Laura
Capriglione: Ali Khamenei deixa um Irã que venceu Trump e redesenhou o
equilíbrio no Oriente Médio
Milhões
de pessoas estão em Teerã para o último adeus ao aiatolá Ali Khamenei, naquela que já é
considerada a maior manifestação de massas do Irã. Comprova-se, assim, que foi
um erro fenomenal do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, atacar o Irã no dia
28 de fevereiro e assassinar o então líder supremo do país, o aiatolá Ali
Khamenei. O propósito escancarado por Trump era promover uma “mudança de
regime”, colocando no lugar da Revolução Islâmica, no poder desde 1979, um
fantoche qualquer, desde que submisso aos Estados Unidos e a Israel. Deu tudo
errado.
Em vez
de uma mudança de regime, o que Trump conseguiu foi unir o país persa como
nunca. O que aparece nos retratos, nos vídeos, nas bandeiras, nos cartazes, nas
ruas e nas praças é um povo orgulhoso e combativo contra o imperialismo
estadunidense e o sionismo. E dono de uma gratidão profunda em relação ao líder
que conseguiu unir espiritualidade e visão estratégica, dotando seu país de
força de vontade coletiva e de tecnologias capazes de impor uma derrota
histórica aos opressores.
Trump
acreditou que conseguiria fazer com o Irã o que havia feito no dia 3 de janeiro
de 2026 com a Venezuela, ao sequestrar o presidente Nicolás Maduro e sua
mulher, Cilia Flores: cortar a cabeça do governo para, assim, submeter o país
aos seus desígnios — e roubar-lhe o petróleo.
Animava-o
o fato de o Irã ter enfrentado, no início do ano, grandes protestos da
oposição, assim como ocorrera na Venezuela. Mas o que se viu no país persa foi
que o tiro saiu pela culatra. Khamenei não era como Maduro, nem o Irã como a
Venezuela.
Khamenei
não foi um líder espiritual como os que estamos acostumados a ver. Também era
um guerreiro, um filósofo, um poeta e um entusiasta da ciência. Representante
da tradição xiita, Khamenei era um seguidor do imã Hussein (626–680 d.C.), neto
do profeta Muhammad (Maomé), reverenciado pelos
iranianos como símbolo da luta contra a corrupção e todas as injustiças, mesmo
que ao custo da própria vida.
Nessa
concepção, o martírio representa o ponto mais alto da insubmissão do verdadeiro
religioso às tentativas dos tiranos de oprimir e espoliar os povos. Khamenei,
ao ser assassinado pelos Estados Unidos no início da guerra, entrou para o rol
dos mártires, e isso não é pouco.
“Vocês,
no Ocidente, só compreenderão o Irã e nosso amor pelo aiatolá Khamenei quando
entenderem o significado profundo que tem para nós o exemplo do imã Hussein”,
disse-nos Fátima Ghorbani, enquanto caminhava para o velório em companhia do
marido e de seus dois filhos.
Longe
de destruírem e desmoralizarem o então aiatolá, os Estados Unidos e Israel o
santificaram. E é essa figura, com ecos profundos na história do povo
muçulmano, que os iranianos estão, neste momento, nas ruas homenageando.
“Podemos
dizer que Khamenei, com seu martírio, está mais vivo hoje do que antes”,
interpreta o sheik Mahdi, clérigo xiita, no meio da multidão que empunha
bandeiras vermelhas (representando o sangue derramado), com letras brancas
escritas em árabe nas quais se lê a mensagem: “Vingança contra os opressores”.
“Hoje, chorando pelo aiatolá Khamenei, estão milhares de pessoas que até se
entusiasmaram com os protestos do início do ano, mas se horrorizaram com o
assassinato de nosso líder e com o bombardeio norte-americano contra uma escola
na cidade de Qom, no sul do Irã, martirizando 168 meninas com idades entre 7 e
12 anos”, explica o sheik Mahdi.
O Irã
não tem dúvidas de que venceu aqueles que, no mundo todo, eram considerados
inimigos invencíveis: Trump e seu aliado, o primeiro-ministro de Israel,
Benjamin Netanyahu, genocida do povo palestino. Essa vitória terá repercussão
mundial, e o governo começa a organizá-la.
No
sábado (4), realizou-se uma conferência em Teerã com delegações estrangeiras
que compareceram às cerimônias fúnebres. Ali, toda a diversidade étnica do Islã
estava representada. Iemenitas houthis, aliados de Teerã na guerra, chegaram à
conferência com os largos cinturões típicos de sua cultura, atravessados, na
altura do peito, por adagas de lâminas grossas, das quais não se separam nunca.
Também
se viam representantes do Líbano (sob ataque israelense), do Iraque, da Síria,
do Afeganistão, do Paquistão (que mediou o atual acordo de paz com os Estados
Unidos), do Catar, do Bahrein, da Arábia Saudita, da Palestina, da Índia, da
República Democrática do Congo, entre mais de 100 países, demonstrando a força
moral que o Irã conquistou por sua luta, até aqui bem-sucedida, contra a
opressão imperialista e o sionismo.
Nas
ruas, sob sol inclemente e calor intenso (sensação térmica superior a 40 °C por
volta do meio-dia) e com o ar muito seco, a multidão de milhões de pessoas
compareceu em trajes pretos de luto. Especialmente as mulheres, com o corpo
todo coberto e o véu também negro (hijab) sobre a cabeça, embora essa
obrigação tenha sido flexibilizada na vida cotidiana das mulheres de Teerã,
como se nota ao andar pelas ruas fora do circuito do velório.
Para
evitar a hipertermia, as comunidades de base do islamismo, com foco nas
mesquitas, organizaram farta distribuição gratuita de limonadas, água e sucos,
além de fatias de melancia. Das janelas de suas casas, moradores lançavam jatos
de água sobre a multidão, de modo a aliviar o calor intenso.
A
alimentação dos peregrinos também foi providenciada pelas comunidades de base,
que prepararam, durante toda a semana anterior ao velório, toneladas de
refeições cujos insumos foram comprados com doações dos fiéis. A entrega dessas
refeições foi feita em centenas de barracas espalhadas pelas ruas, cada uma
representando uma mesquita, um grupo ou um clube — também sem custo algum para
os peregrinos. A Revolução Islâmica mantém-se forte graças à organização do
povo pela base.
O
movimento dos fiéis convergia para a Grande Mosalla, oficialmente Mosalla Imam
Khomeini, um gigantesco complexo religioso-comunitário localizado em Teerã.
Construída em estilo persa, a Grande Mosalla abrigou até a manhã desta
segunda-feira (6) os ataúdes de Khamenei e de seus familiares mortos no mesmo
ataque estadunidense. São ataúdes simples, pintados com as cores da bandeira
iraniana. O de Khamenei pode ser identificado por exibir sobre sua tampa o
turbante negro que identifica os descendentes do profeta Muhammad, fundador do
islamismo.
Na
madrugada desta segunda-feira (6), o metrô de Teerã conheceu um movimento
inédito às 4 horas da manhã, quando milhares de pessoas dos bairros mais
distantes dirigiram-se à Grande Mosalla para a despedida final da cidade.
Os
caixões saíram da Grande Mosalla em carro aberto, no meio da multidão imensa,
às 10h locais. Milhares de pessoas acompanhavam o féretro em choro convulsivo;
outras jogavam flores brancas sobre os caixões, e uma massa compacta de gente
cobriu quilômetros de ruas e avenidas, acompanhando o cortejo até a Torre
Azadi, ou Torre da Liberdade, localizada na praça de mesmo nome.
Símbolos
são tudo neste Irã dolorido e vitorioso. Foi nesse mesmo local que se iniciaram
os protestos que, em 1979, levaram à queda da monarquia corrupta do último xá
da Pérsia, Mohammad Reza Pahlavi, aliada dos Estados Unidos. É nessa praça que
o corpo do aiatolá Khamenei se despede de Teerã, abraçado e irmanado ao povo.
De
Teerã, o corpo de Ali Khamenei será levado para a cidade sagrada de Qom, sede
do clero xiita. Outras cerimônias estão programadas para 8 de julho em Najaf e
Karbala. O ex-líder supremo será enterrado no dia 9 de julho em Mashhad, cidade
no nordeste do Irã, onde nasceu.
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Ali Khamenei e a Palestina como eixo permanente da
Revolução Islâmica. Por Sayid Marcos Tenório
A
defesa da Palestina não foi, para o aiatolá Seyyed Ali Khamenei, uma questão
circunstancial de política externa. Constituiu o eixo permanente de sua atuação
política, diplomática e estratégica ao longo de quase quatro décadas à frente
da República Islâmica do Irã.
Desde a
Revolução Islâmica de 1979, a causa palestina deixou de ser apenas uma pauta
regional para se tornar um princípio estruturante do Estado iraniano. Sob a
liderança de Khamenei, esse compromisso foi aprofundado e consolidado como
expressão da luta contra o colonialismo, a ocupação e a hegemonia estrangeira
no Oriente Médio.
Na
visão de Khamenei, a Palestina simboliza a maior injustiça contemporânea contra
um povo privado de sua terra, de sua soberania e de seu direito à
autodeterminação.
Por
isso, sempre rejeitou iniciativas que reduzissem a questão palestina a
negociações limitadas ou acordos patrocinados pelas potências ocidentais,
sustentando que nenhuma solução seria legítima enquanto se preservasse a
ocupação, se negasse o direito de retorno dos refugiados e se mantivesse a
negação dos direitos nacionais do povo palestino.
Para
ele, a libertação da Palestina era uma questão de justiça histórica e de
direito internacional, não uma concessão diplomática.
Esse
compromisso deu continuidade ao legado do Imam Ruhollah Khomeini, fundador da
República Islâmica, que transformou Jerusalém e a Palestina em um dos pilares
da Revolução.
Mesmo
enfrentando uma guerra devastadora, décadas de sanções econômicas, isolamento
internacional e constantes ameaças militares, Khamenei jamais relegou a causa
palestina a um plano secundário.
Ao
contrário, insistiu que a defesa da Palestina era inseparável da defesa da
independência e da soberania do próprio Irã.
Ao
longo de sua liderança, Khamenei transformou esse compromisso em uma política
permanente de Estado. Teerã tornou-se um dos principais centros de diálogo
entre as lideranças da resistência palestina.
Em
sucessivos encontros com delegações do Hamas, da Jihad Islâmica Palestina e de
outras organizações, o Líder Khamenei reafirmava o apoio político, espiritual e
material da República Islâmica, ao mesmo tempo em que incentivava a coordenação
entre os diferentes movimentos.
Mais do
que anfitrião desses encontros, Khamenei foi um dos principais articuladores da
aproximação entre o Hamas e a Jihad Islâmica Palestina, defendendo mecanismos
permanentes de cooperação política e estratégica entre as forças da
resistência. Sua convicção era a de que a fragmentação favorecia a ocupação,
enquanto que a unidade fortalecia o caminho da libertação.
O apoio
iraniano ultrapassou a solidariedade retórica. Sob sua liderança, a República
Islâmica ofereceu respaldo político nos fóruns internacionais, assistência
material e apoio ao fortalecimento da capacidade de resistência das
organizações palestinas.
Ao
mesmo tempo, Khamenei conferiu legitimidade moral e religiosa à luta palestina,
apresentando-a como um dever coletivo da Ummah – a
coletividade islâmica. Ao receber regularmente dirigentes de movimentos de
maioria sunita, reafirmou que a Palestina estava acima das diferenças
confessionais, transformando a resistência à ocupação sionista em um elemento
de convergência entre xiitas e sunitas.
Essa
concepção explica também a centralidade da Palestina na construção do chamado
Eixo da Resistência.
Para
Khamenei, a resistência nunca foi apenas uma resposta militar à ocupação, mas
um projeto político regional voltado à defesa da soberania dos povos frente às
intervenções estrangeiras.
Palestina,
Líbano, Síria, Iraque, Iêmen e Irã passaram a integrar uma mesma arquitetura
estratégica, fundada na convicção de que a estabilidade da região depende do
fim da ocupação da Palestina e da superação do projeto colonial representado
por Israel.
Essa
visão conferiu à questão palestina uma dimensão que ultrapassa as fronteiras do
Oriente Médio.
Para
Khamenei, a Palestina tornou-se o principal símbolo contemporâneo da luta
anticolonial, da autodeterminação dos povos e da resistência à dominação
imperial.
Não por
acaso, ele fez do Dia Internacional de Al-Quds um instrumento permanente de
mobilização política e de solidariedade internacional, mantendo viva a
centralidade da causa palestina mesmo em períodos de menor atenção da
comunidade internacional.
O
legado político de Ali Khamenei, portanto, não pode ser compreendido sem a
Palestina.
Mais do
que um defensor da causa palestina, ele ajudou a transformá-la em um dos
principais eixos da geopolítica regional e em elemento estruturador da política
externa iraniana.
Para
seus apoiadores, sua maior contribuição foi demonstrar que a resistência não
constitui apenas uma estratégia militar, mas um projeto político capaz de unir
diferentes povos, correntes islâmicas e movimentos de libertação em torno de um
objetivo comum: o fim da ocupação e a construção de uma Palestina livre,
soberana e independente.
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Gaza 33 após meses: uma vida definida pelo cerco e pela
espera, e mapas redesenhados pela força. Por Wisam Zoghbour
Após
trinta e três meses da tragédia em curso em Gaza, falar em “guerra”
já não basta para descrever a situação. O que se desenrola hoje transcende os
limites de um conflito convencional, aproximando-se de uma reconfiguração
forçada da geografia e da demografia.
Vastas
extensões de terra estão sendo amputadas, e a população é gradualmente
empurrada para uma contração espacial sem precedentes; a existência humana está
confinada a cerca de 30% do território, enquanto os 70% restantes estão sendo
esvaziados ou reconfigurados, tudo isso dentro de uma realidade que se torna, a
cada dia, mais restrita e complexa.
Essa
mudança geográfica forçada não pode ser dissociada do cenário humanitário
cotidiano, no qual a própria vida se tornou uma questão de administrar a
escassez. Longas filas se estendem por horas — à espera de caminhões-pipa, do
abastecimento de água para uso doméstico ou de alimentos —, ao lado de outras
filas de pessoas que tentam se deslocar entre áreas onde o acesso se tornou
repleto de dificuldades e perigos.
Essas
filas já não são apenas um detalhe passageiro da paisagem; tornaram-se um
elemento permanente de uma “economia de sobrevivência”, na qual o dia é medido
pela capacidade de garantir o mínimo necessário para viver.
Nesse
contexto, o sofrimento não parece ser resultado de uma crise temporária, mas
parte de uma estrutura cotidiana recorrente que gera uma sensação constante de
sufocamento espacial e temporal.
As
pessoas em Gaza vivem não apenas sob a pressão da necessidade, mas também sob a
tensão das longas esperas que acompanham cada aspecto da vida diária: a espera
pela água, pela comida, pela sua vez e, por vezes, pelo próprio desconhecido.
Em meio
a essa realidade, os moradores tornam-se testemunhas diretas de um crime que se
desenrola diante de seus olhos — um crime que exige menos definições jurídicas
complexas do que uma compreensão clara e humana do esgotamento absoluto que as
pessoas suportam diariamente. O cenário não é apenas de destruição física, mas
também de desmantelamento gradual do direito humano de ir e vir, de escolha e
de dignidade.
O que
acontece hoje em Gaza não pode ser medido apenas pelo número de vidas perdidas
ou pela escala da destruição; deve ser medido também pela extensão em que a
vida foi transformada em uma série de restrições espaciais e humanas, nas quais
a própria sobrevivência se tornou um desafio cotidiano.
No
coração dessa paisagem, o habitante de Gaza permanece, ao mesmo tempo,
testemunha e prisioneiro: testemunha dos acontecimentos em curso e prisioneiro
de limites impostos que se fecham progressivamente.
A cada
dia que passa, a pergunta torna-se mais urgente: por quanto tempo a vida pode
resistir quando governada por um bloqueio tão sufocante, por uma espera tão
interminável e por uma redução tão implacável tanto do espaço quanto das
possibilidades?
Fonte:
TVT News/Opera Mundi/Diálogos do Sul Global

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