Paulo
Henrique Arantes: Maquiavel desenhou Donald Trump há cinco séculos
“O
tirano aterroriza os súditos. Com maleficência, espreita o mundo através de seu
palácio solidamente fortificado; domina toda a vida à sua volta, tão sensível à
presa ou aos predadores que de avizinham quanto a aranha delicadamente
equilibrada no centro da teia. Apodera-se do crédito das realizações de homens
mais nobres, que gastam a própria subsistência em projetos cívicos, como
grandes igrejas e outras belas edificações. Entretém embaixadores de potências
estrangeiras à sua mesa e toma decisões que afetam o bem-estar de todos os
súditos, consultando apenas seus favoritos. Transforma o Estado numa máquina em
proveito próprio e no de seus amigos. E não vacila em arrebatar as posses dos
homens abastados ou a virtude das donzelas puras. Resiste com ferocidade
absoluta a qualquer ameaça à sua autoridade única.”
Parece-lhe
um perfil de Donald Trump? Claro que sim, mas é a descrição de um tirânico
estadista feita pelo frade dominicano Girolamo Savonarola na obra “Tratado
Sobre o Governo da Cidade de Florença”, escrita entre 1494 e 1498. Foi na
Florença de então que viveu Maquiavel, cujo príncipe que batiza sua principal
obra encontra notáveis semelhanças com o tirano de Savonarola, e ambos com a
abominável figura que hoje governa os Estados Unidos.
Na
sexta-feira (26), Trump prometeu ajuda à Venezuela, destruída por um terremoto
de proporções gigantescas, mas não perdeu a oportunidade de proferir seu
sarcasmo desumano, dizendo que o povo venezuelano “está feliz brincando nas
ruas”. É a cara desse vigarista.
Maquiavel
esmiuçou como ninguém o modus operandi dos tiranos donos do poder – “O
Príncipe” é seminal, sua atualidade é assustadora. O estadista maquiavélico, a
despeito de ser dotado de maior sofisticação intelectual do que o atual
mandatário americano, personifica boa parte dos atributos de crueldade que
caracterizam seu congênere do Século XXI.
A
incrível capacidade de mentir, ou incapacidade de dizer a verdade, é marca
indelével de Donald Trump – isso é notório. Também o é para o príncipe de
Maquiavel, como atesta o parágrafo a seguir: “Todos concordam quanto é louvável
que um príncipe mantenha sua palavra e viva com integridade, não com astúcia;
todavia, em nossa época vê-se por experiência que os príncipes que realizaram
grandes feitos deram pouca importância à palavra empenhada e souberam envolver
com astúcia as mentes dos homens, superando por fim aqueles que se alicerçaram
na sinceridade”.
Maquiavel,
no livro espetacular, também destina algumas linhas aos aduladores do príncipe,
decifrando o que lhes está reservado na agenda principesca. Eis um bom recado
aos Bolsonaros, que esperam, incautos, frutos do seu puxassaquismo: “Não quero
deixar para trás um ponto importante, um erro do qual os príncipes dificilmente
sabem defender-se, a menos que sejam muito prudentes e façam boas escolhas.
Refiro-me aos aduladores, dos quais as cortes estão repletas: pois os homens se
comprazem tanto com suas coisas, e de tal modo se enganam com elas, que com
dificuldade se defendem dessa peste. E, caso queiram defender-se, correrão o
risco de tornar-se desprezados; porque um príncipe não tem tem outro modo de
esquivar-se das adulações senão fazendo os homens entenderem que eles não o
ofendem dizendo-lhe a verdade; porém, se todos lhe disserem a verdade, lhe
faltará a reverência devida”.
Em
muito Donald Trump diferencia-se do príncipe maquiavélico. O príncipe cultiva e
conquista adoração, enquanto o presidente americano parece cevar a repulsa à
sua pessoa. O príncipe prima pela disciplina e a racionalidade, Trump é
impulsivo e imprevisível. Contudo, as semelhanças entre eles são mais
gritantes.
Maquiavel
escreveu, em “O Príncipe”, que “é muito mais seguro ser temido do que amado”.
Trump explicitamente adota esse princípio, tendo declarado publicamente que “o
verdadeiro poder é o medo”. O livro do filósofo florentino afirma que o
governante não precisa possuir todas as virtudes, mas deve imperativamente
parecer possuí-las – Trump domina a narrativa pública manipulando a mídia e as
redes sociais para moldar a própria imagem de sucesso e força.
O
desprezo por normas estabelecidas é outro traço que aproxima Trump do
personagem maquiavélico. Maquiavel aconselha seu líder a “aprender a não
ser bom” quando a manutenção do Estado exigir. A quebra sistemática de
tradições institucionais, o descarte de aliados políticos tradicionais e o foco
em interesses nacionalistas estritos espelham esse pragmatismo radical em
Donald Trump.
O
filósofo florentino defendia que o príncipe civil deve subir ao poder com o
suporte do povo para conter a elite econômica. O discurso de Trump foca
exatamente no combate ao “sistema” (the swamp) para inflamar sua base
eleitoral.
¨
O militar acordou. Será? Por Gustavo Guerreiro
A
história adora pregar peças. E a mais recente ocorreu quando o governo
estadunidense, sob a sofreguidão de Donald Trump pelo reordenamento global,
classificou formalmente as maiores facções criminosas brasileiras como
“organizações terroristas estrangeiras”. Apesar do estardalhaço que a notícia
causa nos meios midiáticos, políticos e em grande parte da intelectualidade
brasileira é possível, sem tirar nem pôr, assistir de camarote algumas velhas e
convenientes certezas desabando.
Tendemos
a crer, talvez entorpecidos pela quantidade de notícias absurdas diariamente,
que as bravatas destiladas por Trump contra a América Latina não passam de um
espetáculo eleitoral focado em agradar seus redutos radicais. Outra grande
ilusão é a de que o pré-candidato bolsonarista teve papel determinante, lhe
sendo atribuída uma importância além da de capacho dos interesses ianques. Puro
engano. A repentina reclassificação jurídica das facções narcotraficantes
brasileiras opera, na verdade, como um mecanismo de pressão geopolítica
hemisférica.
A
medida não distingue quem é santo ou demônio. Foi assim que, de maneira
absolutamente dialética, ela parece ter desestabilizado o intrincado labirinto
ideológico que sustenta a décadas as nossas Forças Armadas. A astúcia da razão,
como ensinou Hegel ao observar as contradições do espírito humano, tem dessas
coisas. Uma ação imperialista dessa magnitude não passa sem produzir efeitos
colaterais. Diante da ilusão de que as forças armadas brasileiras permaneceriam
em sua eterna latência, Washington talvez tenha despertado a Caserna para sua
missão precípua: a defesa da soberania brasileira.
Trata-se
apenas de uma percepção sem nenhum lastro científico. Blogs de assuntos
militares, como o Defesa em Foco, publicou em março de 2025 o artigo “Trump,
geopolítica e a fragilidade estratégica do Brasil”. Esse artigo trata da
vulnerabilidade estratégica do Brasil diante das imposições dos EUA para uma
ordem global mais fragmentada e agressiva. O texto expõe a falta de uma
política externa clara e de alianças sólidas do país. Como este, outros estão
sendo produzidos. Isso não significa dizer que houve uma guinada ideológica
castrense. Mas as condições apontam para um ajuste, uma vez que a potência
imperialista do Norte se mostra cada vez mais hostil.
Ao
transformar um problema crônico de segurança em um conveniente pretexto para a
intervenção extraterritorial, Washington transforma o território brasileiro em
alvo potencial. Subitamente, diante do abismo de sua histórica sabujice, irão
os generais se dar conta de que o alinhamento automático jamais conferiu status
diferenciado à Caserna e seus próceres? Ou apenas tiveram um alvo pintado em
suas costas?
Para
entender a gravidade dessa reclassificação semântica imposta de fora para
dentro, é necessário superar a ingenuidade crônica das elites econômica
brasileiras. É preciso voltar os olhares para a derrocada do atual
sistema-mundo, com atenção especial para Venezuela e Irã. A ordem mundial,
esfacelada pelo direito militarizado, encontra na aplicação do rótulo de
“terrorismo” o léxico imperialista de Washington.
Trata-se
de uma implacável artimanha jurídica. É o sinal verde para autorizar – sem
nenhum pudor institucional ou contenção burocrática – operações de sabotagem,
operações militares, estrangulamento econômico e até bombardeios. O já
complicadíssimo enfrentamento ao crime organizado é subsumido pela decisão
unilateral da guerra global ao terror, pretexto maior para reduzir a pó a
soberania de qualquer país que ouse se autodeterminar.
Este
trágico propósito me remete à brilhante tese sociológica do historiador Gopal
Balakrishnan, que resgatando Weber, elabora uma teoria sobre a gênese violenta
dos Estados modernos. Balakrishnan afirma que “é durante a guerra que a nação é
imaginada como uma comunidade que incorpora valores supremos”. Nada é tão
poderoso e capaz de unir uma nação como a perspectiva de uma guerra, nem a
seleção brasileira, nem o Pix, nem Shakira em Copacabana.
A mera
insinuação diplomática de que tropas de marines estadunidenses
têm sinal verde para desembarcar no Brasil (embora seja improvável à primeira
vista) choca as nossas Forças Armadas. Esse sinal de alerta obriga o establishment reacionário
a repensar a função da própria Defesa. Fica claro que o Brasil não pode
continuar a ser concebido institucionalmente uma imensa delegacia de polícia. O
Estado, estruturado invariavelmente para conter a massa de indesejáveis urbanos
descartados pelo capital, passa ser encarado como uma comunidade política
soberana sob ameaça existencial.
O
“campo de batalha” deixou de estar restrito às periferias e favelas. Foi
deslocado para nossas cobiçadas fronteiras. Essa mudança expõe a brutal
assimetria de visões estratégicas dentro das FFAA, algo permanentemente
excluído do debate público pela imprensa comercial.
De um
lado, um Exército historicamente afogado no lodaçal da Doutrina de Segurança
Nacional (DSN), que na eterna vigilância contra um fantasmagórico “inimigo
interno”, foi domesticado pela rotina brutal e inócua das Operações de Garantia
da Lei e da Ordem (GLO) e agora na reclamação dos cortes de verbas para
“vigilância” de fronteiras. As infindáveis portarias publicadas no Diário
Oficial da União nos mostram esse Exército é viciado em enxergar no cidadão
marginalizado um eterno fator subversivo.
De
outro lado, encontramos setores altamente técnicos da engenharia militar,
especialmente a Marinha, que ainda mantêm em uma perspectiva estratégica de
longo prazo. Estou me referindo ao Programa de Desenvolvimento de Submarinos
(PROSUB), inegavelmente um dos mais raros e atacados lampejos de soberania das
nossas últimas décadas, pois envolvia também o desenvolvimento de tecnologia
nuclear, um dos pilares estratégicos mencionados na Estratégia Nacional de
Defesa de 2008. Quando o acordo de transferência de tecnologia com a França foi
estabelecido, os engenheiros franceses solicitaram a colaboração da construtora
Odebrecht para tornar o projeto viável, reconhecendo a inegável competência
técnica da engenharia brasileira.
Era a
única empresa do hemisfério sul dotada da capacidade civil pesada capaz de
viabilizar o gigantesco estaleiro nuclear de Itaguaí. Contudo, a fúria do lawfare destrutivo
da Lava Jato de Sérgio Moro, Dalagnol e demais agentes a serviço do
Departamento de Justiça dos EUA, a nossa engenharia nacional de ponta foi
desmantelada. Diante do perigo iminente de uma intervenção estrangeira,
pergunto: será que agora o Exército passará a enxergar a soberania com a lente
estratégica, científica e de longo alcance da engenharia naval? Ou continuará
patologicamente obcecado pela caça cega ao fantasma do “inimigo interno”
comunista?
Para
responder essas questões é preciso compreender a profunda crise de identidade
que se abate sobre a Caserna desde o fim da ditadura militar, segundo o
historiador Manuel Domingos. Por décadas, o Exército tem sido mantido
artificialmente relevante por meio de uma dupla função: a atuação como polícia
de fronteira e a execução de ações de assistência social. Tudo isso ocorre sob
a subserviência estratégica ao guarda-chuva da segurança hemisférica dos EUA.
Essa equação é vantajosa. O Brasil atribui aos generais maior importância do
que eles realmente possuem. Isso permite que usufruam de orçamentos, benefícios
previdenciários e salários diferenciados, prestígio e influência política sem
nunca ter que lidar com o perigo real de proteger o território nacional de uma
ameaça externa concreta.
Os
militares agora se confrontam com um paradoxo que se manifesta em toda a sua
crueldade. O “aliado” que, durante décadas ofereceu uma justificativa
ideológica para a seu protagonismo contra o combate ao comunismo, à subversão e
ao inimigo interno agora aponta seus canhões contra o Brasil. Quando Washington
reclassificou facções criminosas, na verdade reclassificou o Brasil. Ao tratar
nosso país como “abrigo de grupos terroristas”, passou a reservar para si o
direito soberano de agir no nosso território sempre que julgar conveniente. É a
mesma lógica que antecedeu o Kosovo, o Afeganistão, o Iraque, a Líbia e,
recentemente, a Venezuela. A quem ainda duvida que o léxico precede os
bombardeios, revisite a história recente com mais atenção.
Neste
momento, a questão que se apresenta não é de natureza político-ideológica, no
sentido mais restrito e eleitoral, mas sim estrutural. A décima economia global
e segunda maior das Américas é detentora da maior reserva de água doce, da
maior biodiversidade e da maior floresta tropical. Ela possui imensas reservas
de petróleo e a segunda maior reserva de terras raras, que se atreve a agir de
forma independente. Portanto, precisa ser controlada. Adiciona-se a isso o seu
potencial nuclear latente, evidenciado pelo PROSUB e pelo controle da
tecnologia de enriquecimento de urânio. Em qualquer análise geopolítica séria,
o Brasil não é considerado um país periférico. Trata-se de um ator de primeira
grandeza.
A
tragédia brasileira é que todo esse potencial colossal convive com uma classe
dirigente que o negligencia. A clássica interpretação de Florestan Fernandes em
“A Revolução Burguesa no Brasil” define a nossa elite econômica não como uma
burguesia clássica, mas como uma autocracia burguesa, incapaz de liderar um
projeto de nação autônomo em nome de uma dependência de ganhos imediatos e em
prejuízo do povo. Essa classe consolidou um modelo de capitalismo dependente
que caracteriza nossa economia até hoje. A diferença é que o custo dessa
abdicação histórica nunca foi tão alto.
O
cenário imposto por Washington nos coloca, portanto, em uma encruzilhada
histórica, pois força a pergunta maior que o pacto de silêncio das elites
brasileiras sempre tentou sufocar: para que serve, afinal, um exército que não
defende o próprio país? As ações de GLO, o patrulhamento de fronteiras nas
operações Ágatha – que são uma extensão da política antidrogas estadunidense –,
a participação em missões da ONU e as ações assistencialistas compõem um
cardápio de funções subsidiárias, em que algumas desviam a missão precípua do
Exército, que busca apenas prestígio e orçamento. Os generais jamais se
preocuparam em desenvolver uma doutrina militar verdadeiramente soberana, que
defendesse o povo brasileiro e sua diversidade e que fosse orientada pela
defesa do interesse nacional.
O que a
conjuntura atual exige é o oposto: priorização da capacidade de dissuasão,
autonomia tecnológica, soberania territorial, inteligência estratégica
independente, unidade na diversidade, construção de uma zona de paz e
cooperação com nossos vizinhos. Sobretudo, uma política externa que não oscile
aos sabores dos ventos do norte que, como diz a canção de Ney Matogrosso, não
movem moinhos. Mas a reconstrução dessas capacidades não se dá em intervalo de
anos, mas de gerações. E esse projeto pressupõe a superação do ciclo de
dependência que é frequentemente defendido pela extrema-direita e aprofundado
em operações de lawfare como a Lava Jato e outras, que
tentaram desmontar os pilares industriais e tecnológicos, sobre os quais a
soberania nacional deve estar assentada.
Nesse
sentido, a questão do título deste artigo — “o militar acordou” — não requer
somente uma resposta binária. O que a conjuntura atual parece indicar é um
despertar fragmentado, assimétrico e ainda sem direção clara, que pode,
inclusive, não dar em nada. Diante das experiências recentes, entendo que há
sinais sutis de que setores das Forças Armadas começam a perceber que o
alinhamento automático com Washington deixou de ser um passaporte para a Disney
para se tornar uma vulnerabilidade. Não sejamos ingênuos! Esse possível
despertar coexiste tensionado com a persistência de uma cultura institucional
profundamente colonizada e seus próceres ideológicos contemporâneos.
A
história, como se disse no início, adora pregar peças. E talvez esta seja uma
das mais irônicas, uma vez que foi necessário um presidente estadunidense
errático, movido por impulsos narcisistas e cálculos eleitorais de curto prazo
e mal feitos para lembrar ao Brasil que ele existe como nação. A grande lição
que fica é que para existir como nação, é preciso coragem, estratégia e unidade
nacional, algo que nenhuma subserviência estratégica seria capaz de produzir.
Fonte:
Brasil 247

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