terça-feira, 7 de julho de 2026

João Antonio da Silva Filho: O Brasil entre o eu e o nós

Desde os primórdios da filosofia política, a relação entre o indivíduo e a coletividade ocupa lugar central na compreensão da vida em sociedade. Para Aristóteles, o ser humano é, por natureza, um animal político (zoon politikon): realiza plenamente sua existência na convivência com os outros e na participação na vida da comunidade. Já Thomas Hobbes, embora reconhecesse o forte impulso de autopreservação e dos interesses individuais, sustentava que somente um pacto social e um poder comum seriam capazes de conter o conflito permanente entre os homens. Em outra direção, Jean-Jacques Rousseau afirmava que a verdadeira liberdade não reside na satisfação irrestrita da vontade individual, mas na submissão de todos à vontade geral, expressão do interesse coletivo.

Essas diferentes formulações revelam que a tensão entre o “eu” e o “nós” acompanha toda a história do pensamento político. Também por isso, Karl Marx dirigiu uma crítica contundente ao capitalismo por estimular relações marcadas pela competição, pela mercantilização da vida e pelo individualismo, enfraquecendo os vínculos de solidariedade e transformando interesses privados em referência predominante da organização social. É nesse permanente embate entre autonomia individual e responsabilidade coletiva que se insere uma das discussões mais relevantes do nosso tempo.

Definitivamente, o que move a roda da história é a expectativa. Ela nasce da capacidade humana de projetar um futuro desejado e da disposição para transformá-lo em realidade. Se ninguém perseguisse seus objetivos, o progresso perderia impulso e o próprio desenvolvimento da humanidade seria comprometido.

Quando traçamos nosso caminho, escolhemos também a forma de percorrê-lo, mas, sobretudo, definimos o ponto a que pretendemos chegar. Sem clareza sobre o destino, torna-se difícil estabelecer o percurso e dar sentido à caminhada. É o objetivo que organiza as escolhas, orienta as prioridades e sustenta a perseverança diante dos obstáculos.

O grande desafio do nosso tempo consiste em equilibrar as expectativas individuais com as necessidades coletivas. Em outras palavras, trata-se de encontrar um ponto de convergência entre o “eu” e o “nós”. Essa tensão atravessa todas as esferas da vida social: manifesta-se na economia, na política, nas relações de trabalho e até mesmo na luta cotidiana pela sobrevivência.

É justamente nesse contexto que emerge um dos debates centrais da contemporaneidade. A disputa entre diferentes projetos de sociedade pode ser compreendida como a oposição entre o individualismo competitivo e a solidariedade social.

Quando a direita enfatiza o empreendedorismo, a propriedade privada como direito quase absoluto, a livre iniciativa como expressão máxima da liberdade e a meritocracia como principal explicação para o sucesso ou o fracasso dos indivíduos, difunde uma concepção segundo a qual cada pessoa é essencialmente responsável pelo próprio destino. Nessa lógica, a competição torna-se o principal mecanismo de organização da vida social, e o êxito individual passa a ser interpretado como consequência quase exclusiva do talento, do esforço e da capacidade de competir.

Essa visão, contudo, tende a desconsiderar um aspecto elementar da realidade: os indivíduos não iniciam a corrida da vida nas mesmas condições. As profundas desigualdades de renda, de acesso à educação, à saúde, à cultura e às oportunidades produzem pontos de partida profundamente distintos. Ignorar essas diferenças significa transformar privilégios históricos em aparentes méritos individuais.

Essa compreensão repercute diretamente na concepção de Estado. Problemas como pobreza, desemprego, violência e exclusão social passam a ser vistos predominantemente como responsabilidades individuais. A violência, por exemplo, é frequentemente tratada apenas como resultado das escolhas pessoais, desconsiderando que sua incidência também guarda estreita relação com as desigualdades sociais, a ausência de oportunidades e a insuficiência de políticas públicas. Reconhecer esses fatores estruturais não significa afastar a responsabilidade individual por atos ilícitos, mas compreender que sociedades complexas exigem respostas igualmente complexas.

A perspectiva da esquerda parte de pressupostos distintos. Sem negar a importância da liberdade individual, sustenta que ela somente pode ser plenamente exercida quando acompanhada da igualdade de oportunidades. Por isso, atribui ao Estado um papel ativo na promoção da justiça social, na redução das desigualdades e na garantia de direitos fundamentais, como educação, saúde, segurança, assistência social e trabalho digno.

Nessa perspectiva, a solidariedade não representa a negação do mérito, mas o reconhecimento de que nenhuma sociedade prospera quando parcela significativa de sua população permanece excluída dos benefícios do desenvolvimento. A competição pode até estimular a inovação e a eficiência; é a solidariedade, contudo, que fortalece os vínculos sociais, amplia a coesão nacional e torna possível a construção de uma democracia efetivamente inclusiva.

Este é, em essência, o grande debate deste ano eleitoral. Mais do que escolher governantes, a sociedade brasileira será chamada a decidir qual projeto de país deseja construir para o futuro: um Brasil orientado pelo individualismo competitivo, em que o sucesso é tratado como resultado quase exclusivo do mérito pessoal, ou uma sociedade fundada na solidariedade, capaz de reconhecer as desigualdades históricas, promover a igualdade de oportunidades e assegurar que o desenvolvimento alcance a todos.

A escolha, portanto, está posta entre duas visões de mundo que historicamente dividem a direita e a esquerda. De um lado, a crença de que a competição é o principal motor do progresso e de que o êxito individual decorre, sobretudo, do mérito pessoal. De outro, a compreensão de que liberdade, justiça social e desenvolvimento são valores indissociáveis e somente se realizam plenamente quando acompanhados da igualdade de oportunidades e da solidariedade. O futuro do Brasil dependerá da capacidade de harmonizar iniciativa individual com responsabilidade coletiva, transformando crescimento econômico em bem-estar social, mérito em oportunidade e democracia em um instrumento efetivo de promoção da dignidade humana. Afinal, nenhuma nação se torna verdadeiramente desenvolvida quando apenas alguns prosperam; ela se realiza plenamente quando o progresso alcança a sociedade como um todo.

•        Durigan defende que Pix é universal e não prejudica americanos

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta sexta-feira (3/7) que espera que critérios técnicos prevaleçam na investigação comercial aberta pelos Estados Unidos contra o Brasil, evitando a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros.

A medida foi proposta pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), que investiga práticas comerciais brasileiras com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.

A investigação norte-americana questiona diferentes áreas da política brasileira, incluindo comércio digital, meios de pagamento, com foco no Pix, regulação de redes sociais, tarifas consideradas preferenciais, desmatamento ilegal, acesso ao mercado brasileiro de etanol e proteção à propriedade intelectual.

Apesar disso, as tarifas ainda não entraram em vigor e só poderão ser implementadas após a conclusão do processo e da realização de consultas públicas.

Durigan afirmou que a posição brasileira está fundamentada em argumentos técnicos. “São argumentos que, quando colocados, o Brasil tem razão. Então, eu espero que prevaleça a racionalidade, prevaleça o argumento técnico e essas tarifas não fiquem de pé em relação ao Brasil”, declarou.

<><> Pix não prejudica norte-americanos

Um dos principais pontos de contestação dos Estados Unidos envolve o Pix. O governo norte-americano alega que o Banco Central favorece o sistema brasileiro de pagamentos em detrimento de concorrentes privados estrangeiros, ao atuar simultaneamente como regulador e operador da infraestrutura financeira.

O ministro rebateu a crítica, e afirmou que o sistema é aberto a todos os participantes do mercado. “O argumento de que o Pix prejudica atores norte-americanos não faz nenhum sentido. O Pix é um meio de pagamento, é uma infraestrutura que o Brasil desenvolveu a várias mãos, há muito tempo, e que é oferecida universalmente. Qualquer empresa, qualquer pessoa que atue no Brasil tem acesso ao Pix”, afirmou.

•        Durigan diz que juros altos travam economia e pressionam dívida pública

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a elevada taxa de juros é o principal entrave para o crescimento da economia brasileira, ao prejudicar os investimentos privados e ampliar o peso da dívida pública. Em entrevista publicada neste sábado (4/7), o ministro disse que a política fiscal não pode ser apontada como a única responsável pelo atual patamar dos juros e defendeu maior coordenação entre as ações fiscais e a política monetária.

Segundo Durigan, o custo do crédito tem impacto direto sobre a capacidade de investimento das empresas e sobre as contas do governo. "Hoje, o que machuca a dívida pública é a taxa de juros", afirmou.

O ministro também rejeitou a avaliação de que iniciativas do governo voltadas à ampliação do crédito ou ao estímulo da economia estejam impedindo uma redução mais intensa da taxa básica de juros. Para ele, as medidas adotadas possuem alcance limitado e não produzem efeitos relevantes sobre o cenário macroeconômico.

Ao comentar programas de financiamento com condições favoráveis, Durigan argumentou que os valores envolvidos representam uma parcela pequena diante do volume total do mercado de crédito brasileiro, estimado em cerca de R$ 600 bilhões por mês. Segundo ele, trata-se de ações pontuais destinadas a setores específicos, sem capacidade de interferir na condução da política monetária.

O ministro também afirmou que o Ministério da Fazenda não deve ser responsabilizado pelo nível atual da taxa de juros. Embora reconheça que o equilíbrio das contas públicas influencia as decisões do Banco Central, ele defendeu que o debate vá além da questão fiscal para compreender os fatores que mantêm os juros elevados.

As declarações ocorrem após o Comitê de Política Monetária (Copom) reduzir, em 17 de junho, a taxa Selic de 14,50% para 14,25% ao ano, um corte de 0,25 ponto percentual. Desde março, a taxa básica acumula redução de 0,75 ponto percentual, mas o Banco Central mantém postura cautelosa diante das expectativas para a inflação e das incertezas no cenário internacional.

Durigan afirmou ainda que o governo está disposto a promover novos ajustes fiscais nos próximos anos, caso sejam necessários, por meio da contenção de despesas e da revisão de benefícios fiscais. Segundo ele, o compromisso é limitar o avanço da dívida pública e manter a sustentabilidade das contas do país.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

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