terça-feira, 7 de julho de 2026

Domingos Leonelli: Brasil, potência ou quintal

A médio prazo, ou o Brasil se torna uma potência ou vira quintal dos Estados Unidos. E, para se transformar em potência, é indispensável que, além da tarefa imediata de reeleger Lula e Alckmin, sejamos capazes de formular e implementar um projeto nacional de desenvolvimento a partir dos novos paradigmas decorrentes da revolução tecnológica ainda em curso.

O que era um objetivo estratégico passa a ser também uma demanda tática diante da recente ofensiva imperialista e dos avanços da ultradireita no mundo.

Em boa hora, sob a coordenação competente de José Sergio Gabrielli, as fundações dos partidos que apoiam Lula estão fazendo algo mais do que um novo programa de governo. Estão dando fortes pinceladas na direção de um Projeto Nacional de Desenvolvimento, antiga dívida das esquerdas e de seus governos para com a sociedade brasileira.

Parece fora de dúvida que os Estados Unidos vão tentar influenciar a eleição presidencial do Brasil. E vão fazer isso no contexto da fase mais recente do imperialismo norte-americano. Sob a nova direção de Donald Trump, o imperialismo quebra todo o arcabouço institucional que regia, ainda que de forma claudicante, a chamada ordem mundial.

Trump utiliza toda a força econômica e militar dos EUA para produzir fatos políticos em ritmo de espetacularização e captura da atenção mundial como nunca se viu. Protagoniza verdadeiros shows de exibicionismo da força bruta, para promover a lei do mais forte. Sem qualquer limite ético, moral, legal ou institucional, transforma-se na figura central do noticiário em jornais, rádios e TVs e no ator principal das narrativas da internet, nos cards, memes e informações veiculadas em blogs, no Instagram, no X e no TikTok. Governa por meio de decretos midiáticos e publicações em sua própria empresa, a Truth Social.

Misturando ações militares à guerra cognitiva, Donald Trump, em menos de dois anos de mandato, provavelmente já se tornou mais conhecido e mais ativo no mundo do que todos os seus antecessores.

Super-herói da ultradireita mundial, supervilão da esquerda e figura central da perplexidade do centro, ele troca de papéis com total desfaçatez. Em um dia, é o algoz da soberania nacional da Venezuela, bombardeando Caracas, sequestrando o presidente da República e sua esposa e assassinando cerca de cem pessoas. No outro, apresenta-se como o benevolente patrocinador da nova presidente venezuelana, Delcy Rodríguez. Em um dia, ameaça o México com invasão para combater o narcotráfico. No outro, telefona para a presidente Claudia Sheinbaum para, segundo ela, ter uma “conversa produtiva”. Ataca o Irã e provoca uma crise econômica mundial.

Evidentemente, Donald Trump conta com todo um aparato comunicacional adaptado, na perspectiva de Steve Bannon, às redes sociais e às novas tecnologias de comunicação.

Hollywood, que por quase um século desempenhou o papel de vender, de um lado, o “way of life” norte-americano e, de outro, uma cultura de violência e morte, está sendo substituída por um reality show: um imenso Big Brother de arbitrariedades e truculências covardes baseadas em mentiras deslavadas. A figura do cowboy justiceiro funde-se à do bandido sanguinário, do arruaceiro fascista internacional. Sempre contra os mais fracos. Note-se que Trump não mexeu nem ameaçou militarmente nenhum país com armas nucleares. Desmoraliza, assim, toda a construção ética em torno da desnuclearização das nações. Parece dizer ao mundo que só respeita a bomba atômica.

Claro que, por trás desse grande show personalista, há um eixo estratégico que visa manter o dólar como referência de valor, principalmente a partir do domínio do petróleo. Há também os interesses das big techs, além do poderoso complexo industrial-militar, hoje profundamente ligado às empresas de tecnologia. E, mais do que tudo, em todas essas áreas, há o grande objetivo de conter o avanço mundial da China.

Trump e seus estrategistas pretendem fazer isso com um novo desenho de dominação mundial, no qual os Estados Unidos teriam o domínio da América Latina, a Rússia ficaria com a Ucrânia e a própria China, com Taiwan e o Sudeste Asiático. Como se Taiwan já não fosse da China.

Ocorre que a China não se caracteriza como uma potência imperialista, mas é uma potência. Uma potência tecnológica, militar e econômica. E exatamente por não ser uma potência imperialista, tem sua economia estendida por quase todo o mundo. Sua proposta de “futuro compartilhado” não cria empecilhos ao pleno desenvolvimento de outras economias regionais. A China já se constitui na maior parceira comercial de grande parte dos países da América Latina. E não apenas no comércio. Por ter um governo socialista e pacifista, pode se colocar como parceira do desenvolvimento dos países da América Latina, da África e do Sudeste Asiático, sem exclusivismos nem condicionantes de subordinação.

Até agora, a China vem reagindo às arruaças trumpistas com a tradicional serenidade oriental: notas diplomáticas condenatórias e pronunciamentos protocolares.

Mas algumas questões ainda estão sem resposta definitiva. Por exemplo, no caso de Cuba, com o aprofundamento do bloqueio econômico, agravado pela proibição do fornecimento de petróleo pela Venezuela e pelas ameaças de intervenção na ilha. Haverá uma solidariedade socialista por parte da China?

E o Brasil?

No curto prazo, estamos numa saia justíssima. Condenamos diplomaticamente a agressão militar à Venezuela, reconhecemos o governo de Delcy Rodríguez, manifestamos preocupação em relação a Cuba, mas não esgarçamos as relações com os Estados Unidos para não prejudicar a vitória em relação às tarifas. Estamos fazendo a coisa certa no curto prazo. Lula, Alckmin e o Itamaraty são craques nesse jogo político e diplomático.

Acontece que somos o maior país da América do Sul, a maior economia da América Latina e ainda temos uma posição de liderança natural nesse pedaço do mundo. Temos que pensar no médio e no longo prazo. Levar em conta que estamos diante de uma grande ofensiva da ultradireita, que avança inclusive no terreno eleitoral na América do Sul. Argentina, Chile, Paraguai, Bolívia e Equador já estão com a direita e alinhados com Trump. A Colômbia corre o mesmo risco. Colômbia e Peru podem seguir pelo mesmo caminho.

E, embora a integração latino-americana deva continuar sendo um objetivo político permanente, não se pode contar com grandes avanços neste momento, pois a direita latino-americana, quase toda entreguista, é docilmente subordinada ao imperialismo norte-americano.

Esse quadro nos obriga a pensar que o Brasil pode vir a ser a trincheira mais importante contra o imperialismo norte-americano. E, por isso mesmo, precisamos, mais do que nunca, de um Projeto Nacional de Desenvolvimento. Um projeto que tenha como objetivo estratégico nos transformar em uma potência. Potência econômica, cultural, ambiental e militar.

Os programas sociais, os avanços do governo Lula nas áreas de saúde, educação, segurança pública, cultura e assistência social, junto com a valorização do salário mínimo, a redução do desemprego e o combate à injustiça tributária, são da maior importância e poderão nos ajudar a ganhar as eleições de 2026. Mas ainda não constituem um projeto nacional de desenvolvimento estrutural, abrangente e ambicioso.

Esse projeto nacional precisa articular, criativamente, numa mesma perspectiva, as áreas sociais, econômicas, ambientais, culturais, de defesa e de relações internacionais. Precisa retomar o planejamento estratégico como função do Estado para desenhar o futuro do Brasil como uma potência criativa e sustentável.

Na área econômica, já temos a NIB — Nova Indústria Brasil — conduzida pelo vice-presidente e ex-ministro Geraldo Alckmin e pelo BNDES como uma contribuição inicial para esse projeto. A NIB representa uma política industrial que fazia muita falta ao Brasil. Mas precisaria ser ampliada e aprofundada para alcançar as indústrias da defesa nacional e os complexos industriais intensivos em tecnologia, inclusive a industrialização das nossas terras raras. Também é necessário reconhecer as indústrias criativas como componente econômico estratégico e gerador de riqueza, a exemplo da indústria criativa dos Estados Unidos, com seu cinema e Hollywood, desdobrando-se em centenas de outras atividades produtivas.

É necessário também que o projeto de um Brasil potência criativa e sustentável veja a Amazônia como um grande ativo econômico e um diferencial competitivo mundial. Nesse sentido, ganha importância a proposta formulada pelos irmãos Carlos e Ismael Nobre da Amazônia 4.0, bem como a ideia da criação da Amazombrás como uma grande catalisadora das potencialidades técnicas, culturais e econômicas da região amazônica.

Por fim, é absolutamente necessário incorporar cada vez mais as Forças Armadas brasileiras como um importante ativo do projeto nacional. Não apenas pelo conhecimento tecnológico que já possuem em suas áreas específicas, mas também pelo que representam na defesa das nossas fronteiras e do próprio país. Por sua vez, deve ficar claro para nossos militares que os verdadeiros patriotas não estão na direita que bate continência para a bandeira norte-americana. É necessário disputar ideologicamente as Forças Armadas com a direita entreguista.

Os acontecimentos recentes da agressão imperialista à Venezuela são uma prova de que não podemos nos dar ao luxo de dispensar nosso ainda pequeno poderio militar. A ampliação de nossas capacidades militares é um fator indispensável ao projeto de Brasil potência criativa e sustentável.

Só um projeto nacional de desenvolvimento dá concretude à soberania nacional e constrói um desejo coletivo, um sonho de país generoso, justo e igualitário, capaz de conquistar os corações e as mentes das nossas juventudes, dos trabalhadores e das classes médias. E de se constituir numa grande força de mobilização popular.

•        Brasil é o grande desafio. Por Silvio Caccia Bava

Tenho insistido, nos últimos editoriais, sobre os riscos de um confronto aberto com os Estados Unidos. Essa avaliação vai se consolidando à medida que vários instrumentos da guerra híbrida vão sendo utilizados contra o governo brasileiro.

A nova estratégia dos Estados Unidos para a América Latina se baseia no documento “Project 2025”, elaborado pela ultradireita norte-americana, liderada pela Heritage Foundation. Trata-se de combater os governos de esquerda; financiar governos conservadores na região; conter a influência da China na região; assegurar o controle das riquezas naturais (para reduzir a dependência da China em terras-raras, por exemplo); promover o bloqueio naval do comércio do país (Cuba); congelar reservas do país; concentrar forças militares na região; e, no limite, promover ações como o sequestro do presidente Maduro e sua esposa.

O documento “Project 2025” estabeleceu a estratégia norte-americana para a América Latina. E a Estratégia Nacional de Defesa, divulgada em dezembro de 2025, é o braço operacional da nova política externa. Ela se propõe a aumentar e tornar permanente a presença militar dos Estados Unidos na América Latina. Acordos com o Paraguai permitem o estabelecimento de forças militares norte-americanas nesse país. Acordo com a Argentina propõe a patrulha do Atlântico Sul em conjunto. Novas bases militares norte-americanas serão implantadas na região.

Um dos principais elementos de coerção é atribuir a denominação de terrorista ao crime organizado, como aconteceu com o PCC e o CV. Uma nova legislação norte-americana permite a invasão militar dos países que abrigam “terroristas”.

É importante observar que não se trata de um voluntarismo de Trump, mas de uma política de Estado. Usando de todos os elementos da guerra híbrida, os Estados Unidos estão buscando desestabilizar o governo Lula e influenciar o resultado das eleições de outubro em favor de Flávio Bolsonaro. Querem um novo colonialismo, controlando todos os países do continente.

É um detalhe, mas mostra a intenção. Um edital do Departamento de Estado, aberto até 23 de julho, oferece US$ 986 mil para ONGs que denunciem suposta censura no Brasil e contestem decisões judiciais e a regulação das plataformas digitais. Evidentemente, essa é apenas a ponta de um verdadeiro iceberg de combate ao governo Lula.

Esse trabalho de influenciar a opinião pública brasileira em defesa do neoliberalismo e contra governos populares se dá há décadas, mas lança mão de novos instrumentos agora, num novo processo eleitoral.

A longo prazo, a disputa pela hegemonia é uma disputa de valores e de projetos de sociedade. Há todo um conjunto de think tanks, criados a partir dos anos 1980, que formula estratégias políticas para combater a esquerda. Integrando redes internacionais, como a Atlas Network, o Instituto Millenium, o Instituto Liberal, o Instituto Mises Brasil, o Instituto de Estudos Empresariais, estão entre os mais destacados. Há também organizações de ativistas e militantes. Inspirado no Students for Liberty, foi criado o Movimento Brasil Livre, com atuação principalmente junto aos estudantes. Sem falar nas “campanhas de conscientização pública” nas mídias corporativas e plataformas digitais, que martelam há anos a privatização das empresas públicas, o empreendedorismo, o corte nas políticas sociais, a luta contra o comunismo e, agora, o terrorismo. Resgataram o antigo Consenso de Washington e militarizam sua relação com a América Latina.

A curto prazo, podemos listar uma série de iniciativas que pressionam o governo Lula por atos de soberania que não cabem na relação com os Estados Unidos. Trump afirma que o governo do Brasil está se tornando perigoso politicamente.

Perigoso porque criou o Pix, abalando o domínio dos cartões norte-americanos, como Mastercard, Visa e outros. Perigoso porque aprovou uma lei de regulação das plataformas digitais. Perigoso porque integra o Brics. Perigoso porque aprofunda relações comerciais com a China. Perigoso porque faz transações comerciais internacionais sem usar o dólar. Perigoso porque diversifica seus parceiros comerciais e depende cada vez menos dos Estados Unidos. Perigoso porque pretende impedir o saque de suas riquezas minerais. Perigoso porque luta por sua autonomia e soberania. E talvez o mais importante neste momento: perigoso porque abre uma alternativa de esquerda na América Latina, como foi a criação da Unasul.

Temos a considerar também que boa parte do empresariado brasileiro não quer outro governo Lula e pode se somar ao processo de desestabilização do governo e às campanhas de difamação que virão.

Tudo indica que haverá uma intensa campanha na mídia e nas plataformas digitais combatendo o PT e Lula, pressões comerciais com novas tarifas, campanha contra o STF e seus integrantes, financiamento da oposição, ameaças militares. E, na eventualidade de Lula ganhar a eleição, a contestação dos resultados eleitorais alegando fraude.

É uma eleição crucial tanto para o Brasil como para os Estados Unidos. Se a democracia vencer, ainda teremos de estar atentos para garantir a posse do novo governo. Se o bolsonarismo vencer, consolida-se o alinhamento subserviente ao governo Trump e abre-se um novo período autoritário no Brasil, com o desmonte das políticas sociais, a privatização do que é público, a repressão das lutas por direitos.

Neste momento, as pesquisas eleitorais dão pequena vantagem a Lula, mas a campanha eleitoral oficialmente nem começou. Estamos a menos de cem dias das eleições e vamos ver muita manipulação e arbitrariedades. Preparemo-nos, como cidadãos, para defender nossos direitos.

 

Fonte: Brasil 247/Le Monde

 

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