segunda-feira, 6 de julho de 2026

A memória involuntária

Quando Marcel Proust encetou seu monumental Em busca do tempo perdido em sete volumes, já foi falando de recordações desde a primeira linha. A memória seria seu grande tema. Como o tempo já passou, conforme implicado no título, só poderemos acessá-lo por meio da memória.

Mas a mais importante não é a memória voluntária, e sim a memória involuntária, ou seja, esses lampejos de lembrança que nos acometem sem que queiramos ou procuremos, sem esforço de nossa parte. Tudo conforme o figurino tomado emprestado de Henri Bergson.

Entretanto, a memória involuntária é deflagrada por um estímulo físico e até corporal, como por exemplo o desnível num tapete gasto, sentido pelos pés que tateiam. O celebérrimo paradigma, que se tornou um lugar-comum da língua coloquial, e a madeleine. O singelo bolinho em forma de concha marinha e perfumado com casca de limão, quando embebido no chá da xícara catapulta num átimo o narrador a infância.

Alerto que o bolinho é supremamente sem graça, insosso mesmo, mas é vendido em saquinhos na loja de suvenires da casa de Tante Léonie, em Illiers- Combray, casa tombada e convertida em museu.

A memória, assim, é guindada a única fonte de transcendência, de acesso ao belo, portal para a arte e a estética. E ainda ao sublime, ao conhecimento, talvez? O último volume dedica-se a essas elucubrações, aqui muito simplificadas, à guisa de síntese depois de seis volumes de porfiada análise.

Quando Jorge Luiz Borges escreve Funes, o memorioso, talvez não estivesse pensando em Marcel Proust – mas tudo é possível nesse escritor sorna, dado a negaceios, mordaz como poucos. E sempre arrevesado. Ele confronta o endeusamento da memória e vai mostrar seus males, argumentando que ela é fonte de infinito sofrimento. Semelhante ao que fez com a biblioteca de Babel, que, devido à megalomania do projeto de abarcar toda a memória da humanidade, somando-se ainda acréscimos incessantes, acaba travando as possibilidades de utilização.

Informação não é conhecimento, e aliás é inimiga dele, pois oblitera a ausência do conhecimento em que não se metamorfoseia. É mais uma reflexão de Jorge Luiz Borges que assume os contornos, a posteriori naturalmente, do que Euclides da Cunha, em seus oximoros sofisticados, chamou de “profecias retrospectivas”.

Funes lembra de tudo e não consegue esquecer-se de nada, o que faz de sua vida um tormento. Acabrunhado pelas lembranças, recorda cada minuto e cada matiz das nuvens, ou seja, cada minúscula insignificância. Jazendo na cama, paralisado pelas reminiscências, é como emprega seu tempo. Eis como Funes metaforiza sua memória de maneira violenta, ao dizer que ela é um “despejadouro de lixos”. O único consolo é que morreu cedo.

Já Bertold Brecht, grande poeta perito em dinamitar a aparência, parte decidido a acabar com o elogio. Em poema que procede à enumeração de uma série de indagações, vai mostrando os malefícios da memória: como barra o avanço, a transformação, o movimento, como é amiga do conservadorismo e do marasmo. E termina com esta joia, mais significativa ainda se aplicada à militância: “Como iria, quem foi ao chão seis vezes, / Levantar-se uma sétima vez …?”

Vale a pena cotejar, entre as muitas traduções destes versos, duas delas, separadas por duas décadas. Primeiro a de Geir Campos (1966) e em seguida a de Paulo César de Souza (1986):

“Como se ergueria pela sétima vez

Aquele derrubado seis vezes…?”

Entre ambas, só pequenas divergências, como aliás no restante do poema. Apartam-se mais no título, que Paulo César de Souza traduz como: “Elogio do esquecimento”. Já Geir Campos prefere: “Louvação da desmemoria”

Todo esse desenvolvimento encaminha o poema para seu gran finale, resumindo o argumento em favor da desmemoria numa fórmula abstrata. Na tradução de Paulo César de Souza: “A fraqueza da memória / Dá força ao homem”. Enquanto na de Geir Campos é assim: “É a fraqueza da memória que dá / força à criatura humana”.

De qualquer modo, uma beleza.

<><> O guarda-roupa da condessa

Os proustianos aplaudiram quando o guarda-roupa daquela que serviu de modelo para a duquesa de Guermantes foi aberto à visitaçãp pública, no Musée de la Mode de la Ville de Paris, que fica no Palais Galliera.

Hoje desconhecida, quem teria sido essa mulher? Por nascimento princesa de Caraman-Chimay, belíssima e elegantíssima, mas sem fortuna, casou-se com o conde Greffülhe. Este, além dos títulos de alta nobreza, era miliardário, e foi aí que ela começou sua carreira mundana. Por contraste, basta observar a grosseria e a vulgaridade do marido.

Mas são tantas roupas que não é possível exibi-las todas ao mesmo tempo. Foi preciso fazer uma primeira seleção, que resultou num esplêndido catálogo tendo por título La mode retrouvée – Les robes trésors de la comtesse Greffulhe.

A coleção brilha pela opulência. Foram oito doações ao longo de décadas, vindas de diferentes doadores. Há até lotes de librés de criados. São trajes de gala, pelerines, luvas, chapéus, regalos, leques, vestidos de receber em casa, capas e capinhas, mantôs, xales, peliças, sapatos, meias, bolsas…Worth e Fortuny, os maiores costureiros do mundo de então, eram os prediletos, bem como o fotógrafo Nadal.

Mas ainda assim é difícil dar uma ideia, tal a profusão de sedas, veludos, rendas, brocados de fios de ouro e de prata. Certos trajes trazem barras de zibelina ou arminho ou outra das mais raras peles existentes. Acessórios comportam plumas de avestruz e egretes de garça. Há até um traje que a condessa usou no casamento da filha na Igreja da Madeleine, que ostenta um diamante de verdade em um toucado de plumas de ave-do-paraíso que despedia lampejos iridescentes a cada movimento de sua portadora.

Acontece que Marcel Proust, e já que ficção não é jornalismo, no processo literário habitual de juntar traços de várias pessoas para criar uma só, ou então, ao contrário, dispersar traços de uma só pessoa por várias personagens, acabaria por desagradar à condessa, que renegaria a amizade entre ambos.

A condessa era uma pessoa séria e se tornaria não só mecenas como também árbitra do gosto (arbiter elegantiarum, como Petrônio), nunca deixando faltar seu apoio às artes e às ciências, entre elas seu conhecido patrocínio da ópera. Todavia, uma causa do tempo lhe daria notoriedade: o caso Dreyfus.

Acusado de ter vendido documentos militares secretos ao inimigo, o capitão Dreyfus seria julgado por traição. Ainda ardia nos franceses a derrota na guerra franco-prussiana, de modo que a opinião pública condenava o capitão. Seu julgamento em Paris se tornaria um entretenimento obrigatório, um programa social, como mostra Marcel Proust, e todos tomavam partido.

Anos depois e contando com paladinos incansáveis, revelou-se a trama em que outro oficial vazara os papéis e acusara falsamente Dreyfus, que seria finalmente absolvido

Ora, a condessa, mulher de caráter, ao contrário de sua classe social em peso, seria uma dreyfusarde. Coisa rara entre seus pares, como registra Marcel Proust.

E Marcel Proust, na argamassa de sua ficção, tendo passado para a duquesa de Guermantes inventada as altas qualidades da condessa Grefulhe, juntou-lhes defeitos. De modo que a duquesa inventada, copiada da vida real, revelou péssimas qualidades de arrogância de classe, por exemplo, que ele pegou em outras damas da época. Entre esses defeitos, o pior é que, por coerência, ele transformou sua personagem em adversária de Dreyfus. Imperdoável. A rusga pode ser acompanhada no livro de Anne Cossé-Brissac, La comtesse Grefülhe.

Quanto à preservação dos legados proustianos, acrescentou-se este do Palais Galliera ao já existente no Museu Carnavalet, onde fica o quarto de Proust perfeitamente conservado, o célebre quarto em que ele por vários anos escreveu a Recherche deitado em sua cama de asmático, entre duas fumigações. Assim, agora são dois os acervos proustianos em Paris, o novo contendo toaletes que Marcel Proust descreveu minuciosamente e o leitor reconhece. E não muito longe há outro. Basta percorrer de trem os 100 km que separam Paris de Illiers-Combray. Na casa de Tante Léonie estão preservados móveis e outras coisas. Pode-se até saborear madeleines na lojinha de suvenires.

 

Fonte: Por Walnice Nogueira Galvão, em A Terra é Redonda 

 

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