Elisabeth
Lopes: A inacreditável resiliência eleitoral de Flávio Bolsonaro, o ‘01’
entreguista
No dia
8 de outubro de 2018, logo após o primeiro turno das eleições presidenciais, um
jornal publicou um editorial de opinião intitulado “Uma escolha muito difícil”.
No texto, o Estadão argumentava que os eleitores se viam diante de duas opções
indesejáveis nos extremos políticos. De um lado, Jair Bolsonaro, então do PSL,
a quem o texto associava à truculência e à apologia da ditadura. De outro,
Fernando Haddad (PT), representando o retorno do Partido dos Trabalhadores em
meio as investigações da Operação Lava Jato, denunciada em meados de 2019 por
gravíssimas irregularidades processuais.
Ao
contrário do editorial de absoluta má-fé, a escolha entre um e outro sempre foi
bastante clara. A comparação entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro revela um
antagonismo inquestionável entre dois projetos de país. Enquanto Haddad
representava propostas de governo orientadas por princípios civilizatórios,
Bolsonaro traduzia a política da barbárie.
A
trajetória de Haddad, atual pré-candidato ao governo de São Paulo, personifica
a fusão entre o rigor acadêmico e a produção de inéditas políticas
progressistas. Doutor em Filosofia e professor de Ciência Política da USP, sua
atuação pública é marcada pelo planejamento institucional de longo prazo. Essa
característica ficou evidente em sua gestão no Ministério da Educação, período
no qual o país assistiu à maior expansão e democratização do acesso ao ensino
superior e técnico de sua história, por meio de programas como o ProUni, o Sisu
e a interiorização dos Institutos Federais. Posteriormente, à frente da
Prefeitura de São Paulo, Haddad direcionou sua agenda para o urbanismo
sustentável e a mobilidade urbana, implementando reformas estruturais como o
Plano Diretor Estratégico e a expansão de ciclovias, o que lhe conferiu
reconhecimento internacional, embora tenha enfrentado resistência de setores
tradicionais da classe média motorizada.
No
extremo oposto, a biografia de Jair Bolsonaro solidificou-se à margem do debate
intelectual e das formulações técnicas de políticas públicas. Egresso das
fileiras do Exército sob episódios de indisciplina salarial, Bolsonaro
construiu uma carreira de quase trinta anos no baixo clero do Poder
Legislativo, caracterizada por um forte corporativismo militar e pela total
escassez de produção legislativa. Sua prática política foi acumulada pelo
confronto às ideias progressistas baseada em pautas truculentas e ultra
conservadoras, com declarações graves no âmbito da misoginia e homofobia e de
uma aberta apologia ao regime autoritário de 1964. Fora dos palanques, sua
trajetória legislativa e familiar foi reiteradamente associada a controvérsias
éticas e jurídicas, como as investigações sobre desvios de salários de
assessores por meio do esquema de “rachadinhas” pelo qual amealhou um
patrimônio incompatível com seus proventos, além de suas participações serem
marcadas por discursos de leniência e conivência com a atuação de milícias no
Rio de Janeiro.
Essa
diferença também se refletiu no exercício da Presidência da República. Enquanto
o projeto representado por Fernando Haddad defendia o fortalecimento das
instituições e a ampliação de políticas públicas para reduzir as desigualdades,
o governo Jair Bolsonaro (2019–2022) ficou marcado pelo confronto com as
instituições democráticas, pelo negacionismo durante a pandemia de COVID-19,
por sucessivos escândalos de corrupção em diferentes ministérios e pelo
desgaste da imagem internacional do Brasil. Assim, o contraste entre ambos
sintetiza o embate entre um projeto institucional de governo e um falso
discurso antissistema de viés extremista.
Diante
dessa realidade inóspita do governo bolsonarista (2019-2022), algumas nuances
reincidem, sob uma materialidade diferente de reconstrução árdua do país pelo
atual governo do também pré-candidato Luiz Inácio da Silva. Por incrível que
possa parecer, passados alguns anos e às vésperas da eleição 2026, ainda
convivemos com resultados inacreditáveis nas pesquisas de intenção de votos de
vários institutos de pesquisa, que indicam uma porcentagem significativa ao
pré-candidato, o filho 01 entreguista de Jair, senador, Flávio Bolsonaro
(PL-RJ), apesar de sua extensa trajetória parlamentar ultra improdutiva, a não ser, no sucesso
ímpar da administração dos fundos de seu gabinete por meio da suspeita
repetição dos mesmos esquemas empregados pelo seu pai, durante todo o tempo de
seus mandatos. Até hoje, fica difícil engolir o elevado patrimônio suspeito do
senador alardeado amplamente na mídia por ser incompatível com seus proventos.
O
cenário político que antecede as eleições presidenciais de 2026 expõe novamente
um contraste profundo na dinâmica eleitoral brasileira, evidenciado tanto pelas
pesquisas de opinião, quanto pelos fatos que dominam o debate público. Mesmo
diante de sucessivos episódios de desgaste na pré-campanha do senador Flávio
Bolsonaro, pesquisas recentes de institutos como o Datafolha e o BTG/Nexus,
Atlas/Bloomberg mostram um eleitorado cristalizado, no qual o senador mantém
cerca de 34% a 40% das intenções de voto, próximo do presidente Lula no segundo
turno. Entretanto, já se observa um gradativo derretimento de Flávio a cada
pesquisa.
Contudo,
a resiliência eleitoral persiste apesar das turbulências na imagem do candidato
da oposição, envolvido em investigação da Polícia Federal após a revelação de
mensagens sobre a intermediação de um pedido de R$ 61 milhões ao ex-banqueiro
Daniel Vorcaro. Soma-se a isso as denúncias na própria base familiar feitas
pela madrasta Michelle Bolsonaro sobre ter sido hostilizada e maltratada pelo
enteado por divergências políticas. No plano externo, ofereceu aos EUA a
participação na transição de seu governo, caso vença o pleito, medida duramente
criticada como uma afronta à soberania diplomática do país. A postura de Flávio
ao manifestar o desejo de alinhar seu eventual governo ao desastroso modelo
econômico neoliberal do presidente argentino Javier Milei também gerou forte
repercussão negativa agravada nesta semana ao enviar uma carta ao governo dos
Estados Unidos pedindo que a taxação sobre produtos brasileiros fosse adiada
até depois das eleições, sob a alegação de que a medida favoreceria Lula,
evidenciando o objetivo de sua recente aproximação com Donald Trump. Em
resposta, o presidente Lula classificou a iniciativa como um ato de
“entreguismo” e de traição aos interesses nacionais, afirmando que a soberania
brasileira é inegociável, que o país não aceitará ingerências externas e que
não abrirá mão de conquistas estratégicas como o Mercosul e o Pix.
No lado
frontalmente oposto, o presidente Lula estrutura seu favoritismo amparado em
uma trajetória focada no fortalecimento das políticas sociais, na defesa da
soberania nacional e na preservação da estabilidade institucional, mesmo
governando sob forte pressão de um Congresso majoritariamente opositor.Vale
ressaltar, que desde os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, o
Legislativo foi abocanhando cada vez mais fatias bilionárias do orçamento por
meio de emendas parlamentares. Apesar dessa limitação fiscal, o governo federal
conseguiu viabilizar e reestruturar projetos essenciais, entre estes, o
programa Pé-de-Meia (poupança de incentivo à permanência de estudantes no
ensino médio público). Desde sua criação, esse programa contribuiu para reduzir
em 43% a evasão no ensino médio e em 33% as reprovações. Ao todo, 5,6 milhões
de estudantes foram contemplados, por meio de um aporte federal de R$ 18,6
bilhões.
Todavia,
a persistência do teto de votação da oposição que retém cerca de 30% a 40% do
eleitorado em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro marcada por polêmicas
éticas e familiares evidencia um fenômeno de anestesiamento social de um
contingente da população retroalimentado por questões informacionais. Esse
contingente de eleitores resiste em bolhas digitais e canais partidários mesmo
diante das aberrações desveladas pelo deletério histórico da prática política
de Flávio, e dos avanços socioeconômicos incontestáveis do governo Lula com
indicadores estruturais inequívocos, tais como: o cenário de pleno emprego; a
expansão do atendimento no SUS via programa Agora Tem Especialistas que
agilizaram consultas, exames e cirurgias, a desoneração tributária; o programa
Desenrola 2.0 para renegociação de dívidas; o programa Desenrola Adimplentes,
destinado a beneficiários do Fies e a trabalhadores informais adimplentes,
amplia o acesso ao crédito ao proporcionar melhores condições para a
contratação de empréstimos e a renegociação de financiamentos, com juros mais
baixos; o programa de crédito Move Brasil direcionado aos motoristas de
aplicativos, que financia com juros baixíssimos e parcelamento em até 72 meses
a aquisição de veículos novos sustentáveis de até R$ 150 mil, além de maciços
aportes na saúde, e entregas de infraestrutura fundamentais efetuadas a várias
unidades da federação, a exemplo recente de Santa Catarina.
O
bloqueio à percepção dos avanços materiais e dos índices econômicos exitosos
conquistados pelo governo progressista é sustentado por um contingente de
influenciadores radicais, muitas vezes financiados por grupos de interesse em
perfeita sintonia com o centro financeiro da Faria Lima. Esta articulação
reitera exaustivamente a narrativa de que o aumento da dívida pública sob a
gestão atual favorece o descontrole inflacionário e a inviabilidade do
arcabouço fiscal. Em contrapartida, especialistas em economia política desarmam
esse argumento ao apontar que tais críticas deliberadamente ignoram a urgência
dos investimentos sociais e omitem que a verdadeira raiz do déficit reside nas
taxas de juros abusivas mantidas pelo Banco Central, que estrangulam o orçamento
público para remunerar o rentismo. Descolada da realidade do crescimento do
país, essa oposição se apoia no antipetismo e em pautas ideológicas para
mascarar sua ausência de propostas concretas, configurando o debate de 2026
entre a lógica do mercado financeiro e a agenda de entregas sociais e
estabilidade defendida pelo atual governo.
Em meio
a essa conjuntura, há riscos mais profundos e estruturais que ameaçam
diretamente a soberania nacional. O alinhamento dessas forças de oposição a
pautas que convergem com os interesses geopolíticos norte-americanos representa
um perigoso retrocesso para o país, que hoje segue na direção oposta. Enquanto
o atual governo exalta e partilha do multilateralismo e da autodeterminação dos
povos como diretrizes de inserção global, a ascensão de um governo de
extrema-direita disposto a se dobrar aos interesses norte-americanos reduziria
o Brasil ao papel crônico de subordinado ideológico e econômico. Apoiar esse
projeto significa abrir mão do protagonismo internacional e da defesa da nossa
autonomia para servir de quintal aos desejos de dominação e influência dos
Estados Unidos na América Latina.
Essas
questões se tornam ainda mais iminentes quando analisamos a composição das
forças que disputam esse espólio político, formadas pelo bolsonarismo raiz com
Flávio Bolsonaro e por candidatos que transitam entre a direita tradicional e o
extremismo bolsonarista. Figuras como Ronaldo Caiado (PSD-GO), Romeu Zema
(Novo-MG), que patinam em baixos índices de intenção de voto, nada têm a
oferecer como novidade, pois vibram na mesma frequência do bolsonarismo e já
sinalizam alinhamento irrestrito a Flávio Bolsonaro em um eventual segundo
turno. Mais ardilosa ainda é a candidatura de Renan Santos, do partido Missão,
um falso outsider oriundo do MBL que vem crescendo ao explorar a falsa imagem
de candidato antissistema. Ao se definir como Javier Milei na forma, pela
comunicação informal e agressiva nas redes sociais e Nayib Bukele no conteúdo,
pelo apelo à tolerância zero e ao desmonte fiscal, ele sintetiza um projeto que
flerta abertamente com a prática autoritária de Donald Trump. Outra curiosidade
é que apesar de se dizer antissistema, seu vice é um militar da reserva. É
importante alertar para o fato de que, por trás do discurso de “lei e ordem” e
da austeridade fiscal cega, essas lideranças partilham da mesma essência
entreguista dos Bolsonaro, prontas para desmantelar o multilateralismo e rifar
a soberania do Brasil em nome de uma subordinação humilhante aos EUA.
Frente
a esse panorama político que antecede as eleições de outubro, as propostas de
governo apresentadas pelos pré-candidatos da oposição pouco diferem em sua
essência. Seus discursos e promessas giram em torno de uma agenda econômica
neoliberal, pautada no Estado mínimo, com a redução máxima da intervenção
estatal na sociedade e na economia. Para isso, defendem a privatização de bens
e serviços públicos, inclusive daqueles considerados essenciais; o alinhamento
aos interesses da elite financeira; a redução de políticas e programas sociais,
desconsiderando a profunda desigualdade que ainda marca a realidade brasileira;
e, no campo da segurança pública, priorizam medidas que, não atingem os
verdadeiros empresários do crime organizado. Para a direita e extrema direita
bolsonaristas, representadas por Caiado, Zema e Renan Santos, o combate ao
crime concentra-se na eliminação dos integrantes da base da cadeia criminosa,
sem alcançar sua cúpula, que permanece impune. Em suas propostas para a
segurança pública, tema recorrente em todos os ciclos eleitorais repetem-se as
críticas à condução da área pelos governos progressistas. Entretanto, essas
críticas, segundo esse argumento, não se sustentam. Nos três anos e meio do
atual governo e também nos governos anteriores do PT, a Polícia Federal nunca
combateu o crime organizado com tanta intensidade. É tradição dos governos de
esquerda não interferir na atuação da Polícia Federal, mantendo absoluto
respeito à autonomia da instituição para conduzir suas investigações, inclusive
quando elas envolvem integrantes do próprio governo ou revelam eventuais
irregularidades.
Em
sentido oposto, durante o governo Bolsonaro houve intervenção direta na Polícia
Federal, com o objetivo de atender a interesses do governo e de familiares do
ex-presidente. Embora a interferência tenha mudado de personagens, essa
instrumentalização política da corporação persistiu. Prova disso é que as
lições da Lava Jato sobre o uso da imprensa para queimar reputações foram
ignoradas no âmbito da Operação Compliance Zero sobre o Caso Master. O
vazamento de alguns dados sigilosos da investigação levou a própria PF a
investigar um de seus peritos criminal, João Cláudio Nabas, suspeito de ter
extraído ilegalmente dados do celular do banqueiro investigado, Daniel Vorcaro,
para criar dossiês contra ministros do STF, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.
Segundo a PF, os metadados indicam que o agente desviou o foco do seu trabalho
com o objetivo deliberado de usar a mídia nacional para desestabilizar
autoridades. A PF ordenou o afastamento cautelar do perito.
Diante
de uma situação onde a própria estrutura de Estado é usada para fins ilícitos,
fica evidente que o Brasil não é para amadores. Nesse sentido, os eleitores
precisarão avaliar com atenção todos esses aspectos para não caírem na lábia de
candidatos cujo principal objetivo é conquistar o poder para dele extrair
vantagens privadas, nem de falsos outsiders que se apresentam como
antissistema. É preciso evitar a repetição dos erros de 2018, quando a
narrativa do falso antissistema levou à eleição de um presidente que atentou
contra a democracia e à formação de um Congresso dominado pela extrema direita
e pelo Centrão. Em vez de promover avanços concretos em benefício da população,
essa composição ficou marcada por uma produção legislativa pouco expressiva e
por sucessivas denúncias e controvérsias relacionadas ao uso de emendas
parlamentares. O voto deve considerar os resultados efetivamente alcançados ao
longo da trajetória de cada candidato e de seu grupo político. É fundamental
examinar quem, historicamente, atuou em favor da preservação, do fortalecimento
e da criação de políticas públicas voltadas ao povo e quem, ao contrário,
defendeu a redução do papel do Estado e a diminuição dessas políticas em favor
dos interesses dos detentores do poder econômico.
Pelas
razões acima, é importante que os eleitores escolham candidatos à Presidência
da República, aos governos estaduais, ao Congresso Nacional (deputados federais
e senadores) e às assembleias legislativas (deputados estaduais) que possuam
alinhamento programático entre si, de modo a favorecer a implementação do
projeto de governo apresentado ao eleitorado e a garantir maior coerência entre
o Poder Executivo e o Poder Legislativo. Essa sinergia institucional mostra-se
ainda mais decisiva quando se observa o histórico de plataformas progressistas
que, a despeito de forte oposição, conseguem conduzir com êxito políticas
públicas cujos resultados imprescindíveis são entregues diretamente à
população. Historicamente, governos que priorizam essa pauta demonstram
capacidade comprovada de atender às demandas sociais mais urgentes, como a
redução de desigualdades, o fortalecimento de redes de proteção e o acesso
ampliado a serviços básicos, consolidando avanços que ganham contornos visíveis
no cotidiano das comunidades. Assim, garantir uma base parlamentar coesa e
alinhada a esse propósito, além de viabilizar a governabilidade acelera a
conversão de promessas de campanha em melhorias reais e concretas para a
sociedade.
Fonte:
Brasil 247

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