segunda-feira, 6 de julho de 2026

Elisabeth Lopes: A inacreditável resiliência eleitoral de Flávio Bolsonaro, o ‘01’ entreguista

No dia 8 de outubro de 2018, logo após o primeiro turno das eleições presidenciais, um jornal publicou um editorial de opinião intitulado “Uma escolha muito difícil”. No texto, o Estadão argumentava que os eleitores se viam diante de duas opções indesejáveis nos extremos políticos. De um lado, Jair Bolsonaro, então do PSL, a quem o texto associava à truculência e à apologia da ditadura. De outro, Fernando Haddad (PT), representando o retorno do Partido dos Trabalhadores em meio as investigações da Operação Lava Jato, denunciada em meados de 2019 por gravíssimas irregularidades processuais.

Ao contrário do editorial de absoluta má-fé, a escolha entre um e outro sempre foi bastante clara. A comparação entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro revela um antagonismo inquestionável entre dois projetos de país. Enquanto Haddad representava propostas de governo orientadas por princípios civilizatórios, Bolsonaro traduzia a política da barbárie.

A trajetória de Haddad, atual pré-candidato ao governo de São Paulo, personifica a fusão entre o rigor acadêmico e a produção de inéditas políticas progressistas. Doutor em Filosofia e professor de Ciência Política da USP, sua atuação pública é marcada pelo planejamento institucional de longo prazo. Essa característica ficou evidente em sua gestão no Ministério da Educação, período no qual o país assistiu à maior expansão e democratização do acesso ao ensino superior e técnico de sua história, por meio de programas como o ProUni, o Sisu e a interiorização dos Institutos Federais. Posteriormente, à frente da Prefeitura de São Paulo, Haddad direcionou sua agenda para o urbanismo sustentável e a mobilidade urbana, implementando reformas estruturais como o Plano Diretor Estratégico e a expansão de ciclovias, o que lhe conferiu reconhecimento internacional, embora tenha enfrentado resistência de setores tradicionais da classe média motorizada.

No extremo oposto, a biografia de Jair Bolsonaro solidificou-se à margem do debate intelectual e das formulações técnicas de políticas públicas. Egresso das fileiras do Exército sob episódios de indisciplina salarial, Bolsonaro construiu uma carreira de quase trinta anos no baixo clero do Poder Legislativo, caracterizada por um forte corporativismo militar e pela total escassez de produção legislativa. Sua prática política foi acumulada pelo confronto às ideias progressistas baseada em pautas truculentas e ultra conservadoras, com declarações graves no âmbito da misoginia e homofobia e de uma aberta apologia ao regime autoritário de 1964. Fora dos palanques, sua trajetória legislativa e familiar foi reiteradamente associada a controvérsias éticas e jurídicas, como as investigações sobre desvios de salários de assessores por meio do esquema de “rachadinhas” pelo qual amealhou um patrimônio incompatível com seus proventos, além de suas participações serem marcadas por discursos de leniência e conivência com a atuação de milícias no Rio de Janeiro.

Essa diferença também se refletiu no exercício da Presidência da República. Enquanto o projeto representado por Fernando Haddad defendia o fortalecimento das instituições e a ampliação de políticas públicas para reduzir as desigualdades, o governo Jair Bolsonaro (2019–2022) ficou marcado pelo confronto com as instituições democráticas, pelo negacionismo durante a pandemia de COVID-19, por sucessivos escândalos de corrupção em diferentes ministérios e pelo desgaste da imagem internacional do Brasil. Assim, o contraste entre ambos sintetiza o embate entre um projeto institucional de governo e um falso discurso antissistema de viés extremista.

Diante dessa realidade inóspita do governo bolsonarista (2019-2022), algumas nuances reincidem, sob uma materialidade diferente de reconstrução árdua do país pelo atual governo do também pré-candidato Luiz Inácio da Silva. Por incrível que possa parecer, passados alguns anos e às vésperas da eleição 2026, ainda convivemos com resultados inacreditáveis nas pesquisas de intenção de votos de vários institutos de pesquisa, que indicam uma porcentagem significativa ao pré-candidato, o filho 01 entreguista de Jair, senador, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), apesar de sua extensa trajetória parlamentar  ultra improdutiva, a não ser, no sucesso ímpar da administração dos fundos de seu gabinete por meio da suspeita repetição dos mesmos esquemas empregados pelo seu pai, durante todo o tempo de seus mandatos. Até hoje, fica difícil engolir o elevado patrimônio suspeito do senador alardeado amplamente na mídia por ser incompatível com seus proventos.

O cenário político que antecede as eleições presidenciais de 2026 expõe novamente um contraste profundo na dinâmica eleitoral brasileira, evidenciado tanto pelas pesquisas de opinião, quanto pelos fatos que dominam o debate público. Mesmo diante de sucessivos episódios de desgaste na pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro, pesquisas recentes de institutos como o Datafolha e o BTG/Nexus, Atlas/Bloomberg mostram um eleitorado cristalizado, no qual o senador mantém cerca de 34% a 40% das intenções de voto, próximo do presidente Lula no segundo turno. Entretanto, já se observa um gradativo derretimento de Flávio a cada pesquisa.

Contudo, a resiliência eleitoral persiste apesar das turbulências na imagem do candidato da oposição, envolvido em investigação da Polícia Federal após a revelação de mensagens sobre a intermediação de um pedido de R$ 61 milhões ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Soma-se a isso as denúncias na própria base familiar feitas pela madrasta Michelle Bolsonaro sobre ter sido hostilizada e maltratada pelo enteado por divergências políticas. No plano externo, ofereceu aos EUA a participação na transição de seu governo, caso vença o pleito, medida duramente criticada como uma afronta à soberania diplomática do país. A postura de Flávio ao manifestar o desejo de alinhar seu eventual governo ao desastroso modelo econômico neoliberal do presidente argentino Javier Milei também gerou forte repercussão negativa agravada nesta semana ao enviar uma carta ao governo dos Estados Unidos pedindo que a taxação sobre produtos brasileiros fosse adiada até depois das eleições, sob a alegação de que a medida favoreceria Lula, evidenciando o objetivo de sua recente aproximação com Donald Trump. Em resposta, o presidente Lula classificou a iniciativa como um ato de “entreguismo” e de traição aos interesses nacionais, afirmando que a soberania brasileira é inegociável, que o país não aceitará ingerências externas e que não abrirá mão de conquistas estratégicas como o Mercosul e o Pix.

No lado frontalmente oposto, o presidente Lula estrutura seu favoritismo amparado em uma trajetória focada no fortalecimento das políticas sociais, na defesa da soberania nacional e na preservação da estabilidade institucional, mesmo governando sob forte pressão de um Congresso majoritariamente opositor.Vale ressaltar, que desde os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, o Legislativo foi abocanhando cada vez mais fatias bilionárias do orçamento por meio de emendas parlamentares. Apesar dessa limitação fiscal, o governo federal conseguiu viabilizar e reestruturar projetos essenciais, entre estes, o programa Pé-de-Meia (poupança de incentivo à permanência de estudantes no ensino médio público). Desde sua criação, esse programa contribuiu para reduzir em 43% a evasão no ensino médio e em 33% as reprovações. Ao todo, 5,6 milhões de estudantes foram contemplados, por meio de um aporte federal de R$ 18,6 bilhões.

Todavia, a persistência do teto de votação da oposição que retém cerca de 30% a 40% do eleitorado em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro marcada por polêmicas éticas e familiares evidencia um fenômeno de anestesiamento social de um contingente da população retroalimentado por questões informacionais. Esse contingente de eleitores resiste em bolhas digitais e canais partidários mesmo diante das aberrações desveladas pelo deletério histórico da prática política de Flávio, e dos avanços socioeconômicos incontestáveis do governo Lula com indicadores estruturais inequívocos, tais como: o cenário de pleno emprego; a expansão do atendimento no SUS via programa Agora Tem Especialistas que agilizaram consultas, exames e cirurgias, a desoneração tributária; o programa Desenrola 2.0 para renegociação de dívidas; o programa Desenrola Adimplentes, destinado a beneficiários do Fies e a trabalhadores informais adimplentes, amplia o acesso ao crédito ao proporcionar melhores condições para a contratação de empréstimos e a renegociação de financiamentos, com juros mais baixos; o programa de crédito Move Brasil direcionado aos motoristas de aplicativos, que financia com juros baixíssimos e parcelamento em até 72 meses a aquisição de veículos novos sustentáveis de até R$ 150 mil, além de maciços aportes na saúde, e entregas de infraestrutura fundamentais efetuadas a várias unidades da federação, a exemplo recente de Santa Catarina.

O bloqueio à percepção dos avanços materiais e dos índices econômicos exitosos conquistados pelo governo progressista é sustentado por um contingente de influenciadores radicais, muitas vezes financiados por grupos de interesse em perfeita sintonia com o centro financeiro da Faria Lima. Esta articulação reitera exaustivamente a narrativa de que o aumento da dívida pública sob a gestão atual favorece o descontrole inflacionário e a inviabilidade do arcabouço fiscal. Em contrapartida, especialistas em economia política desarmam esse argumento ao apontar que tais críticas deliberadamente ignoram a urgência dos investimentos sociais e omitem que a verdadeira raiz do déficit reside nas taxas de juros abusivas mantidas pelo Banco Central, que estrangulam o orçamento público para remunerar o rentismo. Descolada da realidade do crescimento do país, essa oposição se apoia no antipetismo e em pautas ideológicas para mascarar sua ausência de propostas concretas, configurando o debate de 2026 entre a lógica do mercado financeiro e a agenda de entregas sociais e estabilidade defendida pelo atual governo.

Em meio a essa conjuntura, há riscos mais profundos e estruturais que ameaçam diretamente a soberania nacional. O alinhamento dessas forças de oposição a pautas que convergem com os interesses geopolíticos norte-americanos representa um perigoso retrocesso para o país, que hoje segue na direção oposta. Enquanto o atual governo exalta e partilha do multilateralismo e da autodeterminação dos povos como diretrizes de inserção global, a ascensão de um governo de extrema-direita disposto a se dobrar aos interesses norte-americanos reduziria o Brasil ao papel crônico de subordinado ideológico e econômico. Apoiar esse projeto significa abrir mão do protagonismo internacional e da defesa da nossa autonomia para servir de quintal aos desejos de dominação e influência dos Estados Unidos na América Latina.

Essas questões se tornam ainda mais iminentes quando analisamos a composição das forças que disputam esse espólio político, formadas pelo bolsonarismo raiz com Flávio Bolsonaro e por candidatos que transitam entre a direita tradicional e o extremismo bolsonarista. Figuras como Ronaldo Caiado (PSD-GO), Romeu Zema (Novo-MG), que patinam em baixos índices de intenção de voto, nada têm a oferecer como novidade, pois vibram na mesma frequência do bolsonarismo e já sinalizam alinhamento irrestrito a Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno. Mais ardilosa ainda é a candidatura de Renan Santos, do partido Missão, um falso outsider oriundo do MBL que vem crescendo ao explorar a falsa imagem de candidato antissistema. Ao se definir como Javier Milei na forma, pela comunicação informal e agressiva nas redes sociais e Nayib Bukele no conteúdo, pelo apelo à tolerância zero e ao desmonte fiscal, ele sintetiza um projeto que flerta abertamente com a prática autoritária de Donald Trump. Outra curiosidade é que apesar de se dizer antissistema, seu vice é um militar da reserva. É importante alertar para o fato de que, por trás do discurso de “lei e ordem” e da austeridade fiscal cega, essas lideranças partilham da mesma essência entreguista dos Bolsonaro, prontas para desmantelar o multilateralismo e rifar a soberania do Brasil em nome de uma subordinação humilhante aos EUA.

Frente a esse panorama político que antecede as eleições de outubro, as propostas de governo apresentadas pelos pré-candidatos da oposição pouco diferem em sua essência. Seus discursos e promessas giram em torno de uma agenda econômica neoliberal, pautada no Estado mínimo, com a redução máxima da intervenção estatal na sociedade e na economia. Para isso, defendem a privatização de bens e serviços públicos, inclusive daqueles considerados essenciais; o alinhamento aos interesses da elite financeira; a redução de políticas e programas sociais, desconsiderando a profunda desigualdade que ainda marca a realidade brasileira; e, no campo da segurança pública, priorizam medidas que, não atingem os verdadeiros empresários do crime organizado. Para a direita e extrema direita bolsonaristas, representadas por Caiado, Zema e Renan Santos, o combate ao crime concentra-se na eliminação dos integrantes da base da cadeia criminosa, sem alcançar sua cúpula, que permanece impune. Em suas propostas para a segurança pública, tema recorrente em todos os ciclos eleitorais repetem-se as críticas à condução da área pelos governos progressistas. Entretanto, essas críticas, segundo esse argumento, não se sustentam. Nos três anos e meio do atual governo e também nos governos anteriores do PT, a Polícia Federal nunca combateu o crime organizado com tanta intensidade. É tradição dos governos de esquerda não interferir na atuação da Polícia Federal, mantendo absoluto respeito à autonomia da instituição para conduzir suas investigações, inclusive quando elas envolvem integrantes do próprio governo ou revelam eventuais irregularidades.

Em sentido oposto, durante o governo Bolsonaro houve intervenção direta na Polícia Federal, com o objetivo de atender a interesses do governo e de familiares do ex-presidente. Embora a interferência tenha mudado de personagens, essa instrumentalização política da corporação persistiu. Prova disso é que as lições da Lava Jato sobre o uso da imprensa para queimar reputações foram ignoradas no âmbito da Operação Compliance Zero sobre o Caso Master. O vazamento de alguns dados sigilosos da investigação levou a própria PF a investigar um de seus peritos criminal, João Cláudio Nabas, suspeito de ter extraído ilegalmente dados do celular do banqueiro investigado, Daniel Vorcaro, para criar dossiês contra ministros do STF, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Segundo a PF, os metadados indicam que o agente desviou o foco do seu trabalho com o objetivo deliberado de usar a mídia nacional para desestabilizar autoridades. A PF ordenou o afastamento cautelar do perito.

Diante de uma situação onde a própria estrutura de Estado é usada para fins ilícitos, fica evidente que o Brasil não é para amadores. Nesse sentido, os eleitores precisarão avaliar com atenção todos esses aspectos para não caírem na lábia de candidatos cujo principal objetivo é conquistar o poder para dele extrair vantagens privadas, nem de falsos outsiders que se apresentam como antissistema. É preciso evitar a repetição dos erros de 2018, quando a narrativa do falso antissistema levou à eleição de um presidente que atentou contra a democracia e à formação de um Congresso dominado pela extrema direita e pelo Centrão. Em vez de promover avanços concretos em benefício da população, essa composição ficou marcada por uma produção legislativa pouco expressiva e por sucessivas denúncias e controvérsias relacionadas ao uso de emendas parlamentares. O voto deve considerar os resultados efetivamente alcançados ao longo da trajetória de cada candidato e de seu grupo político. É fundamental examinar quem, historicamente, atuou em favor da preservação, do fortalecimento e da criação de políticas públicas voltadas ao povo e quem, ao contrário, defendeu a redução do papel do Estado e a diminuição dessas políticas em favor dos interesses dos detentores do poder econômico.

Pelas razões acima, é importante que os eleitores escolham candidatos à Presidência da República, aos governos estaduais, ao Congresso Nacional (deputados federais e senadores) e às assembleias legislativas (deputados estaduais) que possuam alinhamento programático entre si, de modo a favorecer a implementação do projeto de governo apresentado ao eleitorado e a garantir maior coerência entre o Poder Executivo e o Poder Legislativo. Essa sinergia institucional mostra-se ainda mais decisiva quando se observa o histórico de plataformas progressistas que, a despeito de forte oposição, conseguem conduzir com êxito políticas públicas cujos resultados imprescindíveis são entregues diretamente à população. Historicamente, governos que priorizam essa pauta demonstram capacidade comprovada de atender às demandas sociais mais urgentes, como a redução de desigualdades, o fortalecimento de redes de proteção e o acesso ampliado a serviços básicos, consolidando avanços que ganham contornos visíveis no cotidiano das comunidades. Assim, garantir uma base parlamentar coesa e alinhada a esse propósito, além de viabilizar a governabilidade acelera a conversão de promessas de campanha em melhorias reais e concretas para a sociedade.

 

Fonte: Brasil 247

 

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