Jair
de Souza: A ideologia como instrumento da luta de classes
Nenhum
grupo dominante consegue impor-se sobre outros durante um período longo de
tempo em função exclusiva de sua superioridade em termos de poder de fogo.
Se a
violência repressiva bruta é capaz de submeter certas comunidades num primeiro
momento, essa submissão não poderá estender-se por prazos mais dilatados em
base apenas da força. Por isso, desde sempre, os dominadores têm se empenhado
na procura de maneiras de contornar esta dificuldade.
Assim,
no intuito de viabilizar processos de dominação que almejam prolongar-se de
forma permanente, uma das mais eficazes armas à qual os opressores recorrem é a
manipulação ideológica. Em poucas palavras, esta consiste em injetar nos
dominados certos valores que dizem respeito tão somente às categorias
dominadoras.
Para
que tenhamos uma clara amostra dos efeitos funcionais obtidos por essa via,
basta observar como, aqui no Brasil, nos dias atuais, nos deparamos com
inúmeros casos em que pessoas oriundas e inseridas nos estratos sociais dos
despossuídos costumam pensar e agir em completa sintonia com as camadas dos
mais abastados. São nossos conhecidos “pobres de direita”.
Evidentemente,
para que pobres se dediquem voluntariamente a se opor de modo frontal aos
interesses específicos de seu grupo social e passem a se identificar com
aqueles que correspondem aos das classes dominantes, estas devem antes
conquistá-los ideologicamente.
E, para
realizar este trabalho persuasivo, elas precisam dispor de um amplo aparato de
formatação ideológica, montado com vistas a difundir entre toda a sociedade as
ideias e as visões de mundo características dos setores hegemônicos. Neste
dispositivo, estão incluídas instituições como os meios de comunicação, as
escolas, as igrejas, etc.
Contudo,
para melhor entender o quadro vigente na atualidade, é importante recuarmos um
pouco na história e situarmo-nos em meados da década de 1970, quando começou a
ganhar muita força a visão teórica do neoliberalismo, que se tornou a ideologia
predominante no capitalismo de nossos dias.
Por
então, os encarregados de formular as estruturas do pensamento que dá
sustentação às pretensões dos grandes capitalistas se puseram a desenvolver
teses que servissem para sedimentar na mente das pessoas dos setores populares
ideias que as levassem a romper com seu crescente processo de identificação
classista.
Essa
consciência do valor da coletividade trabalhista havia surgido e ganhado
impulso durante o processo de avanço da Revolução Industrial capitalista e
estava muito sedimentado entre boa parcela do operariado de meados do século
passado.
Portanto,
como lhes estava evidente que o maior ativo com o qual os trabalhadores
contavam para ter êxito em suas lutas era sua capacidade de atuar em unidade no
enfrentamento contra seus exploradores, os ideólogos a serviço do grande
capital concluíram que sua principal tarefa deveria ser buscar maneiras de pôr
fim ao espírito coletivo que havia se alastrado no seio de amplos setores
populares.
Neste
ímpeto desenfreado para encontrar meios de quebrar a coluna vertebral da força
popular, o neopentecostalismo demonstrou ser uma das ferramentas ideológicas
mais eficazes.
Forjado
nos Estados Unidos com o objetivo de zelar pelos interesses do grande capital
corporativo e pela dominação imperialista, foi trazido ao Brasil e a outros
países do Sul Global, onde, atualmente, desempenha o papel de baluarte na
defesa dos projetos do imperialismo estadunidense e das grandes corporações
capitalistas às quais este está atrelado.
Sua
propagação entre os setores mais explorados visava provocar divisão entre os
trabalhadores. Para extirpar o sentimento de unidade coletiva, o
neopentecostalismo se dedica a estimular a adoção do mais atroz individualismo.
A
proposta, na prática, é fazer que cada trabalhador se veja e sinta de forma
isolada, desconectado dos demais. Lamentavelmente, é preciso admitir que este
nefasto projeto conseguiu afetar um número expressivo de trabalhadores.
Na
intenção de iludir os incautos e, desta maneira, ter sua aceitação facilitada,
o neopentecostalismo apresenta-se como se fosse uma corrente religiosa do
cristianismo. Porém, se nos guiarmos pelos exemplos de vida do Jesus dos
relatos dos Evangelhos, vamos concluir que não há ideologia mais conflitante
com o simbolismo do Nazareno do que o neopentecostalismo.
Não
obstante os textos evangélicos mostrarem Jesus sempre do lado dos mais
humildes, e nunca dos ricos e poderosos, os dirigentes do neopentecostalismo
simplesmente invertem esta lógica. Assim, o rico passa a ser considerado o
abençoado, enquanto que o pobre é aquele que não caiu nas graças de Deus.
Além
disso, em países como o nosso, em que há grande diversidades de culturas na
formação de sua base, temos o agravante de a ideologia imperialista do
neopentecostalismo exercer uma atuação que acentua e instiga a prática do
racismo.
Embora
não haja uma só palavra de Jesus que abone essa atitude, o neopentecostalismo
vem se caracterizando por desenvolver ultrajantes campanhas de ódio e
perseguição contra as religiões de matriz africana.
E para
piorar, a penetração da ideologia do neopentecostalismo imperialista entre
comunidades de maioria afrodescendente está induzindo a muitos descendentes de
gente que foi sequestrada na África e trazida para cá para trabalhar em regime
de escravidão a renegar e odiar a herança cultural de seus antepassados.
Trata-se
de um intenso trabalho maldoso que está acarretando a inaceitável tragédia
cultural da autodesqualificação.
Por
isso, precisamos ter clareza de que nossa luta contra a mais reacionária
vertente da ideologia neoliberal imperialista de nossos dias não tem nada a ver
com nenhuma intolerância religiosa. O que é totalmente condenável é o caráter
antipovo e antissocial dessa ideologia neoliberal.
Como
procuramos expor nas linhas anteriores, para exercer sua hegemonia sobre o
restante da população, as classes dominantes dependem de contar com a anuência
voluntária de, pelo menos, uma parcela significativa das pessoas que integram
os setores dominados. E esta concordância é obtida através de sua influência
ideológica.
Devido
a isto, revelar e desmascarar a manipulação ideológica que vem sendo feita é
também de suma importância para que possamos ter êxito em nossos esforços.
• O eleitor invisível. Por Benedito Tadeu
César
As duas
últimas pesquisas para a Presidência alimentaram interpretações sobre o ritmo
da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Mas uma questão metodológica passou
quase despercebida: por que a indecisão praticamente desaparece quando os
entrevistados recebem uma lista de candidatos.
<><>
Para onde realmente vão os indecisos entre a pesquisa estimulada e o voto na
urna?
As duas
mais recentes pesquisas nacionais de intenção de voto para o primeiro turno da
eleição presidencial de 2026 produziram interpretações distintas. Parte dos
analistas concluiu que a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio
Bolsonaro teria entrado em uma fase de estabilização. A RED adotou uma leitura
mais cautelosa. Sem ignorar os resultados, observou que tanto a AtlasIntel
quanto a Nexus continuavam registrando crescimento de Lula, ainda que em ritmos
diferentes, e ponderou que ainda é cedo para transformar oscilações recentes em
tendências consolidadas. A campanha eleitoral sequer começou e a experiência
brasileira mostra que mudanças importantes nas preferências do eleitorado
costumam ocorrer justamente durante esse período.
Há,
entretanto, uma questão que recebeu bem menos atenção do que a disputa entre os
candidatos.
Ela diz
respeito ao comportamento dos eleitores indecisos.
Na
pesquisa espontânea da Nexus, em que o entrevistado responde livremente em quem
pretende votar, 20% afirmam que ainda não sabem em quem votar ou preferem não
responder. Quando os mesmos entrevistados recebem uma lista de candidatos, na
pergunta estimulada utilizada para as análises eleitorais, esse percentual cai
para 3%.
A
AtlasIntel divulga apenas cenários estimulados. Neles, os indecisos representam
apenas 0,1% dos entrevistados.
A
diferença é suficientemente expressiva para justificar uma reflexão.
<><>
Uma mudança provocada pela pergunta
Não se
trata de afirmar que uma das pesquisas esteja correta e a outra errada.
As duas
perguntas medem situações diferentes.
Na
pesquisa espontânea, o entrevistado precisa lembrar sozinho o nome do candidato
de sua preferência. Na estimulada, ele escolhe entre alternativas previamente
apresentadas.
É
justamente a pesquisa estimulada que fundamenta praticamente todas as análises
publicadas pela imprensa, pelos partidos e pelos cientistas políticos, porque
reproduz, ainda que imperfeitamente, a lógica da escolha que será feita diante
da urna eletrônica.
Mas
isso não elimina uma dúvida metodológica.
Os
eleitores que se declaravam indecisos na pergunta espontânea realmente
definiram seu voto alguns minutos depois ou parte deles apenas escolheu, entre
os nomes apresentados, aquele que naquele momento lhe parecia mais aceitável?
A
pesquisa, por si só, não responde a essa pergunta.
<><>
Um desafio conhecido pelos pesquisadores
A
metodologia das pesquisas de opinião estuda há décadas os efeitos produzidos
tanto pelo desenho das perguntas quanto pela composição das amostras.
Toda
pesquisa enfrenta algum grau de viés de não resposta, conceito clássico da
metodologia de surveys que descreve a menor probabilidade de determinados
segmentos da população participarem dos levantamentos. Nas pesquisas realizadas
pela internet soma-se ainda o chamado viés de auto-seleção, decorrente da
decisão voluntária de responder ao questionário.
Os
institutos conhecem esses problemas e empregam procedimentos estatísticos para
reduzir seus efeitos.
A
AtlasIntel utiliza recrutamento digital aleatório seguido de ponderação da
amostra. A Nexus realiza entrevistas telefônicas e amplia sua investigação
medindo o interesse dos entrevistados pelas eleições, a disposição declarada de
comparecer às urnas e indicadores de polarização política.
Esses
avanços metodológicos merecem reconhecimento.
Eles
mostram que os institutos procuram compreender dimensões cada vez mais
complexas do comportamento eleitoral.
Mas a
própria sofisticação das pesquisas torna ainda mais relevante discutir seus
limites.
<><>
A pergunta que permanece aberta
O
objetivo deste artigo não é contestar a qualidade das pesquisas nem sugerir que
seus resultados estejam equivocados.
A
questão é outra.
Se
determinados segmentos do eleitorado — especialmente aqueles historicamente
mais propensos à abstenção, aos votos brancos e aos votos nulos — tiverem menor
probabilidade de integrar as amostras, em que medida isso poderá influenciar as
estimativas de intenção de voto atribuídas aos candidatos?
Da
mesma forma, em que medida a apresentação de uma lista de candidatos transforma
parte da indecisão em uma escolha ainda provisória, suficiente para responder
ao pesquisador, mas não necessariamente consolidada como decisão eleitoral?
Essas
perguntas não encontram resposta nos relatórios divulgados pelos institutos.
Também
não invalidam seus resultados.
Mas
apontam para um campo de investigação que merece maior atenção tanto da
comunidade acadêmica quanto dos próprios pesquisadores de opinião.
<><>
Mais perguntas, menos certezas
As
pesquisas eleitorais continuam sendo instrumentos indispensáveis para
compreender a dinâmica política.
Sem
elas, o debate público ficaria restrito às impressões pessoais, às preferências
partidárias e às especulações.
Sua
credibilidade, porém, depende não apenas da qualidade das estimativas que
produzem, mas também da disposição permanente de aperfeiçoar seus métodos e
discutir abertamente seus limites.
No caso
das eleições de 2026, talvez a pergunta mais interessante não seja apenas quem
lidera a corrida presidencial.
Talvez
seja outra.
Quando
a indecisão praticamente desaparece nas pesquisas estimuladas, estamos diante
de um eleitorado que realmente definiu seu voto ou de um fenômeno metodológico
que ainda precisa ser melhor compreendido?
Responder
a essa questão interessa aos institutos de pesquisa, aos cientistas políticos
e, sobretudo, aos próprios eleitores.
Fonte:
Brasil 247

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