Domingos
Leonelli: Brasil, potência ou quintal
A médio
prazo, ou o Brasil se torna uma potência ou vira quintal dos Estados Unidos. E,
para se transformar em potência, é indispensável que, além da tarefa imediata
de reeleger Lula e Alckmin, sejamos capazes de formular e implementar um
projeto nacional de desenvolvimento a partir dos novos paradigmas decorrentes
da revolução tecnológica ainda em curso.
O que
era um objetivo estratégico passa a ser também uma demanda tática diante da
recente ofensiva imperialista e dos avanços da ultradireita no mundo.
Em boa
hora, sob a coordenação competente de José Sergio Gabrielli, as fundações dos
partidos que apoiam Lula estão fazendo algo mais do que um novo programa de
governo. Estão dando fortes pinceladas na direção de um Projeto Nacional de
Desenvolvimento, antiga dívida das esquerdas e de seus governos para com a
sociedade brasileira.
Parece
fora de dúvida que os Estados Unidos vão tentar influenciar a eleição
presidencial do Brasil. E vão fazer isso no contexto da fase mais recente do
imperialismo norte-americano. Sob a nova direção de Donald Trump, o
imperialismo quebra todo o arcabouço institucional que regia, ainda que de
forma claudicante, a chamada ordem mundial.
Trump
utiliza toda a força econômica e militar dos EUA para produzir fatos políticos
em ritmo de espetacularização e captura da atenção mundial como nunca se viu.
Protagoniza verdadeiros shows de exibicionismo da força bruta, para promover a
lei do mais forte. Sem qualquer limite ético, moral, legal ou institucional,
transforma-se na figura central do noticiário em jornais, rádios e TVs e no
ator principal das narrativas da internet, nos cards, memes e informações
veiculadas em blogs, no Instagram, no X e no TikTok. Governa por meio de
decretos midiáticos e publicações em sua própria empresa, a Truth Social.
Misturando
ações militares à guerra cognitiva, Donald Trump, em menos de dois anos de
mandato, provavelmente já se tornou mais conhecido e mais ativo no mundo do que
todos os seus antecessores.
Super-herói
da ultradireita mundial, supervilão da esquerda e figura central da
perplexidade do centro, ele troca de papéis com total desfaçatez. Em um dia, é
o algoz da soberania nacional da Venezuela, bombardeando Caracas, sequestrando
o presidente da República e sua esposa e assassinando cerca de cem pessoas. No
outro, apresenta-se como o benevolente patrocinador da nova presidente
venezuelana, Delcy Rodríguez. Em um dia, ameaça o México com invasão para
combater o narcotráfico. No outro, telefona para a presidente Claudia Sheinbaum
para, segundo ela, ter uma “conversa produtiva”. Ataca o Irã e provoca uma
crise econômica mundial.
Evidentemente,
Donald Trump conta com todo um aparato comunicacional adaptado, na perspectiva
de Steve Bannon, às redes sociais e às novas tecnologias de comunicação.
Hollywood,
que por quase um século desempenhou o papel de vender, de um lado, o “way of
life” norte-americano e, de outro, uma cultura de violência e morte, está sendo
substituída por um reality show: um imenso Big Brother de arbitrariedades e
truculências covardes baseadas em mentiras deslavadas. A figura do cowboy
justiceiro funde-se à do bandido sanguinário, do arruaceiro fascista
internacional. Sempre contra os mais fracos. Note-se que Trump não mexeu nem
ameaçou militarmente nenhum país com armas nucleares. Desmoraliza, assim, toda
a construção ética em torno da desnuclearização das nações. Parece dizer ao
mundo que só respeita a bomba atômica.
Claro
que, por trás desse grande show personalista, há um eixo estratégico que visa
manter o dólar como referência de valor, principalmente a partir do domínio do
petróleo. Há também os interesses das big techs, além do poderoso complexo
industrial-militar, hoje profundamente ligado às empresas de tecnologia. E,
mais do que tudo, em todas essas áreas, há o grande objetivo de conter o avanço
mundial da China.
Trump e
seus estrategistas pretendem fazer isso com um novo desenho de dominação
mundial, no qual os Estados Unidos teriam o domínio da América Latina, a Rússia
ficaria com a Ucrânia e a própria China, com Taiwan e o Sudeste Asiático. Como
se Taiwan já não fosse da China.
Ocorre
que a China não se caracteriza como uma potência imperialista, mas é uma
potência. Uma potência tecnológica, militar e econômica. E exatamente por não
ser uma potência imperialista, tem sua economia estendida por quase todo o
mundo. Sua proposta de “futuro compartilhado” não cria empecilhos ao pleno
desenvolvimento de outras economias regionais. A China já se constitui na maior
parceira comercial de grande parte dos países da América Latina. E não apenas
no comércio. Por ter um governo socialista e pacifista, pode se colocar como
parceira do desenvolvimento dos países da América Latina, da África e do
Sudeste Asiático, sem exclusivismos nem condicionantes de subordinação.
Até
agora, a China vem reagindo às arruaças trumpistas com a tradicional serenidade
oriental: notas diplomáticas condenatórias e pronunciamentos protocolares.
Mas
algumas questões ainda estão sem resposta definitiva. Por exemplo, no caso de
Cuba, com o aprofundamento do bloqueio econômico, agravado pela proibição do
fornecimento de petróleo pela Venezuela e pelas ameaças de intervenção na ilha.
Haverá uma solidariedade socialista por parte da China?
E o
Brasil?
No
curto prazo, estamos numa saia justíssima. Condenamos diplomaticamente a
agressão militar à Venezuela, reconhecemos o governo de Delcy Rodríguez,
manifestamos preocupação em relação a Cuba, mas não esgarçamos as relações com
os Estados Unidos para não prejudicar a vitória em relação às tarifas. Estamos
fazendo a coisa certa no curto prazo. Lula, Alckmin e o Itamaraty são craques
nesse jogo político e diplomático.
Acontece
que somos o maior país da América do Sul, a maior economia da América Latina e
ainda temos uma posição de liderança natural nesse pedaço do mundo. Temos que
pensar no médio e no longo prazo. Levar em conta que estamos diante de uma
grande ofensiva da ultradireita, que avança inclusive no terreno eleitoral na
América do Sul. Argentina, Chile, Paraguai, Bolívia e Equador já estão com a
direita e alinhados com Trump. A Colômbia corre o mesmo risco. Colômbia e Peru
podem seguir pelo mesmo caminho.
E,
embora a integração latino-americana deva continuar sendo um objetivo político
permanente, não se pode contar com grandes avanços neste momento, pois a
direita latino-americana, quase toda entreguista, é docilmente subordinada ao
imperialismo norte-americano.
Esse
quadro nos obriga a pensar que o Brasil pode vir a ser a trincheira mais
importante contra o imperialismo norte-americano. E, por isso mesmo,
precisamos, mais do que nunca, de um Projeto Nacional de Desenvolvimento. Um
projeto que tenha como objetivo estratégico nos transformar em uma potência.
Potência econômica, cultural, ambiental e militar.
Os
programas sociais, os avanços do governo Lula nas áreas de saúde, educação,
segurança pública, cultura e assistência social, junto com a valorização do
salário mínimo, a redução do desemprego e o combate à injustiça tributária, são
da maior importância e poderão nos ajudar a ganhar as eleições de 2026. Mas
ainda não constituem um projeto nacional de desenvolvimento estrutural,
abrangente e ambicioso.
Esse
projeto nacional precisa articular, criativamente, numa mesma perspectiva, as
áreas sociais, econômicas, ambientais, culturais, de defesa e de relações
internacionais. Precisa retomar o planejamento estratégico como função do
Estado para desenhar o futuro do Brasil como uma potência criativa e
sustentável.
Na área
econômica, já temos a NIB — Nova Indústria Brasil — conduzida pelo
vice-presidente e ex-ministro Geraldo Alckmin e pelo BNDES como uma
contribuição inicial para esse projeto. A NIB representa uma política
industrial que fazia muita falta ao Brasil. Mas precisaria ser ampliada e
aprofundada para alcançar as indústrias da defesa nacional e os complexos
industriais intensivos em tecnologia, inclusive a industrialização das nossas
terras raras. Também é necessário reconhecer as indústrias criativas como
componente econômico estratégico e gerador de riqueza, a exemplo da indústria
criativa dos Estados Unidos, com seu cinema e Hollywood, desdobrando-se em
centenas de outras atividades produtivas.
É
necessário também que o projeto de um Brasil potência criativa e sustentável
veja a Amazônia como um grande ativo econômico e um diferencial competitivo
mundial. Nesse sentido, ganha importância a proposta formulada pelos irmãos
Carlos e Ismael Nobre da Amazônia 4.0, bem como a ideia da criação da
Amazombrás como uma grande catalisadora das potencialidades técnicas, culturais
e econômicas da região amazônica.
Por
fim, é absolutamente necessário incorporar cada vez mais as Forças Armadas
brasileiras como um importante ativo do projeto nacional. Não apenas pelo
conhecimento tecnológico que já possuem em suas áreas específicas, mas também
pelo que representam na defesa das nossas fronteiras e do próprio país. Por sua
vez, deve ficar claro para nossos militares que os verdadeiros patriotas não
estão na direita que bate continência para a bandeira norte-americana. É
necessário disputar ideologicamente as Forças Armadas com a direita
entreguista.
Os
acontecimentos recentes da agressão imperialista à Venezuela são uma prova de
que não podemos nos dar ao luxo de dispensar nosso ainda pequeno poderio
militar. A ampliação de nossas capacidades militares é um fator indispensável
ao projeto de Brasil potência criativa e sustentável.
Só um
projeto nacional de desenvolvimento dá concretude à soberania nacional e
constrói um desejo coletivo, um sonho de país generoso, justo e igualitário,
capaz de conquistar os corações e as mentes das nossas juventudes, dos
trabalhadores e das classes médias. E de se constituir numa grande força de
mobilização popular.
• Brasil é o grande desafio. Por Silvio
Caccia Bava
Tenho
insistido, nos últimos editoriais, sobre os riscos de um confronto aberto com
os Estados Unidos. Essa avaliação vai se consolidando à medida que vários
instrumentos da guerra híbrida vão sendo utilizados contra o governo
brasileiro.
A nova
estratégia dos Estados Unidos para a América Latina se baseia no documento
“Project 2025”, elaborado pela ultradireita norte-americana, liderada pela
Heritage Foundation. Trata-se de combater os governos de esquerda; financiar
governos conservadores na região; conter a influência da China na região;
assegurar o controle das riquezas naturais (para reduzir a dependência da China
em terras-raras, por exemplo); promover o bloqueio naval do comércio do país
(Cuba); congelar reservas do país; concentrar forças militares na região; e, no
limite, promover ações como o sequestro do presidente Maduro e sua esposa.
O
documento “Project 2025” estabeleceu a estratégia norte-americana para a
América Latina. E a Estratégia Nacional de Defesa, divulgada em dezembro de
2025, é o braço operacional da nova política externa. Ela se propõe a aumentar
e tornar permanente a presença militar dos Estados Unidos na América Latina.
Acordos com o Paraguai permitem o estabelecimento de forças militares
norte-americanas nesse país. Acordo com a Argentina propõe a patrulha do
Atlântico Sul em conjunto. Novas bases militares norte-americanas serão
implantadas na região.
Um dos
principais elementos de coerção é atribuir a denominação de terrorista ao crime
organizado, como aconteceu com o PCC e o CV. Uma nova legislação
norte-americana permite a invasão militar dos países que abrigam “terroristas”.
É
importante observar que não se trata de um voluntarismo de Trump, mas de uma
política de Estado. Usando de todos os elementos da guerra híbrida, os Estados
Unidos estão buscando desestabilizar o governo Lula e influenciar o resultado
das eleições de outubro em favor de Flávio Bolsonaro. Querem um novo
colonialismo, controlando todos os países do continente.
É um
detalhe, mas mostra a intenção. Um edital do Departamento de Estado, aberto até
23 de julho, oferece US$ 986 mil para ONGs que denunciem suposta censura no
Brasil e contestem decisões judiciais e a regulação das plataformas digitais.
Evidentemente, essa é apenas a ponta de um verdadeiro iceberg de combate ao
governo Lula.
Esse
trabalho de influenciar a opinião pública brasileira em defesa do
neoliberalismo e contra governos populares se dá há décadas, mas lança mão de
novos instrumentos agora, num novo processo eleitoral.
A longo
prazo, a disputa pela hegemonia é uma disputa de valores e de projetos de
sociedade. Há todo um conjunto de think tanks, criados a partir dos anos 1980,
que formula estratégias políticas para combater a esquerda. Integrando redes
internacionais, como a Atlas Network, o Instituto Millenium, o Instituto
Liberal, o Instituto Mises Brasil, o Instituto de Estudos Empresariais, estão
entre os mais destacados. Há também organizações de ativistas e militantes.
Inspirado no Students for Liberty, foi criado o Movimento Brasil Livre, com
atuação principalmente junto aos estudantes. Sem falar nas “campanhas de
conscientização pública” nas mídias corporativas e plataformas digitais, que
martelam há anos a privatização das empresas públicas, o empreendedorismo, o
corte nas políticas sociais, a luta contra o comunismo e, agora, o terrorismo.
Resgataram o antigo Consenso de Washington e militarizam sua relação com a
América Latina.
A curto
prazo, podemos listar uma série de iniciativas que pressionam o governo Lula
por atos de soberania que não cabem na relação com os Estados Unidos. Trump
afirma que o governo do Brasil está se tornando perigoso politicamente.
Perigoso
porque criou o Pix, abalando o domínio dos cartões norte-americanos, como
Mastercard, Visa e outros. Perigoso porque aprovou uma lei de regulação das
plataformas digitais. Perigoso porque integra o Brics. Perigoso porque
aprofunda relações comerciais com a China. Perigoso porque faz transações
comerciais internacionais sem usar o dólar. Perigoso porque diversifica seus
parceiros comerciais e depende cada vez menos dos Estados Unidos. Perigoso
porque pretende impedir o saque de suas riquezas minerais. Perigoso porque luta
por sua autonomia e soberania. E talvez o mais importante neste momento:
perigoso porque abre uma alternativa de esquerda na América Latina, como foi a
criação da Unasul.
Temos a
considerar também que boa parte do empresariado brasileiro não quer outro
governo Lula e pode se somar ao processo de desestabilização do governo e às
campanhas de difamação que virão.
Tudo
indica que haverá uma intensa campanha na mídia e nas plataformas digitais
combatendo o PT e Lula, pressões comerciais com novas tarifas, campanha contra
o STF e seus integrantes, financiamento da oposição, ameaças militares. E, na
eventualidade de Lula ganhar a eleição, a contestação dos resultados eleitorais
alegando fraude.
É uma
eleição crucial tanto para o Brasil como para os Estados Unidos. Se a
democracia vencer, ainda teremos de estar atentos para garantir a posse do novo
governo. Se o bolsonarismo vencer, consolida-se o alinhamento subserviente ao
governo Trump e abre-se um novo período autoritário no Brasil, com o desmonte
das políticas sociais, a privatização do que é público, a repressão das lutas
por direitos.
Neste
momento, as pesquisas eleitorais dão pequena vantagem a Lula, mas a campanha
eleitoral oficialmente nem começou. Estamos a menos de cem dias das eleições e
vamos ver muita manipulação e arbitrariedades. Preparemo-nos, como cidadãos,
para defender nossos direitos.
Fonte:
Brasil 247/Le Monde

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