terça-feira, 7 de julho de 2026

Dança do ventre transforma autoestima e quebra antigos estereótipos

Além dos figurinos brilhantes, dos lenços com moedas e dos movimentos sinuosos, a dança do ventre tem se consolidado como uma prática que promove saúde física, bem-estar emocional e autoconhecimento. Embora ainda seja cercada por estereótipos e frequentemente associada apenas à sensualidade, a modalidade vem conquistando cada vez mais adeptos por proporcionar um espaço de acolhimento, expressão artística e fortalecimento da autoestima.

Originária do Oriente Médio e do Norte da África, a dança do ventre reúne diferentes estilos e tradições culturais que atravessaram gerações. Hoje, no Brasil, ela é praticada por pessoas de diferentes idades, corpos e níveis de experiência, mostrando que a arte vai muito além da estética.

Segundo a professora, bailarina e coreógrafa Karol Thayná, campeã internacional de dança do ventre e proprietária do Espaço Cultural Karol Thayná, em Sobradinho, um dos maiores desafios da modalidade ainda é combater preconceitos. "A sexualização da arte da dança do ventre é o maior problema que enfrentamos. Nesse contexto, mulheres e homens pensam de forma errônea sobre o que a arte representa", afirma.

A psicóloga, professora e bailarina profissional Raíla Cardoso, proprietária do Salim Studio, especializado em danças árabes, em Taguatinga, reforça que esse é o principal equívoco sobre a modalidade. "É uma dança sensual, mas esse não é o foco. Ela é uma expressão artística e cultural muito rica, que carrega tradição e beleza em diversos estilos", explica.

Além da riqueza cultural, as especialistas destacam que a prática oferece benefícios que vão muito além da dança. "Fisicamente, melhora postura, coordenação motora, condicionamento físico, consciência corporal, flexibilidade, força e outros benefícios associados à prática de atividade física. Emocionalmente, fortalece a autoestima, a autoconfiança, trabalha o gerenciamento de limitações e a superação de desafios. Mentalmente, funciona como um momento de autocuidado, socialização, autodisciplina e diversão, reduzindo o estresse, promovendo bem-estar e criando vínculos sociais e afetivos", detalha Raíla.

Karol também observa essas mudanças na rotina das alunas. "As alunas relatam sempre uma mudança na autoestima, contato com seu lado delicado e feminino. A dança empodera e melhora a percepção que elas têm de si."

<><> Um reencontro com o próprio corpo

A secretária Paula de Lima Araújo, 42 anos, sonhava em aprender dança do ventre desde a adolescência. O primeiro contato aconteceu ao assistir à novela O clone, mas foi apenas na vida adulta que conseguiu realizar esse desejo. "Conheci a dança por meio da novela O clone na adolescência, mas só pude realizar esse sonho na fase adulta", lembra.

A primeira aula trouxe uma descoberta inesperada. "Foi encantador redescobrir o meu corpo e se encantar com cada movimento lindo que ele é capaz de fazer. Superou minhas expectativas."

Com o passar do tempo, ela percebeu transformações que ultrapassaram o aprendizado da técnica. "A consciência e a coordenação corporal são a primeira mudança visível. A cada aula você descobre evoluções e bloqueios em movimentos que antes não conseguia realizar. Em seguida vem a autoestima. Você começa a se olhar com admiração e enxerga uma beleza que o cotidiano e as atribuições diárias apagam dos nossos olhos. Ela devolve a beleza do feminino."

Outro aprendizado marcante aconteceu durante as aulas de musicalidade. "O que mudou minha vida foi aprender a ouvir a música em seus detalhes, não só a voz, mas também as nuances dos instrumentos. Inserir vida na música através dos movimentos corporais e trabalhar os braços e as expressões faciais fazem diferença até na vida fora da dança", ressalta.

Hoje, Paula afirma que a modalidade transformou sua forma de enxergar a si mesma. "A dança me ensinou a me olhar com mais amor e beleza. Tirou o preconceito de que para dançar preciso de determinado corpo. Que idade é só um número. Eu me sinto viva, capaz e belíssima", celebra.

A história da professora da educação básica Bárbara González da Silva Pereira, 30 anos, também mostra o impacto da dança para além da atividade física. Ela conta que começou a praticar em um momento delicado da vida, enquanto enfrentava ansiedade, tristeza e ajustes na medicação psiquiátrica.

"Uma amiga me convidou para fazer uma aula. Eu estava passando por um momento bem ruim, acertando remédios psiquiátricos, chorava todo dia, meio perdida em mim mesma. Foi um convite que iluminou minha vida para alguma direção. Motivou-me a me movimentar em direção à vida novamente", afirma.

Na primeira aula, o acolhimento foi determinante para que permanecesse. "Fui escutada, fui vista, fui aceita e bem-vinda. Durante a aula, percebi que estava ali, viva, estava bem, aproveitando e me divertindo. Superou qualquer expectativa que eu tinha."

Ela define a dança como um verdadeiro ponto de virada. "A dança entrou como um bote salva-vidas. Senti como se uma mão estivesse me tirando do fundo do poço com todo carinho e amor. Foi e tem sido minha cura, me fortalecendo emocionalmente e até espiritualmente", reflete.

As mudanças físicas vieram naturalmente. "Perdi peso e afinei a cintura, mas foi principalmente emocionalmente e socialmente. Passei a viver melhor meus dias, a enfrentar com mais flexibilidade e 'jogada de quadril' os desafios da vida. Eu me tornei mais feliz, mais leve, menos rígida. Foi um lindo reencontro comigo mesma."

Entre os momentos mais marcantes está a última apresentação que fez. "Na última apresentação, escutei da minha irmã: 'Nossa, fiquei muito emocionada, porque você se encontrou, você está feliz'. Saber que transmito alegria para minha família dançando mexeu bastante comigo", conta.

<><> Para todos

As especialistas reforçam que não existe um perfil ideal para começar. "A dança não tem contraindicação em relação à idade ou ao tipo de corpo. Se não houver doença preexistente que impeça por orientação médica, ela pode até ser uma aliada no tratamento de diversas doenças, pois fortalece o assoalho pélvico, melhora a mobilidade das articulações, a postura e ainda queima muitas calorias", explica Karol.

Raíla complementa que qualquer pessoa pode aprender. "A dança do ventre é para todas as idades e biotipos, e não é necessário ter experiência prévia. Cada pessoa aprende no seu ritmo, respeitando seus próprios limites e objetivos."

Outro aspecto importante, segundo ela, é a forma como a modalidade transforma a relação com o corpo. "Ela incentiva a pessoa a conhecer e valorizar o próprio corpo pelo que ele é capaz de fazer, e não apenas pela aparência. Com o tempo, muitas alunas desenvolvem mais confiança, aceitação e uma relação mais gentil consigo mesmas", ressalta.

Karol acrescenta que esse processo começa antes mesmo da aula. "A bailarina precisa se sentir bela para explorar seu lado feminino. Acessórios, figurinos e cuidados com a aparência iniciam o processo do despertar da deusa. É um cuidado que se estende além das aulas."

Para ambas, o maior desafio é preservar e divulgar a verdadeira essência dessa manifestação artística. "O maior desafio é transmitir a técnica com respeito às origens e à cultura, mostrando que é uma dança com grande riqueza cultural, artística e histórica", diz Raíla.

No fim das contas, a mensagem das professoras é a mesma: basta dar o primeiro passo. "Nosso lema é: dance para se conhecer... Aprenda a se amar!", incentiva Karol.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

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