terça-feira, 7 de julho de 2026

De olho em outubro, Lula aposta defesa do patriotismo e da democracia

A comunicação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entrou em uma nova fase nos últimos meses. Sem abandonar a defesa das políticas públicas, dos programas sociais e das obras de infraestrutura, o petista passou a incorporar de forma mais recorrente aos discursos temas como soberania nacional, patriotismo, defesa da economia brasileira, fortalecimento da indústria, valorização das instituições democráticas e orgulho nacional. A mudança pode ser observada tanto no conteúdo das falas quanto na forma como o governo passou a apresentar suas realizações.

No início do terceiro mandato, as agendas presidenciais eram marcadas, principalmente, pela retomada de programas sociais, pela reconstrução de políticas públicas interrompidas nos anos anteriores e pela apresentação de indicadores econômicos, como a queda do desemprego, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e a retomada de investimentos em áreas como saúde, educação e infraestrutura. As obras do Novo PAC, a ampliação do Minha Casa, Minha Vida, a expansão dos Institutos Federais figuravam entre os principais eixos dos pronunciamentos do chefe do Executivo.

Nos últimos meses, entretanto, esse discurso ganhou uma nova dimensão. Sem deixar de destacar as entregas do governo, Lula passou a associá-las, de forma cada vez mais frequente, à defesa da soberania nacional, da democracia e da capacidade do Brasil de decidir os seus próprios rumos. Expressões como "defesa do Brasil", "interesse nacional", "patriotismo" e "indústria brasileira" passaram a ocupar lugar de destaque nas falas do presidente, especialmente durante as agendas públicas realizadas pelo país.

A mudança ocorreu paralelamente ao acirramento da disputa política com as ações de integrantes da família Bolsonaro junto a autoridades norte-americanas. Nesse contexto, o Palácio do Planalto passou a explorar com mais intensidade a narrativa de defesa dos interesses nacionais, transformando a soberania em um dos principais pilares da comunicação presidencial.

Segundo especialistas, essa transformação não representa apenas uma mudança de linguagem. Ela indica uma reorientação da estratégia de comunicação do governo federal, que passou a combinar a divulgação das realizações da gestão com uma disputa mais ampla por valores, símbolos e narrativas que devem ocupar papel central no debate público ao longo do processo eleitoral.

<><> Tarifaço

Na avaliação de analistas ouvidos pelo Correio, a mudança observada na comunicação do presidente Lula não ocorreu de forma espontânea. Ela é resultado de uma combinação de fatores políticos e eleitorais que levaram o Palácio do Planalto a reorganizar a forma de apresentar as ações do governo e disputar temas que, nos últimos anos, passaram a ocupar espaço central no debate público.

Para o cientista político Pedro Hermílio Villa Boas Castelo Branco, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj), um dos principais pontos de inflexão ocorreu após as movimentações dos filhos de Jair Bolsonaro junto ao governo de Donald Trump em meio ao tarifaço. "A comunicação do governo Lula se fortaleceu desde julho do ano passado, quando o ex-deputado Eduardo Bolsonaro buscou, junto ao governo Trump, incentivar a aplicação de tarifas de 50% ao Brasil. Isso teve uma reação imediata e muito forte porque tratou da questão da soberania nacional", destacou.

Na opinião do pesquisador, o episódio alterou a dinâmica da disputa, e, segundo ele, muitas das movimentações políticas nos últimos meses são consequência dessa ação de Eduardo. Castelo Branco afirma que o movimento permitiu ao governo reorganizar sua agenda e dar maior visibilidade às políticas públicas. "Há uma mudança real e inédita que mostra uma nova arquitetura da comunicação do governo petista: uma ação planejada e direcionada à disputa eleitoral. É um esforço para mostrar com clareza as políticas realizadas, pois muitas vezes se tinha a impressão de que, embora dados macroeconômicos tenham melhorado, como a queda do desemprego e o aumento do PIB, isso não parecia chegar ao eleitor. Portanto, há uma mudança de estratégia", explicou.

Ele lembra as várias críticas que o governo recebia por não conseguir passar de forma clara os feitos à população. "A comunicação do governo Lula vinha sendo muito criticada por não conseguir transmitir o sucesso das políticas públicas. Mas, agora, ganha outra dimensão, tornando-se mais profissional e agressiva diante da agressividade da batalha eleitoral."

<><> Valores

A cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), aponta que a transformação não se limita à divulgação de obras ou indicadores econômicos. Segundo ela, o presidente passou a disputar também valores. "Essa mudança de um discurso focado apenas em obras e conquistas sociais para uma narrativa de valores — honra, patriotismo e soberania — pode ser explicada pela disputa dos símbolos nacionais, pela defesa da honra das instituições e pela ampliação do conceito de soberania."

Para a pesquisadora, o governo entendeu que apresentar resultados administrativos já não era suficiente para vencer a disputa pela opinião pública. "Lula percebeu que apenas entregar pontes, estradas ou reajustes no salário mínimo não bastava para vencer a batalha da comunicação. O governo entendeu que precisava disputar a identidade nacional", disse.

De acordo com ela, essa transformação representa uma das principais características da atual fase do governo. "Essa transição de um 'Lula realizador de obras' para um 'Lula defensor dos valores da República' parece ser a grande marca do atual momento político", avaliou.

No entanto, mesmo com a percepção de maior destaque do presidente e suas ações, ela acredita que isso não torna as eleições necessariamente mais fáceis, mas torna a vitória possível no cenário atual. "Se Lula mantivesse apenas o discurso antigo de 'obras e bolso cheio', ele provavelmente fracassaria em 2026. Portanto, essa mudança não é um facilitador, é uma estratégia de sobrevivência eleitoral", pontuou.

Maria do Socorro acrescenta que esse novo caminho blinda o presidente. "Ele deixa de ser apenas um 'gerente de obras' (fácil de ser criticado se uma obra atrasar) e passa a ser um 'símbolo da República'. Atacar um símbolo de estabilidade institucional é muito mais difícil para a oposição do que criticar um indicador econômico isolado."

<><> Do confronto ao diálogo

Além da mudança na comunicação pública, os especialistas avaliam que o presidente Lula também ajustou sua postura política ao longo do terceiro mandato. Se, nos primeiros meses de governo, os discursos frequentemente destacavam as dificuldades para governar e os embates com o Congresso Nacional, a estratégia passou a privilegiar a construção de consensos e a defesa da estabilidade institucional.

Para Maria do Socorro, essa mudança ocorreu de forma gradual e está diretamente relacionada ao cenário político. "Se no início do mandato a retórica de Lula era de forte enfrentamento e queixa sobre o empoderamento do Legislativo, o discurso atual migrou para o distensionamento estratégico", observou.

A professora ressalta que o governo passou a evitar confrontos públicos com o Congresso. "Com a chegada de novas lideranças na cúpula do Congresso, a ordem no Planalto passou a ser 'zero conflito público'. Lula mudou o tom para uma postura mais conciliadora e de parceria institucional."

Na avaliação da pesquisadora, essa mudança também influenciou a agenda de temas do governo. Ela diz ainda que essa postura extrapola a política interna: "Penso que, tanto no Congresso quanto na diplomacia, o 'Lula idealista' deu lugar ao 'Lula negociador'".

•        Mascaro: Lula precisa enfrentar o hiperimperialismo e deixar uma marca histórica para o povo brasileiro

O jurista e filósofo Alysson Leandro Mascaro afirmou, em entrevista à TV 247, que o Brasil vive um momento decisivo diante do que chamou de “hiperimperialismo” dos Estados Unidos e da ofensiva da extrema direita na América Latina.

Segundo Mascaro, a ascensão da China e a crise política dos Estados Unidos ajudam a explicar a intensificação das pressões sobre o Brasil. Para ele, Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, é “o sintoma” de uma decadência profunda do sistema político estadunidense.

“Donald Trump é o sintoma de uma leva a sua dinâmica ao estertor da própria vida política desse país”, afirmou.

<><> China, soberania e revolução cultural

Mascaro destacou o aniversário de 105 anos do Partido Comunista da China como uma experiência histórica central para compreender a luta contra o imperialismo. Segundo ele, a China não se tornou uma potência apenas por sua população ou dimensão territorial, mas por ter realizado uma revolução capaz de reorganizar a soberania nacional.

“A China teve essencialmente, fundamentalmente, uma revolução que organizou a soberania do próprio povo chinês, que criou um exército popular”, disse.

Para o jurista, a Revolução Cultural chinesa foi uma das experiências mais relevantes e mais demonizadas do século XX.

“Eventualmente não haja experiência mais magnífica da segunda metade do século XX até aqui e experiência mais demonizada no mundo do que a revolução cultural”, afirmou.

<><> Estados Unidos, Trump e crise moral

Ao analisar os Estados Unidos, Mascaro criticou a ideia de “excepcionalidade estadunidense” e associou o imperialismo do país a uma cultura política marcada por individualismo, religião e dominação.

“Esse imperialismo é de fato muito nocivo moralmente”, disse.

Ele também comentou as denúncias envolvendo ganhos bilionários de Trump com criptomoedas, tema abordado por Leonardo Attuch durante a entrevista.

“Esse 1 bilhão de criptomoeda não é a única corrupção do Donald Trump. O que ele fez com especulação do petróleo na guerra do Irã leva não sei quantos mais milhões ou bilhões”, afirmou Mascaro.

<><> Hiperimperialismo e América Latina

Mascaro afirmou que os Estados Unidos adotaram uma nova fase de agressividade sobre a América Latina, que ele definiu como “hiperimperialismo”.

“O imperialismo estadunidense toma no atual momento uma característica de hiperimperialismo, como se uma desgraça pudesse ser ainda mais desgraçada”, declarou.

Segundo ele, a disputa no Brasil terá forte componente ideológico e digital, com uso combinado da mídia tradicional e das redes sociais.

“Nós vamos ver uma espécie de hiperatividade ou hiperinflação ideológica no Brasil”, disse.

Mascaro alertou ainda para o risco de interferência nas redes sociais durante o processo eleitoral.

“Haverá uma intervenção maciça dos Estados Unidos na eleição nos últimos dias”, afirmou.

<><> Redes sociais e soberania tecnológica

O jurista defendeu que o Brasil deveria ter desenvolvido plataformas próprias para reduzir a dependência de empresas estrangeiras.

“Nós temos o Pix, nós seríamos capazes de ter uma plataforma, um WhatsApp nosso, não é coisa de outro mundo”, disse.

Para ele, a ausência de soberania tecnológica deixa o país vulnerável à manipulação algorítmica.

“Eu tenho medo de que as forças progressistas do Brasil estejam desapetrechadas, estejam desamparadas de recursos e ferramentas tecnológicas para lutar contra isso”, afirmou.

<><> Lula e a batalha das ideias

Ao tratar de um eventual quarto mandato do presidente Lula, Mascaro avaliou que o petista poderia consolidar direitos sociais e deixar uma marca histórica mais profunda.

“O governo Lula, num quarto mandato, o que que Lula gostaria de deixar para a história?”, questionou.

Segundo ele, Lula não tem perfil de ruptura socialista, mas pode construir um legado ligado à proteção social.

“Quem sabe o governo Lula no quarto mandato dá alguns, consolida alguns direitos sociais, pavimenta um pouco melhor o SUS, algumas contribuições ao mundo do trabalho”, disse.

Mascaro defendeu que o Brasil precisa de uma marca histórica capaz de permanecer na memória popular.

“Que o povo diga daqui 100 anos, no tempo do presidente Lula, nós ganhamos X, nós conseguimos Y”, afirmou.

<><> Socialismo como compartilhamento

Na parte final da entrevista, Mascaro fez uma defesa enfática da solidariedade social e da batalha ideológica contra a direita.

“Ser de direita é uma vergonha”, afirmou.

Ele também associou socialismo e comunismo à ideia de compartilhamento.

“Esta palavra compartilhar se chama socialismo, se chama comunismo. Esta é a batalha das ideias”, disse.

Para Mascaro, o Brasil não pode naturalizar a fome, a exploração e a desigualdade.

“Um país como o Brasil é um país que não pode ter uma população passando fome. É um país que não pode ter uma população explorada”, concluiu.

 

Fonte: Correio Braziliense/Brasil 247

 

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