Dança
do ventre transforma autoestima e quebra antigos estereótipos
Além
dos figurinos brilhantes, dos lenços com moedas e dos movimentos sinuosos, a
dança do ventre tem se consolidado como uma prática que promove saúde física,
bem-estar emocional e autoconhecimento. Embora ainda seja cercada por
estereótipos e frequentemente associada apenas à sensualidade, a modalidade vem
conquistando cada vez mais adeptos por proporcionar um espaço de acolhimento,
expressão artística e fortalecimento da autoestima.
Originária
do Oriente Médio e do Norte da África, a dança do ventre reúne diferentes
estilos e tradições culturais que atravessaram gerações. Hoje, no Brasil, ela é
praticada por pessoas de diferentes idades, corpos e níveis de experiência,
mostrando que a arte vai muito além da estética.
Segundo
a professora, bailarina e coreógrafa Karol Thayná, campeã internacional de
dança do ventre e proprietária do Espaço Cultural Karol Thayná, em Sobradinho,
um dos maiores desafios da modalidade ainda é combater preconceitos. "A
sexualização da arte da dança do ventre é o maior problema que enfrentamos.
Nesse contexto, mulheres e homens pensam de forma errônea sobre o que a arte
representa", afirma.
A
psicóloga, professora e bailarina profissional Raíla Cardoso, proprietária do
Salim Studio, especializado em danças árabes, em Taguatinga, reforça que esse é
o principal equívoco sobre a modalidade. "É uma dança sensual, mas esse
não é o foco. Ela é uma expressão artística e cultural muito rica, que carrega
tradição e beleza em diversos estilos", explica.
Além da
riqueza cultural, as especialistas destacam que a prática oferece benefícios
que vão muito além da dança. "Fisicamente, melhora postura, coordenação
motora, condicionamento físico, consciência corporal, flexibilidade, força e
outros benefícios associados à prática de atividade física. Emocionalmente,
fortalece a autoestima, a autoconfiança, trabalha o gerenciamento de limitações
e a superação de desafios. Mentalmente, funciona como um momento de
autocuidado, socialização, autodisciplina e diversão, reduzindo o estresse,
promovendo bem-estar e criando vínculos sociais e afetivos", detalha
Raíla.
Karol
também observa essas mudanças na rotina das alunas. "As alunas relatam
sempre uma mudança na autoestima, contato com seu lado delicado e feminino. A
dança empodera e melhora a percepção que elas têm de si."
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Um reencontro com o próprio corpo
A
secretária Paula de Lima Araújo, 42 anos, sonhava em aprender dança do ventre
desde a adolescência. O primeiro contato aconteceu ao assistir à novela O
clone, mas foi apenas na vida adulta que conseguiu realizar esse desejo.
"Conheci a dança por meio da novela O clone na adolescência, mas só pude
realizar esse sonho na fase adulta", lembra.
A
primeira aula trouxe uma descoberta inesperada. "Foi encantador
redescobrir o meu corpo e se encantar com cada movimento lindo que ele é capaz
de fazer. Superou minhas expectativas."
Com o
passar do tempo, ela percebeu transformações que ultrapassaram o aprendizado da
técnica. "A consciência e a coordenação corporal são a primeira mudança
visível. A cada aula você descobre evoluções e bloqueios em movimentos que
antes não conseguia realizar. Em seguida vem a autoestima. Você começa a se
olhar com admiração e enxerga uma beleza que o cotidiano e as atribuições
diárias apagam dos nossos olhos. Ela devolve a beleza do feminino."
Outro
aprendizado marcante aconteceu durante as aulas de musicalidade. "O que
mudou minha vida foi aprender a ouvir a música em seus detalhes, não só a voz,
mas também as nuances dos instrumentos. Inserir vida na música através dos
movimentos corporais e trabalhar os braços e as expressões faciais fazem
diferença até na vida fora da dança", ressalta.
Hoje,
Paula afirma que a modalidade transformou sua forma de enxergar a si mesma.
"A dança me ensinou a me olhar com mais amor e beleza. Tirou o preconceito
de que para dançar preciso de determinado corpo. Que idade é só um número. Eu
me sinto viva, capaz e belíssima", celebra.
A
história da professora da educação básica Bárbara González da Silva Pereira, 30
anos, também mostra o impacto da dança para além da atividade física. Ela conta
que começou a praticar em um momento delicado da vida, enquanto enfrentava
ansiedade, tristeza e ajustes na medicação psiquiátrica.
"Uma
amiga me convidou para fazer uma aula. Eu estava passando por um momento bem
ruim, acertando remédios psiquiátricos, chorava todo dia, meio perdida em mim
mesma. Foi um convite que iluminou minha vida para alguma direção. Motivou-me a
me movimentar em direção à vida novamente", afirma.
Na
primeira aula, o acolhimento foi determinante para que permanecesse. "Fui
escutada, fui vista, fui aceita e bem-vinda. Durante a aula, percebi que estava
ali, viva, estava bem, aproveitando e me divertindo. Superou qualquer
expectativa que eu tinha."
Ela
define a dança como um verdadeiro ponto de virada. "A dança entrou como um
bote salva-vidas. Senti como se uma mão estivesse me tirando do fundo do poço
com todo carinho e amor. Foi e tem sido minha cura, me fortalecendo
emocionalmente e até espiritualmente", reflete.
As
mudanças físicas vieram naturalmente. "Perdi peso e afinei a cintura, mas
foi principalmente emocionalmente e socialmente. Passei a viver melhor meus
dias, a enfrentar com mais flexibilidade e 'jogada de quadril' os desafios da
vida. Eu me tornei mais feliz, mais leve, menos rígida. Foi um lindo reencontro
comigo mesma."
Entre
os momentos mais marcantes está a última apresentação que fez. "Na última
apresentação, escutei da minha irmã: 'Nossa, fiquei muito emocionada, porque
você se encontrou, você está feliz'. Saber que transmito alegria para minha
família dançando mexeu bastante comigo", conta.
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Para todos
As
especialistas reforçam que não existe um perfil ideal para começar. "A
dança não tem contraindicação em relação à idade ou ao tipo de corpo. Se não
houver doença preexistente que impeça por orientação médica, ela pode até ser
uma aliada no tratamento de diversas doenças, pois fortalece o assoalho
pélvico, melhora a mobilidade das articulações, a postura e ainda queima muitas
calorias", explica Karol.
Raíla
complementa que qualquer pessoa pode aprender. "A dança do ventre é para
todas as idades e biotipos, e não é necessário ter experiência prévia. Cada
pessoa aprende no seu ritmo, respeitando seus próprios limites e
objetivos."
Outro
aspecto importante, segundo ela, é a forma como a modalidade transforma a
relação com o corpo. "Ela incentiva a pessoa a conhecer e valorizar o
próprio corpo pelo que ele é capaz de fazer, e não apenas pela aparência. Com o
tempo, muitas alunas desenvolvem mais confiança, aceitação e uma relação mais
gentil consigo mesmas", ressalta.
Karol
acrescenta que esse processo começa antes mesmo da aula. "A bailarina
precisa se sentir bela para explorar seu lado feminino. Acessórios, figurinos e
cuidados com a aparência iniciam o processo do despertar da deusa. É um cuidado
que se estende além das aulas."
Para
ambas, o maior desafio é preservar e divulgar a verdadeira essência dessa
manifestação artística. "O maior desafio é transmitir a técnica com
respeito às origens e à cultura, mostrando que é uma dança com grande riqueza
cultural, artística e histórica", diz Raíla.
No fim
das contas, a mensagem das professoras é a mesma: basta dar o primeiro passo.
"Nosso lema é: dance para se conhecer... Aprenda a se amar!",
incentiva Karol.
Fonte:
Correio Braziliense

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