segunda-feira, 6 de julho de 2026

Autoridades veem uso de dados sigilosos do caso Master para pressão e extorsão

A sucessão de vazamentos envolvendo o caso Master levou autoridades a ampliar o monitoramento sobre a circulação de informações sigilosas produzidas ao longo da investigação.

Segundo apurou o ICL Notícias, há uma avaliação de que dados extraídos de quebras de sigilo e outras diligências passaram a ser explorados por diferentes pessoas para atender interesses paralelos — desde disputas políticas e tentativas de obtenção de vantagens financeiras até estratégias jurídicas voltadas a questionar a validade das provas e influenciar os rumos da investigação.

A preocupação ganhou novo impulso nesta sexta-feira (3), quando o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, confirmou publicamente que a corporação adotou medidas extraordinárias para preservar a cadeia de custódia das provas e impedir a circulação indevida de informações do caso.

“Já fizemos inclusive busca e apreensão contra um colega perito para coibir. Temos a compartimentação preservada para não ter questionamentos lá na frente”, afirmou Andrei durante café da manhã com jornalistas em Brasília.

A declaração faz referência à investigação que apurou o vazamento de informações atribuído ao perito João Cláudio Nabas e reforça uma preocupação que, segundo fontes ouvidas pelo ICL Notícias, já vinha sendo discutida por fontes que acompanham o caso.

Segundo essas fontes, o objetivo da investigação sobre os vazamentos nunca foi apenas descobrir quem repassou documentos protegidos por sigilo. O receio era compreender toda a cadeia de circulação dessas informações e identificar até onde o material havia chegado.

A avaliação era de que, se documentos da investigação estavam chegando a jornalistas antes mesmo da conclusão de diligências, também não poderia ser descartada a possibilidade de que essas mesmas informações estivessem alcançando pessoas investigadas ou diretamente interessadas no desfecho do caso, comprometendo medidas em andamento e permitindo reações antecipadas.

Foi justamente essa preocupação que levou a Polícia Federal a tratar o episódio envolvendo João Cláudio Nabas como um caso sensível. As informações reveladas nesta sexta-feira pelo Estadão reforçaram o entendimento de que preservar a cadeia de custódia se tornou tão importante quanto produzir novas provas.

<><> Diferentes atores, diferentes interesses

Segundo autoridades ouvidas pela reportagem, não há elementos que indiquem a atuação de uma única organização responsável pelos vazamentos.

O que também passou a chamar a atenção é outro fenômeno: diferentes atores passaram a utilizar informações do caso Master conforme seus próprios interesses, sem que necessariamente exista qualquer coordenação entre eles.

Em comum, esses episódios têm o uso de dados produzidos durante a investigação como instrumento de pressão, influência política, obtenção de vantagens financeiras ou fortalecimento de estratégias processuais.

Um dos exemplos apontados envolve justamente João Cláudio Nabas.

Segundo a investigação, os vazamentos atribuídos ao perito tiveram como foco informações envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, personagens frequentemente atacados por setores do bolsonarismo, corrente política à qual Nabas manifesta simpatia.

Independentemente da motivação, o episódio demonstrou como informações protegidas por sigilo passaram a ser utilizadas para finalidades alheias à própria investigação.

Outro caso considerado emblemático envolve Joana Mourão, irmã de Luís Felipe Mourão, conhecido como “Sicário”.

Conforme relatório da Polícia Federal, Joana ameaçou divulgar um dossiê que, segundo dizia, seria capaz de “acabar com a família” do banqueiro Daniel Vorcaro.

As mensagens interceptadas mostram que ela exigia dinheiro de pessoas ligadas ao empresário para custear despesas pessoais e familiares, alegando dificuldades financeiras.

A investigação aponta ainda que pessoas ligadas ao grupo investigado negociaram contratos e tentaram comprar o silêncio de Joana. Nas conversas, ela também ameaçava comprometer diretamente a delação envolvendo seu irmão e fazia referências a Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro.

O episódio demonstra que informações relacionadas ao caso passaram a ser utilizadas como instrumento de pressão e negociação muito antes da sequência de vazamentos registrada nas últimas semanas.

<><> Vazamentos sucessivos ampliaram o alerta

Nos últimos dias, uma nova sequência de divulgações aumentou a preocupação das autoridades.

Entre os episódios estão a publicação de mensagens envolvendo a jornalista Malu Gaspar, inicialmente reveladas pelo portal Fatos Online, e novos diálogos da investigação divulgados por diferentes veículos de imprensa.

Segundo fontes ouvidas pelo ICL Notícias, a preocupação não recai sobre jornalistas ou sobre o exercício da atividade jornalística.

O foco está em quem possui acesso ao material sigiloso e utiliza divulgações seletivas para demonstrar que detém informações da investigação, pressionar personagens ligados ao caso, influenciar narrativas públicas ou obter vantagens de diferentes naturezas.

Aliados de Daniel Vorcaro vêm difundindo entre jornalistas a tese de que a defesa pretende questionar a validade das provas sob o argumento de que teria havido falhas na cadeia de custódia.

Embora não exista, até o momento, qualquer decisão judicial reconhecendo irregularidades na preservação das provas produzidas no caso Master, autoridades avaliam que a combinação entre sucessivos vazamentos e a construção dessa narrativa exige atenção redobrada.

A fala de Andrei Rodrigues, ao afirmar que a Polícia Federal compartimentou informações “para não ter questionamentos lá na frente”, é vista como um reconhecimento público de que a preservação da cadeia de custódia se tornou um dos pontos centrais da investigação.

Na avaliação de fontes ouvidas pela reportagem, o desafio deixou de ser apenas descobrir quem vazou determinado documento. O objetivo agora é compreender como informações altamente sensíveis passaram a circular entre diferentes atores e impedir que esse material continue sendo utilizado para interesses estranhos à investigação, sejam eles políticos, financeiros, processuais ou de pressão sobre pessoas envolvidas no caso.

•        Perito da PF produziu dossiês sobre ministros a partir do celular de Vorcaro, diz jornal

A Polícia Federal (PF) identificou que o perito criminal João Cláudio Nabas produziu dois arquivos com referências aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes e Dias Toffoli -intitulados “Moraes.pdf” e “Toffoli e esposa.pdf” -, a partir de citações encontradas no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. As informações foram publicadas pelos jornalistas Felipe de Paula, Aguirre Talento e Fausto Macedo, no Estadão.

A investigação foi aberta pela PF por ordem do relator, ministro André Mendonça, para apurar vazamentos do celular de Vorcaro. Em maio, a Polícia Federal cumpriu mandado de busca e apreensão contra Nabas, que passou a responder por suspeita de violação de sigilo funcional e foi afastado das atividades.

Segundo a apuração, Nabas foi integrado à equipe da Operação Compliance Zero em novembro de 2025 para atuar na análise técnica do material apreendido. Registros internos da corporação indicam que ele acessou os dados obtidos do celular em 1º de dezembro e, três dias depois, criou os dois arquivos em PDF. Os registros foram obtidos no sistema interno da própria PF.

Os arquivos compilavam diálogos, documentos e menções relacionados aos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli encontrados no celular de Daniel Vorcaro. Um deles incluía trechos do contrato de R$ 129 milhões firmado entre o Banco Master e a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes.

De acordo com o relatório, policiais que integravam a investigação relataram que o perito encaminhou um dos arquivos ao grupo responsável pelo caso e, em seguida, enviou uma mensagem de áudio defendendo que o material fosse divulgado à imprensa. Os colegas teriam recusado a sugestão. Dias depois, os detalhes do contrato da esposa de Moraes estamparam os jornais. Na ocasião, veio à público que Viviane encaminhou o contrato diretamente ao WhatsApp do ex-banqueiro.

A investigação da PF afirma que o perito “de fato criou os documentos relacionados aos magistrados e a análise dos metadados e conteúdos de tais manuscritos reforçando os indícios de que Nabas organizou e repassou à imprensa os dados sigilosos referentes às informações sobre os ministros do STF encontrados no celular apreendido de Daniel Vorcaro”.

A PF sustenta que Nabas acessou os dados do celular de Daniel Vorcaro sem autorização e “direcionou seus esforços em sentido contrário ao escopo das investigações”, buscando informações sobre os ministros do STF para divulgação à imprensa.

Os depoimentos colhidos no inquérito também indicam que Nabas realizava a análise dos arquivos de forma remota, a partir de Vilhena (RO), cidade onde é lotado, e que, em 5 de dezembro de 2025, enviou um arquivo em PDF sem identificação contendo um compilado de mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro. Após o episódio, ele foi retirado da equipe da Operação Compliance Zero e teve o acesso aos materiais da investigação bloqueado.

Pela legislação brasileira, eventuais investigações envolvendo ministros do Supremo só podem ser conduzidas mediante autorização da própria Corte. Em razão do foro por prerrogativa de função, qualquer procedimento investigativo contra integrantes do STF deve tramitar sob supervisão do tribunal e ser distribuído à relatoria de um de seus ministros.

•        Perito investigado abordou delegada do caso Master e citou jornalista

O perito da Polícia Federal João Cláudio Nabas, alvo da 7ª fase da Operação Compliance Zero por suspeita de vazamento de informações sigilosas do caso Banco Master, procurou uma delegada que atuava diretamente nas investigações e afirmou manter uma relação antiga com a jornalista Malu Gaspar, do O Globo.

Segundo apuração do ICL Notícias, a abordagem ocorreu inicialmente de forma presencial e, dias depois, foi retomada por mensagens enviadas à delegada. Durante os contatos, Nabas dizia ser fonte da colunista havia anos e afirmava que costumava repassar informações à jornalista. Em uma das conversas, também sugeriu que a delegada poderia compartilhar informações relacionadas à investigação.

A delegada comunicou imediatamente o episódio aos superiores e apresentou as mensagens recebidas. O relato passou a integrar os elementos analisados internamente e reforçou suspeitas que já começavam a surgir em torno da atuação do servidor, contribuindo para o aprofundamento da apuração que mais tarde resultaria na operação autorizada pelo ministro André Mendonça, relator do caso Banco Master, no Supremo Tribunal Federal (STF).

O episódio ajuda a explicar um dos bastidores da investigação revelada nesta quinta-feira (3), quando o Estadão publicou que a Polícia Federal apura a atuação de Nabas no suposto vazamento de documentos extraídos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro. Entre os materiais analisados estão arquivos identificados como “Moraes” e “Toffoli”, produzidos a partir do conteúdo apreendido durante a investigação.

<><> Reforço das suspeitas

A reportagem do Estadão mostrou que a Polícia Federal passou a investigar a origem de documentos que chegaram à imprensa. Nos bastidores, porém, a suspeita sobre Nabas já vinha sendo alimentada por outros elementos. A conversa com a delegada tornou-se uma das primeiras ocorrências que despertaram preocupação entre os investigadores.

Depois desse episódio, a investigação avançou sobre a atuação do perito. Foram analisados registros de acesso a sistemas da Polícia Federal, históricos de consultas e os dispositivos eletrônicos de Nabas. O conjunto desses elementos teria consolidado os indícios que embasaram a operação deflagrada nesta semana.

Nabas não era um servidor periférico da corporação. Com cerca de duas décadas de carreira na Polícia Federal, construiu trajetória na área de perícia em crimes financeiros e previdência complementar. Em seus perfis profissionais, apresenta-se como professor de cursos voltados à investigação de fraudes financeiras e de investimentos.

Sua atuação profissional dialoga diretamente com um dos principais eixos da Operação Compliance Zero. Em 2023, concluiu mestrado na Universidade de Brasília (UnB) com uma dissertação dedicada à investigação de fraudes em fundos de investimento ligados aos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), tema que guarda relação com uma das linhas de investigação envolvendo o Banco Master.

<><> Histórico e atuação profissional

Uma reportagem da Revista Fórum também mostrou que o perito compartilhava, em suas redes sociais, publicações de viés bolsonarista, chegando a compartilhar posts do ex-juiz e hoje senador Sergio Moro (União Brasil-PR) e do deputado federal Marcel Van Hattem (Novo-RS), um dos principais nomes da oposição ao governo Lula.

Segundo a revista, uma das postagens reproduzidas por Nabas defendia Sergio Moro e criticava a revisão de condenações da Operação Lava Jato. Em outra, o perito compartilhava conteúdo de Van Hattem com ataques a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A reportagem também destaca que Nabas apoiou a candidatura do deputado à presidência da Câmara.

Apesar do histórico de manifestações públicas, até o momento a investigação conduzida pela Polícia Federal não atribui motivação político-partidária à conduta investigada. O foco da apuração permanece na origem do vazamento de informações sigilosas relacionadas ao caso Banco Master e na eventual utilização indevida de documentos extraídos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro.

A operação que teve Nabas como alvo foi autorizada pelo ministro André Mendonça. Na decisão, o magistrado ressaltou que as medidas não representam qualquer direcionamento investigativo contra jornalistas ou veículos de comunicação e preservam tanto a liberdade de imprensa quanto o sigilo da fonte. O objetivo das diligências, segundo o despacho, é esclarecer a origem do vazamento e preservar a integridade da investigação.

Nos bastidores do caso, investigadores avaliam que o maior risco não é a divulgação de informações de interesse público pela imprensa, mas a circulação irregular de documentos sigilosos ainda durante a fase investigativa. O receio é que materiais em análise cheguem antecipadamente a investigados, comprometam diligências futuras ou alimentem questionamentos sobre a cadeia de custódia das provas.

A preocupação ganhou ainda mais relevância porque a Operação Compliance Zero permanece em andamento e reúne diversas frentes investigativas envolvendo movimentações financeiras, fundos de investimento, relações empresariais e possíveis ramificações políticas do caso Banco Master.

A reportagem optou por preservar a identidade da delegada que recebeu a abordagem de Nabas em razão de sua atuação na investigação.

 

Fonte: ICL Notícias

 

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