Lulismo,
a polêmica da moderação
Uma boa
réplica obriga quem a recebe a pensar melhor, e a que me foi dirigida é das
boas. Ela aceita as premissas centrais do texto que comentou: a força reativa
das elites como variável de primeira ordem, a Nova Matriz Econômica como
tentativa real de inflexão, e não como simples administração passiva da ordem.
Concordamos, portanto, no essencial do diagnóstico histórico. A divergência é
outra, e é uma só: trata-se do peso causal atribuído à moderação petista na
explicação da ascensão da extrema direita. Onde se sustenta que a hesitação
reformista foi um dos motores centrais do bolsonarismo, eu sustento que o motor
foi a contraofensiva organizada contra a inflexão, e que a hesitação, quando
existiu, é efeito do cerco, não sua causa.
Reconheço
de saída o que a réplica faz de melhor. A reconstituição dos mandatos, do
ajuste fiscal de 2011, do recuo do investimento público num cenário ainda
tensionado pela crise de 2008, das desonerações que recompuseram margens em vez
de gerar investimento novo, tudo isso é legítimo, e está conduzido com
competência. Há ali um debate técnico verdadeiro sobre a consistência interna
do programa, sobre a calibragem dos instrumentos, sobre os limites de execução.
Esse debate precisa ser feito, e quem o conduz com serenidade presta um serviço
ao campo.
O que
não se pode é deixar que o debate sobre o desenho se converta em veículo de uma
conclusão que ele não autoriza. Confundir o erro de execução de uma inflexão
com a inexistência da inflexão é um deslize de categoria. O ajuste de 2011 pode
ter sido mal calibrado, as desonerações podem ter sido ineficazes, o recuo do
investimento público pode ter sido um erro estratégico, e nada disso anula o
fato decisivo: houve uma tentativa de deslocar o eixo macroeconômico para fora
do conforto do rentismo, e foi essa tentativa, com todos os seus defeitos, que
acionou os mecanismos de defesa do bloco dominante. O ponto, portanto, não é se
a Selic de 2012 foi bem fixada. É o que a reação das frações dominantes revela
sobre os limites do tolerável. Descer ao terreno exclusivamente microeconômico
é aceitar trocar a pergunta política pela pergunta contábil, e a pergunta
política é a que importa: o que acontece, no Brasil real, quando um governo de
centro-esquerda toca, ainda que de leve, em interesses estruturais. O econômico
entra aqui como pilar da análise, jamais como seu ornamento.
Há,
porém, um teste empírico que a tese da moderação não costuma enfrentar, e é
nele que a sua fragilidade aparece. Se a moderação petista fosse de fato o
motor do desencanto popular que alimenta a extrema direita, esse desencanto
teria encontrado vazão na alternativa de ruptura à esquerda do PT. A história
mostra o contrário. Em 2018, no momento de maior fragilidade do petismo, com
Lula preso, o partido fora da máquina do Estado, e Fernando Haddad funcionando
como símbolo mesmo da esquerda dita capturada, as candidaturas que se
apresentavam à esquerda do PT como superação da moderação somaram pouco mais de
seis décimos de um por cento dos votos. No mesmo pleito, o símbolo da moderação
foi ao segundo turno com quase trinta por cento e mais de trinta milhões de
votos.
O dado
importa pelo que ele desmonta. Não se trata de dizer que a esquerda da ruptura
teve pouco voto, fato que ela mesma reconhece e atribui às barreiras do sistema
eleitoral burguês, barreiras que, registre-se, são as mesmas para todos,
inclusive para o PT, que foi quem mais sofreu o estraçalhamento de 2016.
Trata-se de algo mais difícil de explicar para quem responsabiliza a moderação:
o desencanto popular, quando existiu, não migrou para mais à esquerda.
Permaneceu lulista ou foi capturado pela direita. A base social que
supostamente puniria a moderação seguiu sustentando o próprio campo acusado de
morno, e a alternativa que se oferecia como ruptura não foi abraçada justamente
por aquelas maiorias em nome das quais a crítica à moderação costuma ser feita.
Quem viveu o período no território guarda dele uma memória precisa: entre 2013
e 2018, a militância de base penou para usar a camisa vermelha na rua sem ser
achincalhada ao mesmo tempo pela esquerda da pureza, pelo centro, pela direita
e pela população média. Quem rachava o campo à esquerda naqueles anos não
estava construindo alternativa superior. Estava dividindo a defesa no momento
do cerco.
O
argumento mais forte contra a tese da moderação, contudo, não é nacional. É de
escala. A ascensão da extrema direita não é um fenômeno brasileiro que peça
explicação brasileira. É um movimento transnacional, simultâneo, que avança em
países de trajetórias inteiramente distintas: Meloni na Itália, Le Pen às
portas do poder na França, Wilders na Holanda, Orbán há mais de quinze anos na
Hungria, a AfD como segunda força na Alemanha, Trump nos Estados Unidos, Milei
na Argentina. A pergunta que isso impõe é simples e difícil de responder pela
chave da moderação: todos esses países passaram pelo mesmo desvio parcial de um
reformismo moderado de esquerda? Um fenômeno que aparece ao mesmo tempo em
dezenas de contextos nacionais opostos não se explica por uma decisão de
política fiscal tomada em Brasília em 2011.
O caso
francês é o mais instrutivo, porque desmonta a mecânica causal no seu próprio
exemplo predileto. Na França, a extrema direita cresce sob Macron, um governo
de centro liberal, e antes dele sob trajetórias de direita, jamais sob um
reformismo moderado de esquerda que houvesse frustrado as bases populares. Mais
do que isso: onde avança, a extrema direita europeia tem herdado
preferencialmente o eleitorado da própria direita tradicional, não o da
esquerda decepcionada. Na Alemanha, a AfD drena a base socialmente conservadora
que era da democracia cristã. Na França, o Rassemblement National capturou o
eleitorado popular e de classe média baixa que sustentava o gaullismo. A imagem
de uma esquerda morna que, ao frustrar os seus, empurra-os para o fascismo, não
descreve o que de fato ocorreu na maior parte dos casos. O que ocorreu foi a
direita de sempre radicalizando-se e recolhendo o próprio campo, mais a
conversão da insatisfação difusa em energia reacionária por agentes concretos
com projeto concreto.
Há um
caso que costuma ser invocado em sentido contrário, e prefiro enfrentá-lo a
contorná-lo: a Grécia. O Syriza, esquerda radical, capitulou à austeridade da
troika em 2015, e se dirá que a frustração com essa rendição abriu caminho à
extrema direita. O caso é real, e é doloroso. Mas, olhado de perto, ele
confirma a regra em vez de refutá-la. Primeiro, porque a capitulação do Syriza
não foi moderação por vocação, foi imposição externa contra a vontade popular
expressa em referéndum, no qual mais de sessenta por cento haviam votado contra
a austeridade: foi o estrangulamento de uma inflexão pela arquitetura
financeira, ou seja, exatamente a contraofensiva que aqui se descreve, em sua
versão europeia. Segundo, porque o beneficiário principal do colapso não foi o
fascismo, foi a direita tradicional: a Nova Democracia voltou ao poder em 2019
e nele se manteve, enquanto o Golden Dawn, longe de herdar a cena, foi contido
quando enfrentado e posto na ilegalidade como organização criminosa. A lição
grega não é que a esquerda vira direita ao moderar. É que mesmo uma esquerda
que tenta romper encontra, diante de si, um cerco capaz de derrotá-la, e que o
espólio desse cerco costuma ir para a direita de sempre.
É por
isso que o caso brasileiro precisa ser lido em duas escalas ao mesmo tempo. O
fenômeno é mundial em sua matriz: reorganização do capitalismo, esgotamento dos
padrões de crescimento periférico, austeridade imposta como horizonte único,
crise da forma democrática. E é nacional em sua forma: a contraofensiva
específica que articulou frações empresariais, midiáticas, parlamentares e
judiciais, e que depôs Dilma quando ela ensaiou a inflexão. O Brasil não
inventou esse processo. Viveu sua versão particularmente aguda. Reduzir tudo
isso aos limites do lulismo é trocar a história concreta, que é desigual,
conflituosa e cheia de agentes ativos, por uma simetria conceitual elegante e
falsa, na qual o reformismo insuficiente engendraria, por dentro, o seu próprio
carrasco.
Encerro
apontando para onde este debate, sem querer, já aponta. A crítica que me foi
dirigida vem da esquerda institucional, e cobra que a moderação pesa mais do
que admito. Existe uma crítica simétrica, que vem do flanco oposto, o da
radicalidade sem lastro, e que cobra que o lulismo foi capturado demais para
merecer defesa. Uma acusa o campo de morno, a outra de capitulado. Vindas de
direções contrárias, as duas fazem o mesmo movimento: convertem a história num
tribunal de coerência, apagam o terreno intermediário onde a política real
acontece, e medem a experiência pela distância em relação a um ideal que nunca
passou pela prova do conflito. Da primeira face tratei aqui. Da segunda, a da
radicalidade que floresce no circuito e mingua no território, tratarei em texto
próximo. Quem entrou neste debate pela esquerda institucional apenas se
antecipou, um passo antes de ver que o problema tinha duas faces, e que ambas
erram no mesmo lugar: no peso.
• Católicos do PT apoiam reeleição de Lula
e criticam uso eleitoral da religião
O
Partido dos Trabalhadores realizou no dia 30 o 1º Encontro Nacional de
Católicas e Católicos do PT. Após um dia de debates, o grupo divulgou uma carta
ao povo brasileiro com defesa da democracia, do Estado laico e apoio à
reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
No
documento, os participantes afirmam compromisso com a “dignidade humana” e
dizem atuar a partir da fé católica aliada à “consciência democrática e ao
compromisso com o Brasil”.
O texto
também destaca a defesa do Estado laico, da liberdade religiosa e do respeito à
diversidade de crenças e à não crença, com rejeição a qualquer forma de
intolerância e racismo religioso.
Os
signatários criticam ainda o uso político de espaços religiosos. Segundo a
carta, há parlamentares que “transformam igrejas em palanques” e que se afastam
de compromissos com direitos sociais, trabalhistas e democráticos.
O grupo
afirma que pretende fortalecer a atuação de católicas e católicos no campo
democrático e popular, com ênfase no protagonismo de mulheres, jovens e
trabalhadores.
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Apoio a políticas do governo Lula
A carta
também lista programas e políticas públicas que representam avanços sociais no
país, como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Brasil Sorridente, Farmácia
Popular, Cozinhas Solidárias e Pé-de-Meia, além da valorização do salário
mínimo e ações de combate à fome.
O
documento cita ainda como pautas de apoio o fim da escala 6×1 e a implementação
da tarifa zero no transporte público.
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Defesa do projeto democrático
Os
católicos do PT afirmam que as eleições de 2026 devem ser pautadas por um
projeto comprometido com igualdade social, soberania nacional e proteção de
grupos vulnerabilizados.
Entre
as prioridades listadas estão reforma agrária, agricultura familiar, segurança
alimentar, proteção ambiental, igualdade racial, direitos das mulheres e defesa
de povos tradicionais.
O grupo
também defende que o voto seja orientado pela trajetória pública das
candidaturas e pelos impactos de suas propostas na vida da população.
Ao
final, a carta reafirma o compromisso com a democracia como “caminho
indispensável para a construção de um Brasil livre, justo e participativo”.
O
documento encerra com apoio à reeleição de Lula, defendendo a continuidade de
políticas de reconstrução do país com geração de empregos, garantia de direitos
e ampliação de políticas sociais.
Fonte:
Por Edgar Silva dos Anjos, em Outras Palavras/ICL Notícias

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