As
críticas ao programa Bolsa Família
Recentemente,
um animador de programas de TV, com grande audiência – que chegou a cogitar
lançar-se à Presidência da República – afirmou, durante o 5º. Fórum Esfera no
Guarujá (SP), que o Programa Bolsa Família falha em gerar estímulo para que as
famílias superem a pobreza e que os beneficiários criariam “atalhos” para
continuar recebendo o benefício.
A
declaração repercutiu na mídia e nas redes sociais, reacendendo antiga
polêmica. Esta se prolonga desde a criação do Programa há mais de duas décadas.
O debate, no início, era normal, em vista da novidade do programa e das visões
filosóficas e programáticas diversas existentes sobre o combate à pobreza
extrema. Na atualidade, dados abundantes permitem sair do terreno genérico, do
aplauso acrítico e do ataque meramente opinativo para a avaliação fundamentada.
Alguém
com a responsabilidade de exercer influência sobre milhões de telespectadores,
ainda mais tendo cogitado disputar a gestão presidencial, tem obrigatoriamente
que dominar as numerosas informações existentes para avaliar um programa já
consolidado há tempo.
No
entanto, a fala de Luciano Huck não demonstrou qualquer conhecimento de fartos
dados disponíveis. O que se ouviu foram apenas opiniões baseadas em
preconceitos arraigados em amplos segmentos da elite social brasileira contra
os mais pobres – infelizmente, repetidos por parcela expressiva da classe média
que gosta de espelhar-se na tosca burguesia brasileira.
Teria
sido muito fácil ao apresentador, até valendo-se de seus numerosos auxiliares,
coletar dados e informações disponíveis a qualquer cidadão com interesse em
informar-se sobre as políticas públicas existentes no Brasil. Um exemplo
recente é o estudo “Filhos do Bolsa Família”, realizado pela Fundação Getúlio
Vargas (FGV), órgão acadêmico e de pesquisas de grande prestígio e
respeitabilidade, para o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.
Em
breve síntese, o estudo demonstrou que mais de 60% dos beneficiários de 2014
deixaram o programa até 2025. A razão foi a conquista de melhores fontes de
renda e, portanto, o abandono da condição precária que habilita ao programa. A
saída foi mais elevada para os que eram adolescentes em 2014: 68,8% na faixa de
11–14 anos e 71,3% na faixa de 15–17 anos. Também se constatou a saída
expressiva do Cadastro Único e aumento da inserção no mercado formal, o que
indica maior autonomia e mobilidade socioeconômica por parte desses
beneficiários.
Por
outro lado, fatores geoeconômicos (regiões com atividades econômicas mais e
menos dinâmicas), nível escolar da família, etnia, gênero, condições de
moradia, continuam a diferenciar os resultados, tornando o programa ainda
essencial para aqueles mais prejudicados pelos atributos citados. Ou seja, a um
só tempo, observa-se o efeito positivo e os desafios que ainda devem ser
enfrentados para atingirmos melhores resultados.
O que
não se observa no estudo é justamente a estagnação generalizada na pobreza,
atribuída por Luciano Huck e muitos dos críticos do programa.
Nota-se,
em muitas críticas, o inconformismo com o fato de muitos beneficiários
recusarem trabalhos que pagam salários irrisórios, uma vez que já recebem
baixos valores pelo programa e não teriam vantagem financeira significativa na
troca. O que essas críticas indicam é um mecanismo auto revelador sobre seus
autores: a sombra persistente do escravagismo, do qual fomos um dos últimos
países a sair. Segundo esses críticos, os cidadãos muito pobres deveriam
expressar gratidão a quem lhes oferecesse o equivalente a um prato de comida em
troca de trabalho exaustivo.
Não
cogitam, os inconformados críticos, de testar se ofertas mais compensadoras de
remuneração e jornada não gerariam outra atitude. O resultado apurado pelo
estudo da FGV permite afirmar que sim, ao menos em grande parte dos casos. O
programa torna as pessoas um pouco (muito pouco, na verdade), mais seletivas,
recusando salários de fome. Mas isso, para pessoas presas à mentalidade de que
os pobres só merecem esmola ou trabalho semiescravo, seria um privilégio
inaceitável.
Ocorre
também um efeito completamente desconsiderado pelos mesmos críticos, embora
simples de entender. O PBF ativa o consumo das famílias beneficiárias. O
consumo amplia a demanda e com ela, a produção e o emprego. Em certas regiões
do país, economias de microrregiões e até mesorregiões são fortemente
influenciadas pelos beneficiários do programa. Porém, mesmo em localidades mais
distantes o efeito acaba chegando sobre a produção de bens populares (agrícolas
e industriais), além do comércio.
Um dado
mais atualizado permite agregar percepções adicionais sobre o efeito benéfico
do PBF. O Brasil atingiu, pela primeira vez na sua história, o nível muito alto
de desenvolvimento humano, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento. Ultrapassamos, finalmente, o limite de 0,8 para o Índice de
Desenvolvimento Humano, patamar que caracteriza os países desse nível mais
elevado. E o PBF tem forte influência nessa conquista.
A
economista Betina Barbosa, coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Humano do
escritório do PNUD no Brasil, que participou da elaboração da pesquisa,
afirmou: “Quando a gente desagrega os dados por décimo de renda, ou seja, os
10% mais pobres, depois os 20% mais pobres, [onde há maior] importância desses
programas: nesses décimos de renda é onde você vê a melhoria dos indicadores de
educação, nesse período”. “É o programa Bolsa Família que retira uma quantidade
enorme de crianças do mundo do trabalho e dá a elas a condição da escola –e a
obrigatoriedade, também, de estar na escola, porque senão esse programa é
interrompido”. (UOL, 26/5/26)
Registre-se
que aqui também, nos dados do IDH, verifica-se tanto o efeito benéfico do PBF e
de outras políticas públicas – em especial, o SUS -, quanto os desafios que
permanecem, para atingirmos efetivamente patamares mais desenvolvidos.
O IDH
possui três componentes: longevidade – resultado direto das condições de saúde
da população –, educação e renda. O primeiro é o mais elevado dos três; sofreu
forte queda na pandemia, mas voltou a se recuperar. Com todas as dificuldades
do SUS, alvo de persistente desfinanciamento, com maior intensidade nos
mandatos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, é notável como evoluiu a expectativa
de vida dos brasileiros ao longo deste período de existência de um dos maiores
programas públicos de saúde do mundo.
Nos
últimos anos, a educação teve papel de maior liderança no crescimento do IDH.
Enquanto isso, a renda tem sido o fator de inércia: não cresceu no período
pós-impeachment e voltou a crescer, porém lentamente, desde a saída da
pandemia.
Este
último fator (renda) possui raízes mais profundas nos desafios que o Brasil
luta para enfrentar, ainda com resultados insuficientes. A desindustrialização
e a concentração em atividades de baixo valor agregado – apesar do acervo de
pesquisadores científicos e centros de pesquisas, universidades etc. –,
evidencia que a perda de diversidade e complexidade econômica tem pesado muito
na estagnação ou evolução muito lenta da renda. Em todo caso, trata-se de
questões desvinculadas do suposto “problema” de programas sociais como o Bolsa
Família.
Talvez,
uma reflexão menos preconceituosa e mais disposta a encarar e sugerir respostas
aos verdadeiros desafios existentes pudesse trazer mais luz ao debate.
Problemas reais, como a baixa renda decorrente de uma economia reprimarizada,
um sistema de saúde subfinanciado (embora parcialmente recuperado a partir de
2023) e a incontestável necessidade de elevar em muitos graus a qualidade do
ensino público básico, além de alcançar a universalização do ensino médio,
devem ser amplamente debatidos.
Eles
envolvem todo um conjunto de temas, a começar pela política monetária que
asfixia o investimento público (motor do crescimento econômico brasileiro ao
longo do século XX) e o próprio orçamento público, afetando as políticas
sociais. O que requer refutar cabalmente o falso (para nossa situação)
argumento de que o combate à inflação requer taxas astronômicas de juros. Ao
contrário, elas deprimem a demanda e desestimulam a produção e o investimento,
além de sobrecarregar a dívida pública.
Dessa
forma, gera-se perverso círculo vicioso argumentativo: exige-se cortar os
gastos sociais para baixar a dívida, mantendo intacto o dreno dos impostos
pagos pela sociedade para beneficiar a oligarquia financeira parasitária, com
lucros do financiamento da mesma dívida, sem contribuir em um centavo para a
produção de bens e serviços. E aí, a crítica sem fundamento a um dos maiores
programas assistenciais do mundo serve de instrumento auxiliar dessa estratégia
regressiva e antipopular.
Infelizmente,
não parece nada realista esperar postura não preconceituosa e aberta aos
problemas reais, por parte do ex-quase candidato a Presidente do Brasil e aos
(infelizmente, muitos) que opinam infundadamente sobre tema tão relevante ao
país.
Fonte:
Por Roberto Vital Anav, em A Terra é Redonda

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