Os
documentos da condenação de Paulo Figueiredo e Jason Miller nos EUA!
Eis o
que o lobista do tarifaço, Paulo Figueiredo, não conta nas suas lives: sua
empresa nos Estados Unidos, a International Treasure Group, foi condenada pela
Justiça americana. A sentença saiu em outubro do ano passado, à revelia, das
mãos de uma juíza federal de Connecticut: devolver 140 mil dólares (cerca de R$
770 mil), mais juros, às vítimas de um dos maiores golpes da história recente
dos EUA.
A
International Treasure Group é uma firma de consultoria da Flórida da qual
Figueiredo é o único dono — e que funcionava dentro da própria casa dele. O
dinheiro que ela terá de devolver veio de uma das dezenas de firmas de fachada
que o golpista chinês Miles Guo usava para esconder o patrimônio roubado.
E não
foi só ela. A Gettr — a rede social que contratou a empresa de Figueiredo — foi
condenada no mesmo escândalo a devolver muito mais: 21 milhões de dólares
(cerca de R$ 115 milhões) que recebeu das mesmas fachadas.
Na
época, a Gettr era comandada por Jason Miller, hoje o mais agressivo operador
anti-Brasil do mundo trumpista em Washington. Nenhum jornal, brasileiro ou
americano, havia noticiado a condenação da Gettr até agora.
As duas
sentenças nascem da falência de Miles Guo. O bilionário chinês foi condenado em
junho a 30 anos de prisão, por uma fraude de mais de 1 bilhão de dólares (cerca
de R$ 5,5 bilhões) contra a diáspora anticomunista chinesa.
O golpe
de Guo funcionava assim: em lives diárias, ele se apresentava como o grande
inimigo do Partido Comunista Chinês e pedia que os seguidores “investissem” na
cruzada. Vendia de tudo — ações da sua rede de mídia, títulos de um clube
privado de luxo, uma criptomoeda própria.
Um dos
produtos mais vendidos era uma promessa: 5% da Gettr. Guo oferecia à audiência
das suas lives pedaços da rede social, como se a plataforma fosse dele — e era,
embora oficialmente a Gettr jurasse independência.
Milhares
de famílias caíram. Segundo a Justiça americana, o dinheiro dessas vítimas
virou iate de luxo, mansão em Nova Jersey e uma frota de carros esportivos — e
Guo seguiu aplicando golpes até da cadeia, transmitindo lives pela própria
Gettr.
É esse
dinheiro roubado que a Justiça americana vem recolhendo, bolso por bolso. Dois
dos bolsos levavam ao Brasil.
Voltemos
ao brasileiro. Figueiredo ignorou o processo contra sua empresa por mais de um
ano — e o advogado largou o caso em 2024 porque não foi pago.
A
defesa formal dele só se manifestou em dezembro de 2025, depois da condenação,
para pedir a anulação da sentença. As desculpas foram dadas por escrito e sob
juramento.
A
primeira: a correspondência da empresa ficava numa “área comum” da casa, “como
a entrada ou a cozinha”, e podia ser recolhida “por mim, minha esposa atual, ou
até minha ex-esposa”. A segunda: ele andava ocupado demais, com longas
temporadas em Washington e “sérios problemas jurídicos e de segurança pessoal”
ligados às suas atividades políticas no Brasil.
O
aspecto particularmente irônico: a justificativa de Figueiredo para ignorar a
Justiça americana é que estava ocupado articulando, em Washington, sanções
contra o próprio país.
A
desculpa carrega o mesmo cinismo da usada por Eduardo Bolsonaro, seu sócio nas
cruzadas antibrasileiras. No processo por coação à Justiça que corre no STF,
Eduardo contestou a maneira como foi notificado — embora desse entrevistas
demonstrando estar perfeitamente ciente do processo.
A juíza
ouviu os dois lados em fevereiro. O resultado do recurso pode ser publicado a
qualquer momento.
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O contrato do crime
Para se
defender, Figueiredo cometeu seu maior ato falho: entregou, ele mesmo, o que
negava havia quatro anos. Anexou ao processo os documentos que provam seu
trabalho para a Gettr.
O
Cafezinho analisou o pacote completo — e o contrato é inédito na imprensa.
Assinado em agosto de 2021, garantia à empresa de Figueiredo um salário fixo de
35 mil dólares por mês (na época, cerca de R$ 180 mil).
Quatro
meses, quatro pagamentos: exatamente os 140 mil dólares da condenação. Na
página de assinaturas, dois nomes de próprio punho: Paulo Figueiredo — e Jason
Miller, chefe-executivo da Gettr.
Os
relatórios internos anexados mostram para que servia o dinheiro: implantar a
Gettr no coração da política brasileira, às vésperas da eleição de 2022.
A
plataforma comprava espaço publicitário em veículos bolsonaristas. Jovem Pan,
Gazeta do Povo e o canal 4×4 aparecem nominalmente nos documentos como
destinatários de pagamentos.
Patrocinava
eventos de Eduardo Bolsonaro e de Carlos Jordy. Jordy é hoje um dos principais
quadros do bolsonarismo no Rio, cotado ao Senado pelo PL — depois que Flávio
Bolsonaro saiu para o projeto presidencial da família e Cláudio Castro foi
cassado sob suspeitas de corrupção.
A Gettr
bancou ainda a transmissão de um congresso de médicos do “tratamento precoce”,
em plena pandemia. E encomendou uma pesquisa presidencial com regra combinada
de antemão: resultado ruim para Bolsonaro, pesquisa na gaveta.
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Ficha suja antes do exílio
A ficha
de Figueiredo já era suja — muito suja — antes do autoexílio nos Estados
Unidos. E o começo da história tem um nome familiar: Trump.
Em
2013, aos 29 anos, Figueiredo fechou com a Trump Organization o licenciamento
do Trump Hotel Rio, na Barra da Tijuca — o primeiro da marca na América do Sul.
Ele gostava de contar que conheceu Trump num campo de golfe na Flórida.
Trump
não colocou um dólar no negócio: só alugou o nome. O dinheiro de verdade veio
de onde sempre vem nesses esquemas — de fundos de pensão, que aportaram cerca
de R$ 247 milhões no fundo de investimento do hotel.
Segundo
denúncia do Ministério Público Federal, os aportes foram destravados na base da
propina. Cerca de R$ 40 milhões teriam sido pagos a conselheiros e diretores do
banco BRB para aprovar os investimentos sem análise técnica.
E o
papel de Figueiredo, segundo os procuradores, não era decorativo: como
presidente da empresa do hotel, cabia a ele autorizar os pagamentos de propina
e assinar contratos com notas frias para gerar dinheiro vivo. O rombo do banco:
R$ 348 milhões.
O hotel
abriu às pressas para a Olimpíada de 2016, inacabado — 75 quartos prontos, dos
175 prometidos. Semanas depois de a Justiça abrir investigação, a própria Trump
Organization arrancou o nome da fachada.
Quando
a operação policial finalmente chegou, em 2019, Figueiredo ficou seis meses
foragido. Acabou preso em Miami — e responde até hoje, como réu, por corrupção
ativa, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Do
naufrágio sobrou ainda a conta do mercado financeiro. Em dezembro de 2024, a
CVM aplicou a Figueiredo uma multa pessoal de R$ 102 milhões — a maior entre os
oito condenados do caso — por superavaliação de ativos e emissão artificial de
cotas do fundo do hotel.
O
epílogo saiu semanas atrás: a empresa do hotel teve a falência decretada em
junho, e o prédio foi parar nas mãos dos credores. Foi nesse ano de 2019, entre
a fuga e a prisão, que Figueiredo passou a morar de vez na Flórida.
A
empresa que receberia o dinheiro de Guo fora registrada dois anos antes. A vida
americana de Figueiredo e a firma que o conectaria ao golpe nasceram juntas.
Hoje
ele soma duas denúncias da PGR: trama golpista e coação à Justiça, esta junto
com Eduardo. E é foragido de uma ordem de prisão do STF.
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O padrinho de Washington
O homem
que assinou o contrato de 35 mil dólares mensais é o mesmo que hoje faz a ponte
entre o clã Bolsonaro e a Casa Branca. Jason Miller, ex-porta-voz de Trump, é o
operador mais agressivo da campanha anti-Lula em Washington e peça central da
articulação do tarifaço.
O elo
não é figura de linguagem. Foi Miller quem abriu ao clã as portas do trumpismo:
o próprio Eduardo Bolsonaro credita a ele a apresentação do “caso Brasil” a
Trump.
E
Miller cultivou essa ponte pessoalmente, no Brasil. Em setembro de 2021,
discursou na CPAC de Brasília e foi recebido por Bolsonaro no Palácio da
Alvorada; em 2022, assistiu ao 7 de Setembro eleitoral de Copacabana ao lado da
militância.
Hoje, é
com Miller que Figueiredo e Eduardo despacham em Washington. É essa engrenagem
— o foragido, o condenado e o ex-chefe da Gettr — que produziu o tarifaço e o
lobby por sanções contra ministros do STF.
Foi
dele a frase de que Alexandre de Moraes seria “a maior ameaça à democracia no
Hemisfério Ocidental”. Pois a Justiça americana cobra do próprio Miller a
devolução de 353 mil dólares (cerca de R$ 1,9 milhão).
O
dinheiro chegou ao bolso dele pelas mesmas firmas de fachada que pagaram a
empresa de Figueiredo. Ou seja: até o salário do chefe da Gettr passava pela
contabilidade do esquema.
Miller
nega qualquer ligação entre o dinheiro e os crimes de Guo. E briga nos
tribunais para não devolver.
A
negativa, porém, esbarra nos autos. Os investigadores e os documentos do caso
mostram que praticamente todo o dinheiro que sustentou a Gettr saiu dos
esquemas criminosos de Guo.
A
própria juíza do caso registrou que o chinês controlava a plataforma por meio
de uma rede de empresas de fachada. Foram essas fachadas que despejaram na
Gettr os 21 milhões de dólares da condenação — e delas também saiu o salário do
chefe.
Os
documentos internos revelam o que ele queria: usar a Gettr — subsidiada com
dinheiro roubado — para interferir na política brasileira. Comprando mídia,
patrocinando políticos e decidindo que pesquisa eleitoral podia vir a público.
As
instituições brasileiras impediram o plano desde o primeiro dia. A PF o
interrogou por três horas em Brasília, em 2021; o TSE exigiu contas da Gettr; o
STF sufocou a milícia digital.
O ódio
de Miller ao Brasil não é ideologia. É ressentimento pela oportunidade perdida
de não ter conseguido replicar no Brasil o mesmo tipo de golpe de que
participava nos EUA.
O que
exatamente ele assinou, ordenou e recebeu nos dois anos em que o Brasil foi a
menina dos olhos da Gettr? É o assunto da próxima parte desta série.
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O placar dos quatro
O
chinês vai apodrecer numa prisão federal americana. Eduardo Bolsonaro já foi
condenado pelo STF.
Paulo
Figueiredo, foragido do próprio país, está pendurado no recurso que tenta
salvar sua empresa da condenação em Connecticut. Jason Miller também espera
decisão judicial, no processo em que briga para não devolver o dinheiro
recebido das fachadas de Guo.
E
Miller ainda terá de responder, nos tribunais e diante da história, por suas
ligações com um dos maiores golpistas da história dos Estados Unidos.
• Resort do clã Trump desperta atos
anticorrupção na Albânia
Dezenas
de milhares de pessoas saíram às ruas neste sábado (04/07) em Tirana, capital
da Albânia, no maior protesto até o momento contra um projeto de construção de
um resort de luxo ligado à família do presidente americano, Donald Trump, numa
área próxima a uma reserva natural.
Foi a
35º vez que grupos de albaneses tomaram em protestos contra o projeto desde fim
de maio, quando surgiram notícias sobre a construção de um projeto turístico de
luxo por uma empresa ligada à filha de Trump, Ivanka, e seu marido, Jared
Kushner, em uma reserva natural na costa do Mar Adriático.
O
projeto de luxo tem duas frentes: um empreendimento no continente na zona da
Lagoa Vjosa-Narta, que é uma reserva de vida selvagem, e um resort na ilha
desabitada vizinha de Sazan, que serviu de base militar durante o regime
comunista da Albânia.
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Movimento mais amplo contra corrupção
Segundo
opositores, o sinal verde para o projeto e as autorizações avançaram sem
qualquer transparência.
A
oposição ao projeto também logo se transformou numa expressão de insatisfação
da população contra a corrupção no país. Os manifestantes têm exigido a
renúncia do primeiro-ministro da Albânia, Edi Rama, pelo que consideram falta
de transparência.
O
movimento foi apelidado de "Revolução dos Flamingos", em alusão às
aves de plumagem cor-de-rosa, que neste caso costumam migrar para a reserva
natural que pode ser afetada pela construção do resort.
"O
que começou com a Revolução dos Flamingos despertou um amplo descontentamento
público", declarou a manifestante Alketa Ademi, de 40 anos. "Falta de
transparência, arrogância. Chega! O primeiro-ministro tem que sair",
acrescentou.
Segundo
os manifestantes, o projeto hoteleiro, avaliado em 4,6 bilhões de dólares (R$
23,7 bilhões), representa um risco para o meio ambiente e a uma lagoa crucial
para a sobrevivência das aves migratórias que se instalam nos arredores da
Lagoa Vjosa-Narta. Além dos flamingos, a região abriga mais de 200 espécies
protegidas.
As
manifestações também foram reforçadas após Ivanka Trump revelar seu
envolvimento no projeto ao conceder entrevista a um podcast no fim de maio,
quando disse que o projeto seria o o "ponto culminante" de toda a sua
"experiência no mercado imobiliário". A forma como Ivanka descreveu
ter "descoberto" a ilha durante uma viagem em 2021 também irritou
vários albaneses.
O
movimento contrário ao resort vem denunciando o Estado de cumplicidade com
oligarcas que vêm se apropriando de valiosas terras costeiras, num processo que
consideram um exemplo de privatização de bens públicos.
Além da
demissão do primeiro-ministro socialista Edi Rama e do seu gabinete, os
manifestantes exigem a formação de um governo interino durante 12 meses,
reformas constitucionais que limitem a dois os mandatos do primeiro-ministro e
a revogação da lei dos "investimentos estratégicos", que consideram
responsável por facilitar tais empreendimento.
O
movimento exige ainda a saída de Sali Berisha, líder do Partido Democrático, da
oposição conservadora, a quem acusam de fazer parte de um sistema político que
consideram corrupto.
A
oposição à construção provocou a eclosão protestos diários em Tirana, onde na
quinta-feira a polícia usou bombas de gás lacrimogêneo e jatos d'água contra
manifestantes que tentavam chegar à sede do Parlamento.
Alguns
manifestantes responderam atirando ovos, pedras e outros objetos contra a
polícia. Naquele dia, 15 policiais ficaram feridos e 25 manifestantes foram
detidos, segundo as autoridades.
Fonte:
O Cafezinho/DW Brasil

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