HOLOCAUSTO
URBANO: A relatividade do tempo nas metrópoles
Holocausto
urbano. O termo é dos Racionais MC’s, título do disco com que estrearam em
1990, denúncia da periferia de São Paulo posta em rima e batida. Trinta e seis
anos depois, a palavra continua de pé. E é justo perguntar o que mudou. É
justo, também, defender a escolha das palavras.
Muitos
questionarão o uso do termo holocausto. Mas como negar a legitimidade de quem
dá nome ao que vê e ao que vive? Como recusar o testemunho de quem atravessa,
todos os dias, a violência e a desigualdade que o sufocam? E ainda que se
resista ao primeiro termo, não há como recusar o segundo. Urbano. É ele que
origina o primeiro. A desigualdade nasce no território e no território se
perpetua. Nasce na ausência de infraestrutura. Cresce na falta das
instituições, do serviço público, do Estado que deveria estar e não está.
Aprofunda-se na economia que concentra de um lado e priva do outro. E termina
onde a palavra mais dura cobra seu sentido literal: na morte que chega cedo, no
fim que se repete, no extermínio lento e em massa de quem mora longe. Na Cidade
Tiradentes, no extremo da Zona Leste, morre-se em média aos 62 anos. No Alto de
Pinheiros, na Zona Oeste, aos 82. Vinte anos. Vinte anos que separam um
endereço do outro dentro da mesma cidade. E é aqui que a palavra holocausto
deixa de ser exagero. O que distingue uma tragédia de um holocausto não é o
número de mortos, é o método. A tragédia é acaso; o holocausto é sistema. Essas
mortes não são acidentes dispersos nem fatalidades isoladas. São o resultado
previsível de uma engrenagem que se repete, ano após ano, sempre sobre os
mesmos corpos, nos mesmos bairros, do mesmo lado da cidade. Onde há método na
produção da morte, há mais que desigualdade. Há extermínio.
Mas a
morte precoce é apenas o saldo final de uma conta que se paga em prestações
diárias. Antes de encurtar a vida, o território a sequestra em pedaços, hora a
hora, na forma mais banal e mais cruel de espoliação que uma cidade pode
inventar: o tempo. É o que a literatura chama de pobreza de tempo, e ela é a
face menos visível do mesmo holocausto.
O
paulistano que depende do transporte público gasta, em média, 2h47 por dia em
deslocamentos, segundo a pesquisa Viver em São Paulo. Mas a média esconde mais
do que revela. Ela esconde que o morador do Itaim Bibi chega ao trabalho em
menos de quarenta e cinco minutos, enquanto o da Cidade Tiradentes leva perto
de duas horas e quarenta só na ida. Esconde que, no transporte coletivo, cada
viagem consome em média 58 minutos, mais que o dobro dos 28 minutos de quem se
desloca de automóvel, conforme a pesquisa Origem e Destino do Metrô. Esconde,
enfim, o que o IPEA já demonstrou e a aritmética social confirma: o décimo mais
pobre da população faz trajetos vinte por cento mais longos que o décimo mais
rico. O Censo de 2022 dá nome e cor a essa conta. No país, 8,7 milhões de
pessoas gastam mais de uma hora entre casa e trabalho, e 1,3 milhão delas, mais
de duas horas. Entre os que ganham até meio salário mínimo, a parcela que gasta
mais de uma hora no trajeto é muito maior; e 17% dos trabalhadores pretos levam
mais de uma hora para chegar ao trabalho, contra 10% dos brancos. O tempo, que
parece o mais democrático dos bens, porque todos recebem as mesmas vinte e
quatro horas, é na verdade o mais desigualmente confiscado. Há, nas metrópoles,
uma relatividade cruel do tempo: o mesmo dia não tem a mesma duração para quem
mora perto e para quem mora longe.
E esse
tempo confiscado não é tempo neutro. Não é uma pausa, não é descanso, não é o
intervalo ocioso que a palavra deslocamento sugere. É desgaste. É vida que
adoece enquanto espera. A ciência já mediu o que a intuição reconhece. Um
estudo conduzido na Suécia por Erika Sandow acompanhou trabalhadores ao longo
de mais de duas décadas e encontrou, entre os que enfrentam longos
deslocamentos, risco de mortalidade significativamente maior, com o peso
recaindo sobretudo sobre as mulheres de menor renda.
O
economista Alois Stutzer e o pesquisador Bruno Frey deram a isso o nome de
paradoxo do deslocamento: quem se desloca mais relata, de forma sistemática,
menor bem-estar e pior satisfação com a própria saúde, o que desmonta a tese
confortável de que morar longe é uma escolha livre e compensada. Na Coreia do
Sul, um levantamento com mais de 20 mil trabalhadores associou os trajetos de
uma hora ou mais a sintomas depressivos. E por trás desses números há um
mecanismo conhecido: o sono que falta, a fadiga que se acumula, o exercício que
não cabe no dia, a exposição à poluição que eleva a pressão e corrói o coração
devagar. O corpo que gasta horas no trajeto não chega em casa, chega de volta
ao ponto de partida, mais velho do que saiu.
É aqui
que as duas perdas deixam de ser coincidência. A morte que chega cedo demais
não cai do céu sobre a periferia. Ela é construída, pelo mesmo território que
rouba o tempo, nega a infraestrutura, afasta o serviço de saúde, suprime o
lazer e o esporte, e devolve ao morador um cansaço que se sedimenta em doença.
O tempo perdido no trânsito e os anos perdidos de vida são a mesma ferida,
medida em duas escalas. Uma se conta em horas por dia. A outra, em décadas por
vida.
Façamos,
então, a conta. Aos vinte anos que a periferia não vive somam-se cerca de
quatro anos que ela vive, sim, mas perde, gastos em deslocamento ao longo da
vida adulta. São aproximadamente vinte e quatro anos. Quase um terço de uma
vida inteira subtraído de um ser humano, não por destino, não por acaso, mas
por endereço. E o que resta, os dois terços que sobram, tampouco é vida plena.
É vida acondicionada. São manhãs que começam antes do sol, corpos empilhados no
vagão de metrô em horário de pico, a respiração alheia no pescoço, o trajeto
até o trabalho transformado em uma diária antecipação do cansaço. Vive-se
menos, e vive-se pior o pouco que se vive. É aqui que os Racionais tinham razão
desde 1990, e continuam tendo. O que eles chamaram de holocausto urbano não era
licença poética. Era diagnóstico. E não se trata de um punhado de casos
extremos. São milhões de pessoas submetidas a essa condição, dos cinturões
periféricos de São Paulo aos do Rio, de Salvador, de Recife, de Fortaleza. É a
regra das grandes cidades brasileiras, não a exceção. São dezenas de milhões de
vidas vivendo a mesma subtração.
Seria
cômodo tratar isso como uma anomalia brasileira, um atraso nosso a ser
corrigido com mais asfalto e mais trilhos. Não é. O que vemos em São Paulo é a
versão tropical de uma engrenagem que move o mundo inteiro. Em todos os
continentes, a cidade do nosso tempo separou o lugar onde se mora do lugar onde
se trabalha, empurrou os pobres para as bordas, e converteu o deslocamento
diário em condição de existência. A relatividade do tempo não é privilégio
paulistano: em toda metrópole, o relógio corre mais devagar para quem foi
empurrado para a margem. Mudam a paisagem e o idioma, permanece a mecânica. O
que torna essa engrenagem tão difícil de combater é que ela se apresenta como
natureza. Aprendemos a aceitar o deslocamento como se fosse parte da ordem das
coisas, um custo inevitável de viver em sociedade, quando é, na verdade, uma
escolha de projeto. Alguém decidiu, em algum momento, que a cidade seria assim.
A desigualdade que mata não é um defeito do sistema. É o sistema funcionando
como foi desenhado. E todo desenho pode ser refeito.
Porque
o deslocamento não é a lógica natural da vida humana. É uma lógica imposta,
herdada de erros que se acumularam por décadas. O Brasil concentrou sua gente
em um punhado de metrópoles enquanto manteve vazias vastas porções de um
território continental. Empilhou milhões em cidades que não foram pensadas para
recebê-los, e esvaziou regiões inteiras que poderiam tê-los acolhido com
dignidade. Na origem desse desequilíbrio está uma ausência: a do
desenvolvimento territorial que respeita as vocações de cada lugar. Quando o
Estado não enxerga a aptidão econômica, geográfica e cultural de um território,
ele não planeja, apenas reage. E a reação, no Brasil, foi sempre a mesma:
grandes êxodos em direção às mesmas poucas cidades, que incham sem absorver,
que crescem sem urbanizar, que recebem sem oferecer Estado. A periferia que
morre vinte anos antes é o destino final dessa cadeia de enganos, o ponto onde
a falta de planejamento de ontem cobra seu preço em anos de vida hoje. Reverter
isso é mais do que uma agenda de mobilidade. É devolver à palavra território o
seu sentido pleno, o de um espaço onde se possa nascer, trabalhar, adoecer
pouco e envelhecer perto de quem se ama. Não há justiça urbana sem justiça
territorial. E não haverá cidade humana enquanto morar longe continuar sendo
uma sentença.
Inventamos
as cidades para ficar. Para estar perto, para encurtar a distância entre as
pessoas, para que a vida em comum funcionasse de maneira orgânica, otimizada,
generosa. A cidade nasceu como promessa de proximidade. Foi a forma que
encontramos de não viver sozinhos, de partilhar o esforço e o abrigo, de
transformar a aglomeração em civilização. Em algum momento, no entanto, nos
esquecemos disso. Esquecemos por que motivo erguemos as cidades, e passamos a
construí-las contra o seu próprio propósito, afastando o que deveriam
aproximar, dispersando o que deveriam reunir. O holocausto urbano é, no fundo,
esse esquecimento. E lembrar é o primeiro passo para voltar a fazer cidades
onde caiba, de novo, uma vida inteira.
Fonte:
Por Bruno Sindona, no Le Monde

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