Você
treina, mas passa o dia sentado? Por que exercício pode não apagar todos os
efeitos da cadeira
Passar
o dia inteiro sentado parece apenas uma consequência da rotina moderna, mas o
corpo interpreta essa falta de movimento de outra forma: ele reduz o gasto de
energia e deixa de ativar mecanismos importantes para controlar açúcar, gordura
e circulação.
Enquanto
a pessoa trabalha diante da tela, uma série de mudanças silenciosas começa a
acontecer. Os músculos das pernas passam menos tempo contraídos, o sangue
circula com menos eficiência e processos ligados ao metabolismo ficam mais
lentos.
O
problema não está apenas em sentar, mas em permanecer horas sem interrupção.
“O
grande vilão não é o ato de sentar, e sim a duração ininterrupta”, resume o
ortopedista e cirurgião de coluna Guilherme Foizer.
Segundo
especialistas ouvidos pelo g1, os efeitos aparecem principalmente em quatro
áreas: metabolismo, coração e circulação, músculos e articulações.
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Corpo parado trabalha menos
Boa
parte da explicação começa nas pernas. Músculos grandes, como os das coxas e
dos glúteos, estão entre os que mais consomem energia no corpo e têm papel
importante no controle da glicose e das gorduras presentes no sangue.
Quando
ficam parados por muito tempo, esses músculos deixam de atuar como deveriam. A
atividade da lipoproteína lipase —enzima que ajuda a quebrar gorduras na
corrente sanguínea— diminui, e a entrada de glicose nas células musculares fica
menos eficiente.
Com
isso, o açúcar no sangue tende a permanecer elevado por mais tempo após as
refeições, a sensibilidade à insulina piora e o gasto energético cai.
Ao
mesmo tempo, a circulação também sente o impacto. Sem a contração frequente da
musculatura das pernas, que funciona como uma espécie de bomba auxiliar para
empurrar o sangue de volta ao coração, o retorno venoso perde eficiência.
O
cirurgião cardiovascular Ricardo Kazunori, da BP – A Beneficência Portuguesa de
São Paulo, explica que esse cenário favorece inchaço nas pernas, piora da
circulação e, quando mantido por anos, contribui para aumentar o risco
cardiovascular.
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Quantas horas sentado começam a fazer mal?
Não
existe um limite exato, mas os estudos apontam para uma faixa de maior
preocupação. O risco começa a crescer de forma mais consistente quando a pessoa
passa entre seis e oito horas por dia sentada e aumenta ainda mais acima de
nove ou dez horas diárias.
Um
estudo publicado em 2024 no JAMA Network Open, que acompanhou mais de 480 mil
pessoas por quase 13 anos, mostrou que trabalhadores que passavam a maior parte
do expediente sentados tinham risco 16% maior de morte por qualquer causa e 34%
maior de morte por doenças cardiovasculares.
Mas o
total de horas não conta a história inteira. A forma como esse tempo é
distribuído faz diferença.
Ficar
três horas sentado sem levantar é pior para o metabolismo do que acumular as
mesmas três horas com pequenas pausas ao longo do período. O corpo responde
melhor quando recebe estímulos frequentes de movimento, mesmo que curtos.
— Foto:
AdobeStock
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Coluna e músculos também sentem
O
impacto não fica restrito ao coração e ao metabolismo. Quando uma pessoa passa
muitas horas na mesma posição, alguns músculos ficam encurtados e
sobrecarregados, enquanto outros deixam de ser ativados adequadamente.
É o
caso dos glúteos e da musculatura profunda do abdômen e das costas,
fundamentais para sustentar a postura.
O
ortopedista Alexandre Penna, da BP, explica que esse desequilíbrio pode levar
ao que é conhecido como “amnésia glútea”: o músculo não perde força de uma vez,
mas passa a ser cada vez menos recrutado.
Com o
tempo, a mudança altera a postura, aumenta a sobrecarga sobre a lombar e
favorece dores nas costas, no pescoço e nos ombros.
A
posição típica de quem trabalha diante do computador —ombros projetados para
frente, cabeça inclinada e poucas mudanças de postura— reforça esse ciclo.
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Fazer exercício resolve?
Ajuda
muito, mas não funciona como uma compensação completa. Uma pessoa que treina
todos os dias, mas passa as outras horas praticamente imóvel, ainda mantém
parte dos riscos associados ao comportamento sedentário.
É o
chamado “sedentário ativo”: alguém que cumpre a recomendação de exercício, mas
acumula longos períodos sem movimento.
Outros
estudos indicam que altos volumes de atividade física —cerca de 60 a 75 minutos
por dia de exercício moderado a intenso— podem reduzir significativamente o
excesso de risco associado a muitas horas sentado. Ainda assim, especialistas
reforçam que a recomendação não substitui as pausas de movimento ao longo do
dia.
A
atividade física melhora o condicionamento, força e saúde cardiovascular. Já
levantar ao longo do dia reduz os efeitos imediatos da imobilidade sobre
glicose, circulação e metabolismo. Uma coisa não substitui a outra.
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Levantar de quanto em quanto tempo?
A
recomendação mais citada pelos médicos ouvidos pela reportagem é interromper
períodos longos sentado sempre que possível.
Um
estudo da Universidade Columbia testou diferentes estratégias e encontrou os
melhores resultados com cinco minutos de caminhada a cada 30 minutos sentado.
Essa rotina reduziu os picos de glicose após as refeições e também teve impacto
na pressão arterial.
Mesmo
pausas menores já ajudam. Levantar por um ou dois minutos, caminhar pela casa
ou pelo escritório e subir alguns lances de escada são medidas suficientes para
ativar novamente a musculatura.
O mais
importante não é a intensidade do movimento, mas a frequência.
Alongamentos
podem melhorar rigidez e desconforto, mas movimentos que contraem os músculos
das pernas têm efeito maior sobre o metabolismo.
Mesas
que permitem trabalhar em pé também podem ajudar, mas não são solução isolada.
Trocar horas sentado por horas parado em pé mantém o corpo em uma posição
estática. O ideal é alternar.
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Corpo começa a dar sinais
Alguns
sinais indicam que a rotina parada já está cobrando um preço. Entre os mais
comuns estão:
• inchaço nos pés e tornozelos no fim do
dia;
• sensação de pernas pesadas;
• rigidez ao levantar;
• dor lombar ou no pescoço;
• formigamento;
• queda de energia e concentração depois
de muitas horas sentado.
Idosos,
pessoas com obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão, gestantes e pacientes com
problemas de circulação merecem atenção extra, porque os efeitos podem se somar
a condições que já aumentam o risco metabólico e cardiovascular.
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Como reduzir danos
Para
quem não consegue diminuir as horas na cadeira, pequenas mudanças ao longo do
expediente costumam ter o maior impacto.
A
principal recomendação é criar interrupções programadas: levantar entre
reuniões, atender ligações em pé, buscar água, caminhar alguns minutos ou
configurar lembretes no celular.
Treinos
de força, especialmente para pernas, glúteos, abdômen e costas, também ajudam a
compensar parte da perda de ativação muscular causada pela rotina.
A
ortopedista Angélica Gimenes Bernardinelli reforça que o cuidado precisa ir
além da ergonomia da estação de trabalho. Ajustar cadeira e computador ajuda,
mas não substitui a necessidade de movimento ao longo do dia.
“Quem
trabalha sentado precisa entender que o cuidado não termina quando acaba o
trabalho”, afirma.
A ideia
não é transformar a cadeira em vilã, mas lembrar que o corpo foi feito para
alternar posições. Mesmo pequenos movimentos, repetidos várias vezes ao dia,
são suficientes para tirar o organismo do modo “economia de energia”.
Fonte:
g1

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