segunda-feira, 6 de julho de 2026

Caetanear: Poetizar a vida em tempos de desumanização é um ato  indispensável para sustentar a dignidade humana

A arte pode fazer muito em favor do nosso bem-estar e é uma forma concreta de enfrentar os efeitos perversos do capitalismo em suas mais diversas expressões. O cantor Djavan criou o termo “caetanear” como verbo na canção Sina, escrita em 1982. Na letra da música, bastante conhecida, o sentido original do termo dado por Djavan era o de poetizar a vida, extraindo dela o que há de bom, em alusão à arte e leveza de Caetano Veloso na nossa MPB.

A sensibilidade com que esses músicos expressam o mundo tem feito gerações sucessivas cultuarem o ideal de uma realidade que contrasta, cada vez mais, com o Brasil em que estamos vivendo. Talvez seja este mesmo, afinal, o papel da arte: fazer com que nós possamos abstrair do mundo concreto as cruezas da vida cotidiana, entre elas, a miséria e as múltiplas formas de violência, para além do desencantamento de mundo gerado em nosso sistema econômico.

O fato, no entanto, é que está ficando muito difícil “caetanear” no dia a dia. Se a música, a literatura e a pintura, por exemplo, nos transportam e tornam nossas vidas mais leves, não é assim tão simples se colocar a serviço dessa digressão, diante do que nossa realidade escancara a toda hora. O sentimento é de que estamos perdendo a capacidade de qualquer poesia: feminicídios diários e violências igualmente brutais soam como que um tapa na cara, como no caso dos crimes de vicaricídio, quando se causa o sofrimento a uma mulher, matando um filho ou outro familiar próximo a ela, como forma de atingi-la.

Seis guerras continuam acontecendo em nosso planeta, mesmo que se ouçam mentiras de que foram cessadas, encerradas ou vencidas. Não são como parecem, por vezes, batalhas por razões morais, nem religiosas ou políticas. São econômicas. Por terras, riquezas. Governos afirmam ter acabado com a fome, mas ela segue matando pessoas. Nesse processo todo de coexistência do poético e do real, no qual nos vemos progressivamente sempre mais incapazes de ceder à melodia das artes e contemplar a vida no que ela tem de bom, há prejuízos muito maiores que apenas culturais.

Há um prejuízo psíquico e que afeta a condição emocional das pessoas. Apenas alguns privilegiados é que já entenderam que só a arte nos salva e que é preciso rir e cantar, não obstante a miséria e o sofrimento alheios. E que sabem o quanto precisamos sempre buscar enxergar o mundo de maneiras mais leves e sensíveis para que sigamos com nossas vidas de janelas abertas para nossa alma. São essas as atitudes que vemos em populações nas quais o sofrimento não se impõe diante do milagre de estar vivo.

Poucas as pessoas que, sem ter comida à mesa, estando numa fila infindável de espera por atendimento à saúde, ou sofrendo opressão, conseguem sublimar a dor e se permitir viver a arte, ainda que de vez em quando. Governos e partidos políticos projetam discursos eleitorais em torno de demandas populares por alimentos, segurança pública, educação e acesso a médicos e remédios. Quem se distancia por um tempo que seja dessa realidade, imerso na arte, é tido como alienado, ou até louco. Mas essa loucura, em certa medida, é necessária. Como escreveu o cineasta espanhol Pedro Almodóvar, toda lucidez demais é insuportável.

Num exercício de falsas consciências, o universo das plataformas digitais acumula gritos inférteis contra quase tudo. A realidade é tóxica. O feminismo e o machismo estruturais disputam forças. O evangelismo pentecostal promete prosperidade enquanto o catolicismo ortodoxo e o fundamentalismo muçulmano, por sua vez, nos prometem a vida num paraíso, só que não agora, e sim, após a morte.

O antissemitismo, como também regimes políticos dos aiatolás seguem, cada um a seu modo, excluindo humanos. Nominações de gênero se tornam igualmente excludentes e, no mesmo sentido, a gentrificação assola os centros urbanos. Povos originários seguem sendo exterminados, novas escravidões se firmam no contemporâneo e ainda há quem defenda jornadas seis por um em nome de empregos. Difícil, em meio a tudo isso, sair por aí assoviando, embriagado por qualquer cantoria.

Mas há uma gente atomizada em seus fones de ouvido. Há patriotas sem menor noção do país onde vivem e que ainda enxergando nos divergentes e contrários os outros como sendo os seus inimigos. Não há detergente que chegue para limpar a mente e libertar o espírito. Nem consciências possíveis na Terra plana e em quem duvida de vacinas a foguetes que não teriam chegado à Lua.

As redes sociais espelham as contradições desses mundos todos em meio a uma cultura de cancelamentos e onde os canceladores também são, por vezes, cancelados. Nossa soberania cobra o preço de uma democracia ameaçada e a classe política escracha a negociação do que era, antes, em torno dos seus escusos interesses, contrários à causa pública. Brechas são encontradas para que se mantenham penduricalhos ao Judiciário, favoritismos classistas financeiros a militares, impondo barbas de molho ao baixo clero.

Melhor cantar diante disso tudo Djavan e Caetano que hino nacional para estranhos objetos, idolatrar imagens ou romantizar futuros e ficar gastando tempo de vida com as dancinhas no TikTok, álbuns de figurinhas e adesão a uma Copa promovida e sediada por quem implode o futebol com bombas. Segundo o Banco Mundial, mais de 839 milhões de pessoas no mundo vivem em extrema pobreza.

Caetanear não significa que não se olhe para essa realidade. Representa apenas que sem uma dose de poesia, também não teremos força de resistência. Porque o discurso da resiliência é instrumento perverso, já que não somos como ferro a ser moldado, mas sujeitos de carne e osso, razão e sentimentos. Cada um dança ao som que consegue ouvir, esta a verdade.

A imprensa noticia o leilão de uma camiseta esportiva ao mesmo valor de um carro de luxo sendo lançado num salão internacional de automóvel. R$ 30 milhões de reais não valem o mesmo a depender do que se esteja consumindo. Um só partido político sozinho no Brasil dispõe de verbas públicas, dinheiro público, acima de 800 milhões de reais para a campanha política pela verba eleitoral, mas o maior problema do país são os gastos previdenciários ou os tais penduricalhos de uma elite do serviço público.

Sobram valores financeiros para algumas coisas, mas somem os valores outros e que tanto admitimos que nos fazem falta a uma virtude política. “A mão que afaga é a mesma que apedreja”. Na música entoada em nosso dia a dia, desafinados estão os acordes da cidadania plena, da cidadania ativa, de vidas dignas.

Anuncia-se o primeiro trilionário do Planeta Terra. As big techs governam os mundos. Robôs, agora, terão sua própria indústria da moda, já desfilam em roupas como na Coreia do Sul. Nos prometem pela mídia a cura do câncer de pâncreas, em um jogo de emoções e de aplausos de milhares de médicos, em pé, numa conferência, também fazem notícia do que a indústria farmacêutica nem produz ainda, como se tetraplégicos voltassem de imediato a andar graças a uma nova solução da ciência que nem existe ainda. As apostas não são, afinal, só nas bets, mas nas promessas todas.

Melhor cantar o que ainda nos resta de alguma humana forma de existência. O resto é a barbárie encarnada no sistema. A superinteligência pode nos tirar talentos emergentes novos como o de Caetano Veloso em gerações futuras e entupir nossas veias e cérebros com o que nos matará ou nos fará viver sem qualquer poesia.

 

Fonte: Por Geder Parzianello, em A Terra é Redonda

 

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