sábado, 4 de julho de 2026

A disputa sobre o significado da crise em Cuba

Em 7 de maio, o portal de notícias digital cubano elToque publicou os resultados de uma pesquisa de opinião que, segundo seus organizadores, captou “a verdadeira voz do povo cubano”. Com 42.263 respostas válidas coletadas entre 24 de abril e 1º de maio, distribuídas por uma rede de mais de 36 veículos de comunicação e criadores de conteúdo, a pesquisa atingiu uma escala sem precedentes para esse tipo de iniciativa.

Noventa e dois por cento dos entrevistados declararam-se insatisfeitos com o sistema de governo, enquanto 94% consideraram a mudança política um tema urgente. As manchetes circularam imediatamente na imprensa cubana no exílio e na mídia internacional como confirmação do colapso irreversível do apoio popular à Revolução Cubana.

Mas os dados da pesquisa, quando lidos com atenção, contam uma história mais complexa do que aquela que seus idealizadores pretendiam. É uma história sobre o que uma pesquisa realizada em condições de privação material e desigualdade digital pode e não pode revelar, sobre a diferença entre percepção subjetiva e causalidade estrutural, e sobre as profundas contradições internas de um imaginário político que deseja tanto o mercado quanto o sistema de saúde gratuito, que apoia o embargo dos EUA enquanto, simultaneamente, exige soberania nacional. Essas contradições constituem o mapa político mais honesto produzido pela pesquisa, e é precisamente esse quadro que tem sido menos divulgado.

<><> O que é elToque e qual é o motivo da disputa?

Para entender a pesquisa, é preciso primeiro compreender o ecossistema em que ela surgiu. O elToque se autodenomina um veículo de mídia digital cubano “independente”, fundado em 2014 e sediado fora da ilha. Ele faz parte de uma “contraesfera pública transnacional”: uma rede de veículos de mídia, ativistas, youtubers e criadores de conteúdo que opera principalmente a partir de Miami, Madri e outras cidades da diáspora, e que hoje constitui a principal fonte de informação política para amplos setores da população cubana conectados à internet.

Esse ecossistema não é homogêneo nem monolítico. Inclui jornalismo investigativo, denúncias de violações de direitos humanos e testemunhos de uma realidade que o Estado cubano prefere não documentar. Mas também inclui uma orientação política definida que sustenta a demanda por uma transição para a democracia liberal e uma economia de mercado, o apoio contínuo à manutenção do embargo estadunidense como “instrumento de pressão” e uma narrativa de “Estado falido” que, em vez de descrever a crise cubana, serve como argumento para legitimar certas soluções políticas em detrimento de outras.

A pesquisa foi lançada em 24 de abril de 2026, cinco dias após o presidente Miguel Díaz-Canel inaugurar a campanha governamental “Minha assinatura pela Pátria”, uma coleta de assinaturas em apoio à Revolução, convocada no 65º aniversário da proclamação de seu caráter socialista. No âmbito da disputa simbólica, o momento escolhido faz parte da discussão. Ambas as iniciativas — a campanha oficial de coleta de assinaturas e a pesquisa da oposição — competem pela legitimidade de falar em nome do povo cubano, embora nenhuma delas possa fazê-lo de forma totalmente representativa.

<><> O problema em questão: a quem perguntar?

Apesquisa coletou respostas de todas as províncias cubanas, com 58% dos participantes residindo na ilha e 42% na diáspora. Trata-se de um alcance notável. No entanto, por ser não probabilística — ou seja, baseada na participação voluntária daqueles que optaram por responder — e por ter sido distribuída exclusivamente por meio de redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas, o instrumento super-representa sistematicamente os cubanos com acesso estável à internet.

Em Cuba, o acesso ao voto digital não é equitativo. A ilha enfrenta uma grave crise energética há anos, com apagões que ultrapassam vinte horas por dia em algumas províncias. Essa crise energética é a principal condição para viabilizar o voto digital, ao mesmo tempo que é um dos principais fatores de descontentamento que a pesquisa busca mensurar. As províncias mais afetadas pelos apagões — Granma, Las Tunas e Holguín — apresentaram um número proporcionalmente muito menor de respostas do que Havana, onde a infraestrutura elétrica é comparativamente mais estável. O próprio relatório metodológico dos organizadores, apresentado no Instituto de Pesquisa Cubana da Universidade Internacional da Flórida, reconhece esse viés.

Assim, a pesquisa mede com mais precisão a Cuba que tem eletricidade do que a Cuba que não tem, e essas duas Cubas não pensam necessariamente da mesma forma, nem têm as mesmas necessidades urgentes, e tampouco acesso aos mesmos canais de informação.

Há outro dado que os organizadores celebram, mas que merece uma análise mais aprofundada: dos 120 mil usuários que visitaram o site da pesquisa, apenas 42.263 responderam, o que representa uma taxa de conversão de 40%. Isso significa que seis em cada dez pessoas que acessaram o formulário não responderam. As razões para esse silêncio — medo da vigilância estatal, desconfiança no instrumento, indiferença, discordância com as premissas das perguntas — não residem nos dados em si, mas nas margens. E essas margens, em Cuba, são sempre políticas.

Nada disso invalida os resultados, mas colocá-los em contexto altera o que eles podem ou não dizer.

<><> O bloqueio e o limite da percepção

Odado mais amplamente divulgado entre os organizadores da pesquisa, além das porcentagens de descontentamento geral, é que apenas 6% dos entrevistados identificaram o embargo dos EUA como o principal problema de Cuba. Para o jornal elToque e grande parte da imprensa no exílio, essa porcentagem constitui uma refutação empírica da narrativa oficial cubana, que historicamente aponta o bloqueio como a principal causa da crise econômica.

Mas esse argumento confunde percepção subjetiva com causalidade estrutural. As pesquisas de opinião medem como as pessoas vivenciam e nomeiam seus problemas, não as cadeias causais que os produzem. Uma família sem medicamentos identifica a escassez, não as sanções financeiras do Departamento do Tesouro dos EUA que impedem as instituições cubanas de acessar os mercados de suprimentos médicos. Um trabalhador que não consegue chegar ao trabalho por falta de transporte denuncia a escassez, não as restrições às importações de petróleo. A causalidade estrutural é invisível à experiência cotidiana.

É claro que isso não significa que o embargo explique tudo. Décadas de gestão econômica ineficiente, a rigidez de um modelo centralizado pelo Estado incapaz de aplicar reformas e o esgotamento institucional são fatores que contribuem para a crise e não desaparecem simplesmente com a denúncia do adversário externo. O embargo tem efeitos devastadores e de longo alcance — ainda maiores hoje —, mas a crise cubana é multifacetada. Reduzi-la a um único elemento é um ato de conveniência política, não de análise.

A cifra de 6% também revela uma segunda divisão, ainda mais reveladora. Os mesmos entrevistados que minimizam o bloqueio como causa de seus problemas apoiam, em sua grande maioria, a sua manutenção como uma “ferramenta de pressão democrática”. 43,8% dos residentes em Cuba querem que ele continue; apenas 14,8% exigem sua remoção incondicional. Em outras palavras, eles não negam seus efeitos: consideram esses efeitos politicamente aceitáveis ​​ou até mesmo úteis para forçar uma mudança de regime. Essa é uma posição política que a pesquisa apresenta disfarçada em linguagem empírica, e essa confusão está no cerne da operação que analisamos.

<><> O paradoxo da soberania

Apesquisa reserva sua contradição mais reveladora para outro ponto. Na seção dedicada ao que preservar em uma potencial transição política, 68% dos entrevistados — tanto da ilha quanto da diáspora — identificaram a “soberania e independência nacional” como um valor a ser preservado.

Esses 68% coexistem, no mesmo instrumento e em boa parte desses respondentes, com o apoio majoritário à manutenção do bloqueio como ferramenta de pressão externa, com o apoio ao papel de liderança da diáspora em um possível governo de transição, com a abertura total ao investimento estrangeiro sem condições explícitas de soberania econômica e com uma avaliação positiva de figuras como Marco Rubio e o próprio Trump — arquitetos da asfixia que vivenciam hoje —, bem como Javier Milei e Nayib Bukele.

Essas últimas figuras, cujos programas econômicos desmantelam sistematicamente as redes de proteção social e cuja concepção de soberania nacional está subordinada aos interesses do capital transnacional e de Washington, são precisamente as menos propensas a garantir a soberania que esses 68% afirmam querer preservar.

A contradição não é um erro por parte dos entrevistados. É o sintoma mais preciso de um desespero que chegou ao ponto em que qualquer solução parece melhor do que a atual, mesmo que essa solução leve precisamente para onde eles não querem ir. Quando as vias internas para a mudança são bloqueadas pela repressão, a esperança se deposita em atores externos, em figuras de “tolerância zero com o crime”, na pressão internacional, mesmo que essa pressão venha do mesmo governo que passou décadas usando a fome da população cubana como alavanca geopolítica.

Os organizadores da pesquisa chamam isso de “externalização da esperança”. O problema é que eles descrevem isso sem questionar, como se fosse uma resposta racional inevitável em vez de um sintoma político que exige análise.

<><> O mercado e o médico grátis

Há uma contradição mais profunda que os resultados revelam. O perfil de “mudança” que emerge da pesquisa combina, de forma estruturalmente incompatível, a demanda por um modelo capitalista liberal — um setor privado robusto, uma economia de mercado e abertura ao investimento estrangeiro — com a expectativa de preservar os padrões de bem-estar que a Revolução Cubana construiu ao longo de seis décadas: saúde universal gratuita, educação pública acessível em todos os níveis, subsídios e proteção social básica.

Oitenta por cento dos entrevistados desejam uma democracia liberal. Setenta por cento querem a manutenção do acesso universal à saúde e à educação. Cinquenta e sete por cento querem preservar os subsídios e programas sociais. O relatório que apresenta os resultados, elaborado pelos organizadores, afirma que o modelo de referência “não é o capitalismo desenfreado, mas sim os padrões de bem-estar social do Uruguai, da Costa Rica ou o modelo social europeu”.

O problema é que esse horizonte, legítimo como aspiração, omite a questão fundamental de como ele é construído. O Uruguai tem a distribuição de renda mais equitativa da América Latina não por virtude espontânea do mercado, mas graças a décadas de sindicalismo robusto, partidos de esquerda territorialmente enraizados, uma reforma agrária prévia e uma tradição estatista que não foi gerada pelo mercado.

A Costa Rica possui um sistema universal de saúde porque o construiu em meados do século XX por meio de uma decisão política explícita de abolir o exército e redirecionar esses gastos para serviços sociais. Essas condições não são criadas no entusiasmo de uma “transição democrática”, e nenhum dos atores que atualmente lideram a oposição cubana colocou seu desenvolvimento no centro de suas agendas.

A experiência latino-americana das últimas quatro décadas não é animadora. As transições para o capitalismo de mercado em contextos de instituições frágeis — como as que ocorreram durante a década de 1990 — não produziram o Estado de bem-estar social que a maioria idealizava. Em vez disso, produziram a privatização do que antes era gratuito, a mercantilização do que antes era um direito e uma desigualdade que se enraizou com mais crueldade e permanência do que qualquer burocracia socialista em crise.

Não é que seja impossível combinar democracia política e proteção social. É que alcançá-la exige condições que os modelos de “transição” que Washington financia ativamente em Cuba não foram concebidos para produzir.

<><> O cerco como condição estrutural

Aquestão de como criar essas condições torna-se ainda mais complexa quando inserida no contexto geopolítico específico de um bloqueio intensificado em suas expressões mais agressivas, com o governo Trump declarando estado de emergência nacional como pretexto legal para o endurecimento das sanções, o estrangulamento deliberado do fornecimento de energia como instrumento de pressão sobre a população civil — Cuba importa mais de 60% de suas necessidades energéticas, e as restrições extraterritoriais do bloqueio destruíram essa cadeia de suprimentos — e a ameaça de intervenção armada pairando no horizonte como uma possibilidade que Washington se recusa a descartar.

Nesse contexto, construir as bases institucionais para uma democratização com um Estado social robusto não é apenas impossível no sentido político e organizacional. É uma tarefa que o adversário externo tem interesse direto em impedir, porque uma Cuba soberana e democrática, capaz de proporcionar bem-estar à sua população, é precisamente o que o modelo de “transição” promovido por Washington não precisa.

O que os Estados Unidos precisam é de uma Cuba dependente, aberta e endividada, tão subordinada à agenda geopolítica estadunidense quanto às cadeias de valor do capitalismo periférico. Isso não torna o Estado cubano menos responsável por suas próprias decisões, mas exige que a situação seja analisada em todos os seus aspectos.

<><> O que a pesquisa não pergunta

Os 60,5% dos residentes em Cuba que, na pesquisa, apoiaram a derrubada do governo “por todos os meios, inclusive a luta armada” são o número que a imprensa no exílio tem divulgado com maior ênfase, como se fosse uma autorização popular para qualquer tipo de ação política.

Por trás desse número, esconde-se a realidade diária de milhões de pessoas que passaram anos vivendo horas sem eletricidade, sem poder comprar alimentos básicos, vendo seus filhos emigrarem sem conseguir vislumbrar um futuro em seu próprio país e adoecendo sem acesso a medicamentos. Tal exaustão é real e não precisa de manipulação da mídia para ser retratada. Cabe ressaltar também que o relatório indica uma diferença significativa de dez pontos percentuais entre o interior da ilha e a diáspora nessa estatística. Em outras palavras, aqueles que estão fisicamente presentes em Cuba são um pouco mais cautelosos do que aqueles que observam do exterior.

Mas usar esse esgotamento como argumento geopolítico sem questionar seu caráter sintomático de algo mais profundo — o fracasso do pacto social prometido pela Revolução e que o Estado foi incapaz de sustentar ou reformar a tempo — é, ao mesmo tempo, instrumentalizar o sofrimento popular e ignorar o que está realmente em jogo.

A disputa em relação a Cuba não se resume a saber se as pessoas estão ou não sofrendo. Trata-se de uma disputa sobre as causas desse sofrimento, sobre as soluções propostas e sobre quem arcará com os custos de cada solução.

Uma pesquisa que mede o descontentamento com o presente, mas não questiona os custos do futuro proposto; que registra o desejo de mudança, mas não pergunta quem pagará pela assistência médica nesse novo modelo; que documenta o apoio ao investimento estrangeiro, mas não indaga sobre as condições ou o nível de soberania envolvidos, não está medindo a vontade popular. Está apenas apresentando um cardápio e chamando o ato de fazer escolhas a partir dele de eleição.

A descoberta mais reveladora de toda a pesquisa — os 68% que ainda desejam soberania e independência — é insatisfatória para todos. É insatisfatória para o Estado cubano, que não conseguiu desenvolver esse princípio de forma coerente em relação ao seu próprio povo, e não apenas em relação ao inimigo histórico da nação. Tampouco é satisfatória para a oposição, que precisa provar a viabilidade de seu projeto de “liberalização total”. E também é insatisfatória para qualquer movimento de esquerda que se declare solidário com Cuba e evite a questão de como, sob as condições específicas desta ilha e deste momento histórico, pode-se construir um poder popular que faça da plena soberania algo mais do que mera retórica comemorativa.

Mas há uma questão anterior que, nas condições atuais, é mais urgente do que qualquer outra: se a soberania popular é o objetivo final, a soberania nacional é sua condição de possibilidade. Um país submetido a um bloqueio financeiro total, com a sua infraestrutura energética deliberadamente sufocada e sob a ameaça explícita de intervenção militar por parte da potência hegemônica do hemisfério, não está em condições de desenvolver qualquer processo genuíno de autodeterminação popular.

A própria pesquisa, com todas as suas limitações, mostra que essa vontade existe e que é complexa e contraditória, mas os processos de democratização exigem, como condição mínima, uma margem de soberania efetiva que o cerco dos EUA tem sistematicamente prejudicado. 

Esta é a ordem lógica de prioridades num momento em que a soberania da nação cubana está sendo ameaçada de forma mais agressiva do que em qualquer outro momento desde a Crise dos Mísseis. Primeiro, é preciso ter uma nação para depois poder debater que tipo de nação ela quer ser. O povo cubano merece perguntas melhores. Mas também merece, e ainda mais importante, o espaço político no qual essas perguntas possam ser feitas e respondidas sem que a resposta seja predeterminada pela chantagem dos mais poderosos.

 

Fonte: Por Wilder Pérez Varona - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

 

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