quinta-feira, 9 de julho de 2026

Laura Capriglione: Ali Khamenei deixa um Irã que venceu Trump e redesenhou o equilíbrio no Oriente Médio

Milhões de pessoas estão em Teerã para o último adeus ao aiatolá Ali Khamenei, naquela que já é considerada a maior manifestação de massas do Irã. Comprova-se, assim, que foi um erro fenomenal do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, atacar o Irã no dia 28 de fevereiro e assassinar o então líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei. O propósito escancarado por Trump era promover uma “mudança de regime”, colocando no lugar da Revolução Islâmica, no poder desde 1979, um fantoche qualquer, desde que submisso aos Estados Unidos e a Israel. Deu tudo errado.

Em vez de uma mudança de regime, o que Trump conseguiu foi unir o país persa como nunca. O que aparece nos retratos, nos vídeos, nas bandeiras, nos cartazes, nas ruas e nas praças é um povo orgulhoso e combativo contra o imperialismo estadunidense e o sionismo. E dono de uma gratidão profunda em relação ao líder que conseguiu unir espiritualidade e visão estratégica, dotando seu país de força de vontade coletiva e de tecnologias capazes de impor uma derrota histórica aos opressores.

Trump acreditou que conseguiria fazer com o Irã o que havia feito no dia 3 de janeiro de 2026 com a Venezuela, ao sequestrar o presidente Nicolás Maduro e sua mulher, Cilia Flores: cortar a cabeça do governo para, assim, submeter o país aos seus desígnios — e roubar-lhe o petróleo.

Animava-o o fato de o Irã ter enfrentado, no início do ano, grandes protestos da oposição, assim como ocorrera na Venezuela. Mas o que se viu no país persa foi que o tiro saiu pela culatra. Khamenei não era como Maduro, nem o Irã como a Venezuela.

Khamenei não foi um líder espiritual como os que estamos acostumados a ver. Também era um guerreiro, um filósofo, um poeta e um entusiasta da ciência. Representante da tradição xiita, Khamenei era um seguidor do imã Hussein (626–680 d.C.), neto do profeta Muhammad (Maomé), reverenciado pelos iranianos como símbolo da luta contra a corrupção e todas as injustiças, mesmo que ao custo da própria vida.

Nessa concepção, o martírio representa o ponto mais alto da insubmissão do verdadeiro religioso às tentativas dos tiranos de oprimir e espoliar os povos. Khamenei, ao ser assassinado pelos Estados Unidos no início da guerra, entrou para o rol dos mártires, e isso não é pouco.

“Vocês, no Ocidente, só compreenderão o Irã e nosso amor pelo aiatolá Khamenei quando entenderem o significado profundo que tem para nós o exemplo do imã Hussein”, disse-nos Fátima Ghorbani, enquanto caminhava para o velório em companhia do marido e de seus dois filhos.

Longe de destruírem e desmoralizarem o então aiatolá, os Estados Unidos e Israel o santificaram. E é essa figura, com ecos profundos na história do povo muçulmano, que os iranianos estão, neste momento, nas ruas homenageando.

“Podemos dizer que Khamenei, com seu martírio, está mais vivo hoje do que antes”, interpreta o sheik Mahdi, clérigo xiita, no meio da multidão que empunha bandeiras vermelhas (representando o sangue derramado), com letras brancas escritas em árabe nas quais se lê a mensagem: “Vingança contra os opressores”. “Hoje, chorando pelo aiatolá Khamenei, estão milhares de pessoas que até se entusiasmaram com os protestos do início do ano, mas se horrorizaram com o assassinato de nosso líder e com o bombardeio norte-americano contra uma escola na cidade de Qom, no sul do Irã, martirizando 168 meninas com idades entre 7 e 12 anos”, explica o sheik Mahdi.

O Irã não tem dúvidas de que venceu aqueles que, no mundo todo, eram considerados inimigos invencíveis: Trump e seu aliado, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, genocida do povo palestino. Essa vitória terá repercussão mundial, e o governo começa a organizá-la.

No sábado (4), realizou-se uma conferência em Teerã com delegações estrangeiras que compareceram às cerimônias fúnebres. Ali, toda a diversidade étnica do Islã estava representada. Iemenitas houthis, aliados de Teerã na guerra, chegaram à conferência com os largos cinturões típicos de sua cultura, atravessados, na altura do peito, por adagas de lâminas grossas, das quais não se separam nunca.

Também se viam representantes do Líbano (sob ataque israelense), do Iraque, da Síria, do Afeganistão, do Paquistão (que mediou o atual acordo de paz com os Estados Unidos), do Catar, do Bahrein, da Arábia Saudita, da Palestina, da Índia, da República Democrática do Congo, entre mais de 100 países, demonstrando a força moral que o Irã conquistou por sua luta, até aqui bem-sucedida, contra a opressão imperialista e o sionismo.

Nas ruas, sob sol inclemente e calor intenso (sensação térmica superior a 40 °C por volta do meio-dia) e com o ar muito seco, a multidão de milhões de pessoas compareceu em trajes pretos de luto. Especialmente as mulheres, com o corpo todo coberto e o véu também negro (hijab) sobre a cabeça, embora essa obrigação tenha sido flexibilizada na vida cotidiana das mulheres de Teerã, como se nota ao andar pelas ruas fora do circuito do velório.

Para evitar a hipertermia, as comunidades de base do islamismo, com foco nas mesquitas, organizaram farta distribuição gratuita de limonadas, água e sucos, além de fatias de melancia. Das janelas de suas casas, moradores lançavam jatos de água sobre a multidão, de modo a aliviar o calor intenso.

A alimentação dos peregrinos também foi providenciada pelas comunidades de base, que prepararam, durante toda a semana anterior ao velório, toneladas de refeições cujos insumos foram comprados com doações dos fiéis. A entrega dessas refeições foi feita em centenas de barracas espalhadas pelas ruas, cada uma representando uma mesquita, um grupo ou um clube — também sem custo algum para os peregrinos. A Revolução Islâmica mantém-se forte graças à organização do povo pela base.

O movimento dos fiéis convergia para a Grande Mosalla, oficialmente Mosalla Imam Khomeini, um gigantesco complexo religioso-comunitário localizado em Teerã. Construída em estilo persa, a Grande Mosalla abrigou até a manhã desta segunda-feira (6) os ataúdes de Khamenei e de seus familiares mortos no mesmo ataque estadunidense. São ataúdes simples, pintados com as cores da bandeira iraniana. O de Khamenei pode ser identificado por exibir sobre sua tampa o turbante negro que identifica os descendentes do profeta Muhammad, fundador do islamismo.

Na madrugada desta segunda-feira (6), o metrô de Teerã conheceu um movimento inédito às 4 horas da manhã, quando milhares de pessoas dos bairros mais distantes dirigiram-se à Grande Mosalla para a despedida final da cidade.

Os caixões saíram da Grande Mosalla em carro aberto, no meio da multidão imensa, às 10h locais. Milhares de pessoas acompanhavam o féretro em choro convulsivo; outras jogavam flores brancas sobre os caixões, e uma massa compacta de gente cobriu quilômetros de ruas e avenidas, acompanhando o cortejo até a Torre Azadi, ou Torre da Liberdade, localizada na praça de mesmo nome.

Símbolos são tudo neste Irã dolorido e vitorioso. Foi nesse mesmo local que se iniciaram os protestos que, em 1979, levaram à queda da monarquia corrupta do último xá da Pérsia, Mohammad Reza Pahlavi, aliada dos Estados Unidos. É nessa praça que o corpo do aiatolá Khamenei se despede de Teerã, abraçado e irmanado ao povo.

De Teerã, o corpo de Ali Khamenei será levado para a cidade sagrada de Qom, sede do clero xiita. Outras cerimônias estão programadas para 8 de julho em Najaf e Karbala. O ex-líder supremo será enterrado no dia 9 de julho em Mashhad, cidade no nordeste do Irã, onde nasceu.

¨      Ali Khamenei e a Palestina como eixo permanente da Revolução Islâmica. Por Sayid Marcos Tenório

A defesa da Palestina não foi, para o aiatolá Seyyed Ali Khamenei, uma questão circunstancial de política externa. Constituiu o eixo permanente de sua atuação política, diplomática e estratégica ao longo de quase quatro décadas à frente da República Islâmica do Irã. 

Desde a Revolução Islâmica de 1979, a causa palestina deixou de ser apenas uma pauta regional para se tornar um princípio estruturante do Estado iraniano. Sob a liderança de Khamenei, esse compromisso foi aprofundado e consolidado como expressão da luta contra o colonialismo, a ocupação e a hegemonia estrangeira no Oriente Médio.

Na visão de Khamenei, a Palestina simboliza a maior injustiça contemporânea contra um povo privado de sua terra, de sua soberania e de seu direito à autodeterminação. 

Por isso, sempre rejeitou iniciativas que reduzissem a questão palestina a negociações limitadas ou acordos patrocinados pelas potências ocidentais, sustentando que nenhuma solução seria legítima enquanto se preservasse a ocupação, se negasse o direito de retorno dos refugiados e se mantivesse a negação dos direitos nacionais do povo palestino. 

Para ele, a libertação da Palestina era uma questão de justiça histórica e de direito internacional, não uma concessão diplomática.

Esse compromisso deu continuidade ao legado do Imam Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica, que transformou Jerusalém e a Palestina em um dos pilares da Revolução. 

Mesmo enfrentando uma guerra devastadora, décadas de sanções econômicas, isolamento internacional e constantes ameaças militares, Khamenei jamais relegou a causa palestina a um plano secundário. 

Ao contrário, insistiu que a defesa da Palestina era inseparável da defesa da independência e da soberania do próprio Irã.

Ao longo de sua liderança, Khamenei transformou esse compromisso em uma política permanente de Estado. Teerã tornou-se um dos principais centros de diálogo entre as lideranças da resistência palestina. 

Em sucessivos encontros com delegações do Hamas, da Jihad Islâmica Palestina e de outras organizações, o Líder Khamenei reafirmava o apoio político, espiritual e material da República Islâmica, ao mesmo tempo em que incentivava a coordenação entre os diferentes movimentos. 

Mais do que anfitrião desses encontros, Khamenei foi um dos principais articuladores da aproximação entre o Hamas e a Jihad Islâmica Palestina, defendendo mecanismos permanentes de cooperação política e estratégica entre as forças da resistência. Sua convicção era a de que a fragmentação favorecia a ocupação, enquanto que a unidade fortalecia o caminho da libertação.

O apoio iraniano ultrapassou a solidariedade retórica. Sob sua liderança, a República Islâmica ofereceu respaldo político nos fóruns internacionais, assistência material e apoio ao fortalecimento da capacidade de resistência das organizações palestinas. 

Ao mesmo tempo, Khamenei conferiu legitimidade moral e religiosa à luta palestina, apresentando-a como um dever coletivo da Ummah – a coletividade islâmica. Ao receber regularmente dirigentes de movimentos de maioria sunita, reafirmou que a Palestina estava acima das diferenças confessionais, transformando a resistência à ocupação sionista em um elemento de convergência entre xiitas e sunitas.

Essa concepção explica também a centralidade da Palestina na construção do chamado Eixo da Resistência. 

Para Khamenei, a resistência nunca foi apenas uma resposta militar à ocupação, mas um projeto político regional voltado à defesa da soberania dos povos frente às intervenções estrangeiras. 

Palestina, Líbano, Síria, Iraque, Iêmen e Irã passaram a integrar uma mesma arquitetura estratégica, fundada na convicção de que a estabilidade da região depende do fim da ocupação da Palestina e da superação do projeto colonial representado por Israel.

Essa visão conferiu à questão palestina uma dimensão que ultrapassa as fronteiras do Oriente Médio.

Para Khamenei, a Palestina tornou-se o principal símbolo contemporâneo da luta anticolonial, da autodeterminação dos povos e da resistência à dominação imperial.

Não por acaso, ele fez do Dia Internacional de Al-Quds um instrumento permanente de mobilização política e de solidariedade internacional, mantendo viva a centralidade da causa palestina mesmo em períodos de menor atenção da comunidade internacional.

O legado político de Ali Khamenei, portanto, não pode ser compreendido sem a Palestina. 

Mais do que um defensor da causa palestina, ele ajudou a transformá-la em um dos principais eixos da geopolítica regional e em elemento estruturador da política externa iraniana. 

Para seus apoiadores, sua maior contribuição foi demonstrar que a resistência não constitui apenas uma estratégia militar, mas um projeto político capaz de unir diferentes povos, correntes islâmicas e movimentos de libertação em torno de um objetivo comum: o fim da ocupação e a construção de uma Palestina livre, soberana e independente.

¨      Gaza 33 após meses: uma vida definida pelo cerco e pela espera, e mapas redesenhados pela força. Por Wisam Zoghbour

Após trinta e três meses da tragédia em curso em Gaza, falar em “guerra” já não basta para descrever a situação. O que se desenrola hoje transcende os limites de um conflito convencional, aproximando-se de uma reconfiguração forçada da geografia e da demografia.

Vastas extensões de terra estão sendo amputadas, e a população é gradualmente empurrada para uma contração espacial sem precedentes; a existência humana está confinada a cerca de 30% do território, enquanto os 70% restantes estão sendo esvaziados ou reconfigurados, tudo isso dentro de uma realidade que se torna, a cada dia, mais restrita e complexa.

Essa mudança geográfica forçada não pode ser dissociada do cenário humanitário cotidiano, no qual a própria vida se tornou uma questão de administrar a escassez. Longas filas se estendem por horas — à espera de caminhões-pipa, do abastecimento de água para uso doméstico ou de alimentos —, ao lado de outras filas de pessoas que tentam se deslocar entre áreas onde o acesso se tornou repleto de dificuldades e perigos.

Essas filas já não são apenas um detalhe passageiro da paisagem; tornaram-se um elemento permanente de uma “economia de sobrevivência”, na qual o dia é medido pela capacidade de garantir o mínimo necessário para viver.

Nesse contexto, o sofrimento não parece ser resultado de uma crise temporária, mas parte de uma estrutura cotidiana recorrente que gera uma sensação constante de sufocamento espacial e temporal.

As pessoas em Gaza vivem não apenas sob a pressão da necessidade, mas também sob a tensão das longas esperas que acompanham cada aspecto da vida diária: a espera pela água, pela comida, pela sua vez e, por vezes, pelo próprio desconhecido.

Em meio a essa realidade, os moradores tornam-se testemunhas diretas de um crime que se desenrola diante de seus olhos — um crime que exige menos definições jurídicas complexas do que uma compreensão clara e humana do esgotamento absoluto que as pessoas suportam diariamente. O cenário não é apenas de destruição física, mas também de desmantelamento gradual do direito humano de ir e vir, de escolha e de dignidade.

O que acontece hoje em Gaza não pode ser medido apenas pelo número de vidas perdidas ou pela escala da destruição; deve ser medido também pela extensão em que a vida foi transformada em uma série de restrições espaciais e humanas, nas quais a própria sobrevivência se tornou um desafio cotidiano.

No coração dessa paisagem, o habitante de Gaza permanece, ao mesmo tempo, testemunha e prisioneiro: testemunha dos acontecimentos em curso e prisioneiro de limites impostos que se fecham progressivamente.

A cada dia que passa, a pergunta torna-se mais urgente: por quanto tempo a vida pode resistir quando governada por um bloqueio tão sufocante, por uma espera tão interminável e por uma redução tão implacável tanto do espaço quanto das possibilidades?

 

Fonte: TVT News/Opera Mundi/Diálogos do Sul Global

 

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