Viagem
de Flávio aos EUA é tentativa de se livrar de responsabilidade por tarifaço,
diz ministro de Lula
Às
vésperas do fim do prazo de consultas públicas da investigação que pode levar
os Estados Unidos a impor novas tarifas contra produtos brasileiros, o ministro
do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, ainda
tenta costurar um acordo de última hora com o Washington ao mesmo tempo em que
volta sua artilharia contra o senador e pré-candidato à Presidência da
República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Na
semana que vem, Flávio é esperado na capital norte-americana para participar de
uma audiência pública sobre uma das investigações pela seção 301 da Lei de
Comércio dos Estados Unidos sobre supostas práticas comerciais irregulares
adotadas pelo Brasil e que recomendou a aplicação de tarifas de pelo menos 25%
a produtos exportados aos EUA.
Rosa
diz que Flávio, assim como seu irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro
(PL-SP), o empresário Paulo Figueiredo, e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL)
seriam responsáveis por um eventual novo tarifaço. E por isso, a ida de Flávio
a Washington seria uma tentativa do pré-candidato evitar o impacto negativo da
medida.
"Do
ponto de vista da negociação, é ineficaz porque ele vai falar sobre o que não
sabe e não conhece. Do ponto de vista eleitoral, ele está indo buscar um
salvo-conduto para poder concorrer sem o risco de ser acusado pelo
tarifaço", disse Rosa em entrevista à BBC News Brasil concedida na tarde
de sexta-feira (3/7).
O
ministro disse ainda ter dúvidas sobre a sinceridade da mudança de posição do
senador em relação às tarifas.
"Ele
não me parece sincero com a mudança de opinião porque, se fosse 100% sincero,
primeiro ele pediria desculpas por aquilo que eles estão patrocinando há mais
de um ano contra a economia brasileira", disse. "Por isso é que eu
acho que, do ponto de vista da negociação, é ineficaz e, do ponto de vista
político, é pouco sincero."
As
críticas de Rosa a Flávio Bolsonaro acontecem em meio à tentativa do governo
Lula de associar o clã Bolsonaro ao risco de novas sanções comerciais dos
Estados Unidos contra o Brasil.
O
Brasil é alvo de duas investigações baseadas na seção 301 da Lei de Comércio
dos Estados Unidos de 1974, instrumento que permite a Washington apurar
práticas de outros países consideradas injustas, discriminatórias ou
prejudiciais a empresas americanas.
A
investigação em curso foi iniciada em julho de 2025, na esteira do tarifaço de
50% imposto pelo governo dos EUA a produtos brasileiros.
Em
junho, o USTR indicou que o Brasil adotaria práticas "irrazoáveis" em
diferentes áreas.
Entre
os pontos citados pelos americanos estão críticas ao Pix, que, segundo a
investigação, prejudicaria empresas americanas de pagamentos eletrônicos;
decisões judiciais que afetariam o funcionamento de plataformas digitais; e a
alegação de que o desmatamento na Amazônia favoreceria produtores brasileiros
de carne, prejudicando a competitividade do setor nos Estados Unidos.
O
governo brasileiro nega as acusações. Nesta semana, enviou aos americanos uma
proposta descrita por interlocutores como uma espécie de "mapa do
caminho" para as negociações caso Washington desista de impor novas
tarifas ao país.
O teor
do documento não foi divulgado, mas uma fonte do governo que participou das
discussões disse à BBC News Brasil, em caráter reservado, que alguns pontos
seguem fora da negociação, entre eles mudanças no funcionamento do Pix.
Rosa
afirmou que um acordo amplo até o fim do prazo é improvável, mas disse que o
governo também já trabalha com a possibilidade de que novas tarifas sejam,
mesmo, aplicadas.
"O
Brasil trabalha com todas as possibilidades", disse Rosa à BBC News
Brasil. "Não podemos descartar a hipótese de celebrar um acordo que evite
a imposição das tarifas porque a gente acredita muito na nossa tese de que a
investigação não tem fundamento em nenhum dos aspectos levantados. Estamos
trabalhando, também, com a hipótese de conseguir postergar a decisão final. Mas
é óbvio que a gente também trabalha com a ideia de que venham a ser impostas as
tarifas."
Na
entrevista, Rosa negou que o governo tenha falhado no processo negocial com os
Estados Unidos e disse que o país não obteve acordos com os EUA como os obtidos
por países como Reino Unido porque o componente político-ideológico que
supostamente motivou as investigações atrapalhou as negociações.
Rosa
afirmou ainda que, caso as tarifas sejam aplicadas, o governo já estuda medidas
para mitigar o impacto sobre exportadores brasileiros. Segundo ele, agências do
governo estariam trabalhado para ajudar empresas a diversificar mercados e o
programa Brasil Soberano poderá socorrer setores atingidos.
Confira
abaixo os principais trechos da entrevista concedida na sexta-feira (3/7).
·
O Brasil já trabalha com a hipótese de que os Estados
Unidos vão mesmo impor novas tarifas ao Brasil.
Márcio
Elias Rosa - O
Brasil trabalha com todas as possibilidades ou pelo menos todas as alternativas
possíveis. Nós não podemos descartar a hipótese de celebrar um acordo que evite
a imposição das tarifas porque a gente acredita muito na nossa tese de que a
investigação não tem fundamento em nenhum dos aspectos levantados. Estamos
trabalhando, também, com a hipótese de conseguir postergar a decisão final. Mas
é óbvio que a gente também trabalha com a ideia de que venham a ser impostas
tanto as tarifas de 25% quanto a de 12% fruto daquela investigação que englobou
outros países sobre a tese de uso do trabalho forçado. E para cada um desses
cenários, a gente também já estuda quais são as alternativas e quais são as
soluções.
·
Mas, sendo bastante franco, quão provável é um acordo que
evite as tarifas a essa altura do campeonato?
Márcio
Elias - Não
consigo medir percentual, hoje. Me parece óbvio que é muito mais provável que
nós não consigamos chegar a um acordo capaz de contemplar todas as expectativas
norte-americanas ou brasileiras. Não há tempo e não haveria tempo para nós
estabelecemos um acordo tarifário.
Quando
nós voltamos da reunião na Casa Branca, em 7 de maio (...) houve um consenso de
que nós não deveríamos gastar muita energia com a questão tarifária porque não
haveria tempo até o começo de julho para fazermos um acordo sobre tarifas.
Então nós começamos a discutir outros temas paralelos a esses sem deixar de
lado um pequeno aspecto tarifário, que é uma reclamação que os Estados Unidos.
O que tem mais chance de ocorrer? Pode ser que ocorra tarifaço ou pode ser que
ocorra o acordo. Nós trabalhamos para que ocorra o acordo agora.
·
Qual é a previsão para que haja a imposição ou uma
eventual imposição de tarifas? Isso é de imediato?
Márcio
Elias - Por
incrível que pareça, tudo isso é discricionário e caberá à autoridade
norte-americana, ao presidente dos Estados Unidos. A investigação da seção 301
acabou. Eles iniciaram um processo de consulta que envolve a apresentação de
memoriais pela parte do governo, que aconteceu no 1º de julho. Nós teremos dois
dias de audiência pública para ouvir a sociedade civil e representantes das
atividades econômicas e aí o processo vai para a decisão do presidente Trump.
Ele tem
até o dia 15 para tomar a decisão sobre se aplica ou não (o tarifaço). Ele pode
aplicar imediatamente, reduzir a tarifa pra menos do que foi sugerido... ele
vai decidir se acolher ou não a decisão do USTR. Eu arrisco dizer que não
teremos tempo para um acordo amplo. E isso é porque infelizmente, a gente tem
tido dois passos pra frente e três pra trás.
·
Quem tem sido responsável por esses três passos pra trás?
Quem tem sido responsável por prejudicar, na sua avaliação, as negociações
entre o Brasil e os Estados Unidos?
Márcio
Elias - Acho
que há uma incompreensão por parte dos Estados Unidos sobre a natureza e a
extensão da relação comercial com o Brasil. É inacreditável, mas no início eles
imaginavam que o Brasil estava na mesma posição que todos os outros parceiros
comerciais, gerando um déficit para a balança comercial deles. Mas é ao
contrário. O Brasil gera superávit para os Estados Unidos e não déficit. E
justamente porque eles tinham esse desconhecimento, imaginaram que as questões
ideológicas e não relacionadas à relação comercial pudessem interferir.
Então
surgiu aquela ordem executiva famosa que dizia que o Brasil deveria promover
uma intervenção no Supremo Tribunal Federal para evitar o julgamento de uma
ação penal contra um ex-presidente da República e, naquela ocasião, algumas
pessoas se apresentaram como patrocinadoras da tarifaço. Quem é o responsável?
Eu acho que há um responsável direto: todos aqueles que colocam na mesa de
negociação fatores ideológicos e, de maneira muito oportunista, fatores
eleitorais, supondo que teriam proveito imaginando que o Brasil em crise com os
EUA fosse eleitoralmente um bom negócio.
Agora,
nesta semana, eles estão dizendo que o risco do tarifaço favorece o governo,
logo, ele não deve ser aplicado.
·
O senhor está se referindo ao Flávio Bolsonaro? Na sua
avaliação? Flávio Bolsonaro é o responsável pelo avanço de um eventual tarifaço
ao Brasil.
Márcio
Elias - Eu
acho que é injusto falar que é só o Flávio. Acho que é o Jair (Bolsonaro), o
Eduardo (Bolsonaro), o Paulo (Figueiredo)... todos aqueles que patrocinam esse
tipo de postura, que traem um compromisso primário com o Brasil e com o povo
brasileiro. (....) Nem os Estados Unidos têm tido lucro em razão do tarifaço e
nenhum outro ator está tendo lucro eleitoral por conta do tarifaço. E é por
isso que eles estão começando a mudar o posicionamento. Isso é de uma
irresponsabilidade, nacionalidade e cidadania sem medidas. Na última postura do
senador Flávio Bolsonaro, ele ofereceu um governo de transição (com os EUA)
caso seja eleito. Quem já ocupou função pública sabe que é tipo de governos de
transição se apoderar de conhecimentos estratégicos da nação para poder
estabelecer o governo. Você imagina que uma pessoa que é candidato a presidente
ou pré-candidato a presidente da República está dizendo aos EUA que, 'caso eu
seja eleito, teremos um governo de transição'. É óbvio que o outro lado, no
caso Marco Rubio, aplaude e diz: "Olha que boa ideia".
·
Na próxima semana, o senador Flávio Bolsonaro vai
participar de uma dessas audiências públicas da investigação 301. Queria saber
do senhor o seguinte: por que o governo não mandou ninguém para participar
dessa audiência? Foi um erro do governo brasileiro não enviar alguém a essa
audiência?
Márcio
Elias - O
governo brasileiro participa do que eles chamam de reuniões bilaterais. São
essas reuniões que eu tenho feito com o Ministério das Relações Exteriores. O
governo não participa das audiências públicas porque elas são destinadas a
ouvir o empresariado nacional e estrangeiro. O que é que nós fizemos foi
incentivar os setores a estarem presentes (...) O governo faz reunião bilateral
e não política (...) A boa notícia é que o senador ao qual me referi (Flávio
Bolsonaro) mudou de lado e agora ele diz estar contra o tarifaço.
·
Como é que o senhor classifica a ida do senador Flávio
Bolsonaro a essa audiência neste momento defendendo uma posição contrária ao
tarifaço? O senhor vê essa posição como uma posição intelectualmente honesta ou
como jogo de cena?
Márcio
Elias - Não
posso qualificar como honesta ou desonesto. O que acho é que do ponto de vista
da negociação é ineficaz porque ele vai falar sobre o que não sabe e não
conhece. Do ponto de vista eleitoral, ele está indo buscar um salvo-conduto
para poder concorrer sem o risco de ser acusado pelo tarifaço. Acho que ele
deve desculpas à nação brasileira. Isso se ele de fato mudou de opinião. Tenho
dúvida se ele mudou de opinião porque ele está dizendo para não imporem
tarifaço agora e voltar a discutir o assunto quando se ele for eleito em
outubro. Ele não me parece sincero com a mudança de opinião porque se fosse
100% sincero, primeiro ele pediria desculpas por aquilo que eles estão
patrocinando há mais de um ano contra a economia brasileira (...) Por isso é
que eu acho que, do ponto de vista da negociação, é ineficaz e, do ponto de
vista político, é pouco sincero.
·
Em documento enviado ao USTR, Flávio mencionou a
possibilidade de impedir a integração do Pix com países não-ocidentais. O que
isso significa na prática
Márcio
Elias - Eu
não li esse documento porque eu tenho lido muito documento sério e, portanto,
com conteúdo relevante para as nossas decisões. Eu conheço (a proposta) por
ouvir dizer e acho que é uma bobagem. A tendência do Pix é se transformar numa
ferramenta universalmente aceita.
·
Que medidas o governo estuda hoje para mitigar os efeitos
de um possível tarifaço?
Márcio
Elias – Tem
uma ação que está dando resultado feita pela Agência Brasileira de Promoção às
Exportações (Apex) que é treinar, formar e apresentar nossos produtores a
outros mercados. Pegamos 200 empresas que exportam para os Estados Unidos e
dessas, 78 já começam a exportar para outros mercados. Dentre esses setores
atingidos, em tese, pelo tarifaço. Daqui para a frente vai ter que ser um
trabalho contínuo. A outra m edida é o programa Brasil Soberano (que subsidia
exportadores atingidos pelo tarifaço). Nós temos espaço fiscal para isso e o
volume não é tão grande.
·
Qual é o impacto que esse novo tarifaço pode ter sobre a
economia brasileira?
Márcio
Elias - Podemos
analisar por dois aspectos e precisamos tomar muito cuidado para não sermos
injustos para quem sofre com o tarifaço. Do ponto de vista global, a gente pode
falar que isso alcança no máximo 25% do que exportamos aos Estados Unidos. O
programa Brasil Soberano socorre esses setores até que eles consigam
diversificar o mercado, então, o impacto não é tão severo. Mas para a atividade
empresarial, ela é muito severa porque o sujeito que tem atividade empresarial
com 200 trabalhadores e que produz calçado para ser vendido para um fornecedor
específico nos Estados Unidos... Ele perde esse mercado e aqueles 200
empregados são demitidos imediatamente.
·
Tem alguma previsão do presidente Lula entrar em cena e
ligar pro presidente Trump para conversar sobre esse assunto de hoje até o dia
15?
Márcio
Elias - Não
é impossível que isso aconteça. Nas vezes em que foi necessário, o presidente
Lula fez esse contato e teve bons resultados. Mas eu não sei se vai acontecer.
·
Por que não foi possível, em um ano, estabelecer um
acordo tarifário com os Estados Unidos enquanto outros países conseguiram?
Márcio
Elias – Por
que os Estados Unidos reclamou, pediu e conseguiu o "open market"
(mercado aberto), coisa que o Brasil não pode fazer. Se você imaginar a
abertura simplesmente, que o Brasil coloque zero tarifas sobre importações dos
Estados Unidos, isso significa acabar com a nossa indústria. Não é possível
fazer isso (...) Qualquer redução tarifária para o Brasil é aumentar o déficit
do Brasil. Não faz sentido (...) No Brasil nós tivemos uma negociação diferente
porque houve o componente político-ideológico. Em países como Reino Unido,
Vietnã, Austrália ou Indonésia, a negociação com os EUA foi estritamente
comercial. Com o Brasil não era (...) No caso brasileiro, é a tarifa sob o
rótulo de sanção, o que não tem cabimento. Não dá para negociar. Isso é
inegociável. Não tem alternativa para isso
·
O Brasil ofereceu algum tipo de acordo relacionado a
minerais críticos para os Estados Unidos nesse processo negocial das tarifas?
Márcio
Elias - O
Brasil ofereceu, na reunião com o presidente Trumo, em 7 de maio,a
possibilidade de fazermos acordo de entendimento idênticos aos que o Brasil
ofereceu para Alemanha e Espanha. É até bom que o Brasil faça (acordos), mas
que não seja excludente em relação a nenhum outro mercado.
·
E qual foi a resposta dos Estados Unidos em relação a
essa proposta?
Márcio
Elias – Eu,
pessoalmente, não tive (resposta). É o Ministério de Minas e Energia que cuida
desse tema, mas concretamente, não tivemos (resposta).
Fonte:
BBC News Brasil

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