A
memória involuntária
Quando
Marcel Proust encetou seu monumental Em busca do tempo perdido em sete volumes,
já foi falando de recordações desde a primeira linha. A memória seria seu
grande tema. Como o tempo já passou, conforme implicado no título, só poderemos
acessá-lo por meio da memória.
Mas a
mais importante não é a memória voluntária, e sim a memória involuntária, ou
seja, esses lampejos de lembrança que nos acometem sem que queiramos ou
procuremos, sem esforço de nossa parte. Tudo conforme o figurino tomado
emprestado de Henri Bergson.
Entretanto,
a memória involuntária é deflagrada por um estímulo físico e até corporal, como
por exemplo o desnível num tapete gasto, sentido pelos pés que tateiam. O
celebérrimo paradigma, que se tornou um lugar-comum da língua coloquial, e a
madeleine. O singelo bolinho em forma de concha marinha e perfumado com casca
de limão, quando embebido no chá da xícara catapulta num átimo o narrador a
infância.
Alerto
que o bolinho é supremamente sem graça, insosso mesmo, mas é vendido em
saquinhos na loja de suvenires da casa de Tante Léonie, em Illiers- Combray,
casa tombada e convertida em museu.
A
memória, assim, é guindada a única fonte de transcendência, de acesso ao belo,
portal para a arte e a estética. E ainda ao sublime, ao conhecimento, talvez? O
último volume dedica-se a essas elucubrações, aqui muito simplificadas, à guisa
de síntese depois de seis volumes de porfiada análise.
Quando
Jorge Luiz Borges escreve Funes, o memorioso, talvez não estivesse pensando em
Marcel Proust – mas tudo é possível nesse escritor sorna, dado a negaceios,
mordaz como poucos. E sempre arrevesado. Ele confronta o endeusamento da
memória e vai mostrar seus males, argumentando que ela é fonte de infinito
sofrimento. Semelhante ao que fez com a biblioteca de Babel, que, devido à
megalomania do projeto de abarcar toda a memória da humanidade, somando-se
ainda acréscimos incessantes, acaba travando as possibilidades de utilização.
Informação
não é conhecimento, e aliás é inimiga dele, pois oblitera a ausência do
conhecimento em que não se metamorfoseia. É mais uma reflexão de Jorge Luiz
Borges que assume os contornos, a posteriori naturalmente, do que Euclides da
Cunha, em seus oximoros sofisticados, chamou de “profecias retrospectivas”.
Funes
lembra de tudo e não consegue esquecer-se de nada, o que faz de sua vida um
tormento. Acabrunhado pelas lembranças, recorda cada minuto e cada matiz das
nuvens, ou seja, cada minúscula insignificância. Jazendo na cama, paralisado
pelas reminiscências, é como emprega seu tempo. Eis como Funes metaforiza sua
memória de maneira violenta, ao dizer que ela é um “despejadouro de lixos”. O
único consolo é que morreu cedo.
Já
Bertold Brecht, grande poeta perito em dinamitar a aparência, parte decidido a
acabar com o elogio. Em poema que procede à enumeração de uma série de
indagações, vai mostrando os malefícios da memória: como barra o avanço, a
transformação, o movimento, como é amiga do conservadorismo e do marasmo. E
termina com esta joia, mais significativa ainda se aplicada à militância: “Como
iria, quem foi ao chão seis vezes, / Levantar-se uma sétima vez …?”
Vale a
pena cotejar, entre as muitas traduções destes versos, duas delas, separadas
por duas décadas. Primeiro a de Geir Campos (1966) e em seguida a de Paulo
César de Souza (1986):
“Como
se ergueria pela sétima vez
Aquele
derrubado seis vezes…?”
Entre
ambas, só pequenas divergências, como aliás no restante do poema. Apartam-se
mais no título, que Paulo César de Souza traduz como: “Elogio do esquecimento”.
Já Geir Campos prefere: “Louvação da desmemoria”
Todo
esse desenvolvimento encaminha o poema para seu gran finale, resumindo o
argumento em favor da desmemoria numa fórmula abstrata. Na tradução de Paulo
César de Souza: “A fraqueza da memória / Dá força ao homem”. Enquanto na de
Geir Campos é assim: “É a fraqueza da memória que dá / força à criatura
humana”.
De
qualquer modo, uma beleza.
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O guarda-roupa da condessa
Os
proustianos aplaudiram quando o guarda-roupa daquela que serviu de modelo para
a duquesa de Guermantes foi aberto à visitaçãp pública, no Musée de la Mode de
la Ville de Paris, que fica no Palais Galliera.
Hoje
desconhecida, quem teria sido essa mulher? Por nascimento princesa de
Caraman-Chimay, belíssima e elegantíssima, mas sem fortuna, casou-se com o
conde Greffülhe. Este, além dos títulos de alta nobreza, era miliardário, e foi
aí que ela começou sua carreira mundana. Por contraste, basta observar a
grosseria e a vulgaridade do marido.
Mas são
tantas roupas que não é possível exibi-las todas ao mesmo tempo. Foi preciso
fazer uma primeira seleção, que resultou num esplêndido catálogo tendo por
título La mode retrouvée – Les robes trésors de la comtesse Greffulhe.
A
coleção brilha pela opulência. Foram oito doações ao longo de décadas, vindas
de diferentes doadores. Há até lotes de librés de criados. São trajes de gala,
pelerines, luvas, chapéus, regalos, leques, vestidos de receber em casa, capas
e capinhas, mantôs, xales, peliças, sapatos, meias, bolsas…Worth e Fortuny, os
maiores costureiros do mundo de então, eram os prediletos, bem como o fotógrafo
Nadal.
Mas
ainda assim é difícil dar uma ideia, tal a profusão de sedas, veludos, rendas,
brocados de fios de ouro e de prata. Certos trajes trazem barras de zibelina ou
arminho ou outra das mais raras peles existentes. Acessórios comportam plumas
de avestruz e egretes de garça. Há até um traje que a condessa usou no
casamento da filha na Igreja da Madeleine, que ostenta um diamante de verdade
em um toucado de plumas de ave-do-paraíso que despedia lampejos iridescentes a
cada movimento de sua portadora.
Acontece
que Marcel Proust, e já que ficção não é jornalismo, no processo literário
habitual de juntar traços de várias pessoas para criar uma só, ou então, ao
contrário, dispersar traços de uma só pessoa por várias personagens, acabaria
por desagradar à condessa, que renegaria a amizade entre ambos.
A
condessa era uma pessoa séria e se tornaria não só mecenas como também árbitra
do gosto (arbiter elegantiarum, como Petrônio), nunca deixando faltar seu apoio
às artes e às ciências, entre elas seu conhecido patrocínio da ópera. Todavia,
uma causa do tempo lhe daria notoriedade: o caso Dreyfus.
Acusado
de ter vendido documentos militares secretos ao inimigo, o capitão Dreyfus
seria julgado por traição. Ainda ardia nos franceses a derrota na guerra
franco-prussiana, de modo que a opinião pública condenava o capitão. Seu
julgamento em Paris se tornaria um entretenimento obrigatório, um programa
social, como mostra Marcel Proust, e todos tomavam partido.
Anos
depois e contando com paladinos incansáveis, revelou-se a trama em que outro
oficial vazara os papéis e acusara falsamente Dreyfus, que seria finalmente
absolvido
Ora, a
condessa, mulher de caráter, ao contrário de sua classe social em peso, seria
uma dreyfusarde. Coisa rara entre seus pares, como registra Marcel Proust.
E
Marcel Proust, na argamassa de sua ficção, tendo passado para a duquesa de
Guermantes inventada as altas qualidades da condessa Grefulhe, juntou-lhes
defeitos. De modo que a duquesa inventada, copiada da vida real, revelou
péssimas qualidades de arrogância de classe, por exemplo, que ele pegou em
outras damas da época. Entre esses defeitos, o pior é que, por coerência, ele
transformou sua personagem em adversária de Dreyfus. Imperdoável. A rusga pode
ser acompanhada no livro de Anne Cossé-Brissac, La comtesse Grefülhe.
Quanto
à preservação dos legados proustianos, acrescentou-se este do Palais Galliera
ao já existente no Museu Carnavalet, onde fica o quarto de Proust perfeitamente
conservado, o célebre quarto em que ele por vários anos escreveu a Recherche
deitado em sua cama de asmático, entre duas fumigações. Assim, agora são dois
os acervos proustianos em Paris, o novo contendo toaletes que Marcel Proust
descreveu minuciosamente e o leitor reconhece. E não muito longe há outro.
Basta percorrer de trem os 100 km que separam Paris de Illiers-Combray. Na casa
de Tante Léonie estão preservados móveis e outras coisas. Pode-se até saborear
madeleines na lojinha de suvenires.
Fonte:
Por Walnice Nogueira Galvão, em A Terra é Redonda

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