sábado, 4 de julho de 2026

Alice no país dos adultos

Vivemos em uma época marcada pela aceleração permanente. Somos constantemente convocados a produzir, opinar, reagir e seguir em frente. Há pouco espaço para a pausa e, talvez por isso, cada vez menos oportunidades para refletirmos sobre quem somos, o que desejamos e para onde estamos indo. Em meio a esse cenário, a leitura de Alice no País das Maravilhas (1865), de Lewis Carroll, revela uma atualidade surpreendente.

Embora frequentemente classificada como literatura infanto-juvenil, a obra ultrapassa em muito os limites de uma narrativa voltada às crianças. A viagem de Alice por um mundo onde as regras habituais parecem suspensas oferece uma poderosa reflexão sobre identidade, mudança, linguagem e autoconhecimento.

O texto apresenta algumas reflexões feitas a partir da releitura feita para o podcast Fala Comigo, Monalisa, desenvolvido com Alessandra Vespa e Bruno Ribeiro, cuja proposta é discutir as questões humanas por meio das artes. Esse projeto que está começando optou por iniciar com algumas das questões que a obra ainda suscita em nossa vida cotidiana. Talvez a principal delas seja justamente a autorreflexão que tratarei aqui.

<><> Sonho e queda

O começo da história é muito interessante, pois sugere que a aventura de Alice nasce de um sonho. Sonho. Palavra que, muitas vezes, incomoda a vida adulta, sobretudo quando pensamos – ou reproduzimos – a ideia de que “não há tempo para sonhar”. Mas será que precisamos de tempo para isso? Ou, antes, o sonho não seria algo fundamental para a vivência humana? Temos que lembrar que os sonhos são o começo de novas aventuras e, em certa medida, podem ser guias para a própria experiência do viver. Toda a aventura de Alice acontece no sonho e, sem sonhos, ouso dizer que o brilho da vida se esvai.

Ao cair pela toca do coelho, a garota trava um diálogo consigo mesma que nos aponta a relevância da reflexão. Muitas vezes, na vida, somos como Alice: em uma queda aparentemente infindável, sem saber onde iremos parar. Talvez essa queda demonstre que, assim como ela faz, o importante é refletir, a partir dos próprios conhecimentos, sobre quais passos daremos quando finalmente alcançarmos o chão.

“Pois, vejam bem, havia acontecido tanta coisa esquisita ultimamente que Alice tinha começado a pensar que raríssimas coisas eram realmente impossíveis” (Carroll, 2009, p. 18)

Os conselhos que Alice dava a si mesma eram bons, como o próprio narrador afirma (Carroll, 2009, p. 21). Todavia, ela não os seguia. Isso nos leva a pensar que, em diversas situações difíceis da vida, quando choramos ou até nos desesperamos, muitas vezes já possuímos as respostas, mas optamos por ignorá-las.

Talvez essa seja uma das estratégias de fuga humana. Ou ainda, é possível que deixemos o desespero ganhar tanto espaço que não conseguimos encontrar a resposta que já está em nós. Comparando, é como naquelas situações em que procuramos gananciosamente algo que está no lugar mais óbvio, mas não conseguimos ver e só encontramos quando alguém nos ajuda.

O problema de Alice consiste justamente em não resolver o problema. A garota continuava pequenininha, enquanto a chave para abrir a porta pela qual precisava entrar permanecia sobre a mesa. A vida adulta talvez seja isso: acordar todos os dias em um corpo do mesmo tamanho e, ainda assim, sentir-se constantemente maior ou menor diante das circunstâncias. “[…] mas Alice tinha se acostumado tanto a esperar só coisas esquisitas acontecerem que lhe parecia muito sem graça e maçante que a vida seguisse da maneira habitual”. (Carroll, 2009, p. 22).

Mais adiante, a personagem formula uma das perguntas mais profundas de toda a narrativa: “Ai, ai! Como tudo está esquisito hoje! E ontem as coisas aconteciam exatamente como de costume. Será que fui trocada durante a noite? Deixe-me pensar: eu era a mesma quando me levantei esta manhã? Tenho uma ligeira lembrança de que me senti um bocadinho diferente. Mas, se não sou a mesma, a próxima pergunta é: ‘Afinal de contas quem sou eu?’ Ah, este é o grande enigma!” (Carroll, 2009, p. 25).

Quando Alice pergunta a si mesma “Afinal de contas, quem sou eu?”, não está apenas tentando compreender as estranhas transformações que experimenta no país das maravilhas. Formula uma questão que atravessa a experiência humana. A identidade, muitas vezes percebida como algo estável, revela-se frágil justamente nos momentos de crise. Não é por acaso que são as quedas – perdas, mudanças, rupturas – que frequentemente nos obrigam a refletir sobre quem somos.

Hannah Arendt (2020) observava que o pensamento nasce quando interrompemos o fluxo automático da vida para examinar nossas próprias ações. Alice pensa porque caiu. Talvez nós também só consigamos pensar verdadeiramente quando o chão que julgávamos firme desaparece sob nossos pés. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han (2017) observa que vivemos em uma sociedade marcada pelo excesso de estímulos, pela aceleração e pela pressão constante para produzir.

Nesse contexto, a reflexão profunda sobre si mesmo torna-se cada vez mais rara. Somos incentivados a reagir rapidamente a tudo, mas pouco estimulados a compreender quem somos ou por que fazemos o que fazemos. A queda de Alice interrompe o fluxo normal de sua vida e a força a pensar. Talvez as nossas quedas cumpram função semelhante. Ambos pensadores nos levam a mesma questão, nos momentos de instabilidade somos levados a refletir.

A queda de Alice serve como metáfora para a crise existencial que muitos enfrentam hoje e a construção da identidade e da existência a partir da própria reflexão.

<><> Autorreflexão

A autorreflexão exige alguns cuidados. Ao encontrar o camundongo na lagoa que suas lágrimas criaram quando era gigante, Alice começa a conversar sobre gatos e ratos. Embora falasse mais para si mesma (Carroll, 2009, p. 30), esqueceu-se de quem era o ser que a estava escutando. Mesmo nos momentos em que não chegamos onde esperamos, precisamos nos lembrar de que, ainda que estejamos pensando apenas para nós mesmos, se há alguém por perto é preciso tomar cuidado com a forma como afetamos os outros.

Essa é uma lição valiosa. O conhecimento bagunçado precisa ser organizado, e uma das formas de fazer isso é refletindo (em voz alta ou em pensamento), mas o outro precisa ser levado em consideração, pois, do contrário, podemos ofendê-lo: “‘Dinah é a nossa gata. Vocês não imaginam como é formidável para apanhar camundongos! E, oh! Gostaria que pudessem vê-la atrás das aves! Ah! Mal vê um passarinho, e ele já está no papo’” (Carroll, 2009, p. 41).

Como pode a garota que tanto gosta de pensar falar o que não deve justamente para quem não quer ouvir? Por vezes, somos iguais a ela. Refletimos e, quando agimos, fazemos justamente o contrário. Ou, pelo contrário, agimos por impulso e esquecemos de pensar antes de falar ou fazer.

O controle que precisamos exercer sobre nossas ações e que, segundo Lewis Carroll, deve passar pela reflexão é fundamental para alcançarmos os bonitos jardins – local que a personagem busca desde que os viu pela fresta da fechadura. Não por acaso, o conselho da lagarta com narguilé para a garota é: “controle-se” (Carroll, 2009, p. 58). Não será a autorreflexão uma forma de controle sobre nossas ações? Acredito que sim.

No interessante diálogo com a lagarta, Alice apresenta seu incômodo por ficar mudando de tamanho o tempo todo. “Oh, não faço questão de um tamanho certo”, Alice se apressou a responder; “só que ninguém gosta de ficar mudando toda hora, sabe?” (Carroll, 2009, p. 60). As mudanças são uma parte significativa de nossas vidas, e todos precisamos lidar com elas, o que, na maioria das vezes, é uma tarefa difícil.

A lagarta é um ponto de fuga do óbvio. Quando Alice tenta convencê-la de que ela também mudará um dia – como ocorre no processo natural que dá origem às borboletas – e de que isso lhe causará incômodo, a lagarta surpreende ao afirmar que não se sente incomodada. Esse diálogo, fugindo do óbvio e das respostas esperadas, faz com que quem lê reflita sobre a necessidade de não responder ou esperar que as coisas sejam exatamente como, em um primeiro momento, aparentam ser.

A sinceridade é uma virtude importante, mas, como tantas outras, perde seu valor quando levada ao extremo. Aliás, poucas coisas na vida se sustentam nos extremos, como apontam os filósofos desde a Antiguidade. A virtude está no equilíbrio, no meio.

“Pronto, metade do meu plano está cumprida! Seja como for, voltei para o meu tamanho; o próximo passo é ir àquele bonito jardim… como será que vou conseguir isso?’” (Carroll, 2009, p. 65). Duas lições podem ser extraídas desse trecho da história. Primeiro, precisamos ir atrás de nossos objetivos. Segundo, mesmo quando os caminhos parecem estranhos ou difíceis, devemos estar dispostos a pensar e mudar para alcançá-los.

Alice estava incomodada com a quantidade de vezes que havia mudado desde que se levantara, mas, se não tivesse aumentado e diminuído tantas vezes, teria conseguido andar pelo País das Maravilhas? Conseguiria conhecer tantas criaturas? E, talvez o mais importante, conseguiria ter tantas reflexões a partir dos diálogos e das perspectivas dos outros seres, diametralmente opostas às suas próprias ideias? Provavelmente não.

Em sua busca pelo caminho, Alice encontra a casa da Duquesa, que havia sido chamada para jogar croquet com a Rainha. A Duquesa segurava um bebê enquanto a cozinheira atirava objetos pela cozinha, e havia ainda um gato de sorriso estranho. Ao sair dali com o bebê, que logo se transforma em porco, Alice vê o gato sobre uma árvore e lhe pergunta como fazer para encontrar o caminho de volta. Em nossas vidas, muitas vezes também não sabemos como encontrar os caminhos que devemos seguir. E o Gato de Cheshire, que afirma que todos são loucos, lhe oferece um sábio conselho: “Depende bastante de para onde quer ir” (Carroll, 2009, p. 76).

Nossas escolhas, que deveriam ser feitas após a reflexão, são pautadas naquilo que objetivamos. Quando Alice está nesse processo de autorreflexão e, consequentemente, de autoconhecimento, ela percebe que os outros são diferentes. Descobre que a forma como fala das coisas afeta as criaturas ao seu redor. Começa também a compreender que a maneira como percebe o mundo não é a mesma dos outros, nem mesmo quando se trata daquilo que aparentemente parece óbvio.

Para escolher, contudo, é preciso refletir bem. Do contrário, permanecemos naquele limbo de não saber para onde queremos ir, e, para isso, o gato também fornece uma resposta. Se, como diz Alice, não importa muito para onde se quer ir, tampouco importa qual caminho seguir. Extraindo uma lição dessa passagem para a vida adulta, devemos refletir sobre onde pretendemos chegar e por quais motivos, porque essa é a melhor forma de sabermos qual caminho tomar. Caso contrário, corremos o risco de nos frustrar sem sequer encontrar o caminho de volta para casa.

A autorreflexão é tão necessária para nossa vida que até mesmo em nossas falas devemos exercê-la. Nessa jornada de aprendizado pelo País das Maravilhas, onde tudo é diferente do mundo habitual, um dos episódios mais conhecidos é o Chá Maluco. Ao encontrar o Chapeleiro, a Lebre de Março e o Caxinguelê, Alice recebe o seguinte conselho: “‘Então devia dizer o que pensa’, a Lebre de Março continuou. ‘Eu digo’, Alice respondeu apressadamente; ‘pelo menos… pelo menos eu penso o que digo… é a mesma coisa, não?’” (Carroll, 2009, p. 82).

No diálogo, as personagens deixam evidente que não se trata da mesma coisa. Isso nos leva ao aprendizado de que, às vezes, pensamos estar refletindo sobre aquilo que falamos quando, na prática, fazemos justamente o contrário. Em nosso mundo, tornou-se frequente não pensar no que se fala – principalmente nas redes sociais – e menos ainda nas implicações concretas de nossas palavras. Todavia, aquilo que dizemos afeta diretamente os outros.

Por isso, ao longo de toda a jornada de Alice, os diálogos são fundamentais para sua descoberta e autorreflexão. Nota-se que a personagem, a partir dessas conversas, vai se constituindo como sujeito que compreende a si mesmo, o mundo e sua relação com aqueles que o habitam. Por que nós deixamos de fazer esse movimento? Talvez, como sugere o romance, pelo desconforto que ele gera.

Novamente envolta em seus pensamentos, após a tentativa fracassada da Rainha de cortar a cabeça flutuante do Gato de Cheshire, Alice é convidada pela Duquesa a apresentar a moral daquilo em que estava pensando (Carroll, 2009, p. 105). Ela insinua que talvez não exista moral alguma, e prontamente a Duquesa responde que em tudo há uma moral. Ou seja, nossos comportamentos passam pela reflexão e, consequentemente, possuem desdobramentos morais ou imorais. Quando pensamos sobre as atitudes que tomamos – ou mesmo quando agimos sem pensar –, em algum momento a moral, ou a ausência dela, se faz presente.

Não à toa, a reflexão que ocupava a mente de Alice antes do questionamento da Duquesa era: “[…] ‘não vou ter nenhuma pimenta na cozinha. Uma sopa pode muito bem ficar boa sem pimenta… Talvez seja sempre a pimenta que torna as pessoas esquentadas’, continuou, muito contente de ter encontrado um novo tipo de regra, ‘e o vinagre que as torna azedas… e a camomila que as torna amargas… e… o caramelo e essas coisas que tornam as crianças suaves. Só queria que as pessoas soubessem disto: não seriam tão sovinas com bombons…” (Carroll, 2009, p. 104).

Poderíamos continuar acompanhando Alice até o final de sua aventura. No entanto, fazê-lo significaria retirar do leitor a possibilidade de realizar sua própria viagem pelo país das maravilhas. Mais importante do que acompanhar as respostas encontradas pela personagem é perceber as perguntas que ela nos deixa.

Ao longo da narrativa, Alice descobre que crescer não significa possuir todas as respostas, mas aprender a conviver com a incerteza. Descobre também que conhecer a si mesmo exige diálogo, escuta, mudança e, sobretudo, reflexão. Nem sempre suas ações correspondem às perguntas que formula. Nem sempre consegue controlar suas emoções. Nem sempre encontra o caminho que procura. Talvez seja justamente por isso que continua tão próxima de nós.

Em um mundo que nos convida permanentemente a reagir, consumir e seguir em frente, Alice nos recorda da importância de interromper a marcha e pensar. Afinal, como ensina o Gato de Cheshire, o caminho depende do lugar para onde queremos ir. E saber para onde queremos ir continua sendo uma das questões mais difíceis da vida adulta.

 

Fonte: Por Julio Cesar Teles, em A Terra é Redonda

 

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