume das informações é preciso captar o silêncio dos sons. Em tempos digitais
talvez o mito helênico devesse ser reinterpretado. Ulisses, amarrado ao mastro
do navio, com a cera dos remadores no ouvido, nas águas turvas de Eeia, se
resguardaria da dissonância do canto das sirenas.
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O futuro e a crença
A
função social do oráculo é prever o futuro, tornar o indeterminado e o
indefinido presumíveis; isso significa que aquilo que virá encontra-se
prefigurado de antemão. Podem existir algumas dúvidas a seu respeito, uma
neblina que se interpõe entre o atual e os fatos que acontecerão. Entretanto, o
oráculo possui a capacidade e a sabedoria para contornar tais adversidades.
No
antigo mundo helênico, acreditava-se que Delfos ocupava o centro do universo.
Conta-se que Zeus tinha enviado duas águias para voarem em direções contrárias;
após terem percorrido toda a Terra, elas se encontraram em um mesmo local, o
umbigo do mundo. Delfos era uma instituição de prestígio na arte divinatória,
ali residiam as pítias, porta-vozes de Apolo, o deus-sol. A consulta se fazia
oralmente.
O
interessado perguntava à entidade (uma mulher – os eruditos debatem se elas
entravam ou não em transe) o que desejava saber, ela respondia de maneira
enigmática. Entre os iorubás ocorria o mesmo, mas a consultação não se fazia na
forma de diálogo. A mediação com o sagrado realizava-se através do rosário de
Ifá, colar com pendentes de fava de opelé que permitia desvendar o futuro. A
posição das favas, lançadas em um tabuleiro, indicava o sentido do que estaria
por vir.
A
profecia anunciava assim o destino por ela preconizado, como no mito de Édito,
que ainda na infância anteviu sua sorte trágica: o assassinato do pai e o
matrimônio com a mãe (Jocasta). A vida seria a realização de um vaticínio
anunciado. Os atos de cada um corresponderiam a um imperativo que os
transcenderia; diante do caminho traçado pelos deuses ou pelos orixás, restaria
aos indivíduos o fardo de sua existência.
Dificilmente
a verdade manifesta nos mitos sobreviveria aos tempos atuais. Na
hipermodernidade o indivíduo se imagina – essa é a ilusão – como demiurgo do
mundo. A noção de destino como uma vontade transcendente colide com sua
idiossincrasia, ela não se dobra a uma imposição alheia a seu próprio ser.
Porém, a crença em se prever o futuro, longe de fenecer, permanece; com outra
roupagem transforma-se e se fortalece.
Seria
insensato tomar ao pé-da-letra as palavras enigmáticas das pítias quando se
sabe que a mitologia helênica se perdeu com a Antiguidade. Ou, ao se consultar
a ialorixá de um candomblé, nos convencermos inteiramente das afirmações
ditadas pelo jogo dos búzios. Essas práticas subsistem entre nós, mas perdem em
convicção coletiva. Por isso a crença necessita ser remodelada, recomposta.
A
futurologia (existem cursos acadêmicos sobre essa quimera, faculdades,
universidades, think-tanks) cumpre esse papel, ela encontra na ciência os
argumentos para fundar sua legitimidade. Sua primeira preocupação é
distinguir-se das crendices do passado, isto é, estabelece uma ruptura
epistemológica com esse legado incômodo. O mantra de seu devaneio deve,
portanto, ser repetido a exaustão: “baseado em evidências prever o futuro
tornou-se uma ciência”.
Ela se
afasta assim das vertentes tradicionais, busca-se por algo “sólido”,
socialmente convincente para se amparar. A futurologia é uma prática
heteróclita que combina métodos oriundos de saberes distintos e discrepantes:
estatística, modelos matemáticos, história, estudos populacionais, sociologia,
psicologia, biologia, etc. (com o advento da Inteligência artificial a
esperança em sua imprecisão aumentou). Parcelas de disciplinas desconexas são
costuradas para sustentar a credibilidade de um conjunto frágil.
O
intuito deste tipo de operação simbólica é claro, dar consistência ao que é
instável. O raciocínio que a define é, entretanto, circular. Ele diz: ao se
utilizar métodos científicos para se antever o que não existe ainda, a prática
que o desvenda é necessariamente científica. Essa é a tautologia manifesta
(também no kardecismo a “ciência” é utilizada para provar a existência dos
espíritos). As divindades perdem o monopólio da arte da adivinhação e são
substituídas por uma instância com maior credibilidade.
Há
ainda um traço que afasta a futurologia da tradição divinatória: a
maleabilidade do destino. Esforça-se para que, de alguma maneira, o que se
encontra desenhado previamente possa ser adulterado. Com os recursos
científicos disponíveis, imagina-se a produção de cenários que eventualmente
configurariam no presente uma alternativa ao que se esperar adiante (esse tipo
de “metodologia” é celebrado sobretudo pelas grandes empresas na realização de
seus negócios). Entretanto, a lógica de cartomante que funda a premonição
permanece: “se tudo se passar como previsto, tudo assim será”.
Nem
todos alcançam o futuro, apenas alguns privilegiados são ungidos pelos deuses.
Entre o presente e o desconhecido há uma linha de separação, um pouco como o
contraste entre o sagrado e o profano; entre eles existe uma zona liminar na
qual se situam os agentes intermediários. Sua tarefa: colocar em contato
esferas distintas.
Arnold
Van Gennep dizia que os rituais de passagem tinham como objetivo estabelecer a
comunicação entre o sagrado e o profano. Para isso era necessário a presença de
mediadores, ao abrir ou fechar as portas desses compartimentos, seriam capazes
de controlar o fluxo entre eles. Desta maneira, torna-se inteligível o que se
encontrava fora do alcance dos mortais.
As
pítias ou aqueles que interpretam os segredos de Ifá preenchem esta função,
propiciam o liame entre o excepcional e o ordinário. Os futurólogos são os
mediadores das crenças modernas, sua posição ambivalente, como Janus, olham
para trás e para frente, lhes permite interpelar o presente e vislumbrar
adiante. Mas em seu caminho conhecem os percalços da vida. Dizem que os
profetas para terem êxito devem pregar para além do deserto, a doutrina
professada necessita de acólitos, sem o que sua verdade seria vã.
Felizmente,
porém, a distância entre a crença e a realidade favorece a escuridão, a fresta
na qual a suspeita se aloja. Entre a certeza preconizada e a vastidão do
deserto as palavras se arrastam, resvalam em seu solo árido e se dissolvem na
areia.
Fonte:
Por Renato Ortiz, em A Terra é Redonda

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