Nuno
Vasconcellos: Roupa suja lavada em
público
A
política brasileira não se cansa de produzir cenas inexplicáveis — e as
situações criadas por esses acontecimentos servem para aumentar ainda mais a
confusão que tem tomado conta da cabeça do eleitor. Um dos exemplos mais
recentes desse tipo de situação foi o rebuliço causado na pré-candidatura do
senador Flávio Bolsonaro à presidência da República pelo vídeo divulgado na
segunda-feira pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Em
plena Copa do Mundo, num momento em que a evolução da Seleção Brasileira atraia
a atenção do país inteiro e poderia funcionar como uma espécie de biombo capaz
de dar às candidaturas a privacidade necessária para se reorganizar para uma
campanha que deve ficar cada vez mais acirrada depois do Mundial, a mulher do
ex-presidente da República entrou em cena e conseguiu deixar a situação mais
emaranhada do que estava antes. E o prejuízo causado pela decisão de tornar
ainda mais públicas suas divergências com Flávio e com o partido ainda está
longe de ser contabilizado em sua totalidade.
O vídeo
marcou, na prática, o rompimento de Michelle com os filhos de seu marido. Com
críticas ácidas a Flávio, a seus irmãos e ao PL do Ceará, o material é rumoroso
demais para ser recebido como uma página virada. Ou, como querem as lideranças
da direita, para ser varrido para debaixo do tapete e ser mantido lá — como se
não tocar no assunto fizesse com que o problema desaparecesse. Como, aliás,
muita gente tentou fazer na semana passada.
A
deputada Júlia Zanatta, do PL de Santa Catarina, por exemplo, afirmou em
entrevista que mantém o apoio à candidatura de Flávio, mas não rompe
politicamente com Michelle — o que, para bom observador, parece algo
impossível. O certo, porém, é que as revelações feitas por Michelle expõem uma
situação embaraçosa. Elas foram fortes o bastante para imobilizar o PL e
impedir que a oposição faturasse com a exposição das evidências de envolvimento
até o pescoço do senador Jacques Wagner (PT/BA) no escândalo do Banco Master.
Embora
não tenham sido suficientes para eliminar as possibilidades de vitória da
direita nas eleições de outubro — como muita gente gostaria que tivesse
acontecido — os ecos das palavras de Michelle devem ser ouvidos com atenção.
Eles indicam que os obstáculos que a direita terá de superar caso tenha mesmo a
intenção de derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva — o que parece cada
vez mais difícil a cada trapalhada — são maiores do que pareciam algumas
semanas atrás.
A
rigor, poucas atitudes na política brasileira — que tem sido palco de uma série
de atitudes incompreensíveis — parecem mais desprovidas de lógica do que a
decisão de Michelle de lavar a roupa suja em público. De uma hora para outra,
ela resolveu reavivar as brasas de suas desavenças com os filhos do
ex-presidente Jair Bolsonaro e, ao fazer isso, tomou um caminho que torna
difícil qualquer reaproximação.
Bem-produzido
demais para não ter contado com ajuda externa, o vídeo expõe desavenças
antigas, mas tem como pano de fundo um episódio recente. Trata-se da decisão do
PL à de apoiar a candidatura de Ciro Gomes, do PSDB, ao governo do Ceará. Ciro
lidera as pesquisas de intenção de voto para as eleições que podem levá-lo ao
Palácio da Abolição, depois de três governos sucessivos do PT.
QUESTÃO
PERTINENTE
A
questão é: será que a atitude de Michelle foi tão fora de propósito assim? É
preciso refletir sobre isso. O estopim da briga foi a insistência do diretório
estadual do PL no Ceará em negar à vereadora em Fortaleza, Priscila Costa,
aliada de Michelle, uma das vagas a que o partido tem direito na disputa ao
Senado nas próximas eleições. Em vez de lançar dois candidatos próprios, o
partido lançaria apenas um e daria apoio a algum nome do PSDB. Abriria mão de
uma das vagas em troca de espaço num eventual governo de Ciro Gomes.
Para o
Senado, o PL teria apenas a candidatura do deputado estadual Alcides Fernandes,
que é pastor da Assembleia de Deus e pai do deputado federal André Fernandes. O
jovem político, que despontou como um dos principais líderes do PL no Nordeste
depois de quase derrotar o PT na eleição para a prefeitura no ano retrasado, é
o presidente do diretório estadual do partido no Ceará e principal articulador
da decisão pragmática de apoiar Ciro em nome da possibilidade de derrotar o PT.
Michelle fechou os olhos para as conveniências eleitorais da legenda e insistiu
na candidatura de sua correligionária. E, ao fazer isso, espalhou sujeira para
todo lado.
A
ex-primeira-dama deixou claro que, em relação aos filhos de seu marido, seu
coração é, como diz a canção de Chico Buarque, “um pote até aqui de mágoas”. E
que a gota d’água que o fez transbordar foi a insistência do PL em negar apoio
a Priscila Costa — que foi seu braço direito na presidência do PL Mulher —
cargo do qual renunciou na semana passada, depois da divulgação do vídeo.
A
esposa do ex-presidente, além de expor divergências familiares incômodas ao
dizer que Flávio a teria “apunhado pelas costas” e que os filhos de Jair
Bolsonaro sempre a maltrataram, ainda reforçou a rejeição que o eleitorado
feminino sempre demonstrou em relação à família Bolsonaro. “Se a aliança com
Ciro é tão boa, por que o André não disponibiliza a vaga de seu pai?”, quis
saber Michelle, levantando uma questão que, sem sombra de dúvida, é mais do que
pertinente.
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“QUASE
UM JUMENTO”
O
incômodo de Michelle não é recente. Em abril passado, a ex-primeira-dama já
havia tentado implodir a aliança entre o PL e o PSDB no Ceará ao recordar as
críticas pesadíssimas que Ciro sempre fez a Jair Bolsonaro. Só que a reação da
ex-primeira-dama no primeiro momento parece não ter sido suficiente para
encerrar o assunto — e o conchavo entre o grupo de André Fernandes e Ciro Gomes
prosseguiu como se nada tivesse acontecido.
Ao
voltar ao assunto, na semana passada, Michelle fez mais do que fechar uma
porta. Ela parece ter queimado as pontes que poderiam levá-la de volta ao
ambiente partidário. No vídeo, a ex-primeira-dama reproduz cenas de uma
entrevista concedida por Ciro em 2019 (no primeiro ano do governo Bolsonaro, a
quem havia enfrentado como candidato a presidente da República no ano
anterior). “Ele é quase um burro, quase um jumento. Um cara imbecil mesmo”,
disparou com sua retórica habitualmente agressiva. Ciro não poupou, também, os
filhos do ex-presidente, a quem no passado se referiu como “ovos de serpentes
nazistóides”.
A
despeito do constrangimento que possa ter causado à candidatura de Flávio e do
favor que possa ter feito ao governador Elmano de Freitas, que disputa a
reeleição pelo PT, o certo é que o vídeo de Michelle aviva uma discussão que
tem andado adormecida na política brasileira. “Não vou trocar valores por
pragmatismo político”, disse ela. A questão de fundo é justamente essa: até que
ponto as conveniências eleitorais justificam que se deixe de lado questões
relacionadas a princípios e valores?
CÂMARA
DE GÁS
Independentemente
do que pode estar em jogo por trás dessa lavação de roupa suja em público e dos
danos que Michelle causou e ainda pode causar às pretensões eleitorais do
enteado Flávio, a decisão da ex-primeira-dama toca num ponto interessante. Nas
idas e vindas da vida partidária brasileira e diante de uma série de atitudes
de políticos que contrariam aquilo que prometeram ao eleitor que os elegeu,
fica difícil tirar toda a razão de Michelle pelo protesto contra o apoio do PL
a Ciro Gomes. De qualquer forma, o gesto levantou dúvidas em relação às
verdadeiras intenções da ex-primeira-dama.
Alguns
lançaram uma dúvida séria: onde será que ela pretende chegar? Será que ela foi
movida realmente por princípios e valores ou pela intenção de substituir Flávio
como candidata ao Planalto? O que, no final das contas, ela ganhará em troca
dos embaraços que criou para seus enteados — com quem sempre teve rusgas
sérias? Independentemente da intenção que pode haver por trás de seu gesto, o
certo é que Michelle tocou em pontos que realmente precisam ser discutidos com
seriedade. Um desses pontos é a relação do político com seus eleitores e o peso
dos compromissos assumidos com as pessoas de quem recebeu o voto.
Exemplos
de mal-estar provocados por mudanças súbitas de opinião por parte de políticos
estão por toda parte. Será que, por exemplo, as pessoas que votaram em Simone
Tebet para presidente da República em 2022 se sentiram representadas quando a
ex-senadora por Mato Grosso do Sul pulou para dentro do governo Lula (que ela
tanto criticava no passado) na primeira oportunidade que teve? Será que todos
os mais de 1,6 milhão de eleitores paulistas que votaram nela nas eleições
passadas ficaram satisfeitos com a decisão de se unir ao PT e estarão dispostos
a repetir o voto nas eleições para o Senado este ano? Uma pergunta parecida
pode ser feita em relação ao PL do Ceará. Será que todos os eleitores do
partido no estado estão satisfeitos e aprovam o apoio do partido a Ciro Gomes?
Essa
discussão é enfadonha, tende a ser longa, mas precisa ser enfrentada. A
possibilidade de conquista do poder, como parece evidente, é o principal
combustível que move os partidos políticos e os candidatos durante uma campanha
eleitoral. Nesse processo, a busca pelo voto — que é a chave que abre as portas
do poder para os vencedores — é feita com base em promessas, posturas e
compromissos que diferenciam uns candidatos dos outros. No Brasil, no entanto,
tem sido cada vez mais comum que, depois de eleitos, certos políticos se
esqueçam dos compromissos históricos que os moveram e façam alianças que
contrariam tudo aquilo que defenderam ao longo da carreira.
Decisões
pragmáticas em nome da multiplicação das chances eleitorais não são exclusivas
do atual momento político brasileiro — e um dos exemplos mais macabros desse
tipo de conduta foi dado pelo líder comunista Luís Carlos Prestes, depois do
fim da ditadura do Estado Novo, nos anos 1940.
Preso
pela ditadura depois da Intentona Comunista de 1935, Prestes comeu o pão que o
diabo amassou. Torturado com crueldade, seu advogado Heráclito Fontoura Sobral
Pinto o defendeu com base na Lei de Proteção aos Animais. A mulher de Prestes,
a militante alemã Olga Benário, também foi presa e sofreu nas mãos do regime de
Vargas.
Como a
história registra, Olga, mesmo grávida, foi deportada e entregue por Vargas ao
regime nazista de Adolf Hitler. Na Alemanha, foi trancafiada em um campo de
concentração e, depois de dar à luz a filha Anita Leocádia, foi executada em
uma câmara de gás no campo de Bernburg, em abril de 1942. Tinha 34 anos.
Pois
bem... Em 1945, as forças aliadas derrotaram Hitler e, no rastro da onda
democrática que se espalhou pelo mundo, a ditadura do Estado Novo ruiu no
Brasil. Vargas se recolheu a sua fazenda, em São Borja, no Rio Grande do Sul,
mas se manteve em contato com a política. Já em 1947, cinco anos depois da
execução de Olga, Prestes subiu ao mesmo palanque de Vargas, no Vale do
Anhangabaú, em São Paulo, num comício em apoio da candidatura de Ademar de
Barros ao governo do estado. Em 1950, quando Vargas voltou à presidência “nos
braços do povo”, Prestes ignorou as mágoas que deveria guardar e, em nome de
assegurar para o clandestino PCB espaço no governo do ex-ditador e agora
presidente eleito, deu apoio explícito ao ex-ditador.
Mudanças
como essa, embora cheguem a assustar, são frequentes no Brasil. No ocaso do
regime militar, nos anos 1980, dezenas de apoiadores da antiga ordem se
bandearam para a Nova República e passaram a agir como se sempre tivessem
lutado pela democracia. Um exemplo mais recente de mudança de lado é o de
Geraldo Alckmin. Ele jamais escondeu as críticas pesadas que sempre fez ao PT e
ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, até ser convidado para disputar a
vice-presidência nas eleições de 2022. Em meio a tudo isso está o cidadão. Ele
deveria ser o centro de toda a movimentação política e, no final das contas, é
tratado como um mero espectador das mudanças pragmáticas feitas em nome da
conquista do poder. Seja como for, é preciso pensar nessa situação — antes que
o brasileiro se canse ainda mais da política.
Fonte:
O Dia

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