De
quarto de despejo de Fortaleza a praia de campeões: conheça a comunidade do
Titanzinho
Quando,
em 2013, recém-chegado a Fortaleza para assumir cargo de professor de
literatura na Universidade Federal do Ceará, amigos novos cearenses me levaram
para conhecer um projeto de cinema popular nas ruas da comunidade do
Titanzinho, jamais eu poderia imaginar que o chão desse território de quebrada
me levaria, mais de uma década depois, a publicar um livro tendo esse lugar
como cenário para as aventuras de um caranguejo exótico rapper e um menino
surfista.
Naquele
fim de tarde, nós entramos na pequena comunidade, espremida entre o cais do
Porto do Mucuripe e a famosa Praia do Futuro, e vi o farol velho em ruínas, mas
imponente, na sua formação octogonal, cujas fachadas ostentavam grafites dos
artistas locais. Vi o movimento do entra e sai de moradores, trabalhadores
chegando dos seus serviços, pescadores nas jangadas aproadas no paredão,
retirando o pescado, crianças e jovens aproveitando as últimas ondas do dia, as
barraquinhas na beira do mar vendendo cerveja e peixe. E uma estaca com várias
placas onde se lia “good vibes”, “Titan paz e amor”, “bem-vindo”…
Numa
ruela, cuja saída dava para o mar, situava-se a sede da Associação de
Moradores, e foi numa parede dali que estenderam um pano para projetar
mini-docs produzidos pela comunidade com a parceria de projetos da universidade
federal. As crianças eram a maioria por ali, alegres, apontando os personagens
conhecidos da tela e das ruas, enquanto comiam pipoca. Era uma sessão do Cine
Ser Ver Luz, organizada pelo Laboratório de Artes e Micropolíticas Urbanas, do
Programa de Pós-Graduação em Artes da UFC. Pensei: “Essa comunidade se orgulha
de sua existência. Preciso pisar mais nesse chão.”
Uma
semana depois, eu voltava, agora sozinho, para ver Titanzinho durante o dia. O
movimento da comunidade é intenso: pessoas, carros, motos e ônibus disputam
cada pedaço do lugar. As casas, simples, de cômodos pequenos, algumas com
fachadas de lojas diversas, outras com sobrados, formam uma espécie de
labirinto, como o que prende o Minotauro. Mas aqui moram outros seres, míticos
à sua maneira: são os Titãs. Na mitologia grega, os titãs foram os deuses
primordiais, que representavam o céu, o oceano, o tempo, a luz e o fogo, a lua…
Eu vi esses deuses passeando por aquela quebrada. Alguns carregando peso nas
costas, como o titã Atlas, outros empunhando suas pranchas de surfe como se
carregassem um troféu; outros, ainda, jogavam conversa fora nas portas de casa,
ou nas pedras onde rebentavam as ondas, como se louvassem a titã da memória, a
Mnemósine. É verdadeiramente uma comunidade titânica.
Passei
a visitar e percorrer silenciosamente a comunidade, sem medo das más-línguas
que diziam que ali era um lugar perigoso, por causa das drogas e de outras más
influências. Sentava-me nas pedras da praia e desenhava a galera pegando onda e
a meninada fazendo aula de surfe. Caminhava pelas vielas e capturava com o
celular os gestos pequenos e grandiosos dos moradores, humanos e bichos. O fato
de ter sempre gente de fora por ali, não apenas para surfar, mas também para
fazer uma imersão com fins de pesquisa acadêmica, além dos muitos projetos
sociais, me fez querer saber as origens do povo que se considera guardião do
farol que, inclusive, está na bandeira do Ceará, naquela época abandonado pelos
poderes públicos.
Então,
fui atrás da história através dos livros de fotografia sobre a região do grande
Mucuripe. Conheci as belíssimas fotos de Mucuripe (2000), de Chico Albuquerque,
fotógrafo famoso por ter sido escolhido para integrar a equipe do cineasta
estadunidense Orson Welles, quando este se encantou com a história de três
pescadores dessa região que, em 1940, se lançaram ao mar numa frágil jangada na
direção do Rio de Janeiro, capital federal, para solicitar uma audiência com o
presidente Getúlio Vargas. Queriam reivindicar melhorias na situação dos
pescadores e de seus direitos trabalhistas. O doc de Welles, que se chamaria
It’s All True, não chegou a ser finalizado porque um desses pescadores morreu
nas gravações no mar do Rio de Janeiro. Mas as fotos e imagens gravadas no
Mucuripe, uma região de altas dunas e com um litoral de coqueiros e casebres de
pescadores, são uma espécie de patrimônio imagético de Fortaleza. Nessas fotos,
sobretudo aquelas de dez anos depois da passagem de Wells pela capital
cearense, Chico Albuquerque captura o farol já em vias de apagamento do seu
facho de luz e prestes a ser aposentado após a construção de outro farol, mais
alto e na mesma região.
De um
salto temporal, vi as fotos do fotógrafo Nelson Bezerra no livro Cidade,
Saudade: Fortaleza anos 70 (2013), que mapeia imagens urbanas da década de
1970, todas em preto e branco. Essas fotos mostram o Mucuripe ainda com sua
última grande duna exposta em sua exuberância, mas já com o início da ocupação
humana. Hoje, quem passa pela Avenida da Abolição não vê mais a duna, sob
prédios e mais prédios. Essas fotos também mostram o porto ampliado e um espaço
ao sul do farol com uma série de tanques enormes para armazenagem do gás que
chega nos navios que atracam por ali.
No
final da primeira metade do século XIX, quando os fortalezenses viravam as
costas ao mar e a zona costeira não era ainda cobiçada pela burguesia, o farol
do Mucuripe foi construído, entre os anos de 1840 e 1846, por mãos escravas.
Por muitas décadas, não só guiou as embarcações, como mostrava-se imponente na
orla, justamente porque não havia os edifícios que hoje encobrem o horizonte.
Nas primeiras décadas do século XX, o antigo porto da Praia do Peixe, a famosa
Praia de Iracema de hoje, foi ficando pequeno e perigoso para as embarcações.
Era preciso buscar outro local propício para uma nova zona portuária. E o Porto
do Mucuripe começou a ser construído, entre as décadas de 1930 e 1950. Sobre
essa construção, o Arquivo Nirez tem um acervo fotográfico precioso, que mostra
o farol silencioso e já depauperado observando as máquinas trabalhando no seu
entorno. É por essa época que o entorno do Velho Farol foi sendo povoado por
uma legião de excluídos: flagelados da seca do sertão, pobres expulsos do
centro por conta do afrancesamento do centro, a Belle Époque cearense,
trabalhadoras sexuais expulsas do centro, estivadores, pescadores tradicionais
de outras praias do interior… A comunidade do Serviluz, onde fica o Titanzinho,
nasceu como “quarto de despejo” da sociedade fortalezense, tal qual Carolina
Maria de Jesus intitulou a favela paulista de Canindé.
O nome
titã, se hoje é uma licença poética e política vinculada à luta dos moradores,
origina-se de uma máquina de tamanho descomunal, um guindaste de 180 toneladas
que, sobre uma estrada de ferro, levava pedras para a construção do dique de
proteção da enseada. Um gigante colossal. O povo do Velho Farol pegou
emprestada a força do gigante de ferro para se autodenominar amorosamente
Titanzinho. Estava escrita aí sua sina.
A
comunidade de excluídos, que ocupou um espaço de dunas móveis, morada de
caranguejos grauçás, nunca pode habitar tranquilamente o território. Com a
valorização das praias a partir da década de 1970 e a verticalização da cidade,
restaram poucos moradores tradicionais das praias. Mas no caso do
Serviluz-Titanzinho, o problema é que a comunidade era um entrave na expansão
das obras do Porto do Mucuripe e na zona de armazenamento do gás que ali chega,
a zona de tancagem. Não foram poucos os momentos em que os moradores se viram
ameaçados de expulsão. Na década de 1990, o Titanzinho também já tinha virado
um point da galera do surfe. Há, pelo menos, cinco picos para essa prática nas
ondas dali. O surfe, que chegou ao Brasil na década de 1970 e era eminentemente
um esporte de brancos burgueses, encontrou no Titanzinho uma gente que disse
que surfar era coisa também para pobres. Filho de peixe, peixinho é. E outros
titãs dos mares surgiram aí para defender terra e água. É o caso de Tita
Tavares, filha de pescadores da praia, que surfou desde os cinco anos e “foi a
primeira mulher a tirar nota dez no feminino do Campeonato Mundial de Surf de
1996” (Rios, 2013, p. 58).
Mais
recentemente, nos anos 2009, um projeto de construção de um estaleiro ameaçou a
destruição daquela praia. E em 2019, um projeto com o nome cretino de Aldeia da
Praia pretendia desalojar os moradores de duas ruas em frente à praia para se
construir uma avenida em nome de uma urbanização excludente. A lista de
tentativas de despejo não é pequena (Pinheiro; Pequeno, 2020). “Titan não se
vende” era o que se via nos muros da comunidade, nas placas de protesto dos
moradores nas ruas e nas sessões públicas onde políticos insistiam em decidir
os destinos da comunidade. É daí que vêm os líderes da comunidade, suas
associações e os parceiros de luta oriundos das universidades e ONGs. Os titãs
estão aí afirmando – seja no coletivo, seja nas artes de rua, na fotografia, no
cinema, no surfe, nos estudos acadêmicos – que a máquina de moer gente em face
do progresso não vencerá.
O meu
Crias do Titanzim (2026), portanto, é um modo de celebrar a história dessa
comunidade que nos ensina todo dia a fazer política. É uma história sobre
vários letramentos, não apenas o letramento da leitura da palavra. Quem conta a
história é um caranguejo, o Ocy, um grauçá, morador daquela praia. É sobre a
amizade que nasce em meio a um dilema que o menino Quim precisa resolver, que é
aprender a ler para não ter que deixar de fazer o que ele mais ama, que é
surfar. Na escola do surfe, um projeto social, o lema é “Vetim que é vetim
surfa nas ondas e nas letras”, mas Quim não sabe ler. É aí que entra em cena o
caranguejo, que também manda bem no surfe e é rapper. Ele é o narrador da
história, isso quer dizer que também é um escritor. É uma amizade e é também
uma bela parceria.
O
primeiro letramento é o da leitura da palavra. Mas como diz Paulo Freire, n’A
importância do ato de ler, a leitura do mundo vem antes da leitura da palavra.
É através da amizade com o caranguejo que o menino vai sendo letrado nas
práticas das experiências com a comunidade. Quim começa a ver melhor o lugar
onde vive, enquanto Ocy sai da toca e acompanha o garoto em diferentes
atividades. O alfabeto da amizade é soletrado aí. O menino aprende a ser poeta,
um rapper ou slamer, e até ganha a batalha de poesia da escola no final do ano
letivo. Quim não só descobre que sabe ler, mas se descobre poeta. Ele manda bem
nas ondas e nos versos.
Um
letramento que fiz questão de sublinhar foi a experiência da comunidade com o
culto de matriz africana. Mesmo sabendo que a comunidade do Titanzinho é plural
em matéria de cultos (a presença de capela católica, templo evangélico,
espírita e ao menos quatro terreiros). O umbandomblé está referenciado
justamente no dia da Regata da Rainha, uma disputa de jangadas para Yemanjá. É
durante essa regata que Quim descobre que sabe ler. Ele lê justamente a frase
“Odoiá, louvada seja, minha mãe”, numa vela de jangada que tem a representação
mais famosa da Orixá das águas salgadas. Isso é um duplo letramento. Para mim,
a mãe de Quim é da Umbanda, e o menino sabe disso. Não à toa, desenhei na
jangada velejada por Quim e Ocy duas palmas da planta chamada “Espada de Ogum”,
leitura, clara para uns ou subentendida para outros, sobre as raízes de Quim.
Depois dessas cenas, também quis fazer referência ao alfabeto dos céus, um
letramento na leitura das constelações. A leitura do céu noturno das
constelações é feita pelos pescadores simples e sem formação escolar. Eles são
letrados em estrelas. Os pescadores remanescentes dessa comunidade, jangadeiros
e barqueiros, têm conhecimento do céu, leem a cartilha das estrelas. Então quis
colocar isso no texto. O caranguejo mostra pro menino que também o céu é um
livro que deve ser lido. Eu coloquei justamente duas constelações próximas: o
herói Hércules e o caranguejo. É uma licença poética que cometi, porque, de
fato, essas duas constelações nunca estão próximas. É um espelhamento também
dos protagonistas, pois eu queria que Ocy dissesse para Quim que há uma cópia
deles no céu. É a Odisseia no céu e aqui no chão do Titanzinho.
Hoje, o
Farol do Mucuripe está revitalizado, entregue no final de 2025, mas fechado
porque a comunidade quer também participar da gestão, afinal, eles são o povo
do farol. Titanzinho agora é também uma ZEIS (Zona Especial de Interesse
Social), do Estatuto da Cidade (Lei Federal nº 10.257/2001), que mapeia os
lugares que devem ser protegidos da especulação imobiliária, dos projetos
faraônicos em nome do lucro para poucos. Boa parte dos moradores dali ainda
espera pelo documento de posse do seu imóvel. É sempre uma espera angustiante
pela paz do território.
Os
titãs da mitologia nasceram do caos e organizaram o mundo. Isso é muito
simbólico para uma comunidade que adota o nome Titanzinho. Do nascimento
caótico, de sucessivos despejos, a comunidade precisou entender que sozinho
ninguém movimenta o mundo. E isso tem a ver com o que chamo de letramento
social e político. Juntos eles souberam cantar “Vou aprender a ler pra ensinar
meus camaradas” nessa cirandeira que é trabalhar, estudar e fazer política. Um
povoamento caótico, formado por vidas precárias alijadas de políticas públicas,
aprende a gritar “Titan não se vende!”.
Quim é
fictício, mas tenho certeza de que há muitos Quim de carne e osso mandando a
letra e surfando na poesia ali na comunidade. E eu saúdo e celebro essas crias
do Titanzim com um grande Aloha!
Fonte:
Por Cláudio Rodrigues, no Blog da Botempo

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