Contradições
entre universidade e setor produtivo
A
relação entre a autonomia universitária e a sociedade civil (especialmente o
setor produtivo como o comércio e a indústria) é um dos debates mais complexos
na educação superior. Infelizmente, o mainstream das universidades tem se
focado cada vez mais nesse segmento da sociedade ao longo dos anos, tornando
invisível o serviço às classes menos favorecidas, mesmo que essa seja sempre a
conversa fora dos campi no Brasil.
A
autonomia universitária é frequentemente vista no Brasil como um escudo de
isolamento; a garantia de que a academia deve ser independente de pressões
externas. Mas essa visão confunde autonomia com soberania ou isolamento. A
universidade não é o fim, mas uma autarquia social que só funciona se não
estiver em conflito com a sociedade civil. É justamente nesse meio-termo que se
encontra um dos debates mais acalorados da educação superior atual entre o
comércio e a indústria e sua relação com a universidade.
Se, por
um lado, a separação do mercado é uma causa de anacronismo e do desaparecimento
da relevância prática, por outro lado, a adesão cega à lógica mercantilista
pode transformar o conhecimento em algo como trabalho e patentes comerciais.
Assim, a autonomia não deve ser vista como um obstáculo ao diálogo com o
capital, mas sim como uma salvaguarda entre a universidade e o setor produtivo,
não para ser usada por ele. Erga Omnes.
Mais de
95% de toda a produção científica e pesquisa de ponta no Brasil vem de
universidades públicas (federais e estaduais). O setor privado puro (faculdades
privadas) está mais preocupado com a educação de graduação, não com o novo
conhecimento e a geração de conhecimento.
Nos
rankings de patentes do INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial), as
universidades públicas dominam o top 10 de inovação no país, competindo com
grandes empresas como a Petrobras. Universidades como a UFMG, UFCG (Campina
Grande) e Unicamp são as que mais registram pedidos de patentes para novas
tecnologias no país, e é uma evidência de que a indústria nacional deve
depender das universidades para patentear tecnologia.
O
Brasil gasta cerca de 1% do seu PIB em pesquisa e desenvolvimento (P&D). O
setor empresarial responde por cerca de 30% a 35% do orçamento total de P&D
e é baixo em relação a países como a Coreia do Sul ou os Estados Unidos, onde o
setor empresarial gasta muito dinheiro em inovação.
Com o
comércio e a indústria em vigor, a universidade não se torna obsoleta. O setor
produtivo apresenta problemas sociais reais (a necessidade de transição
energética ou novos tratamentos de saúde) e, assim, impulsiona a pesquisa
aplicada. Mas o bem comum deve ser combatido contra a hegemonia do setor não
acadêmico que sempre visa lucrar com seus lucros: esse é o modelo corporativo
de produção.
Por
outro lado, em um momento de crise fiscal e cortes orçamentários em fundos
públicos (como no caso das agências CNPq e CAPES), fundos privados, contratos
de transferência de tecnologia e doações corporativas são as respostas para
financiar novos laboratórios e laboratórios estatais que não podem mais ser
feitos sozinhos. A batalha não é mais por dólares públicos, mas sim pela
perspectiva mercantilista e, assim, a Academia não está bem treinada em seu
próprio jogo de xadrez, por assim dizer.
Quando
os fundos públicos são escassos, encontrar recursos privados deixa de ser uma
opção para expansão, mas é uma estratégia de sobrevivência. É aí que reside o
perigo: a universidade não está indo para o mercado por escolha livre, mas por
restrições orçamentárias. A luta política pelo financiamento público (que o
Estado tem a obrigação de garantir) se transforma em uma competição entre
empresas individuais por uma fatia do bolo.
Essa
dinâmica destaca a ingenuidade de gestores e acadêmicos que pensam, no final,
que a universidade pode ser convertida em uma corporação sem perder todo o seu
DNA. Afinal, o capitalismo é baseado em métricas de eficiência que colidem com
a realidade e a natureza da ciência: o mercado precisa de resultados de médio
prazo, produtos comercializáveis e sigilo industrial para proteger patentes; a
academia é baseada no longo prazo, tolerando o erro metodológico como uma das
etapas do aprendizado e a troca aberta de conhecimento.
O
direcionamento da autonomia universitária para o mercado não é um acidente de
curso ou de gestão e não é apenas uma questão de pensamento estratégico, mas um
processo de transformação real do trabalho intelectual em capital e do
conhecimento em mercadorias.
A perda
da autonomia universitária em nome dos interesses de mercado está no cerne da
verdadeira transferência da produção intelectual para a lógica da acumulação
capitalista. Em termos marxistas, a mudança da pesquisa pública para o
financiamento corporativo move o conhecimento do valor de uso social para o
valor de troca, e assim o conhecimento se torna uma mercadoria no processo.
Ao
aceitar essa dinâmica, a universidade abdica da ciência básica (que é, a longo
prazo, um problema teórico e desafia a velocidade de rotação do capital) e se
afasta das humanidades e das artes. Estas últimas são intencionalmente
excluídas do sistema na ausência de valor excedente imediato via patentes
comercializáveis. Mas sua história é a construção do tecido cultural e crítico
do país; as áreas que expõem as contradições do modo de produção atual e que,
por essa razão, sabotam a reprodução ideológica das relações de dominação que o
capital precisa para se perpetuar.
Por
natureza de mercado, as empresas são impulsionadas para lucros de curto ou
médio prazo. Mas se a universidade perde sua autonomia, perderá a pesquisa
teórica que pode levar décadas para produzir um resultado prático, mas que é a
base da pesquisa futura.
A
autonomia didático-científica garante que você possa investigar. Se uma
indústria farmacêutica financia 100% de um laboratório universitário, como
garantir que os resultados da pesquisa sobre os efeitos colaterais de um
medicamento sejam imparciais? A autonomia é a única coisa que sustenta a
credibilidade do cientista. É o problema com sua missão central: a universidade
deve responder ao cidadão, mas a empresa deve atender aos seus proprietários e
ganhar dinheiro.
Permitir
que o comércio e a indústria ditem quais cursos abrir ou fechar mina o dever
social da educação superior e transforma a educação em uma questão de negócios.
Essa subordinação gera uma espécie de “apagão formativo” em que profissões
essenciais para o desenvolvimento soberano da nação são descartadas em nome da
eficiência mercantilista, e a universidade é alijada da realidade da
transformação social.
O erro
é que a autonomia universitária é vista como isolamento ou apenas soberania
corporativista. A autonomia em suas dimensões didático-científica,
administrativa e financeira é, de fato, a própria condição de possibilidade
para a instituição cumprir sua missão pública e salvaguardar seu compromisso
social.
Diante
das crescentes pressões políticas, econômicas e da avassaladora comercialização
da educação, esses três pilares não se erguem como muros que separam a academia
da sociedade, mas como garantias de liberdade acadêmica e pluralismo de ideias
não apenas no papel, mas também na prática.
É essa
proteção legal que protege a universidade de ser sugada pelo setor produtivo
com base na responsabilidade pública, transparência e prestação de contas, em
vez de uma submissão cega ao capital. Em outras palavras, a autonomia é o
mecanismo para que a academia se envolva com o comércio e a indústria sem
perder seu papel como espaço de inclusão, igualdade e desenvolvimento soberano
da sociedade.
Em
suma, a universidade está hoje em uma encruzilhada, lutando contra o valor de
uso social do conhecimento e sendo transformada em mercadoria. Diante de
restrições orçamentárias que empurram a academia para uma lógica mercantilista,
a defesa da autonomia universitária não é mais uma afirmação corporativa, mas
um ato de resistência política. Reafirmar o aspecto didático-científico,
administrativo e financeiro da instituição (como estamos argumentando na
discussão sobre a missão pública da universidade) é garantir que o conhecimento
não se torne uma mercadoria e esteja enraizado no bem comum e na liberdade do
conhecimento para ser acadêmico e na transformação das classes menos
privilegiadas.
Pontes
através do comércio e da indústria são viáveis e necessárias para o
desenvolvimento tecnológico, mas somente serão democraticamente justificadas se
a universidade mantiver o controle soberano de suas diretrizes.
A
autonomia, portanto, é a única proteção para garantir que o templo do
conhecimento não se torne um balcão de negócios, que a ciência, a cultura e a
crítica continuem a servir à emancipação humana e não à reprodução cega do
capital.
Fonte:
Por Antonio Rosevaldo Ferreira da Silva, em A Terra é Redonda

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