segunda-feira, 6 de julho de 2026

Utopia capitalista

O mote high tech, low life sintetiza bem a constituição de nosso horizonte político, no qual se tornou extremamente difícil pensar que alguma inovação técnica possa, de fato, melhorar a vida de todas as pessoas.

Todos os artefatos hoje produzidos pairam como uma ameaça sobre a coletividade: a Inteligência artificial, a biotecnologia, a robótica, a exploração espacial, a neurociência, os estudos sobre o comportamento social etc., são amplamente mobilizados contra o elemento humano e reforçam o contraste entre futuro brilhante e sociedade sombria.

Ao mesmo tempo, diante do enfraquecimento da coletividade, quase exclusivamente desse material são forjadas imagens do amanhã – as utopias capitalistas.

Michel Nieva, em Ficção científica capitalista, relata a retroalimentação entre a ficção especulativa e a especulação financeira, pois o planejamento empresarial e a previsibilidade dos negócios têm o futuro como matéria-prima. Os bilionários investem em projetos saídos das páginas da ficção científica para levar a cabo projetos ousados como, por exemplo, a exploração espacial com o intuito de escapar ao colapso que eles próprios produzem no planeta Terra ou empregam vultuosas somas de dinheiro na pesquisa de medicamentos que lhes prometem vida matusalêmica: a esperança é preservar sua hegemonia e prolongar pela eternidade o inferno capitalista.

Após o “fim da história”, há mais de 30 anos, Fredric Jameson já detectava fortes ansiedades sobre o destino histórico de um sistema que se propagandeava como imutável e perpétuo. A apologia da vitória definitiva da democracia liberal vinha sombreada pela intuição de um tecido social que continuava a se degradar, porém no tom melancólico da crença de que já não se podia conceber um roteiro plausível para a sua substituição.

O capitalismo se tornou o alfa e o ômega da cultura, abarcando desde a memória até as expectativas coletivas. Tornou-se, então, “mais fácil imaginar a deterioração total da Terra e da natureza do que o colapso do capitalismo tardio”.

Também o que Mark Fisher define como “realismo capitalista” é o confinamento da imaginação coletiva à replicação sempre igual das coordenadas existentes, de modo que o futuro aparece apenas como uma variação do presente. E a “hiperstição” de Margaret Thatcher de que “não há alternativas” foi a profecia autorrealizadora da ideologia neoliberal: ao apresentar o capitalismo como horizonte incontornável da vida social, transformou uma contingência histórica em necessidade e reduziu o campo do pensável político.

No cenário terminal em que nos encontramos, a alternativa única tem sido vista como a catástrofe, mas de tal maneira que ela não seja mais do que a continuação do capitalismo noutras condições. Se o neoliberalismo prometia o fim da regulação social e da burocracia para criar o paraíso do individualismo e da flexibilidade, o catastrofismo promete libertar-nos das ilusões de um mundo melhor e se relaciona com a “escolha” de aceitar e levar até o final o mundo tal como ele é.

Elon Musk é um epígono dessa tradição que defende a fatalidade da exploração dos fortes sobre os fracos, a prevalência do interesse estreito de poucos e a inevitabilidade da decadência ambiental. Elon Musk, diz Michel Nieva, vende-se como um filantropo altruísta pois sua motivação para acumular capital seria envolver-se na epopeia de salvação da humanidade da crise planetária (criada por sua classe).

O seu slogan “Occupy Mars” diz muito sobre o momento presente, porque em sua sátira do Occupy Wall Street acolhe o senso de crise e esgotamento, canalizando o mal-estar social para os tropos da cultura de massa da narrativa heroica, do empreendimento ousado e da aventura da conquista.

Na era do “iluminismo das trevas”, uma dialética das trevas parece se anunciar quando os especuladores do espaço sideral pretendem instalar uma “utopia do carvão e do combustível fóssil” em Marte. O plano seria tornar o Planeta Vermelho tão extremamente poluído, tão dominado por escapamentos de automóveis e tão bombardeado por chaminés de fábricas gigantes que as nuvens de fumaça aqueceriam o planeta e criariam a atmosfera necessária à vida humana.

Afinal, se o uso do combustível fóssil e a exploração da terra pelo capitalismo foram forças capazes de destruir o nosso planeta, eles seriam “os únicos com autoridade técnica para reaquecer Marte e transferir para lá os bilionários do mundo”.

A utopia capitalista coloniza a nossa imaginação e faz com que nenhuma solução possa ser encontrada no tempo, mas apenas na replicação do capital que agora se projeta no restante do sistema solar. Transferir a mente dos endinheirados para máquinas, o clima da Terra para outros planetas e a economia capitalista pela galáxia parece mais fácil do que transformar o mundo existente, mas, tal como o infeliz Mr. Peel, os empreendedores espaciais não conseguem imaginar que o mundo seja mais amplo do que o próprio umbigo.

O papel da ficção científica no projeto dos bilionários tem a ver com a conhecida cooptação das subculturas alternativas e marginais pelo “novo espírito do capitalismo” e com a ideologia despachada das empresas do Vale do Silício, mas os discursos suaves nunca puderam contornar as contradições da substância. As corporações de tecnologia e inovação passaram a se legitimar através da liberdade criativa, da permissividade, da irreverência e da informalidade em cargos de destaque enquanto fomentam a precarização e a miséria neoliberal.

A atratividade do CEO arrojado e do funcionário cool foram armas para a concentração econômica e a acumulação do prestígio que agora se voltam contra o multiculturalismo e a democracia.  O Vale do Silício propagandeou o empreendedorismo e a desconstrução, enquanto efetivamente realizava seus lucros sobre escombros e ruínas: os seus projetos sempre dependeram de uma vasta cadeia de trabalho precarizado, do trabalho infantil nas periferias e da contaminação ambiental em países do Terceiro Mundo.

High tech, low life significa antes de mais nada que a utopia de poucos tem sido a distopia de muitos, o sonho diurno da classe dominante é, na verdade, um pesadelo diurno. As maravilhas da ciência e da tecnologia têm sido empregadas para sustentar uma casta de magnatas que sempre esteve apartada das consequências sociais da concentração de renda, mas que, nas últimas décadas, distanciou-se até mesmo de seu entorno decadente e despiu a máscara democrata que portava.

O neofascismo é agora moda entre os barões das Big Tech como Elon Musk, Peter Thiel, Mark Zuckerberg e outros que buscam ampliar o seu poder através da vigilância em massa e da exploração ilimitada da força de trabalho e da natureza. Uma empresa fundada por Peter Thiel e Alex Karp, a Palantir Technologies Inc., cujo nome se inspira num elemento da ficção especulativa de Tolkien, forneceu recentemente a síntese do programa e da doutrina do Vale do Silício.

A Palantir, efetivamente, lançou um manifesto (!) que poderia ser interpretado como a orientação do partido dos bilionários estadunidenses, os quais cada vez mais demonstram já não ter constrangimentos em admitir que perderam a paciência com a democracia liberal e se inclinam cada vez para o autoritarismo e a gestão direta da sociedade.

Uma incursão panorâmica por algumas das 22 teses do manifesto pode nos mostrar os contornos da utopia capitalista planejada pela Big Tech de inteligência artificial e análise de dados. As teses 1 e 2 mostram, respectivamente, o alinhamento com o imperialismo dos Estados Unidos e a necessidade de transformação autoritária do país ao assumir a “dívida moral” com a defesa da nação, mas tornar alvo dispositivos do período anterior como o iPhone, que ainda salvaguardam um mínimo de privacidade dos usuários.

A tese 3 respalda o risco de decadência dos Estados Unidos para defender que “sua classe dominante só será perdoada” caso proporcione “crescimento econômico e segurança ao público”. Já as teses 4 e 5 sustentam explicitamente a necessidade da substituição do uso do soft power pelo hard power e da militarização da inteligência artificial. Como observou Yanis Varoufakis, chegaram “os robôs assassinos impulsionados por Inteligência artificial (…) a Palantir fará o que for necessário para evitar a todo custo qualquer tratado internacional que limite os robôs assassinos impulsionados por Inteligência artificial”.

Além disso, afirma a tese 6, “deveríamos considerar seriamente a possibilidade de nos afastarmos de um exército composto exclusivamente por voluntários e só travar a próxima guerra se todos compartilharmos o risco e o custo”. Ou seja, é preciso militarizar compulsoriamente toda a sociedade e fazer o recrutamento em massa e forçado dos cidadãos – talvez algo como o emprego das Forças Armadas ou ICE em cinemas, supermercados, com gente armada por todos os lados. A tese 15 complementa essa ideia com a necessidade de rearmar a Alemanha e o Japão, fomentando um novo fascismo par ser a linha de frente na guerra vindoura contra a Rússia e a China.

No final, os tópicos 21 e 22, o melhor da distopia: a Palantir flerta abertamente com o nazismo ao declarar que “algumas culturas produziram avanços vitais; outras permanecem disfuncionais e regressivas” e, mais perigoso e contagioso, mostraram-se “regressivas e prejudiciais”. O dever estoico da ideologia dominante agora é resistir à tentação do “pluralismo vazio e oco”. Portanto, o programa da corporação é contribuir para a estratificação racial e cultural da humanidade, superar os vestígios do multiculturalismo e reinvestir na criação de uma ordem empresarial autoritária total.

Após o fim do fim da história, a classe dominante dobrou a aposta na catástrofe como resposta à calamidade e no hipercapitalismo como solução para o capitalismo. Se, como afirma Adorno, “não tem luz o conhecimento senão aquela que irradia sobre o mundo a partir da redenção”, o aceleracionismo do neofascismo é completamente trevoso. A utopia capitalista baseia-se inteira e orgulhosamente na impossibilidade de um mundo melhor e busca apenas a reprodução ampliada do poder para poucos e da miséria para a grande maioria.

A utopia capitalista e o seu aceleracionismo podem ao menos nos ensinar que a única escapatória do abismo presente é para a frente, desativando a impotente expectativa na “resistência”, na “limitação” e na “contenção” dos males do capitalismo, que tem marcado a esquerda nas últimas décadas. O desejo se orienta prioritariamente para o futuro.

Um futuro emancipado nos espreita como uma dimensão paralela, incomunicável e inimaginável em que os produtos humanos servem aos seres humanos, mas é preciso que esse imponderável seja recuperado pela coletividade.

 

Fonte: Por Thomas Amorim, em A Terra é Redonda

 

Nenhum comentário: