Pepe
Escobar: Por que o Neo-Crasso precisa desesperadamente se aferrar ao seu acordo
Uma de
minhas colunas recentes sobre Como o Irã construiu seu grande
avanço multipolar provocou algumas reações sérias de importantes agentes
velha-escola da inteligência do Departamento de Estado dos Estados Unidos, que
hoje tratam de assuntos globais. Recebi deles uma revelação consistente e
detalhada daquilo que eles afirmam ser a principal razão de o Presidente Trump
ter assinado o Memorando de Entendimento (MoU) com o Irã, que ele vem
freneticamente tentando apresentar como sendo seu (itálicos
meus) acordo.
Nas
palavras duras de uma dessas fontes, “o principal ponto que vocês não estão
percebendo é que Trump estava morto de medo do fato de que, em 15
de junho, faltavam apenas sessenta dias para o esgotamento final das reservas
mundiais de petróleo, o que levaria à total destruição de Donald Trump. Essa é
a única razão de ele ter mudado de opinião. Se esperasse mais, ele, em 15 de
agosto, estaria em tamanhos apuros que não conseguiria mais se recuperar. O
que, de qualquer modo, ainda pode acontecer”.
Essa
fonte estava se referindo à detalhada avaliação de risco na qual os dados
concretos apontam para meados de agosto de 2026 como sendo “o momento em que os
Estados Unidos serão obrigados por lei a pôr fim ao dumping emergencial. Quando
a torneira fechar, o déficit global no fornecimento de petróleo aumentará
instantaneamente em milhões de barris por dia, criando uma crise mundial”.
Embora
ele tenha agido, nada está garantido para Trump. As fontes comentam que
“primeiro eles (os republicanos) perderiam na primeira semana das
eleições de novembro. Então, os democratas votariam seu impeachment. E, em
seguida ele seria destruído por ações judiciais, e perderia todo o seu
dinheiro”.
Muito
além do destino que espera o autoproclamado neo-Crasso, as fontes insistem,
principalmente, em que “o intervalo de 60 a 90 dias em que atualmente nos
encontramos não é apenas um cronômetro para o petróleo físico debaixo da terra,
ele é o derradeiro detonador da maior bolha de crédito de toda a história
humana”.
O que
nos traz de volta ao Rosebud desse épico digno de Orson Welles: o Estreito de
Ormuz que, para todos os fins práticos, continua virtualmente fechado.
As
fontes têm o cuidado de lembrar a todos os que se disponham a entender:
“o que
temos agora é uma rebelião no Estreito de Ormuz. 20% do petróleo global passa
por ali, e o Irã quer esse poder para se proteger. Quando o Estreito for
fechado, o preço do petróleo, segundo a Goldman Sachs, irá a 700 dólares o
barril. Isso ainda não aconteceu porque os Estados Unidos e seus aliados estão
despejando seus estoques no mercado para conter a alta do preço. Para
tal, eles ainda têm um estoque para cerca de 2 meses e meio. Então, tudo
explode. Temos aqui a rebelião dos escravos”.
Bem-vindos,
portanto, à partida de xadrez estrutural de altíssimo risco sendo hoje jogada –
que, é claro, foi taticamente manipulada por Teerã logo antes de seu
início.
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A “rebelião dos escravos”
As
fontes comentam que “embora boatos de petróleo a 700 dólares o barril sejam
frequentemente utilizados em posicionamentos políticos de alto nível para
enfatizar a gravidade do ponto de estrangulamento, a verdadeira previsão
analítica proveniente dos principais bancos de investimentos é mais comedida,
embora ainda alarmante”.
Comecemos
com a Goldman Sachs: “Em atualizações recentes de sua pesquisa oficial sobre
commodities posteriores à escalada, a Goldman Sachs advertiu que um bloqueio
total e prolongado do Estreito de Ormuz poderia, rapidamente, elevar o
preço do petróleo Brent a níveis superiores a 100 dólares o barril e, em termos
realísticos, atingir a marca de 150 dólares”.
O que é
de importância crucial: as fontes afirmam que “um olhar preciso sobre os dados
operacionais revela que o ponto de ruptura absoluto do sistema – e o detonador
da bomba dos derivativos – provavelmente acontecerá em meados de agosto de
2026”.
Entra
em cena a interação entre o esgotamento físico da Reserva Estratégica de
Petróleo dos Estados Unidos (SPR), o verdadeiro limite prático dos preços do
petróleo e o aterrorizante mercado oculto de derivativos no valor de dois
quadrilhões de dólares. As fontes analisam essa interação como sendo um final
de jogo altamente sincronizado.
Resumindo.
Em fins de maio de 2026, há apenas um mês, a SPR teve seu estoque diminuído
para 365,1 milhões de barris. “O menor nível operacional em mais de quarenta
anos”.
Com o
Estreito de Ormuz praticamente fechado – inclusive pelo bloqueio de Trump – os
Estados Unidos, atualmente, vêm retirando a histórica cifra de 1,41
barris por dia (quase 10 milhões de barris por semana) para evitar
artificialmente a alta dos preços.
Chegamos
então ao “número crítico a ser observado nas políticas”. Esse número não é zero
barris, mas 243 milhões de barris, Por quê? Porque o Departamento das
Guerras Eternas certificou que usar a reserva abaixo dos 243 milhões de barris
prejudica explicitamente a capacidade dos Estados Unidos de travar
guerras.
Mais
uma vez, as fontes se referem a suas análises: no atual ritmo de 1,412 barris
por dia, os Estados Unidos esgotariam sua reserva de segurança de 122 milhões
de barris em exatamente 86 dias.
Em sua
avaliação de risco, as fontes optaram por 60 dias – levando em conta possíveis
falhas na infraestrutura ou o aumento no consumo militar. É assim que chegamos
a meados de agosto de 2026 como o ponto de ruptura.
E isso
não é tudo. As fontes apontam que “os preços poderiam facilmente quebrar os
picos históricos de 2008 e 2022 caso a escassez de produtos refinados
desencadeie uma cascata de paralisações nos setores industriais europeus e
asiáticos. No entanto, uma cifra de centenas de dólares como 700 dólares é
vista por muitos como um máximo teórico que destruiria instantaneamente a
demanda global e faria colapsar a totalidade da arquitetura financeira
internacional antes de poder ser sustentada”.
Mais
uma vez: Teerã programou tudo à perfeição. Quer se chame de cabines de pedágio
ou de taxas de trânsito para petroleiros que queiram passar pelas águas
territoriais do Golfo Pérsico, o fato é que Teerã de fato contornou as sanções
ocidentais. As fontes comentam que “a declaração de Washington de que essa
cobrança é “inaceitável” surtiu pouquíssimo efeito em termos de impedir que as
empresas de navegação pagassem sem maiores discussões para evitar
apreensão”.
Então,
frente ao cenário de a SPR ter esgotadas suas reservas, somado ao fato de o
Estreito de Ormuz ainda estar fechado, “os preços irão subir violentamente,
superando os recordes de 2008, chegando a 150 e 200 dólares o barril.
Nesse
patamar, “a economia física passa por uma imediata destruição da demanda.
Companhias aéreas suspendem voos, redes de navegação param e a atividade
industrial cessa. O preço não consegue se sustentar fisicamente no
nível de 700 dólares porque a máquina econômica global que faz uso do petróleo
irá se desintegrar nos 200 dólares, fazendo com que o consumo caia a quase
zero”.
E aqui
chegamos ao ponto decisivo: “O perigo não é a etiqueta de preço em si, mas o
fato de que a subida do preço irá desencadear o colapso estrutural da
infraestrutura da dívida subjacente”.
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Trump, Crasso, flechas e drones
Estariam
os Estados Unidos – e a economia global – fora de perigo no que se refere a uma
guerra para a qual o próprio Trump deu luz verde?
Depende
de para onde nos levará o elaborado kabuki do MoU entre Paquistão e Suíça. O
petróleo ainda não está fluindo livremente pelo Estreito de Ormuz. E a SPR
continua se esgotando.
O
Neo-Crasso – dado a vociferações apocalípticas e incessantes ameaças de
bombardear o Irã – simplesmente não pode se dar ao luxo de deixar a SPR
secar de todo. Mas é isso que irá acontecer se o Ormuz não voltar ao fluxo
livre, melhor cedo do que tarde. E é Teerã que controla o fluxo, não a
belicista Mar-a-Lago.
Ou o
Neo-Crasso consegue se conter ou ele poderá até mesmo se tornar responsável por
uma crise global ligada à implosão generalizada da dívida soberana.
Até
mesmo os rebanhos de ovelhas cerebralmente lavadas espalhados por todas as
pastagens ocidentais estão agora se dando conta de como o poderoso Império
Romano perdeu para os partas/persas na batalha de Carras, em 53 A.C.
Roma, naquele tempo, marchou rumo à Ásia, convencida de que os partas/persas
seriam esmagados pelo peso de seu poderio.
Carras
é o exemplo clássico da assimetria – ou do Mosaico Descentralizado, para citar
a tática persa de inícios do século XXI. O exército parta era comandado pelo
General Surena – o General Soleimani de nossos tempos – que, em vez de lutar
uma guerra convencional (pensem no Iraque em ambas as Guerras do Golfo) usou a
cavalaria parta para cercar os romanos e lançar sobre eles onda após onda
de flechas, os drones da época.
Os
partas jamais ficaram sem munição, porque caravanas de camelos esperando por
trás do campo de batalha entregavam mais flechas rapidamente. As saraivadas não
acabavam nunca. O poderoso Império Romano perdeu sua coesão e foi epicamente
desmoralizado.
Crasso
acreditou que os partas, em algum momento, ficariam sem flechas e seriam
forçados a um combate corpo-a-corpo. Isso não aconteceu. Crasso terminou sendo
assassinado em meio a uma negociação fracassada.
Essa
grade derrota estratégica destruiu o mito da invencibilidade romana
– da mesma forma que a guerra de 2026 destruiu por completo os
mitos que cercam o maior exército da história das galáxias.
A
história nos diz que foi possível projetar uma guerra usando flechas persas
especificamente destinadas a destruir Crasso e as legiões romanas.
E, em
uma imagem especular, acabamos de ver uma guerra que fez uso de drones persas e
de um Mosaico Descentralizado especificamente destinados a estrangular a armada
imperial liderada por um Neo-Crasso que, abertamente, controla uma máfia boçal
de extorsão-proteção que trabalha a favor de um sindicato do crime organizado
ligado a uma entidade de culto à morte.
Sua
triste carcaça continuará a entulhar o mundo por pouco tempo mais. Que ele não
destrua a economia global nesse processo.
¨
‘A primeira coisa que morre em uma guerra é a verdade’,
diz jornalista sobre acordo entre Irã e EUA
Os
últimos dias foram marcados por ataques no Oriente Médio que atingiram o
Líbano, Kuwait, Bahrein e até embarcações no Estreito de Ormuz. Os episódios
acontecem menos de duas semanas após a assinatura de um acordo de paz entre Irã
e Estados Unidos, que inclui 14 pontos a serem cumpridos pelas partes.
O
tensionamento entre os dois países cresceu e o presidente dos EUA, Donald
Trump, chegou a ameaçar aniquilar a liderança iraniana. Ainda assim,
nesta segunda-feira (29), o mandatário divulgou que o governo persa teria
solicitado uma reunião em Doha, capital do Catar, afirmação negada por Teerã.
Em
entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Flávia
Gianini, jornalista especializada em política e economia internacional, avalia
que não houve um agravamento dos ataques, mas, sim, um tensionamento na posição
política interna e externa dos países envolvidos no conflito.
“Há que
se destacar a posição dos EUA, cada vez mais fragilizada, mesmo tentando
emplacar uma narrativa de que está em negociação de paz. Quando você faz um
acordo de cessar-fogo e, no dia seguinte, ataca uma das regiões que estão
contempladas nesse acordo, você está dizendo que o cessar-fogo existe, mas é
muito frágil”, afirma. “Não dá para acreditar nesse cessar-fogo. Vamos lembrar
que ele existe desde abril e quantos mortos e quantos ataques já tivemos desde
lá.”
Gianini
analisa que a diplomacia tem tentado costurar acordos, mas que não
necessariamente os líderes políticos seguem as recomendações do que é acordado.
Além disso, a jornalista avalia que o impacto econômico, embora evidente,
talvez não tenha chegado ao limite.
“Os
diálogos acontecem através de aliados, mas uma coisa que a gente sempre diz é
que, numa guerra, a primeira coisa que morre é a verdade. A gente tem o Trump
tentando controlar a narrativa, sempre imputando coisas, fazendo anúncios nas
redes, e a gente tem o Irã em uma posição economicamente superior, uma vez que
ele controla o Estreito de Ormuz, e isso tem afetado o mundo inteiro. Ou seja,
essas conversas paralelas existem, os diplomatas se encontram, conversam, mas
isso não significa que eles serão seguidos pelos políticos”, destaca.
Para a
jornalista, é possível que uma trégua sustentável exista, mas as negociações
para uma paz definitiva não podem depender disso. “Precisamos lembrar que o
Hezbollah é considerado, por boa parte dos países ricos, um braço terrorista,
mas a gente tem que lembrar que é um partido político com braço militar. Para a
Europa poder continuar mantendo o diálogo, eles consideram o braço militar
terrorista e o partido político capaz de diálogo. O Hezbollah tem muito apoio
político dentro do Líbano; ele coordena, controla, é proprietário de escolas,
hospitais. Os ataques no Líbano continuam porque o país é muito estratégico em
termos econômicos. Além disso, Netanyahu está em uma situação muito instável,
em que ele sabe que a cabeça dele está a prêmio. Ele sabe que, se a guerra
terminar, vai ser julgado, e isso pode ter consequências graves. A
probabilidade de esses ataques continuarem e piorarem existe. “Mas, como já
dissemos, quando as coisas começam a apertar para todo mundo, as negociações
ficam mais flexíveis”, afirma Gianini.
Fonte:
Tradução de Patricia Zimbres, para Brasil 247/Brasil de Fato

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