Classe
média, o sargento da oligarquia
No
livro de 2018 reeditado em 2026 o sociólogo Jessé Souza continua sua
interpretação da estrutura das classes no Brasil, em seguida à Elite do Atraso
e outros como o excelente O Pobre de Direita, trabalhos já resenhados neste
espaço.
Além de
repetir conceitos já desenvolvidos em suas obras anteriores, o autor especifica
que nos diversos países a classe média tem formação e papel diferente na
sociedade. Em outros lugares teve formação popular e revolucionária.
No
Brasil, principalmente sua camada mais alta, tem grande afinidade e
subjetivamente se imagina com os mesmos interesses da chamada Elite do Atraso.
Já a massa da classe média se divide em um setor que busca seguir o mesmo
caminho e outro que historicamente apresenta alternativas. Este procura buscar
rotas mais progressistas para a sociedade, parcela combativa, mas no geral
derrotada.
Em seu
aspecto principal a classe média desempenha o papel de administradora e
defensora a serviço da elite capitalista detentora dos meios de produção.
O autor
busca a origem ideológica da classe média brasileira na sociedade escravocrata.
Segundo ele, tratou-se de um setor de pessoas livres da escravidão formado por
brancos, mestiços e escravos libertos, tanto uns quanto outros destituídos de
capital. Prestadores de serviços e dependentes econômica e ideologicamente dos
senhores de terras e escravos. Na sua opinião o precursor exemplar dessa classe
é o agregado, o jagunço, a mão armada dos senhores de terras e escravos, que se
imaginava da elite porque aos sábados era admitido a participar do café da
manhã na sala com o senhor.
Ao
mesmo tempo vai se formando uma franja de artesãos como costureiros,
carpinteiros, marceneiros, ferreiros, pequenos produtores agrícolas, os
encarregados de administrar a produção da usina ou do engenho, e dar-lhe
destino, cuidar dos negócios. Apesar da submissão sentem-se diferenciados dos
escravizados. Com o desenvolvimento do comércio surgem profissões novas, a
modista, o alfaiate, o livreiro, o comerciante, o importador de novidades
europeias. É uma primeira forma de classe média.
Além
deles, desde 1808, com a instalação do Estado no país, um setor de letrados a
serviço da elite, incluindo mestiços, cuidará do fisco, dos serviços
administrativos, da justiça e da polícia. Semente de uma classe média do
“bacharel”, fruto da posse do que o autor chama de capital cultural, técnico e
pragmático, necessário para os serviços essenciais do mercado ou do Estado.
No
início do século XX, com a transformação do capital comercial em capital
industrial, cria-se o impulso para a formação da classe média moderna, que vai
organizar e defender os interesses da indústria e da sociedade que se constitui
a partir dela.
Com a
chegada de milhões de imigrantes europeus entre 1880 e 1930 a classe média se
torna mais branca e reproduz a subserviência histórica do agregado. Assim se
constrói o bloco do “poder branco” que une a elite de proprietários dos meios
de produção e a classe média branca contra qualquer pretensão de ascensão
social da população pobre, mestiça e negra.
Essa
aliança se mantém pelo poder do dinheiro com a contribuição decisiva do
elemento cultural. Nesse segundo aspecto a diferença se dá desde a primeira
infância entre um lar de classe média, cercado de estímulos e oportunidades de
aprendizagem e outro, pobre, tanto materialmente como pela ausência dessas
experiências culturais. E continua na escola, quando uns já estão
alfabetizados, levam suas informações adquiridas e vão desenvolvê-las em boas
instituições de ensino e outros, analfabetos, vão continuar com grandes
dificuldades de aprendizado, muitas vezes em más escolas. Uns, brancos,
vencedores; outros, negros e mestiços, perdedores. Desde o início.
Aos
vencedores caberão os melhores empregos, os melhores salários. Aos perdedores
caberão os trabalhos sem qualificação, o trabalho físico, os salários mais
baixos. Os vencedores se encherão de orgulho iludindo-se de que o sucesso se
deve às suas qualidades. Na essência a diversidade de destinos é fruto da
diferença de oportunidades.
Aqui o
autor destaca o papel do conhecimento, detido pela classe média, que considera
um capital tão importante para o funcionamento do capitalismo quanto o próprio
capital econômico.
De
acordo com ele a classe média moderna vai se desenvolver em todas as suas
virtualidades apenas com o capitalismo industrial quando se generaliza a
necessidade de novas funções de controle e supervisão da produção econômica em
grande escala. Nesse estágio surge a necessidade do trabalho de legitimação e
justificação da nova ordem, tarefa assumida pela classe média.
Sem
distorcer o mundo social as classes dirigentes não podem fazer o trabalho sujo
de se apropriar da riqueza social. Os intelectuais e a imprensa fazem, hoje em
dia, o trabalho que os jagunços faziam, e ainda fazem, para os latifundiários
do passado: facilitar por meio da violência a apropriação da riqueza coletiva.
A
diferença é que a eliminação física foi substituída, desde que não seja pobre
ou negro, pelo sequestro da inteligência e da capacidade reflexiva de homens e
mulheres comuns, sob a forma de ideias que nos manipulam e nos fragilizam,
tornando nosso comportamento hesitante e confuso.
Uma
imprensa manipuladora e hipócrita, uma indústria cultural antirreflexiva e
concepções de mundo hegemônicas e subservientes ao poder de fato são os atuais
exércitos simbólicos que mantém submissa a sociedade e bloqueiam seu potencial
de desenvolvimento.
A
camada superior da classe média combina algum capital econômico e muito capital
cultural e relações pessoais. Atua fazendo a gerência e supervisão da riqueza
da elite de proprietários. É uma fração de classe decisiva para o capital
financeiro dominante. Seus dirigentes se identificam de tal modo com os
interesses da elite que acabam vivendo a confusão de se ver como os
responsáveis efetivos do negócio. Sentem-se como se fossem o “verdadeiro
patrão” e tiram uma gratificação emocional dessa ilusão.
A
classe média se mobiliza e vai às ruas contra a corrupção, mas sempre quando se
trata de derrubar governos populares, como o de Getúlio Vargas e de Dilma
Roussef, quando as acusações se revelaram infundadas. No entanto, no seu
dia-a-dia é a classe que pratica amplamente a corrupção em favor da elite e de
si própria.
ENTREVISTAS
Jessé
Souza realizou inúmeras entrevistas com representantes da alta classe média e
destacou algumas que julgou exemplares.
“MEU
TRABALHO É COMPRAR AS PESSOAS”
Sergio,
CEO, executivo de um grande banco de investimentos, muito culto, formado em
universidades estrangeiras, tem prazer em uma sinceridade desconcertante. É
amigo desde a adolescência do dono de um banco. Diz: “ele é um gênio, sabe onde
encontrar o dinheiro (…) eu só faço comprar as pessoas para que as coisas
aconteçam como ele quer”.
Conta
que tem uma equipe de advogados que faz a rotina do trabalho jurídico. “Eu faço
os contatos com os juízes, políticos e jornalistas e cuido dos clientes
estrangeiros (…) as pessoas são compradas com dinheiro vivo e com depósitos em
paraísos fiscais. Sem deixar rastros. Não se iluda. Toda licitação pública,
todo negócio lucrativo, sem exceção, é repartido e negociado”.
Ele
lembra de um caso: “Havia um jornalista de “O Estado de S. Paulo” metido a
investigador que publicava notas negativas sobre nossos negócios. O dono do
banco ofereceu milhões, mas o cara não aceitou. O que fizemos? Compramos o
jornal, um dos maiores do Brasil, e demitimos o fulano”. Apesar de que esse
jornalista tenha se negado a se corromper Sergio afirma que nunca encontrou uma
pessoa que não tivesse preço.
O
GERENTE DE UMA CADEIA DE LOJAS QUE PENSA SER O DONO
Antônio
Bianchi é o gerente de uma cadeia de lojas de roupas femininas com sede em São
Paulo que tem 12 filiais nas maiores cidades do país. Conseguiu esse cargo por
meio da sua esposa, parente próxima dos proprietários da rede de lojas, uma
empresa familiar. Ele se sente o dono do negócio. Os proprietários não
participam da administração, limitam-se a receber os lucros.
Bianchi
combina essa atividade com militância política conservadora. Sempre que surgem
acontecimentos políticos importantes ele manda recados para seus empegados, que
chama de “colaboradores”. Diz que estará na manifestação e espera vê-los lá.
Muitos comparecem e o procuram para serem vistos, por medo de demissão. Ao
topar com algum “colaborador” nesses comícios de direita Bianchi é efusivo.
Cumprimenta e abraça. Se percebe que algum empregado tem posições de esquerda,
demite sumariamente.
Na
ocasião em que o STF negou habeas corpus a Lula, Bianchi promoveu uma grande
festa. Tomou champanhe Moet Chandon com seus colaboradores mais próximos e
mandou servir espumante barato para os outros. Quando Lula foi preso mandou
seus empregados às ruas para participar das manifestações de apoio à prisão.
Alegava que estava pensando no futuro dos funcionários, pois o futuro do Brasil
dependia disso. “A Justiça foi feita”, exclamou.
Maria
Antônia, sua esposa, é uma “perua arrogante”, segundo uma funcionária. Costuma
constranger os empregados com críticas acerbas. A uma funcionária disse: “faça
o que te mandei. Só não te mando embora agora porque sei que é uma morta de
fome”. E, claro, é racista. No cabeleireiro recusou que uma trabalhadora negra
a penteasse. “Essa mulher não toca no meu cabelo”, disse, na frente da moça.
CAIO, O
ARBITRÁRIO GERENTE DE FAZENDAS
Caio
Marcondes administra uma grande empresa rural com várias fazendas no Triângulo
Mineiro, interior de São Paulo e Mato Grosso do Sul. É militante político
conservador e fã incondicional de Jair Bolsonaro. Jessé Souza foi recebido para
entrevistá-lo na condição de representante da alta classe média. Estavam numa
bela fazenda na região de Uberlândia com criação de gado e cavalos de raça.
Reunido
com amigos e o filho adulto, Caio bebia e se divertia lembrando de suas
‘pescarias”. Periodicamente ele vai a pescarias com amigos, quando menos pescam
peixe do que produzem festas com uísque, cocaína e prostitutas.
Na
semana anterior ele havia se desentendido com sua esposa Júnia em público.
Estava bebendo e confraternizando com amigos quando ela confiscou as chaves da
camionete para evitar que o marido fosse a uma “pescaria”. Ele tratou de pegar
as chaves “na marra” dando um safanão na mulher, cujos óculos foram parar
embaixo da mesa. Muito míope, ela teve que engatinhar sob a mesa para recuperar
os óculos em meio a risada cruel de todos.
Relembrado,
o episódio ainda provocava muito riso de Caio, amigos e do seu próprio filho
mais velho, de 17 anos. Com indisfarçável satisfação Caio chama a esposa de
“dona Onça”, devido ao que considera seu temperamento forte.
As
garrafas de bebidas, que logo se esvaziaram, foram guardadas para uma diversão
logo após o churrasco. Caio tem um arsenal de armas, espingardas calibre 12,
pistolas de vários tipos e até mesmo um fuzil. Logo as garrafas foram
despedaçadas a tiros em torno de apostas.
Jessé
pergunta se havia necessidade de armas para a proteção da fazenda e Caio
responde que ninguém seria louco para invadir “sua” propriedade. “Se alguém
vier aqui tomar o que é nosso, atiro primeiro e faço perguntas depois”, afirma.
Conta
que o grupo econômico que o emprega tem também uma fazenda de feijão no
interior de São Paulo e outra de soja no Mato Grosso do Sul. E que em São Paulo
um “promotorzinho” resolveu encrencar com uma guia de recolhimento de impostos
que estavam usando. “Quis nos processar. Aí mandei um recado pra ele. Está bem
quietinho agora.” Ouvindo isso os amigos de Caio riram a valer.
A
verdade é que ele estava sonegando impostos. Seus caminhões carregados de
feijão usavam a mesma guia durante o dia, em vez de apresentar uma guia para
cada viagem, como manda a lei. Assim pagava uma pequena fração do imposto
devido.
Para
Caio o imposto é um abuso e o Estado um agente da corrupção. No entanto ele era
apoiador da Lava Jato e do juiz Sergio Moro quando representavam uma suposta
ação contra a corrupção. Ele não percebe contradição entre o apoio à Lava Jato
e a ameaça ao promotor. Ele se vê como um baluarte na luta contra o Estado
corrupto. Apesar de sonegar impostos e fazer ameaças de violência.
Fonte:
Por Carlos Azevedo, em Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário