Arrogância
do Brasil no futebol contrasta com imagem de país alegre, diz comentarista
inglês
Quando
o jornalista Tim Vickery deixou a Inglaterra para morar no Rio de Janeiro, em
1994, a seleção brasileira voltava a ganhar uma Copa do Mundo após um jejum de
24 anos.
Mesmo
depois de uma nova conquista em 2002, Vickery afirma que brasileiros e
estrangeiros admiradores da seleção seguem presos à memória dos times que
conquistaram três Copas num intervalo de 12 anos, entre 1958 e 1970.
Segundo
o jornalista, essa memória alimenta entre os brasileiros um sentimento de
superioridade e a ideia de que o Brasil tem de ganhar todas as Copas, mas
também faz com que estrangeiros admiradores da seleção se frustrem quando o
time não consegue repetir o nível do passado.
Comentarista
de futebol sul-americano da BBC Sport e colaborador de programas esportivos
brasileiros, como o Redação SporTV, Vickery diz que os brasileiros são
especialmente sensíveis quando a seleção é criticada por estrangeiros.
"Existe
muita raiva e uma sensação constante [entre os brasileiros] de que 'o mundo
está contra nós'. Isso contrasta muito com a imagem internacional do Brasil
como um país alegre", afirma.
"Na
verdade, o mundo continua admirando profundamente a história do futebol
brasileiro. Muitas críticas à seleção atual são, no fundo, uma reverência às
grandes seleções do passado, especialmente a de 1970."
Em
entrevista à BBC News Brasil, Vickery também analisa o desempenho do técnico
italiano Carlo Ancelotti na seleção. Segundo ele, Ancelotti é pragmático e
nunca teve a pretensão de mudar a filosofia da equipe.
"[É
como] um médico que chega com Band-Aid e o coloca no lugar certo", define.
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Confira os principais trechos da entrevista.
• Como você analisa o desempenho do Brasil
na Copa até agora?
Tim
Vickery: Tem sido muito interessante ver esse choque cultural entre a
mentalidade brasileira e um treinador italiano de outra escola. Na cultura
italiana, muitas vezes, fazer o mínimo necessário já basta. Ancelotti chegou
com pouco tempo e percebeu que essa fase de grupos, especialmente neste
formato, permite experimentar. Ele usou esse período como um laboratório para
encontrar o time ideal.
Na
visão dele, o Brasil evoluiu: o melhor jogo foi contra o Japão, o segundo
melhor contra a Escócia. Em torneios, você não precisa ser o melhor time o
tempo todo. Precisa ser o melhor no momento certo.
Já a
mentalidade brasileira ainda está muito presa à visão construída entre 1958 e
1970, quando o Brasil ganhou três Copas em quatro edições. Qualquer coisa
diferente disso parece antinatural.
Só que
a diferença entre o futebol de 1970 e o de hoje é enorme. Mais países passaram
a levar o futebol extremamente a sério. Mas muitos torcedores brasileiros
acompanham pouco o futebol internacional e acabam julgando a seleção sem esse
contexto.
Meu
neto [brasileiro] vai fazer nove anos. Ele nunca viu o Brasil ser campeão do
mundo, mas, mesmo assim, no imaginário dessa geração ainda existe aquela ideia
de superioridade da seleção brasileira.
Há
situações que só acontecem aqui, como vaiar o Alisson [o goleiro brasileiro foi
vaiado no Maracanã após sofrer um gol no jogo em que o Brasil ganhou de 6 a 2
do Panamá, em 31 de maio]. Vejo esses choques culturais entre a abordagem do
Ancelotti e uma expectativa brasileira que, em muitos aspectos, ainda está
presa ao passado.
• Você já percebia essa postura quando se
mudou para o Brasil, em 1994?
Vickery:
Sim. Essa ideia já existia. Às vezes sinto até uma certa pena, porque a Copa é
uma viagem, mas no Brasil parece que só o destino importa. Se ela não termina
com o título, nada valeu.
É uma
situação curiosa: a torcida brasileira é, ao mesmo tempo, mal acostumada pelo
sucesso histórico e frustrada pelos resultados recentes.
• Havia uma expectativa de que um técnico
estrangeiro fosse resolver os problemas da seleção. Mas, um ano depois da
chegada de Ancelotti, o time ainda parece em construção. A expectativa era
irreal?
Vickery:
Era. Existem técnicos que chegam para implantar uma filosofia e outros que
trabalham com o material que têm. O Ancelotti pertence ao segundo grupo.
Desde o
início ele disse que não queria um time preso a uma identidade única. Quer uma
equipe capaz de fazer coisas diferentes conforme o jogo exige.
Esperar
que ele transformasse completamente o Brasil em um ano nunca foi realista.
O
grande mérito dele é a serenidade e a capacidade de tomar decisões difíceis.
Contra o Japão, por exemplo, fez mudanças que quase ninguém faria e elas
decidiram a partida. Isso não acontece por acaso, é uma marca da carreira dele.
Então,
em vez de um grande idealista, um grande filósofo com uma ideia de futebol que
não não teria tempo para implantá-la, você tem um médico que chega com Band-Aid
e o coloca no lugar certo.
• Em qual patamar você enxerga o Brasil
nesta Copa?
Vickery:
A França está um patamar acima de todo mundo. Mas o Brasil continua capaz de
vencer qualquer seleção.
O
próprio Ancelotti sabe que existem várias equipes que podem derrotar o Brasil,
mas também sabe que o Brasil pode vencer qualquer uma delas. A França seria
difícil, mas ele vai levantar uma sobrancelha e pensar num jeito.
• Você recentemente criticou nas redes
sociais brasileiros que têm um discurso bastante reativo quando estrangeiros
criticam a seleção e ficam o tempo todo cobrando respeito ao time. Pode
explicar?
Vickery:
Eu falava tanto da seleção quanto dos clubes [brasileiros], mas quase todas as
respostas se concentraram na seleção. E percebi que esse discurso aparece em
todo lugar: "tem que respeitar o Botafogo", "tem que respeitar o
Fluminense"... É algo muito forte na cultura brasileira.
O
Brasil é um país que construiu muitos mitos sobre si mesmo. A identidade
nacional foi fortemente moldada ao longo do século 20, e o futebol teve um
papel central nesse processo.
Quando
cheguei aqui, uma das coisas que mais me surpreenderam foi a quantidade de
raiva presente no debate esportivo. Existe muita raiva e uma sensação constante
[entre os brasileiros] de que "o mundo está contra nós". Isso
contrasta muito com a imagem internacional do Brasil como um país alegre.
Na
verdade, o mundo continua admirando profundamente a história do futebol
brasileiro. Muitas críticas à seleção atual são, no fundo, uma reverência às
grandes seleções do passado, especialmente a de 1970.
• Você sente que, por ser estrangeiro, as
críticas que faz à seleção brasileira provocam reações mais fortes?
Vickery:
Dentro da enorme insignificância da minha opinião, sou obrigado a concordar.
• Essa ideia de que a camisa da seleção
tem uma força quase mítica acaba prejudicando o time?
Vickery:
A tradição pode inspirar, mas também pode atrapalhar. Confiança não é uma coisa
abstrata, ela nasce da percepção da própria capacidade.
O
Brasil é historicamente a maior seleção do mundo, mas é a única grande potência
que sediou duas Copas e não venceu nenhuma. A pressão pesa muito.
• Acha que a torcida brasileira mais
atrapalha do que ajuda?
Vickery:
Pode atrapalhar. E não é somente a torcida, mas também a necessidade de fazer
jus a uma tradição que pesa muito.
Em 2014
isso ficou muito claro. A Alemanha provavelmente venceria aquele Brasil na
maioria das vezes. Mas nunca seria 7 a 1 sem toda a pressão emocional de uma
Copa disputada em casa.
• Muitos brasileiros se impressionam com
imagens de torcedores em países como Bangladesh, Haiti e Líbano comemorando as
vitórias do Brasil. A força simbólica do futebol brasileiro no exterior
continua a mesma?
Vickery:
Acho que diminuiu um pouco, mas continua muito forte.
Isso
tem muito a ver com o México de 1970. Aquela seleção marcou o imaginário do
planeta inteiro. O Brasil virou o "segundo time" de muita gente.
O
Brasil ficou estabelecido como a terra da pureza futebolística. Não é só que
ganhava, era como ganhava. Ganhava sem truques, sem sujeira. Quem conhece a
história do futebol sul-americano sabe que essa visão é idealizada demais, mas
foi assim que o Brasil passou a ser visto, e essa imagem continua servindo como
parâmetro.
Hoje,
quando as pessoas veem o Brasil tratando a bola no meio-campo como não fazia
antigamente, ou jogadores caindo em campo de uma maneira que também não caíam,
surge a comparação.
Houve
até um debate sobre as dancinhas [na comemoração de gols] na última Copa. Para
muita gente, aquilo soou como uma forma de humilhação do adversário. No Brasil,
a resposta foi: "Isso faz parte da nossa cultura". Os estrangeiros
respondem: "Mas o time de 1970 não fazia nada disso".
Por
causa disso, pessoas que antes adotavam o Brasil como seu segundo time já não
fazem isso com a mesma frequência.
A Nike
[patrocinadora da seleção] tentou reforçar, nos anos 1990, essa imagem quase
mítica do Brasil como o Dream Team do futebol. Só que, quando a realidade não
corresponde a esse ideal, isso gera uma reação contrária.
• Existe a possibilidade de Brasil e
Inglaterra se enfrentarem nas quartas de final. Como esse confronto seria visto
pelos ingleses?
Vickery:
Primeiro a Inglaterra teria de passar pelo México no [estádio] Azteca, o que já
seria dificílimo.
Mas,
claro, o Brasil continua impondo um enorme respeito. Mesmo com problemas, tem
talento individual suficiente para decidir qualquer jogo.
Se a
Inglaterra eliminasse México, Brasil e Argentina em sequência, seria, para mim,
a maior campanha da história da seleção inglesa.
• Os clubes brasileiros são hoje os mais
fortes da América do Sul, e quase todas as últimas edições da Copa Libertadores
foram vencidas por equipes brasileiras. Por que isso não se traduz numa
superioridade do Brasil em relação às outras seleções sul-americanas?
Vickery:
Porque hoje existe uma separação muito grande entre o futebol doméstico e o
futebol de seleções.
A
seleção colombiana, por exemplo, quase não tem jogadores atuando na Colômbia. O
mesmo vale para Paraguai, Equador e vários outros países.
Hoje
muitos dos melhores jogadores do Campeonato Brasileiro nem brasileiros são.
Portanto, a força da liga nacional já não se reflete automaticamente na força
da seleção.
• Você conhece profundamente o futebol
argentino. Como compara a relação de brasileiros e argentinos com suas
seleções?
Vickery:
A Argentina tem uma torcida muito mais orgânica. A seleção joga quase sempre em
Buenos Aires, existe um público que acompanha sempre.
No
Brasil, como a seleção circula pelo país inteiro, há um esforço constante para
construir essa identidade de torcida.
Mas, no
fundo, o papel simbólico da seleção é parecido nos dois países. Brasil,
Argentina e Uruguai transformaram o futebol em uma das principais expressões da
identidade nacional.
• Se a Argentina conquistar esta Copa e
Messi mantiver o nível que apresentou nos primeiros jogos, crescerão as
comparações entre ele e Pelé?
Vickery:
Sem dúvida. Fora do Brasil, isso provavelmente consolidaria a ideia de que
Messi superou Pelé.
Eu,
pessoalmente, ainda escolheria Pelé. Pelé ajudou a transformar a Copa do Mundo
no maior evento esportivo do planeta. Todos nós que vivemos o futebol moramos,
de certa forma, numa casa que Pelé construiu.
Ao
mesmo tempo, o que Messi faz aos 39 anos de idade também precisa ser
valorizado.
O
problema é quando esse debate vira uma disputa para diminuir um dos dois. Quem
ama futebol ama Pelé e ama Messi. Ponto.
Fonte:
BBC News Brasil

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