Os
Cardeais que construíram o samba paulistano
Aqueles
que conhecem a história do samba e do carnaval paulistano sabem que essa
trajetória é longa e marcada por grande resistência aliada a uma profunda
organização, principalmente da população negra que, no decorrer do tempo, em
nome de um famigerado progresso, foi e continua sendo expulsa da região central
e empurrada para as periferias da cidade. Diferentemente do que certa narrativa
tentou consolidar, São Paulo nunca foi o túmulo do samba: seus cordões
carnavalescos, herdeiros das tradições rurais e das festas de Bom Jesus de
Pirapora, floresceram nos chamados “territórios negros” como o Bixiga, o
Glicério e a Barra Funda, e mais tarde se espalharam para a Zona Norte e a Zona
Leste da metrópole, acompanhando o movimento de especulação imobiliária que
expulsava as famílias negras das regiões centrais. Nesse cenário, a
profissionalização da folia paulistana, consolidada em 1968 com a oficialização
dos desfiles pela prefeitura e a criação da UESP, foi um processo ambivalente:
garantiu recursos públicos e visibilidade para as agremiações, mas também
passou a impor um regulamento inspirado no modelo carioca, com novas regras,
quesitos de julgamento e a extinção dos tradicionais cordões, que foram
gradualmente substituídos pelas escolas de samba mais estruturadas. Foi nesse
contexto de negociação com o poder público durante a ditadura civil-militar que
se destacaram cinco lideranças negras, que Juarez da Cruz, presidente e um dos
fundadores da escola Mocidade Alegre, viria a chamar de “Cardeais do Samba”: Inocêncio
Tobias, Pé Rachado, Madrinha Eunice, Nenê de Vila Matilde e Carlão do Peruche.
Com muitos anos de atraso, o quinteto começa a ser reverenciado além dos muros
das escolas de samba, e um passo importante nesse reconhecimento foi dado pela
parceria entre a Iniciativa Negra e a Editora Dandara, com a publicação de
cinco pequenos volumes biográficos que buscam documentar essas trajetórias como
tributo, resgatando, nos moldes da “história a contrapelo” de Walter Benjamin,
a perspectiva daqueles personagens ofuscados pela narrativa dominante, apesar
do enorme simbolismo que deixaram em suas comunidades.
O
primeiro volume, dedicado a Seu Carlão do Peruche, é de autoria do historiador
Bruno Sanches Baronetti. No decorrer da obra, Baronetti reconstitui a vida de
Carlos Alberto Caetano, o mais longevo dos cardeais, que nasceu em 1930 na
Barra Funda e faleceu em 2025, uma semana antes do carnaval em que seria
homenageado por sua própria escola. Percorrendo as páginas do livro, o leitor
descobrirá como Carlão aprendeu o samba frequentando escondido de sua mãe o
Largo da Banana, onde trabalhadores negros batucavam e jogavam tiririca, a
capoeira paulistana, nos intervalos do trabalho pesado, descarregando
mercadorias que chegavam de trem do interior. O livro também narra sua passagem
como engraxate na Praça da Sé aos treze anos, ofício que lhe permitiu aprender
a batucar nas rodas informais com outros garotos que mais tarde também se
tornariam bambas da Pauliceia, como Toniquinho Batuqueiro. Antes de fundar a
Unidos do Peruche, Seu Carlão passou dez anos na bateria da Lavapés, onde
recebeu o que ele chamou de “chancela de bamba” e aprendeu os macetes da
percussão com o lendário Mestre Ginésio. Em 1956, participou da criação da
Unidos do Peruche, da qual se tornou presidente e primeiro mestre de bateria,
compondo inclusive o hino de exaltação “Repicar dos Tamborins”. Outro fato
trazido com riqueza por Baronetti é a invasão policial à quadra do Peruche em
1974, em decorrência do samba-enredo composto por Geraldo Filme, cuja letra
pedia liberdade em pleno auge da repressão militar. O episódio deixou marcas
físicas em Seu Carlão, que teve uma costela quebrada pelos policiais. A obra
também aborda a atuação de Carlão como funcionário do CEAGESP, onde fundou o
sindicato dos trabalhadores e comandou uma importante greve que parou o
abastecimento da cidade. Baronetti relata sua participação na luta pela
construção do Sambódromo durante a gestão de Luiza Erundina e sua posterior
crítica ao espaço fechado que, em suas palavras, tirou o carnaval da rua e o
confinou em um modelo mercantilizado, distanciando a festa de suas raízes comunitárias.
Por fim, Baronetti destaca o papel de Seu Carlão como um griot do samba
paulista, recebendo com generosidade estudantes e pesquisadores em sua casa na
Rua Zilda. O autor também resgata sua produção musical de mais de trezentos
sambas, muitos deles perdidos ao longo do tempo, e as homenagens que recebeu em
vida, como a medalha Anchieta, a mais alta comenda da Câmara Municipal de São
Paulo. Destacam-se ainda os enredos que escolas como Quilombo, em 2010, e a
própria Unidos do Peruche, em 2025, lhe dedicaram, no que seria seu último
carnaval.
O
segundo volume, escrito pelo compositor e sociólogo Tadeu Kaçula, leva o leitor
a percorrer as ruas da Barra Funda e a conhecer a trajetória de Inocêncio
Tobias. Nascido em Jundiaí em 1921, Inocêncio foi uma figura central na
refundação do Camisa Verde e Branco em 1953, retomando o legado do pioneiro
Dionísio Barbosa, que havia fundado o cordão carnavalesco em 1914. Kaçula
mostra como Inocêncio, que nos tempos dos cordões desfilava vestido de baiana
para defender o estandarte nos embates violentos entre os grupos, tornou-se um
dos principais articuladores da profissionalização do carnaval. Essa prática
lhe rendeu o apelido de Mulata e se tornaria uma tradição na escola. Inocêncio
foi responsável por transformar o antigo cordão em agremiação em 1972, levando
a escola da Barra Funda a sagrar-se tetracampeã entre 1974 e 1977 com enredos
que exaltavam a cultura negra e a história do Brasil. O livro dedica um espaço
generoso a Dona Sinhá, esposa de Inocêncio e verdadeira coluna de sustentação
da escola. Além de cuidar da casa e organizar os ensaios, ela preparava as
refeições dos músicos e dirigentes e tornou-se conhecida por sua habilidade
culinária, especialmente o bolinho de chuchu, sendo homenageada por todas as
agremiações como “Dama do Samba Paulista”. Kaçula também descreve o lendário
Salão São Paulo Chic, espaço idealizado por Tobias, que se tornou um epicentro
cultural e político do samba paulistano. Por lá passaram nomes como Martinho da
Vila, Clara Nunes e Gonzaguinha, e o local serviu como espaço de articulação do
movimento negro e de debates sobre a redemocratização do país, onde sambistas e
intelectuais se encontravam para discutir temas urgentes como o combate ao
racismo e a inclusão de estudantes negros nas universidades públicas. Outro
aspecto enfatizado ao longo da obra é o papel de Inocêncio Tobias como uma
liderança que enxergou no carnaval não apenas festa, mas também um projeto
social, educativo e político. Seu legado foi preservado por seu filho Carlos
Alberto Tobias e por sua neta Simone Tobias, que mantém viva a memória do avô
como um homem de hábitos rígidos, mas profundamente generoso com sua
comunidade.
O
terceiro volume, dedicado a Madrinha Eunice, é assinado pela jornalista Lyllian
Bragança, que reconstrói com sensibilidade a vida de Deolinda Madre. Nascida em
Piracicaba em 1909, ela se tornou a primeira mulher negra a presidir uma escola
de samba no Brasil ao fundar a Lavapés em 1937, considerada a “mãe” de todas as
escolas paulistanas. Bragança demonstra como Madrinha Eunice trouxe para São
Paulo a tradição do samba de umbigada e do tambu, aprendida nas festas de
Piracicaba e nas romarias de Bom Jesus de Pirapora. Bragança descreve o cortiço
da Rua da Glória, 961, na Liberdade, onde Madrinha Eunice vivia em apenas dois
cômodos pequenos. Ela guardava os instrumentos da escola sobre as camas e
mantinha um altar com imagens de Nossa Senhora, Santo Antônio, São Paulo e São
Pedro, revelando a indissociabilidade entre samba e fé em sua vida cotidiana. O
livro aborda sua relação com a religiosidade afro-brasileira. Após a morte de
sua mãe de santo, Dona Romilda, Madrinha Eunice passou a incorporar o Exú Veludo,
dando consultas às segundas-feiras em sua casa. Com isso, passou a se
identificar como quimbandeira e construiu uma casinha para manter o
assentamento do Exú, transformando-se em um canal direto com a ancestralidade e
atendendo pessoas de todas as origens, inclusive profissionais da área médica.
O livro discute o processo de gentrificação da Liberdade e da Baixada do
Glicério, mostrando como a divisão artificial entre as duas áreas foi criada
para embranquecer o território. A imigração japonesa foi utilizada como
justificativa para a higienização do bairro que historicamente abrigava a
população negra. Bragança revela que Madrinha Eunice foi a única mulher entre
os dirigentes que participaram das negociações pela oficialização do carnaval
em 1968, um feito notável para uma época em que as mulheres negras eram
sistematicamente excluídas dos espaços de poder. Ela sempre foi contra a
profissionalização excessiva, afirmando que “carnaval hoje em dia é um
comércio, antigamente não, antigamente a gente saía para se divertir”.
O
quarto volume, sobre Pé Rachado, foi escrito pela jornalista Claudia Alexandre.
Sebastião Eduardo Amaral, o quarto cardeal, nasceu em Baependi, Minas Gerais,
em 1913, e, assim como tantos outros, migrou para São Paulo em busca de
melhores condições após uma infância marcada pelo trabalho pesado. Seu apelido
veio do trabalho na roça que rachava seus pés. Ao chegar ao Bixiga, logo se
apaixonou pelo então cordão Vai-Vai, chegando a esperar dois anos para entrar,
pois o cordão tinha apenas doze instrumentos e sobrava batuqueiro. Quando
finalmente assumiu um posto, mostrou toda sua habilidade e se tornou uma
referência na bateria, que se caracterizava pelo som ‘pesado’ e tinha como base
o bumbo, o surdo, a caixa de guerra e o ganzá. Claudia Alexandre detalha como
Pé Rachado se destacou como apitador e depois assumiu a presidência do cordão
em 1951, liderando o Vai-Vai à conquista de oito títulos. Ele inovou ao
introduzir as alas no desfile, algo inédito para a época, que influenciou todas
as escolas de samba de São Paulo, além de modificar o toque da caixa inspirado
na bateria da Mangueira. Claudia Alexandre explora a faceta ‘mandingueira’ de
Pé Rachado, mostrando como ele era adepto das macumbas e candomblés,
frequentava terreiros de Umbanda e levava a diretoria do cordão para passar
pelas águas em Santos para tranquilizá-los. Sua fé estava intrinsecamente
ligada à atuação no samba, desde as rezas antes dos desfiles até as visitas a
mães de santo que lhe davam proteção em forma de amuletos e ‘bolsas de mandinga’.
Claudia Alexandre descreve a fundação da Barroca Zona Sul em 1974, na própria
casa de Pé Rachado, onde um grupo de dissidentes do Vai-Vai se reuniu para
criar uma nova agremiação com as cores verde e rosa em homenagem à Mangueira. A
autora não esconde as tristezas do sambista: sua saída conturbada do Vai-Vai e
o posterior afastamento da família da Barroca. Mas ela também reafirma seu
legado de formação de gerações, conhecido por sua exigência com a harmonia e
por sua capacidade de impor respeito em qualquer roda de samba que
frequentasse, inclusive na Mangueira, onde chegou a ser diretor de harmonia.
O
quinto e último volume, sobre Seu Nenê, é de autoria de Tiaraju D’Andrea,
músico e professor da Unifesp. Tiaraju reconstrói a trajetória de Alberto Alves
da Silva, nascido em Santos Dumont, Minas Gerais, em 1921. Assim como Pé
Rachado, ele migrou com a família para São Paulo, mas, ao contrário do líder do
Vai-Vai, sua família se estabeleceu na Vila Esperança, na Zona Leste, onde seu
pai Albertino, carioca e filho de escravizados, trabalhava na ferrovia e
transmitiu ao filho o gosto pelo samba carioca que ouvia no rádio e nas viagens
de trem. O autor mostra como Seu Nenê se tornou um exímio pandeirista e como,
no Largo do Peixe, na Vila Matilde, as rodas de samba cresceram até que, em 1º
de janeiro de 1949, ele fundou a escola que leva seu apelido até hoje. É o caso
mais famoso do Brasil de uma agremiação que homenageia seu fundador no próprio
nome, com uma história curiosa de registro na sede da UESP quando um diretor
apontou para o ‘compridão’ e sugeriu o nome. Tiaraju destaca a importância do
trem da Central do Brasil para a sociabilidade e os ensaios da escola,
mostrando como os integrantes ensaiavam nos vagões durante as viagens de ida e
volta do trabalho. Esse chacoalhar do trem moldou a batida única da bateria da
Nenê, com seu balanço arrastado e cadenciado, que a diferenciava das demais
escolas paulistanas. O ritmista Zé da Rita descreve essa batida como uma
adaptação pessoal de Seu Nenê da batida antiga da Portela, com a invenção do
‘culungundum’ pelo compositor Paulistinha. O autor analisa a relação umbilical
de Seu Nenê com o samba carioca, especialmente com a Portela e a Mangueira,
mostrando como ele viajava frequentemente ao Rio de Janeiro para aprender novas
batidas e trouxe para São Paulo elementos como o maracatu e o surdo de
contratempo. Ele sempre fazia questão de afirmar que a mistura que criou ‘não é
nem Portela nem Mangueira, é um negócio nosso’, uma criação que Mestre Lagrila
definiu como uma ‘levada’ própria que nenhuma outra escola possui. Tiaraju
dedica um capítulo ao papel político de Seu Nenê na luta antirracista,
mostrando como ele usou os enredos da escola para desenvolver uma consciência
quilombola na Zona Leste, com temas como ‘Navio Negreiro’, ‘Palmares, raiz da
liberdade’ e ‘Axé, sonho de Candeia’. Esses enredos, em uma sequência de cinco
entre 1978 e 1982, dialogavam com o Movimento Negro Unificado, fundado em 1978,
e com as ideias de Candeia, que defendia a africanidade como elemento central
da identidade nacional.
Cabe
destacar que a coleção apresenta uma diversidade metodológica notável,
refletindo as diferentes abordagens que cada pesquisador elegeu para
reconstituir a vida e o legado de seu biografado. O volume sobre Carlão do
Peruche se distingue pelo uso sistemático da história oral como metodologia
central, baseada em extensas entrevistas realizadas por Baronetti com Seu
Carlão, além do acervo do Museu da Imagem e do Som e de jornais da época como o
Notícias Populares. O volume sobre Inocêncio Tobias combina história social e
análise das relações raciais, utilizando depoimentos orais do MIS, fotografias
de acervos familiares e institucionais, além de depoimentos de familiares como
Simone Tobias. Ela oferece uma visão interna e afetiva da trajetória do
cardeal, revelando detalhes como o piano que o avô lhe presenteou e a relação
de profundo respeito que existia entre Inocêncio e Dona Sinhá. O volume sobre
Madrinha Eunice adota uma metodologia profundamente ancorada na tradição oral e
nas relações de afeto, realizando entrevistas com netos e afilhados como
Rosemeire Marcondes, Sandra Sueli e Mestre Tadeu. A obra descreve com riqueza
de detalhes os rituais religiosos que a madrinha instituiu, como a reza de São
João Batista com suas fogueiras e procissões, e as sessões de Quimbanda com Exú
Veludo que aconteciam às segundas-feiras na Rua da Glória. Já o volume sobre Pé
Rachado combina o conhecimento da autora em religiões afro-brasileiras com a
história oral e a pesquisa etnográfica no universo do samba. Utiliza como fonte
central o depoimento que Sebastião Eduardo Amaral concedeu ao MIS em 1981,
complementado por entrevistas com sua filha caçula Nena, que revelou detalhes
da vida doméstica do sambista e sua relação com a esposa Etelvina. O sambista
Fernando Penteado narrou episódios emblemáticos vividos por Pé Rachado no
Vai-Vai, e seu filho Lobão, que participou ativamente da fundação da Barroca
Zona Sul, também contribuiu com seu depoimento. Por fim, o volume sobre Seu
Nenê adota a ‘análise processual’, caracterizada pela permanência prolongada no
território e pela observação participante. O autor frequenta a Nenê desde a
infância e está organicamente inserido na Ala de Compositores da escola desde
2018, tendo chegado a morar na Rua Maria Carlota durante a pandemia para
compreender as referências territoriais e as relações de vizinhança que
moldaram a escola. Pela Universidade Federal de São Paulo, organizou um curso
de extensão com as passistas da Nenê para discutir subjetividades negras e
opressão contra mulheres sambistas.
Os
cinco cardeais estavam unidos por uma teia de relações que ultrapassava os
muros de suas escolas, formando uma rede de solidariedade e trocas fundamentais
para a construção e o desenvolvimento do samba paulistano. Madrinha Eunice foi
uma matriarca formadora de outros sambistas. Seu Carlão passou dez anos na
bateria da Lavapés e, mesmo após uma desavença que o levou a fundar sua própria
escola, nunca deixou de reconhecer sua importância, reverenciando a história da
Lavapés como a escola que influenciou o nascimento de todas as outras.
Inocêncio Tobias e Madrinha Eunice mantinham uma relação próxima que incluía
momentos de lazer, como quando se reuniam para jogar baralho. Inocêncio era
padrinho do irmão mais novo de Rosemeire Marcondes. Pé Rachado mantinha
profunda amizade e parceria com Inocêncio Tobias, e andavam juntos para
resolver os problemas do carnaval. Certa vez, em uma reunião na Federação das
Escolas de Samba onde os dirigentes estavam emperrados em discussões
infrutíferas sobre critérios de julgamento, Pé Rachado chegou com Inocêncio,
mandaram todos para fora da sala, trancaram-se com a diretoria por duas horas e
saíram com tudo decidido, impondo respeito a todos os presentes e demonstrando
como a união entre os cardeais era mais forte do que as disputas entre suas
escolas. Ambos combinavam estratégias para conduzir seus cordões e contribuir
com a organização do carnaval, visando melhorar a relação com o poder público e
garantir que as vozes dos sambistas fossem ouvidas em um contexto de repressão e
preconceito. Essa parceria se estendia a outros momentos de sociabilidade, como
as rodas de samba no quintal de Madrinha Eunice, onde Pé Rachado, Inocêncio e
outros bambas se encontravam para confraternizar.
Ao ler
os cinco volumes, o leitor percebe como essas relações ultrapassavam os
interesses de cada agremiação e se estendiam à organização coletiva do carnaval
e também à luta contra o racismo enfrentado diariamente em uma cidade que os
excluía do mercado formal de trabalho, os empurrava para as periferias e os
perseguia por suas manifestações culturais. Foi esse núcleo de lideranças que,
junto com outros sambistas como Xangô da Vila Maria e Seu Zezinho do Morro, com
a mediação dos radialistas Moraes Sarmento, Evaristo de Carvalho e Vicente
Leporace, negociou com o prefeito Faria Lima a oficialização do carnaval em
1968 e posteriormente fundou a UESP, garantindo recursos públicos e
reconhecimento institucional para suas comunidades. Esse processo exigiu que os
próprios sambistas aceitassem a intermediação de radialistas brancos, pois,
como Seu Nenê recordou, a assessoria do prefeito pediu para que a ‘crioulada
toda’ não comparecesse.
Por
fim, a coleção cumpre um papel fundamental de resgate histórico ao dar voz e
visibilidade a lideranças negras que, durante décadas, construíram o carnaval
de São Paulo frequentemente à margem da narrativa oficial. Essa narrativa
privilegiava a imigração europeia e o progresso industrial da cidade, relegando
os negros às periferias e aos porões dos cortiços. Cada um dos cinco volumes,
escrito por pesquisadores profundamente inseridos no universo do samba, muitos
deles próprios sambistas ou militantes da cultura negra, revela não apenas as
trajetórias individuais desses baluartes, mas também as redes de solidariedade,
os enfrentamentos à ditadura militar e as negociações complexas com o poder
público que transformaram uma festa marginalizada em um dos maiores espetáculos
do país. Ao mesmo tempo, a coleção não esconde as críticas dos cardeais à
profissionalização que afastou o samba de suas raízes, à mercantilização da
folia que substituiu a costura artesanal por cola e o bordado por paetês
industrializados, e ao confinamento do desfile no Sambódromo. Muitos deles
apoiaram esse espaço inicialmente, mas depois passaram a contestá-lo por
considerar que a festa perdia seu caráter de ocupação democrática das ruas,
como Seu Carlão fez ao fundar o bloco Sovaco de Cobra em 1975 para resgatar a
espontaneidade do carnaval de rua. Essas biografias são uma contribuição
inestimável para a memória da cultura negra paulistana e um convite para que as
novas gerações conheçam e se inspirem naqueles que garantiram que o samba ‘teve
começo, mas nunca terá fim’, provando que São Paulo nunca foi o túmulo do
samba, mas sim um território fértil onde a população negra reinventou e segue
reinventando suas tradições.
Fonte:
Por Daniel Costa, no Jornal GGN

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