O
desprezo pelas ciências humanas
Recentemente,
em meus estudos de pré-vestibular, deparei-me com diversos comentários de
estudantes que defendiam a ideia de que seria plausível, e até mesmo melhor,
negligenciar a matéria de linguagens e humanas para que se possa focar
totalmente nas ciências naturais e na matemática. Retirando a relação de
proficiência estudantil e a questão do peso em notas, nota-se uma visão que, de
certa forma, busca o isolamento das ciências humanas e linguísticas e que
despreza o uso das mesmas.
Sob
essa perspectiva, qual seria o motivo do desprezo por essas áreas específicas?
Seria um caso de grande entendimento da matéria e, sendo assim, seria melhor
focar nas fragilidades do estudante? Seria uma visão que discorda da
importância dessas ciências para a humanidade? Seria uma combinação de ambos os
fatores?
Certamente,
não deixei de considerar a possibilidade de haver interferência do pensamento
conservador nesse cenário. Há quem veja nas humanidades uma ameaça à ordem
estabelecida, associando o pensamento crítico à doutrinação ideológica. Esse
receio, ainda que velado, alimenta a desconfiança em relação ao conhecimento
produzido por essas áreas. Comentarei, nesse texto, a relação de desprezo com
as ciências humanas especificamente, porém, não desconsidero a tese de que as
linguagens também são vítimas do mesmo processo.
Ademais,
poucos se sentiriam autorizados a discordar de um engenheiro sobre a
resistência de uma ponte ou de um médico sobre o diagnóstico de uma doença. No
entanto, quando o tema é história, sociologia ou filosofia, a mesma deferência
raramente é concedida. Ao contrário, o especialista nessas áreas vê sua
autoridade questionada cotidianamente por vozes que se julgam igualmente
competentes, como se a experiência de viver em sociedade bastasse para
substituir anos de pesquisa metódica. Essa assimetria revela não uma suposta
fragilidade das ciências humanas, mas uma profunda distorção epistemológica.
Outrossim,
as pessoas confundem familiaridade com expertise. Todos vivem em sociedade,
todos votam, todos falam uma língua, todos possuem experiências históricas.
Essa proximidade produz a ilusão de que compreender cientificamente esses
fenômenos é simples. No entanto, assim como possuir um corpo não torna alguém
médico, viver em sociedade não transforma ninguém em sociólogo.
Logo,
as ciências humanas sofrem uma desvalorização epistemológica: ao contrário de
outras áreas do conhecimento, seus métodos e sua expertise frequentemente não
são reconhecidos como científicos. Isso faz com que pessoas sem formação se
sintam autorizadas a emitir opiniões categóricas sobre história, sociologia,
filosofia ou direito, muitas vezes apresentando senso comum ou pseudociência
como se fossem conhecimento especializado. Não se trata de um problema com
interdisciplinaridade, mas da desconsideração dos métodos próprios dessas
disciplinas e da autoridade construída por meio da pesquisa. Além disso, o caso
é agravado pela forma com que a sociedade, equivocadamente, mistura opinião com
saber e intuição com ciência.
A
pesquisa realizada em 2025 pela More In Common, em parceria com a Quaest,
demonstra as percepções conservadoras arraigadas na sociedade brasileira. Isso
porque 54% dos brasileiros creem que as universidades públicas possuem mais
viés ideológico do que, verdadeiramente, ensino de qualidade. Decerto, os
resultados da pesquisa apontam uma crise de legitimidade das universidades
públicas, crise essa que é amplamente abordada no artigo “A desqualificação das
universidades públicas”, de Roberto Leher – postado no site A Terra é Redonda.
Todavia,
o que é de extremo interesse para o caso do desprezo às ciências humanas é, na
verdade, o fato de boa parte da premissa de desqualificação das humanidades
está baseada na crença de viés ideológico. Por conseguinte, a pesquisa
demonstra, com nitidez, a existência de uma forte presença da percepção
conservadora em relação às universidades públicas brasileiras.
Outrossim,
pode-se dizer que a polarização política contribui diretamente para o cenário
comentado. Pois, uma vez que a população age com desconfiança perante a
universidade pública e, obviamente, às humanidades, por conta de fatores
ideológicos, é notório que o combate ao suposto viés político será consequência
de tal desconfiança. Assim, surge a proliferação de discursos
pseudo-científicos ou reducionistas que irão contrapor a imaginária doutrinação
política.
Contudo,
tal fenômeno não explicaria a disseminação de conteúdo anticientífico, pois,
não faria sentido para um indivíduo cético em relação às ciências humanas,
utilizar ela para contrapor problemas ideológicos. Sendo assim, seria lógico
concluir que a desconfiança não é com as ciências sociais em si, mas, de fato,
com a suposta posição política da ciência. Como uma pesquisa australiana
revelou que, embora 80% da população demonstre interesse por história, mais de
75% acreditam que ela é suscetível a ser manipulada por políticos e pela mídia.
No
Brasil, poderia ser observado um cenário similar, uma vez que a população
também demonstra interesse em ciências humanas, porém, a rejeita por conta de
uma crença já estabelecida que relaciona humanidades com doutrinação
ideológica.
Com a
polarização política interferindo, evidentemente, na posição ideológica do
congresso, faz-se explícito que parlamentares – principalmente de direita –
irão se alinhar com a visão conservadora comentada. Com base nisso, a lógica de
austeridade, que continua assombrando a nação, irá ser utilizada como
ferramenta para atacar as universidades e projetar uma economia desfavorável
aos projetos das ciências sociais. Temos como prova disso o corte de orçamento
de 69 universidades federais, em 2026, em meio à ampliação de gastos com
emendas parlamentares.
Com
efeito, emerge outro desafio aos profissionais de humanas: a lógica
capitalista. Isto é, a lógica que compreende aqueles que não esbanjam recursos
materiais como uma casta inferior na sociedade. Nesse sentido, conforme a
sociedade se fecha para as ciências sociais, a economia molda um cenário
extremamente competitivo e injusto para o exercício da profissão da área de
humanas.
Dessa
maneira, vítimas do baixo salário e da falta de perspectiva, a sociedade encara
os conhecimentos dos profissionais de humanas como descartáveis, não só isso,
mas encara, simultaneamente, os próprios profissionais como descartáveis, tendo
em vista a realidade atual dos professores.
Entretanto,
é de extrema ingenuidade tratar as humanidades como inúteis baseando-se,
apenas, em questões financeiras. Da mesma forma, seria ingenuidade tratar a
engenharia como fútil, desconsiderando todas as maravilhas provenientes da
engenharia, por conta da falta de sucesso de seus profissionais. Na realidade,
já é observável uma crise na engenharia e em outras áreas das ciências
naturais, vítimas, também, da política de austeridade neoliberal.
Dentre
outros aspectos, faz-se imprescindível compreender a repentina expansão de
falsificadores da ciência e suas respectivas problemáticas. Pois, é
inacreditável que existam influenciadores, com milhares de seguidores, que se
trajem de “defensores da parcialidade” e “divulgadores da ciência”, porém, tudo
que fazem é propagar a desinformação e lucrar em cima das falsificações.
Lamentavelmente,
esses personagens influenciam diariamente centenas de milhares de indivíduos.
Contaminando o planeta de seres vítimas do Efeito Dunning-Kruger. Além disso,
criam-se semi-seitas que buscam defender o influenciador – que sequer possui
graduação ou pesquisa científica na área – e disseminar sua fama.
Vale
ressaltar que não busco fortalecer o discurso elitista que defende a tese de
que apenas acadêmicos da área devem compô-la. Sobretudo, a existência de
indivíduos de outras áreas do conhecimento é essencial para o avanço da
ciência, afinal, é o que significa interdisciplinaridade. Todavia, o que
critico, nesse texto, é a confiança total que dão para indivíduos que não
afirmam serem meros divulgadores – que possuem conhecimento superficial de
determinado assunto.
Na
verdade, passam a atuar e a ser vistos como verdadeiros profissionais da área,
quando não são. Tal comportamento não só fortalece a pseudociência, a
desinformação e a parcialidade científica, mas também alimenta a desconfiança
em relação às ciências humanas e, por conseguinte, às teses dos verdadeiros
profissionais da área.
Com
efeito, o que surge com esse comportamento é o apagamento de pesquisas, artigos
e até mesmo influenciadores que contribuem com a luta contra a desvalorização
das ciências humanas. Uma vez que, diferentemente do que é propagado, as
ciências humanas são, de fato, uma ciência e, por isso, necessitam de método
científico. Nesse sentido, o trabalho com rigor científico é longo, cansativo e
demanda esforço.
Logo,
na sociedade que é marcada pelo conteúdo rápido, o trabalho que demora a ser
publicado – graças ao tratamento correto com o método científico – é
repentinamente ofuscado pela rapidez dos conteúdos propagados pelos
influenciadores falsificadores da ciência – que não demandam elevado rigor
técnico.
Nesse
sentido, faz-se correto afirmar que até a estrutura do algoritmo favorece a
desvalorização das ciências, em geral. Com isso, por conta da necessidade de
fazer sucesso, financeiramente e popularmente, cria-se um cenário de desprezo
ao método científico. Tal cenário se define pela mercantilização do
conhecimento. Isto é, o processo de transformação do saber em mercadoria,
priorizando sua aparência e forma de venda em detrimento do progresso técnico.
Conectando-se
ao ponto de formação estudantil, dos 10 cursos mais concorridos do SISU, apenas
três são das ciências sociais: direito, psicologia e arquitetura e urbanismo. O
que conecta todos os três cursos é o fato de todos serem conhecidos como
“financeiramente rentáveis”. Desconsiderando se a afirmação é verdadeira ou
não, é evidente que a opinião pública presume os três cursos como interessantes
monetariamente.
Portanto,
fortalece-se a tese de que é de maior importância para um indivíduo a
recompensa financeira do que o avanço acadêmico da área. Contudo, mesmo assim,
a sociedade brasileira demonstra interesse pela área de humanas, porém, não é o
bastante para fazer dela uma área de grande concorrência.
À guisa
de conclusão, é explícito que todos os fatores comentados – a visão
conservadora; o ataque neoliberal; a lógica econômica; o avanço da
pseudociência; os falsificadores do conhecimento; e a desvalorização estudantil
– contribuem para o desprezo às humanidades. Formando-se um cenário estrutural
complexo de se desfazer, uma vez que cada fator se entrelaça um ao outro e o
fortalece. Sobretudo, o desprezo caracteriza-se por uma desvalorização
epistemológica. Pois, a sociedade se interessa pela área de humanas,
entretanto, não busca o verdadeiro saber que a determinada área provém.
Assim,
a sociedade se deixa levar pela grande massa de conhecimento infundado que
existe nas redes sociais. Esse conhecimento, propagado por falsificadores da
ciência, é dominado por ideologias hostis às ciências sociais. Por conseguinte,
esse conhecimento se enraiza no pensamento do indivíduo que o consome e,
posteriormente, forma um indivíduo ideologicamente cooptado.
Tal
indivíduo irá, de forma estrutural, consumir o conteúdo pseudocientífico e
impulsionar, mais ainda, a propagação dos falsificadores da ciência devido à
lógica que compõe o algoritmo das redes sociais. Desse modo, o conhecimento
alcançará mais seres e, assim, irá fortalecer o ciclo da ignorância.
Não é
de se esperar uma mudança repentina no cenário. Pois, assim como Carl Sagan
afirma em O mundo assombrado por demônios, a pseudociência apela fortemente
para necessidades emocionais. Dessa forma, é mais comum enxergar um
fortalecimento do saber pseudocientífico. Todavia, é de extrema importância e,
por essência, o dever dos cientistas e acadêmicos combater a falsificação que
aterroriza a sociedade contemporânea. É necessário crer na superioridade da
ciência para desmascarar os propagadores da falsa ciência.
Nesse
viés, quando cito a palavra “ciências” não pretendo dizer apenas as ciências
sociais, mas sim, pretendo dizer todas as ciências do homem. Paralelamente,
junto ao combate da pseudociência, o desprezo às ciências humanas deve ser
enfrentado. Pois, em uma sociedade orientada pelo conhecimento científico, o
exercício das humanidades será de maior importância e, consequentemente, maior
facilidade. Diferentemente, a sociedade atual, vítima e, simultaneamente,
cometedora de ataques às universidades, demonstra ser hostil à prática do
saber.
O que
está em jogo, portanto, não é apenas o orçamento de universidades ou a
distribuição de bolsas de pesquisa. É a própria concepção de conhecimento que
uma sociedade elege como legítima. Quando as ciências humanas são
sistematicamente desfinanciadas e seus métodos são desconsiderados sob a
acusação vaga de “doutrinação ideológica”, não se está apenas cortando gastos,
está-se cerceando a capacidade de uma nação de compreender a si mesma.
A
história, a sociologia, a filosofia e o direito não são ornamentos culturais
dispensáveis, são ferramentas essenciais para que uma civilização não se
dissolva em achismos e paixões. Desprezar o rigor dessas disciplinas é, no
fundo, desprezar a própria possibilidade de um debate público informado e de
uma cidadania consciente. Se a ciência natural nos ensina a construir pontes,
as ciências humanas nos ensinam para onde elas devem nos levar. E sem esse
norte, de nada adiantam as ciências naturais. Uma sociedade necessita de ambas.
Fonte:
Por Artur Sabino de Carvalho, em A Terra é Redonda

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