segunda-feira, 6 de julho de 2026

Jair de Souza: A ideologia como instrumento da luta de classes

Nenhum grupo dominante consegue impor-se sobre outros durante um período longo de tempo em função exclusiva de sua superioridade em termos de poder de fogo.

Se a violência repressiva bruta é capaz de submeter certas comunidades num primeiro momento, essa submissão não poderá estender-se por prazos mais dilatados em base apenas da força. Por isso, desde sempre, os dominadores têm se empenhado na procura de maneiras de contornar esta dificuldade.

Assim, no intuito de viabilizar processos de dominação que almejam prolongar-se de forma permanente, uma das mais eficazes armas à qual os opressores recorrem é a manipulação ideológica. Em poucas palavras, esta consiste em injetar nos dominados certos valores que dizem respeito tão somente às categorias dominadoras.

Para que tenhamos uma clara amostra dos efeitos funcionais obtidos por essa via, basta observar como, aqui no Brasil, nos dias atuais, nos deparamos com inúmeros casos em que pessoas oriundas e inseridas nos estratos sociais dos despossuídos costumam pensar e agir em completa sintonia com as camadas dos mais abastados. São nossos conhecidos “pobres de direita”.

Evidentemente, para que pobres se dediquem voluntariamente a se opor de modo frontal aos interesses específicos de seu grupo social e passem a se identificar com aqueles que correspondem aos das classes dominantes, estas devem antes conquistá-los ideologicamente.

E, para realizar este trabalho persuasivo, elas precisam dispor de um amplo aparato de formatação ideológica, montado com vistas a difundir entre toda a sociedade as ideias e as visões de mundo características dos setores hegemônicos. Neste dispositivo, estão incluídas instituições como os meios de comunicação, as escolas, as igrejas, etc.

Contudo, para melhor entender o quadro vigente na atualidade, é importante recuarmos um pouco na história e situarmo-nos em meados da década de 1970, quando começou a ganhar muita força a visão teórica do neoliberalismo, que se tornou a ideologia predominante no capitalismo de nossos dias.

Por então, os encarregados de formular as estruturas do pensamento que dá sustentação às pretensões dos grandes capitalistas se puseram a desenvolver teses que servissem para sedimentar na mente das pessoas dos setores populares ideias que as levassem a romper com seu crescente processo de identificação classista.

Essa consciência do valor da coletividade trabalhista havia surgido e ganhado impulso durante o processo de avanço da Revolução Industrial capitalista e estava muito sedimentado entre boa parcela do operariado de meados do século passado.

Portanto, como lhes estava evidente que o maior ativo com o qual os trabalhadores contavam para ter êxito em suas lutas era sua capacidade de atuar em unidade no enfrentamento contra seus exploradores, os ideólogos a serviço do grande capital concluíram que sua principal tarefa deveria ser buscar maneiras de pôr fim ao espírito coletivo que havia se alastrado no seio de amplos setores populares.

Neste ímpeto desenfreado para encontrar meios de quebrar a coluna vertebral da força popular, o neopentecostalismo demonstrou ser uma das ferramentas ideológicas mais eficazes.

Forjado nos Estados Unidos com o objetivo de zelar pelos interesses do grande capital corporativo e pela dominação imperialista, foi trazido ao Brasil e a outros países do Sul Global, onde, atualmente, desempenha o papel de baluarte na defesa dos projetos do imperialismo estadunidense e das grandes corporações capitalistas às quais este está atrelado.

Sua propagação entre os setores mais explorados visava provocar divisão entre os trabalhadores. Para extirpar o sentimento de unidade coletiva, o neopentecostalismo se dedica a estimular a adoção do mais atroz individualismo.

A proposta, na prática, é fazer que cada trabalhador se veja e sinta de forma isolada, desconectado dos demais. Lamentavelmente, é preciso admitir que este nefasto projeto conseguiu afetar um número expressivo de trabalhadores.

Na intenção de iludir os incautos e, desta maneira, ter sua aceitação facilitada, o neopentecostalismo apresenta-se como se fosse uma corrente religiosa do cristianismo. Porém, se nos guiarmos pelos exemplos de vida do Jesus dos relatos dos Evangelhos, vamos concluir que não há ideologia mais conflitante com o simbolismo do Nazareno do que o neopentecostalismo.

Não obstante os textos evangélicos mostrarem Jesus sempre do lado dos mais humildes, e nunca dos ricos e poderosos, os dirigentes do neopentecostalismo simplesmente invertem esta lógica. Assim, o rico passa a ser considerado o abençoado, enquanto que o pobre é aquele que não caiu nas graças de Deus.

Além disso, em países como o nosso, em que há grande diversidades de culturas na formação de sua base, temos o agravante de a ideologia imperialista do neopentecostalismo exercer uma atuação que acentua e instiga a prática do racismo.

Embora não haja uma só palavra de Jesus que abone essa atitude, o neopentecostalismo vem se caracterizando por desenvolver ultrajantes campanhas de ódio e perseguição contra as religiões de matriz africana.

E para piorar, a penetração da ideologia do neopentecostalismo imperialista entre comunidades de maioria afrodescendente está induzindo a muitos descendentes de gente que foi sequestrada na África e trazida para cá para trabalhar em regime de escravidão a renegar e odiar a herança cultural de seus antepassados.

Trata-se de um intenso trabalho maldoso que está acarretando a inaceitável tragédia cultural da autodesqualificação.

Por isso, precisamos ter clareza de que nossa luta contra a mais reacionária vertente da ideologia neoliberal imperialista de nossos dias não tem nada a ver com nenhuma intolerância religiosa. O que é totalmente condenável é o caráter antipovo e antissocial dessa ideologia neoliberal.

Como procuramos expor nas linhas anteriores, para exercer sua hegemonia sobre o restante da população, as classes dominantes dependem de contar com a anuência voluntária de, pelo menos, uma parcela significativa das pessoas que integram os setores dominados. E esta concordância é obtida através de sua influência ideológica.

Devido a isto, revelar e desmascarar a manipulação ideológica que vem sendo feita é também de suma importância para que possamos ter êxito em nossos esforços.

•        O eleitor invisível. Por Benedito Tadeu César

As duas últimas pesquisas para a Presidência alimentaram interpretações sobre o ritmo da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Mas uma questão metodológica passou quase despercebida: por que a indecisão praticamente desaparece quando os entrevistados recebem uma lista de candidatos.

<><> Para onde realmente vão os indecisos entre a pesquisa estimulada e o voto na urna?

As duas mais recentes pesquisas nacionais de intenção de voto para o primeiro turno da eleição presidencial de 2026 produziram interpretações distintas. Parte dos analistas concluiu que a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro teria entrado em uma fase de estabilização. A RED adotou uma leitura mais cautelosa. Sem ignorar os resultados, observou que tanto a AtlasIntel quanto a Nexus continuavam registrando crescimento de Lula, ainda que em ritmos diferentes, e ponderou que ainda é cedo para transformar oscilações recentes em tendências consolidadas. A campanha eleitoral sequer começou e a experiência brasileira mostra que mudanças importantes nas preferências do eleitorado costumam ocorrer justamente durante esse período.

Há, entretanto, uma questão que recebeu bem menos atenção do que a disputa entre os candidatos.

Ela diz respeito ao comportamento dos eleitores indecisos.

Na pesquisa espontânea da Nexus, em que o entrevistado responde livremente em quem pretende votar, 20% afirmam que ainda não sabem em quem votar ou preferem não responder. Quando os mesmos entrevistados recebem uma lista de candidatos, na pergunta estimulada utilizada para as análises eleitorais, esse percentual cai para 3%.

A AtlasIntel divulga apenas cenários estimulados. Neles, os indecisos representam apenas 0,1% dos entrevistados.

A diferença é suficientemente expressiva para justificar uma reflexão.

<><> Uma mudança provocada pela pergunta

Não se trata de afirmar que uma das pesquisas esteja correta e a outra errada.

As duas perguntas medem situações diferentes.

Na pesquisa espontânea, o entrevistado precisa lembrar sozinho o nome do candidato de sua preferência. Na estimulada, ele escolhe entre alternativas previamente apresentadas.

É justamente a pesquisa estimulada que fundamenta praticamente todas as análises publicadas pela imprensa, pelos partidos e pelos cientistas políticos, porque reproduz, ainda que imperfeitamente, a lógica da escolha que será feita diante da urna eletrônica.

Mas isso não elimina uma dúvida metodológica.

Os eleitores que se declaravam indecisos na pergunta espontânea realmente definiram seu voto alguns minutos depois ou parte deles apenas escolheu, entre os nomes apresentados, aquele que naquele momento lhe parecia mais aceitável?

A pesquisa, por si só, não responde a essa pergunta.

<><> Um desafio conhecido pelos pesquisadores

A metodologia das pesquisas de opinião estuda há décadas os efeitos produzidos tanto pelo desenho das perguntas quanto pela composição das amostras.

Toda pesquisa enfrenta algum grau de viés de não resposta, conceito clássico da metodologia de surveys que descreve a menor probabilidade de determinados segmentos da população participarem dos levantamentos. Nas pesquisas realizadas pela internet soma-se ainda o chamado viés de auto-seleção, decorrente da decisão voluntária de responder ao questionário.

Os institutos conhecem esses problemas e empregam procedimentos estatísticos para reduzir seus efeitos.

A AtlasIntel utiliza recrutamento digital aleatório seguido de ponderação da amostra. A Nexus realiza entrevistas telefônicas e amplia sua investigação medindo o interesse dos entrevistados pelas eleições, a disposição declarada de comparecer às urnas e indicadores de polarização política.

Esses avanços metodológicos merecem reconhecimento.

Eles mostram que os institutos procuram compreender dimensões cada vez mais complexas do comportamento eleitoral.

Mas a própria sofisticação das pesquisas torna ainda mais relevante discutir seus limites.

<><> A pergunta que permanece aberta

O objetivo deste artigo não é contestar a qualidade das pesquisas nem sugerir que seus resultados estejam equivocados.

A questão é outra.

Se determinados segmentos do eleitorado — especialmente aqueles historicamente mais propensos à abstenção, aos votos brancos e aos votos nulos — tiverem menor probabilidade de integrar as amostras, em que medida isso poderá influenciar as estimativas de intenção de voto atribuídas aos candidatos?

Da mesma forma, em que medida a apresentação de uma lista de candidatos transforma parte da indecisão em uma escolha ainda provisória, suficiente para responder ao pesquisador, mas não necessariamente consolidada como decisão eleitoral?

Essas perguntas não encontram resposta nos relatórios divulgados pelos institutos.

Também não invalidam seus resultados.

Mas apontam para um campo de investigação que merece maior atenção tanto da comunidade acadêmica quanto dos próprios pesquisadores de opinião.

<><> Mais perguntas, menos certezas

As pesquisas eleitorais continuam sendo instrumentos indispensáveis para compreender a dinâmica política.

Sem elas, o debate público ficaria restrito às impressões pessoais, às preferências partidárias e às especulações.

Sua credibilidade, porém, depende não apenas da qualidade das estimativas que produzem, mas também da disposição permanente de aperfeiçoar seus métodos e discutir abertamente seus limites.

No caso das eleições de 2026, talvez a pergunta mais interessante não seja apenas quem lidera a corrida presidencial.

Talvez seja outra.

Quando a indecisão praticamente desaparece nas pesquisas estimuladas, estamos diante de um eleitorado que realmente definiu seu voto ou de um fenômeno metodológico que ainda precisa ser melhor compreendido?

Responder a essa questão interessa aos institutos de pesquisa, aos cientistas políticos e, sobretudo, aos próprios eleitores.

 

Fonte: Brasil 247

 

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