De
olho em outubro, Lula aposta defesa do patriotismo e da democracia
A
comunicação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entrou em uma nova
fase nos últimos meses. Sem abandonar a defesa das políticas públicas, dos
programas sociais e das obras de infraestrutura, o petista passou a incorporar
de forma mais recorrente aos discursos temas como soberania nacional,
patriotismo, defesa da economia brasileira, fortalecimento da indústria,
valorização das instituições democráticas e orgulho nacional. A mudança pode
ser observada tanto no conteúdo das falas quanto na forma como o governo passou
a apresentar suas realizações.
No
início do terceiro mandato, as agendas presidenciais eram marcadas,
principalmente, pela retomada de programas sociais, pela reconstrução de
políticas públicas interrompidas nos anos anteriores e pela apresentação de
indicadores econômicos, como a queda do desemprego, o crescimento do Produto
Interno Bruto (PIB) e a retomada de investimentos em áreas como saúde, educação
e infraestrutura. As obras do Novo PAC, a ampliação do Minha Casa, Minha Vida,
a expansão dos Institutos Federais figuravam entre os principais eixos dos
pronunciamentos do chefe do Executivo.
Nos
últimos meses, entretanto, esse discurso ganhou uma nova dimensão. Sem deixar
de destacar as entregas do governo, Lula passou a associá-las, de forma cada
vez mais frequente, à defesa da soberania nacional, da democracia e da
capacidade do Brasil de decidir os seus próprios rumos. Expressões como
"defesa do Brasil", "interesse nacional",
"patriotismo" e "indústria brasileira" passaram a ocupar
lugar de destaque nas falas do presidente, especialmente durante as agendas
públicas realizadas pelo país.
A
mudança ocorreu paralelamente ao acirramento da disputa política com as ações
de integrantes da família Bolsonaro junto a autoridades norte-americanas. Nesse
contexto, o Palácio do Planalto passou a explorar com mais intensidade a
narrativa de defesa dos interesses nacionais, transformando a soberania em um
dos principais pilares da comunicação presidencial.
Segundo
especialistas, essa transformação não representa apenas uma mudança de
linguagem. Ela indica uma reorientação da estratégia de comunicação do governo
federal, que passou a combinar a divulgação das realizações da gestão com uma
disputa mais ampla por valores, símbolos e narrativas que devem ocupar papel
central no debate público ao longo do processo eleitoral.
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Tarifaço
Na
avaliação de analistas ouvidos pelo Correio, a mudança observada na comunicação
do presidente Lula não ocorreu de forma espontânea. Ela é resultado de uma
combinação de fatores políticos e eleitorais que levaram o Palácio do Planalto
a reorganizar a forma de apresentar as ações do governo e disputar temas que,
nos últimos anos, passaram a ocupar espaço central no debate público.
Para o
cientista político Pedro Hermílio Villa Boas Castelo Branco, do Instituto de
Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(Iesp-Uerj), um dos principais pontos de inflexão ocorreu após as movimentações
dos filhos de Jair Bolsonaro junto ao governo de Donald Trump em meio ao
tarifaço. "A comunicação do governo Lula se fortaleceu desde julho do ano
passado, quando o ex-deputado Eduardo Bolsonaro buscou, junto ao governo Trump,
incentivar a aplicação de tarifas de 50% ao Brasil. Isso teve uma reação
imediata e muito forte porque tratou da questão da soberania nacional",
destacou.
Na
opinião do pesquisador, o episódio alterou a dinâmica da disputa, e, segundo
ele, muitas das movimentações políticas nos últimos meses são consequência
dessa ação de Eduardo. Castelo Branco afirma que o movimento permitiu ao
governo reorganizar sua agenda e dar maior visibilidade às políticas públicas.
"Há uma mudança real e inédita que mostra uma nova arquitetura da
comunicação do governo petista: uma ação planejada e direcionada à disputa
eleitoral. É um esforço para mostrar com clareza as políticas realizadas, pois
muitas vezes se tinha a impressão de que, embora dados macroeconômicos tenham
melhorado, como a queda do desemprego e o aumento do PIB, isso não parecia
chegar ao eleitor. Portanto, há uma mudança de estratégia", explicou.
Ele
lembra as várias críticas que o governo recebia por não conseguir passar de
forma clara os feitos à população. "A comunicação do governo Lula vinha
sendo muito criticada por não conseguir transmitir o sucesso das políticas
públicas. Mas, agora, ganha outra dimensão, tornando-se mais profissional e
agressiva diante da agressividade da batalha eleitoral."
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Valores
A
cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, da Universidade Federal de São
Carlos (UFSCar), aponta que a transformação não se limita à divulgação de obras
ou indicadores econômicos. Segundo ela, o presidente passou a disputar também
valores. "Essa mudança de um discurso focado apenas em obras e conquistas
sociais para uma narrativa de valores — honra, patriotismo e soberania — pode
ser explicada pela disputa dos símbolos nacionais, pela defesa da honra das
instituições e pela ampliação do conceito de soberania."
Para a
pesquisadora, o governo entendeu que apresentar resultados administrativos já
não era suficiente para vencer a disputa pela opinião pública. "Lula
percebeu que apenas entregar pontes, estradas ou reajustes no salário mínimo
não bastava para vencer a batalha da comunicação. O governo entendeu que
precisava disputar a identidade nacional", disse.
De
acordo com ela, essa transformação representa uma das principais
características da atual fase do governo. "Essa transição de um 'Lula
realizador de obras' para um 'Lula defensor dos valores da República' parece
ser a grande marca do atual momento político", avaliou.
No
entanto, mesmo com a percepção de maior destaque do presidente e suas ações,
ela acredita que isso não torna as eleições necessariamente mais fáceis, mas
torna a vitória possível no cenário atual. "Se Lula mantivesse apenas o
discurso antigo de 'obras e bolso cheio', ele provavelmente fracassaria em
2026. Portanto, essa mudança não é um facilitador, é uma estratégia de
sobrevivência eleitoral", pontuou.
Maria
do Socorro acrescenta que esse novo caminho blinda o presidente. "Ele
deixa de ser apenas um 'gerente de obras' (fácil de ser criticado se uma obra
atrasar) e passa a ser um 'símbolo da República'. Atacar um símbolo de
estabilidade institucional é muito mais difícil para a oposição do que criticar
um indicador econômico isolado."
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Do confronto ao diálogo
Além da
mudança na comunicação pública, os especialistas avaliam que o presidente Lula
também ajustou sua postura política ao longo do terceiro mandato. Se, nos
primeiros meses de governo, os discursos frequentemente destacavam as
dificuldades para governar e os embates com o Congresso Nacional, a estratégia
passou a privilegiar a construção de consensos e a defesa da estabilidade
institucional.
Para
Maria do Socorro, essa mudança ocorreu de forma gradual e está diretamente
relacionada ao cenário político. "Se no início do mandato a retórica de
Lula era de forte enfrentamento e queixa sobre o empoderamento do Legislativo,
o discurso atual migrou para o distensionamento estratégico", observou.
A
professora ressalta que o governo passou a evitar confrontos públicos com o
Congresso. "Com a chegada de novas lideranças na cúpula do Congresso, a
ordem no Planalto passou a ser 'zero conflito público'. Lula mudou o tom para
uma postura mais conciliadora e de parceria institucional."
Na
avaliação da pesquisadora, essa mudança também influenciou a agenda de temas do
governo. Ela diz ainda que essa postura extrapola a política interna:
"Penso que, tanto no Congresso quanto na diplomacia, o 'Lula idealista'
deu lugar ao 'Lula negociador'".
• Mascaro: Lula precisa enfrentar o
hiperimperialismo e deixar uma marca histórica para o povo brasileiro
O
jurista e filósofo Alysson Leandro Mascaro afirmou, em entrevista à TV 247, que
o Brasil vive um momento decisivo diante do que chamou de “hiperimperialismo”
dos Estados Unidos e da ofensiva da extrema direita na América Latina.
Segundo
Mascaro, a ascensão da China e a crise política dos Estados Unidos ajudam a
explicar a intensificação das pressões sobre o Brasil. Para ele, Donald Trump,
atual presidente dos Estados Unidos, é “o sintoma” de uma decadência profunda
do sistema político estadunidense.
“Donald
Trump é o sintoma de uma leva a sua dinâmica ao estertor da própria vida
política desse país”, afirmou.
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China, soberania e revolução cultural
Mascaro
destacou o aniversário de 105 anos do Partido Comunista da China como uma
experiência histórica central para compreender a luta contra o imperialismo.
Segundo ele, a China não se tornou uma potência apenas por sua população ou
dimensão territorial, mas por ter realizado uma revolução capaz de reorganizar
a soberania nacional.
“A
China teve essencialmente, fundamentalmente, uma revolução que organizou a
soberania do próprio povo chinês, que criou um exército popular”, disse.
Para o
jurista, a Revolução Cultural chinesa foi uma das experiências mais relevantes
e mais demonizadas do século XX.
“Eventualmente
não haja experiência mais magnífica da segunda metade do século XX até aqui e
experiência mais demonizada no mundo do que a revolução cultural”, afirmou.
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Estados Unidos, Trump e crise moral
Ao
analisar os Estados Unidos, Mascaro criticou a ideia de “excepcionalidade
estadunidense” e associou o imperialismo do país a uma cultura política marcada
por individualismo, religião e dominação.
“Esse
imperialismo é de fato muito nocivo moralmente”, disse.
Ele
também comentou as denúncias envolvendo ganhos bilionários de Trump com
criptomoedas, tema abordado por Leonardo Attuch durante a entrevista.
“Esse 1
bilhão de criptomoeda não é a única corrupção do Donald Trump. O que ele fez
com especulação do petróleo na guerra do Irã leva não sei quantos mais milhões
ou bilhões”, afirmou Mascaro.
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Hiperimperialismo e América Latina
Mascaro
afirmou que os Estados Unidos adotaram uma nova fase de agressividade sobre a
América Latina, que ele definiu como “hiperimperialismo”.
“O
imperialismo estadunidense toma no atual momento uma característica de
hiperimperialismo, como se uma desgraça pudesse ser ainda mais desgraçada”,
declarou.
Segundo
ele, a disputa no Brasil terá forte componente ideológico e digital, com uso
combinado da mídia tradicional e das redes sociais.
“Nós
vamos ver uma espécie de hiperatividade ou hiperinflação ideológica no Brasil”,
disse.
Mascaro
alertou ainda para o risco de interferência nas redes sociais durante o
processo eleitoral.
“Haverá
uma intervenção maciça dos Estados Unidos na eleição nos últimos dias”,
afirmou.
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Redes sociais e soberania tecnológica
O
jurista defendeu que o Brasil deveria ter desenvolvido plataformas próprias
para reduzir a dependência de empresas estrangeiras.
“Nós
temos o Pix, nós seríamos capazes de ter uma plataforma, um WhatsApp nosso, não
é coisa de outro mundo”, disse.
Para
ele, a ausência de soberania tecnológica deixa o país vulnerável à manipulação
algorítmica.
“Eu
tenho medo de que as forças progressistas do Brasil estejam desapetrechadas,
estejam desamparadas de recursos e ferramentas tecnológicas para lutar contra
isso”, afirmou.
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Lula e a batalha das ideias
Ao
tratar de um eventual quarto mandato do presidente Lula, Mascaro avaliou que o
petista poderia consolidar direitos sociais e deixar uma marca histórica mais
profunda.
“O
governo Lula, num quarto mandato, o que que Lula gostaria de deixar para a
história?”, questionou.
Segundo
ele, Lula não tem perfil de ruptura socialista, mas pode construir um legado
ligado à proteção social.
“Quem
sabe o governo Lula no quarto mandato dá alguns, consolida alguns direitos
sociais, pavimenta um pouco melhor o SUS, algumas contribuições ao mundo do
trabalho”, disse.
Mascaro
defendeu que o Brasil precisa de uma marca histórica capaz de permanecer na
memória popular.
“Que o
povo diga daqui 100 anos, no tempo do presidente Lula, nós ganhamos X, nós
conseguimos Y”, afirmou.
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Socialismo como compartilhamento
Na
parte final da entrevista, Mascaro fez uma defesa enfática da solidariedade
social e da batalha ideológica contra a direita.
“Ser de
direita é uma vergonha”, afirmou.
Ele
também associou socialismo e comunismo à ideia de compartilhamento.
“Esta
palavra compartilhar se chama socialismo, se chama comunismo. Esta é a batalha
das ideias”, disse.
Para
Mascaro, o Brasil não pode naturalizar a fome, a exploração e a desigualdade.
“Um
país como o Brasil é um país que não pode ter uma população passando fome. É um
país que não pode ter uma população explorada”, concluiu.
Fonte:
Correio Braziliense/Brasil 247

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