sábado, 4 de julho de 2026

Lulismo, a polêmica da moderação

Uma boa réplica obriga quem a recebe a pensar melhor, e a que me foi dirigida é das boas. Ela aceita as premissas centrais do texto que comentou: a força reativa das elites como variável de primeira ordem, a Nova Matriz Econômica como tentativa real de inflexão, e não como simples administração passiva da ordem. Concordamos, portanto, no essencial do diagnóstico histórico. A divergência é outra, e é uma só: trata-se do peso causal atribuído à moderação petista na explicação da ascensão da extrema direita. Onde se sustenta que a hesitação reformista foi um dos motores centrais do bolsonarismo, eu sustento que o motor foi a contraofensiva organizada contra a inflexão, e que a hesitação, quando existiu, é efeito do cerco, não sua causa.

Reconheço de saída o que a réplica faz de melhor. A reconstituição dos mandatos, do ajuste fiscal de 2011, do recuo do investimento público num cenário ainda tensionado pela crise de 2008, das desonerações que recompuseram margens em vez de gerar investimento novo, tudo isso é legítimo, e está conduzido com competência. Há ali um debate técnico verdadeiro sobre a consistência interna do programa, sobre a calibragem dos instrumentos, sobre os limites de execução. Esse debate precisa ser feito, e quem o conduz com serenidade presta um serviço ao campo.

O que não se pode é deixar que o debate sobre o desenho se converta em veículo de uma conclusão que ele não autoriza. Confundir o erro de execução de uma inflexão com a inexistência da inflexão é um deslize de categoria. O ajuste de 2011 pode ter sido mal calibrado, as desonerações podem ter sido ineficazes, o recuo do investimento público pode ter sido um erro estratégico, e nada disso anula o fato decisivo: houve uma tentativa de deslocar o eixo macroeconômico para fora do conforto do rentismo, e foi essa tentativa, com todos os seus defeitos, que acionou os mecanismos de defesa do bloco dominante. O ponto, portanto, não é se a Selic de 2012 foi bem fixada. É o que a reação das frações dominantes revela sobre os limites do tolerável. Descer ao terreno exclusivamente microeconômico é aceitar trocar a pergunta política pela pergunta contábil, e a pergunta política é a que importa: o que acontece, no Brasil real, quando um governo de centro-esquerda toca, ainda que de leve, em interesses estruturais. O econômico entra aqui como pilar da análise, jamais como seu ornamento.

Há, porém, um teste empírico que a tese da moderação não costuma enfrentar, e é nele que a sua fragilidade aparece. Se a moderação petista fosse de fato o motor do desencanto popular que alimenta a extrema direita, esse desencanto teria encontrado vazão na alternativa de ruptura à esquerda do PT. A história mostra o contrário. Em 2018, no momento de maior fragilidade do petismo, com Lula preso, o partido fora da máquina do Estado, e Fernando Haddad funcionando como símbolo mesmo da esquerda dita capturada, as candidaturas que se apresentavam à esquerda do PT como superação da moderação somaram pouco mais de seis décimos de um por cento dos votos. No mesmo pleito, o símbolo da moderação foi ao segundo turno com quase trinta por cento e mais de trinta milhões de votos.

O dado importa pelo que ele desmonta. Não se trata de dizer que a esquerda da ruptura teve pouco voto, fato que ela mesma reconhece e atribui às barreiras do sistema eleitoral burguês, barreiras que, registre-se, são as mesmas para todos, inclusive para o PT, que foi quem mais sofreu o estraçalhamento de 2016. Trata-se de algo mais difícil de explicar para quem responsabiliza a moderação: o desencanto popular, quando existiu, não migrou para mais à esquerda. Permaneceu lulista ou foi capturado pela direita. A base social que supostamente puniria a moderação seguiu sustentando o próprio campo acusado de morno, e a alternativa que se oferecia como ruptura não foi abraçada justamente por aquelas maiorias em nome das quais a crítica à moderação costuma ser feita. Quem viveu o período no território guarda dele uma memória precisa: entre 2013 e 2018, a militância de base penou para usar a camisa vermelha na rua sem ser achincalhada ao mesmo tempo pela esquerda da pureza, pelo centro, pela direita e pela população média. Quem rachava o campo à esquerda naqueles anos não estava construindo alternativa superior. Estava dividindo a defesa no momento do cerco.

O argumento mais forte contra a tese da moderação, contudo, não é nacional. É de escala. A ascensão da extrema direita não é um fenômeno brasileiro que peça explicação brasileira. É um movimento transnacional, simultâneo, que avança em países de trajetórias inteiramente distintas: Meloni na Itália, Le Pen às portas do poder na França, Wilders na Holanda, Orbán há mais de quinze anos na Hungria, a AfD como segunda força na Alemanha, Trump nos Estados Unidos, Milei na Argentina. A pergunta que isso impõe é simples e difícil de responder pela chave da moderação: todos esses países passaram pelo mesmo desvio parcial de um reformismo moderado de esquerda? Um fenômeno que aparece ao mesmo tempo em dezenas de contextos nacionais opostos não se explica por uma decisão de política fiscal tomada em Brasília em 2011.

O caso francês é o mais instrutivo, porque desmonta a mecânica causal no seu próprio exemplo predileto. Na França, a extrema direita cresce sob Macron, um governo de centro liberal, e antes dele sob trajetórias de direita, jamais sob um reformismo moderado de esquerda que houvesse frustrado as bases populares. Mais do que isso: onde avança, a extrema direita europeia tem herdado preferencialmente o eleitorado da própria direita tradicional, não o da esquerda decepcionada. Na Alemanha, a AfD drena a base socialmente conservadora que era da democracia cristã. Na França, o Rassemblement National capturou o eleitorado popular e de classe média baixa que sustentava o gaullismo. A imagem de uma esquerda morna que, ao frustrar os seus, empurra-os para o fascismo, não descreve o que de fato ocorreu na maior parte dos casos. O que ocorreu foi a direita de sempre radicalizando-se e recolhendo o próprio campo, mais a conversão da insatisfação difusa em energia reacionária por agentes concretos com projeto concreto.

Há um caso que costuma ser invocado em sentido contrário, e prefiro enfrentá-lo a contorná-lo: a Grécia. O Syriza, esquerda radical, capitulou à austeridade da troika em 2015, e se dirá que a frustração com essa rendição abriu caminho à extrema direita. O caso é real, e é doloroso. Mas, olhado de perto, ele confirma a regra em vez de refutá-la. Primeiro, porque a capitulação do Syriza não foi moderação por vocação, foi imposição externa contra a vontade popular expressa em referéndum, no qual mais de sessenta por cento haviam votado contra a austeridade: foi o estrangulamento de uma inflexão pela arquitetura financeira, ou seja, exatamente a contraofensiva que aqui se descreve, em sua versão europeia. Segundo, porque o beneficiário principal do colapso não foi o fascismo, foi a direita tradicional: a Nova Democracia voltou ao poder em 2019 e nele se manteve, enquanto o Golden Dawn, longe de herdar a cena, foi contido quando enfrentado e posto na ilegalidade como organização criminosa. A lição grega não é que a esquerda vira direita ao moderar. É que mesmo uma esquerda que tenta romper encontra, diante de si, um cerco capaz de derrotá-la, e que o espólio desse cerco costuma ir para a direita de sempre.

É por isso que o caso brasileiro precisa ser lido em duas escalas ao mesmo tempo. O fenômeno é mundial em sua matriz: reorganização do capitalismo, esgotamento dos padrões de crescimento periférico, austeridade imposta como horizonte único, crise da forma democrática. E é nacional em sua forma: a contraofensiva específica que articulou frações empresariais, midiáticas, parlamentares e judiciais, e que depôs Dilma quando ela ensaiou a inflexão. O Brasil não inventou esse processo. Viveu sua versão particularmente aguda. Reduzir tudo isso aos limites do lulismo é trocar a história concreta, que é desigual, conflituosa e cheia de agentes ativos, por uma simetria conceitual elegante e falsa, na qual o reformismo insuficiente engendraria, por dentro, o seu próprio carrasco.

Encerro apontando para onde este debate, sem querer, já aponta. A crítica que me foi dirigida vem da esquerda institucional, e cobra que a moderação pesa mais do que admito. Existe uma crítica simétrica, que vem do flanco oposto, o da radicalidade sem lastro, e que cobra que o lulismo foi capturado demais para merecer defesa. Uma acusa o campo de morno, a outra de capitulado. Vindas de direções contrárias, as duas fazem o mesmo movimento: convertem a história num tribunal de coerência, apagam o terreno intermediário onde a política real acontece, e medem a experiência pela distância em relação a um ideal que nunca passou pela prova do conflito. Da primeira face tratei aqui. Da segunda, a da radicalidade que floresce no circuito e mingua no território, tratarei em texto próximo. Quem entrou neste debate pela esquerda institucional apenas se antecipou, um passo antes de ver que o problema tinha duas faces, e que ambas erram no mesmo lugar: no peso.

•        Católicos do PT apoiam reeleição de Lula e criticam uso eleitoral da religião

O Partido dos Trabalhadores realizou no dia 30 o 1º Encontro Nacional de Católicas e Católicos do PT. Após um dia de debates, o grupo divulgou uma carta ao povo brasileiro com defesa da democracia, do Estado laico e apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

No documento, os participantes afirmam compromisso com a “dignidade humana” e dizem atuar a partir da fé católica aliada à “consciência democrática e ao compromisso com o Brasil”.

O texto também destaca a defesa do Estado laico, da liberdade religiosa e do respeito à diversidade de crenças e à não crença, com rejeição a qualquer forma de intolerância e racismo religioso.

Os signatários criticam ainda o uso político de espaços religiosos. Segundo a carta, há parlamentares que “transformam igrejas em palanques” e que se afastam de compromissos com direitos sociais, trabalhistas e democráticos.

O grupo afirma que pretende fortalecer a atuação de católicas e católicos no campo democrático e popular, com ênfase no protagonismo de mulheres, jovens e trabalhadores.

<><> Apoio a políticas do governo Lula

A carta também lista programas e políticas públicas que representam avanços sociais no país, como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Brasil Sorridente, Farmácia Popular, Cozinhas Solidárias e Pé-de-Meia, além da valorização do salário mínimo e ações de combate à fome.

O documento cita ainda como pautas de apoio o fim da escala 6×1 e a implementação da tarifa zero no transporte público.

<><> Defesa do projeto democrático

Os católicos do PT afirmam que as eleições de 2026 devem ser pautadas por um projeto comprometido com igualdade social, soberania nacional e proteção de grupos vulnerabilizados.

Entre as prioridades listadas estão reforma agrária, agricultura familiar, segurança alimentar, proteção ambiental, igualdade racial, direitos das mulheres e defesa de povos tradicionais.

O grupo também defende que o voto seja orientado pela trajetória pública das candidaturas e pelos impactos de suas propostas na vida da população.

Ao final, a carta reafirma o compromisso com a democracia como “caminho indispensável para a construção de um Brasil livre, justo e participativo”.

O documento encerra com apoio à reeleição de Lula, defendendo a continuidade de políticas de reconstrução do país com geração de empregos, garantia de direitos e ampliação de políticas sociais.

 

Fonte: Por Edgar Silva dos Anjos, em Outras Palavras/ICL Notícias

 

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