Utopia
capitalista
O mote
high tech, low life sintetiza bem a constituição de nosso horizonte político,
no qual se tornou extremamente difícil pensar que alguma inovação técnica
possa, de fato, melhorar a vida de todas as pessoas.
Todos
os artefatos hoje produzidos pairam como uma ameaça sobre a coletividade: a
Inteligência artificial, a biotecnologia, a robótica, a exploração espacial, a
neurociência, os estudos sobre o comportamento social etc., são amplamente
mobilizados contra o elemento humano e reforçam o contraste entre futuro
brilhante e sociedade sombria.
Ao
mesmo tempo, diante do enfraquecimento da coletividade, quase exclusivamente
desse material são forjadas imagens do amanhã – as utopias capitalistas.
Michel
Nieva, em Ficção científica capitalista, relata a retroalimentação entre a
ficção especulativa e a especulação financeira, pois o planejamento empresarial
e a previsibilidade dos negócios têm o futuro como matéria-prima. Os
bilionários investem em projetos saídos das páginas da ficção científica para
levar a cabo projetos ousados como, por exemplo, a exploração espacial com o
intuito de escapar ao colapso que eles próprios produzem no planeta Terra ou
empregam vultuosas somas de dinheiro na pesquisa de medicamentos que lhes
prometem vida matusalêmica: a esperança é preservar sua hegemonia e prolongar
pela eternidade o inferno capitalista.
Após o
“fim da história”, há mais de 30 anos, Fredric Jameson já detectava fortes
ansiedades sobre o destino histórico de um sistema que se propagandeava como
imutável e perpétuo. A apologia da vitória definitiva da democracia liberal
vinha sombreada pela intuição de um tecido social que continuava a se degradar,
porém no tom melancólico da crença de que já não se podia conceber um roteiro
plausível para a sua substituição.
O
capitalismo se tornou o alfa e o ômega da cultura, abarcando desde a memória
até as expectativas coletivas. Tornou-se, então, “mais fácil imaginar a
deterioração total da Terra e da natureza do que o colapso do capitalismo
tardio”.
Também
o que Mark Fisher define como “realismo capitalista” é o confinamento da
imaginação coletiva à replicação sempre igual das coordenadas existentes, de
modo que o futuro aparece apenas como uma variação do presente. E a
“hiperstição” de Margaret Thatcher de que “não há alternativas” foi a profecia
autorrealizadora da ideologia neoliberal: ao apresentar o capitalismo como
horizonte incontornável da vida social, transformou uma contingência histórica
em necessidade e reduziu o campo do pensável político.
No
cenário terminal em que nos encontramos, a alternativa única tem sido vista
como a catástrofe, mas de tal maneira que ela não seja mais do que a
continuação do capitalismo noutras condições. Se o neoliberalismo prometia o
fim da regulação social e da burocracia para criar o paraíso do individualismo
e da flexibilidade, o catastrofismo promete libertar-nos das ilusões de um
mundo melhor e se relaciona com a “escolha” de aceitar e levar até o final o
mundo tal como ele é.
Elon
Musk é um epígono dessa tradição que defende a fatalidade da exploração dos
fortes sobre os fracos, a prevalência do interesse estreito de poucos e a
inevitabilidade da decadência ambiental. Elon Musk, diz Michel Nieva, vende-se
como um filantropo altruísta pois sua motivação para acumular capital seria
envolver-se na epopeia de salvação da humanidade da crise planetária (criada
por sua classe).
O seu
slogan “Occupy Mars” diz muito sobre o momento presente, porque em sua sátira
do Occupy Wall Street acolhe o senso de crise e esgotamento, canalizando o
mal-estar social para os tropos da cultura de massa da narrativa heroica, do
empreendimento ousado e da aventura da conquista.
Na era
do “iluminismo das trevas”, uma dialética das trevas parece se anunciar quando
os especuladores do espaço sideral pretendem instalar uma “utopia do carvão e
do combustível fóssil” em Marte. O plano seria tornar o Planeta Vermelho tão
extremamente poluído, tão dominado por escapamentos de automóveis e tão
bombardeado por chaminés de fábricas gigantes que as nuvens de fumaça
aqueceriam o planeta e criariam a atmosfera necessária à vida humana.
Afinal,
se o uso do combustível fóssil e a exploração da terra pelo capitalismo foram
forças capazes de destruir o nosso planeta, eles seriam “os únicos com
autoridade técnica para reaquecer Marte e transferir para lá os bilionários do
mundo”.
A
utopia capitalista coloniza a nossa imaginação e faz com que nenhuma solução
possa ser encontrada no tempo, mas apenas na replicação do capital que agora se
projeta no restante do sistema solar. Transferir a mente dos endinheirados para
máquinas, o clima da Terra para outros planetas e a economia capitalista pela
galáxia parece mais fácil do que transformar o mundo existente, mas, tal como o
infeliz Mr. Peel, os empreendedores espaciais não conseguem imaginar que o
mundo seja mais amplo do que o próprio umbigo.
O papel
da ficção científica no projeto dos bilionários tem a ver com a conhecida
cooptação das subculturas alternativas e marginais pelo “novo espírito do
capitalismo” e com a ideologia despachada das empresas do Vale do Silício, mas
os discursos suaves nunca puderam contornar as contradições da substância. As
corporações de tecnologia e inovação passaram a se legitimar através da
liberdade criativa, da permissividade, da irreverência e da informalidade em
cargos de destaque enquanto fomentam a precarização e a miséria neoliberal.
A
atratividade do CEO arrojado e do funcionário cool foram armas para a
concentração econômica e a acumulação do prestígio que agora se voltam contra o
multiculturalismo e a democracia. O Vale
do Silício propagandeou o empreendedorismo e a desconstrução, enquanto
efetivamente realizava seus lucros sobre escombros e ruínas: os seus projetos
sempre dependeram de uma vasta cadeia de trabalho precarizado, do trabalho
infantil nas periferias e da contaminação ambiental em países do Terceiro
Mundo.
High
tech, low life significa antes de mais nada que a utopia de poucos tem sido a
distopia de muitos, o sonho diurno da classe dominante é, na verdade, um
pesadelo diurno. As maravilhas da ciência e da tecnologia têm sido empregadas
para sustentar uma casta de magnatas que sempre esteve apartada das
consequências sociais da concentração de renda, mas que, nas últimas décadas,
distanciou-se até mesmo de seu entorno decadente e despiu a máscara democrata
que portava.
O
neofascismo é agora moda entre os barões das Big Tech como Elon Musk, Peter
Thiel, Mark Zuckerberg e outros que buscam ampliar o seu poder através da
vigilância em massa e da exploração ilimitada da força de trabalho e da
natureza. Uma empresa fundada por Peter Thiel e Alex Karp, a Palantir
Technologies Inc., cujo nome se inspira num elemento da ficção especulativa de
Tolkien, forneceu recentemente a síntese do programa e da doutrina do Vale do
Silício.
A
Palantir, efetivamente, lançou um manifesto (!) que poderia ser interpretado
como a orientação do partido dos bilionários estadunidenses, os quais cada vez
mais demonstram já não ter constrangimentos em admitir que perderam a paciência
com a democracia liberal e se inclinam cada vez para o autoritarismo e a gestão
direta da sociedade.
Uma
incursão panorâmica por algumas das 22 teses do manifesto pode nos mostrar os
contornos da utopia capitalista planejada pela Big Tech de inteligência
artificial e análise de dados. As teses 1 e 2 mostram, respectivamente, o
alinhamento com o imperialismo dos Estados Unidos e a necessidade de
transformação autoritária do país ao assumir a “dívida moral” com a defesa da
nação, mas tornar alvo dispositivos do período anterior como o iPhone, que
ainda salvaguardam um mínimo de privacidade dos usuários.
A tese
3 respalda o risco de decadência dos Estados Unidos para defender que “sua
classe dominante só será perdoada” caso proporcione “crescimento econômico e
segurança ao público”. Já as teses 4 e 5 sustentam explicitamente a necessidade
da substituição do uso do soft power pelo hard power e da militarização da
inteligência artificial. Como observou Yanis Varoufakis, chegaram “os robôs
assassinos impulsionados por Inteligência artificial (…) a Palantir fará o que
for necessário para evitar a todo custo qualquer tratado internacional que
limite os robôs assassinos impulsionados por Inteligência artificial”.
Além
disso, afirma a tese 6, “deveríamos considerar seriamente a possibilidade de
nos afastarmos de um exército composto exclusivamente por voluntários e só
travar a próxima guerra se todos compartilharmos o risco e o custo”. Ou seja, é
preciso militarizar compulsoriamente toda a sociedade e fazer o recrutamento em
massa e forçado dos cidadãos – talvez algo como o emprego das Forças Armadas ou
ICE em cinemas, supermercados, com gente armada por todos os lados. A tese 15
complementa essa ideia com a necessidade de rearmar a Alemanha e o Japão,
fomentando um novo fascismo par ser a linha de frente na guerra vindoura contra
a Rússia e a China.
No
final, os tópicos 21 e 22, o melhor da distopia: a Palantir flerta abertamente
com o nazismo ao declarar que “algumas culturas produziram avanços vitais;
outras permanecem disfuncionais e regressivas” e, mais perigoso e contagioso,
mostraram-se “regressivas e prejudiciais”. O dever estoico da ideologia
dominante agora é resistir à tentação do “pluralismo vazio e oco”. Portanto, o
programa da corporação é contribuir para a estratificação racial e cultural da
humanidade, superar os vestígios do multiculturalismo e reinvestir na criação
de uma ordem empresarial autoritária total.
Após o
fim do fim da história, a classe dominante dobrou a aposta na catástrofe como
resposta à calamidade e no hipercapitalismo como solução para o capitalismo.
Se, como afirma Adorno, “não tem luz o conhecimento senão aquela que irradia
sobre o mundo a partir da redenção”, o aceleracionismo do neofascismo é
completamente trevoso. A utopia capitalista baseia-se inteira e orgulhosamente
na impossibilidade de um mundo melhor e busca apenas a reprodução ampliada do
poder para poucos e da miséria para a grande maioria.
A
utopia capitalista e o seu aceleracionismo podem ao menos nos ensinar que a
única escapatória do abismo presente é para a frente, desativando a impotente
expectativa na “resistência”, na “limitação” e na “contenção” dos males do
capitalismo, que tem marcado a esquerda nas últimas décadas. O desejo se
orienta prioritariamente para o futuro.
Um
futuro emancipado nos espreita como uma dimensão paralela, incomunicável e
inimaginável em que os produtos humanos servem aos seres humanos, mas é preciso
que esse imponderável seja recuperado pela coletividade.
Fonte:
Por Thomas Amorim, em A Terra é Redonda

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