Gustavo
Guerreiro: Reforma agrária e poder na Colômbia — onde o Estado termina e a
milícia começa
Há
algumas semanas, a Agência Nacional de Terras da Colômbia (ANT), ao invés de
produzir um relatório burocrático sobre “incidentes de segurança” no campo,
divulgou uma nota denunciando uma ameaça sistemática contra comunidades
beneficiárias da Reforma Agrária impulsionada pelo governo do presidente
Gustavo Petro.
Foram
identificados ataques violentos contra famílias camponesas que acabaram de se
estabelecer no departamento de Meta e em Córdoba e ameaças a comunidades
afrodescendentes em Tuluá.
Até
mesmo funcionários públicos responsáveis pelos programas de redistribuição de
terras estão sendo ameaçados. Tudo isso aconteceu em poucos meses.
O
contexto político torna o quadro ainda mais grave. Após a eleição presidencial
na Colômbia, com a vitória de Abelardo de la Espriella, de extrema-direita,
setores violentos ligados ao agronegócio, como latifundiários, posseiros e
grileiros sentiram-se autorizados a promover essa onda de violência contra os
beneficiários da reforma.
A
derrota do projeto político de Petro nas urnas foi lida, por esses grupos, como
um sinal verde para reverter na marra o que a política pública havia começado a
construir.
A
ministra da Agricultura, Martha Carvajalino, tem denunciado publicamente essa
escalada, alertando que os ataques visam desmontar, pelo terror, os avanços da
redistribuição fundiária antes mesmo da transição de governo.
Por que
a mera distribuição de terras ainda gera tanta violência, décadas após os
acordos de paz que se esperava pôr fim a meio século de conflito armado?
A
questão é incômoda pois põe em xeque a narrativa tranquilizadora de que a
violência no campo colombiano seria apenas um resquício do passado. Na verdade,
ela parece ser um reflexo de sistemas que nunca se permitiram mudar.
Não
estamos apenas perguntando “quem disparou” ou “quem mandou matar”, embora essas
respostas sejam importantes. Mas há outra questão: que tipo de ordem social
necessita tanto da violência para não tolerar nem mesmo a possibilidade de
mudança?
Na
história da Colômbia, assim como na maior parte da América Latina, a posse da
terra sempre representou mais do que um simples ativo econômico. Ela nunca
deixou de concentrar, simultaneamente, riqueza, poder político e controle
territorial.
Os
grandes proprietários rurais não se limitam a plantar soja ou criar gado. Eles
dominam o mercado de trabalho. Estabelecem quem está autorizado a circular.
Exercem influência sobre os governos locais, financiam eleições e decidem quais
serviços públicos são oferecidos ou não. A Reforma Agrária transforma relações
de poder que transcendem os documentos legais.
Cada
hectare redistribuído diminui o poder de antigas oligarquias sobre populações
inteiras do campo. Converte clientelismo em cidadania, dependentes em
proprietários, silenciados em sujeitos políticos.
Essa
mudança é inaceitável para aqueles que acumularam riquezas e poder político com
base na concentração de terras. A terra constitui a base estrutural do poder
político. Alterar a propriedade significa interferir em toda a estrutura
hierárquica da sociedade. E raramente as hierarquias se desfazem sem enfrentar
resistência.
Os
últimos episódios documentados pela ANT devem ser interpretados de acordo com
essa lógica.
Quando
uma família que acabou de se estabelecer em Meta é alvo de um ataque armado,
não se trata de uma disputa privada por limites de propriedade. O objetivo
estratégico por trás dessa violência é gerar um medo tão intenso que torne
impossível a implementação da política pública em sua totalidade.
A
lógica é evidente: se as primeiras famílias que se beneficiam da redistribuição
são ameaçadas ou mortas, as próximas dezenas ficam receosas em aceitar os
títulos de propriedade. Servidores públicos encarregados da execução temem por
suas vidas e as autoridades locais recuam, ou seja, a reforma falha antes mesmo
de se implementar.
Sem
rodeios, essa dinâmica se configura como um custo regulatório privado gerado
pela coerção. Quando o Estado começa a redistribuir direitos que desafiam uma
acumulação de poder consolidada, grupos armados tentam aumentar o custo
político dessa redistribuição até torná-la impossível.
A
violência não se caracteriza como um ato irracional de excessos. Trata-se de
cálculo. É uma abordagem. É política de outra forma, como já notou uma
determinada tradição teórica.
E o
cálculo ficou ainda mais favorável aos violentos com a vitória de De la
Espriella: a expectativa de um governo alinhado aos interesses do latifúndio
reduz drasticamente o risco de punição para quem ataca hoje.
O
método é eficaz exatamente porque o Estado colombiano ainda não mostrou nem a
capacidade nem a disposição de oferecer segurança total a quem se atreve a
aceitar terras que foram redistribuídas.
Embora
nada disso seja inédito na história da Colômbia, a atualidade da situação
confere um caráter ainda mais revelador à violência.
O Ponto
1 do Acordo de Paz assinado em 2016 entre o governo e as FARC está atrelado à
progressão da Reforma Agrária. Aquele pacto reconhecia que a extrema
concentração de terras e a ausência do Estado em áreas rurais haviam provocado
a guerra civil. Para que houvesse uma paz duradoura, era essencial redistribuir
terras e garantir que todos tivessem acesso democrático a recursos produtivos.
Foi
exatamente essa a aposta do governo Petro, que fez da compra e redistribuição
de terras — conduzida pela ANT sob a coordenação política da ministra Martha
Carvajalino — o eixo central de sua política rural.
Os
acontecimentos recentes demonstram que a execução desse acordo enfrenta
oposição precisamente nos locais onde deveria ter o maior efeito: nas bases
econômicas que sustentaram décadas de conflito.
Johan
Galtung, sociólogo norueguês que contribuiu para a fundação dos estudos da paz,
fez uma distinção entre paz negativa e paz positiva.
Paz
negativa é apenas a ausência de guerra, o descanso temporário das armas. A paz
positiva requer a mudança das estruturas sociais que geram violência.
A
Colômbia está aprendendo, de forma extremamente dolorosa, que os tratados
firmados em Havana ou Bogotá não são suficientes se as raízes da violência não
são alteradas. A distribuição equitativa da terra é o verdadeiro compromisso
para um processo de paz.
A
direita neoliberal afirma que toda política fundiária gera “insegurança
jurídica” ou “conflitos inevitáveis”. O pensamento liberal clássico argumenta
que redistribuições repentinas sempre desestabilizam os mercados e criam
tensões. Não por acaso, esse foi o discurso vitorioso nas urnas com De la
Espriella.
Contudo,
essa argumentação desconsidera o fato de que a maior insegurança sempre recaiu
sobre trabalhadores do campo, povos indígenas e comunidades afrodescendentes.
Essas
comunidades foram forçadas a deixar suas terras, enfrentando ameaças,
assassinatos e deslocamentos compulsórios por parte de fazendeiros, empresas,
grupos paramilitares e até mesmo agentes do governo.
A
“segurança jurídica” mencionada pelos grandes proprietários na Colômbia não é
outra coisa senão a formalização de violências históricas.
Proteger
os direitos de propriedade não pode ser uma forma de perpetuar as desigualdades
geradas pela violência. Ao considerar o direito de propriedade como um elemento
neutro, como se todas as propriedades fossem legitimamente adquiridas, está-se
ocultando que muitas das grandes fortunas fundiárias da Colômbia foram
construídas através de expulsões, massacres e grilagem.
A
Reforma Agrária não gera insegurança em um ambiente que já era estável. Ela
revela a violência que historicamente sustentou a concentração de terras, uma
violência que se mantinha oculta por ser considerada uma parte da “ordem
natural” das coisas.
A
questão não é se a redistribuição provoca disputas. A questão reside em
perceber que a perpetuação da concentração fundiária sempre resultou em atos de
violência, mas tais atos eram considerados aceitáveis, pois se dirigiam àqueles
que não possuíam a capacidade de identificar o problema.
A
solicitação da ANT por investigações minuciosas, responsabilização dos culpados
e proteção às comunidades em risco não é uma retórica burocrática.
É um
requisito fundamental para a própria implementação da política pública. Uma
reforma agrária é válida apenas se o Estado for capaz de garantir a segurança
daqueles que recebem a terra.
Do
contrário, presenciamos um teatro administrativo: documentos assinados, títulos
emitidos, discursos proferidos, enquanto, na prática, as estruturas de
dominação permanecem as mesmas, pois têm uma capacidade coercitiva que supera a
capacidade protetora do Estado.
Distribuir
riqueza sem salvaguardar vidas transforma direitos legais em meras promessas.
Emitir um título de propriedade desprotegido pelo Estado é como dar uma chave
sem fazer a porta. Pior: ciente de que do outro lado há pessoas armadas à
espera de uma invasão.
A
questão colombiana não reside nem na parte técnica nem na administrativa. Exige
que o Estado prove, de fato, que possui o monopólio legítimo da força em todo o
país, e não só nas grandes cidades.
É
necessário interromper a convivência tácita que dura décadas entre as
autoridades locais e os grupos armados que atendem a interesses relacionados à
terra — convivência que a nova conjuntura política, inaugurada pela vitória da
extrema-direita, ameaça transformar em cumplicidade aberta.
Em
última análise, é necessário escolher entre ser uma república democrática ou
continuar como um conjunto de feudos privados na Colômbia, onde a lei se aplica
apenas àqueles que não têm poder para desconsiderá-la.
Essa
realidade não se limita à Colômbia. Ela se refere a um padrão identificável na
maioria das sociedades desiguais que buscam democratizar seus ativos
estratégicos. Especialmente na América Latina, desde o acesso à terra, ao
crédito e à educação, ou a qualquer outro recurso cuja concentração mantenha
hierarquias estabelecidas: a resistência dos que estão em posição privilegiada
raramente ocorre de maneira tranquila. Raramente fica restrita aos tribunais.
Quando
privilégios que existem há muito tempo são postos em risco por políticas de
redistribuição, a resposta costuma mobilizar todos os recursos possíveis.
Econômicos, legais, da mídia e, quando necessário, através da força.
A
violência dirigida contra os beneficiários da Reforma Agrária de Petro na
Colômbia é um exemplo extremo, mas não é uma exceção isolada. É uma clara
demonstração de uma dinâmica que, de maneira mais ou menos discreta, está
presente em todas as sociedades que ainda não conseguiram superar suas
desigualdades.
Se a
mera redistribuição da terra provoca uma reação tão intensa, pode ser que isso
diga menos sobre os riscos da reforma e muito mais sobre os privilégios que ela
coloca em risco. Quando a chance de um camponês continuar em sua própria terra
depende de uma proteção constante do Estado contra milícias armadas, a questão
não é mais se a Reforma Agrária gera conflitos.
A
questão que se coloca é a seguinte: que tipo de ordem social necessita da
violência para evitar a democratização da terra? Por quanto tempo essa ordem
poderá ser considerada civilizada?
****
Movimentos
sociais do Brasil divulgam nota em solidariedade ao povo colombiano
Abaixo,
a íntegra da nota
SOLIDARIEDADE
AO POVO COLOMBIANO
A
Colômbia tem sido exemplo, nos últimos anos de construção do bem-sucedido
Acordo de paz e de respeito aos cidadãos, em particular aos mais humildes. No
entanto, mal terminam as eleições presidenciais e a violência volta a assolar
as comunidades rurais da nação irmã.
Na
semana de 22 a 26/06/2026, famílias beneficiárias da Reforma Agrária foram
vítimas de atos de intimidação, agressão, brutalidade, destruição de
propriedade em Antioquia, Cordoba, Meta e Valle del Cauca pondo em risco a vida
da população indígena, afro e camponesa.
O
Ministério da Agricultura e a Agência Nacional de Terras acionaram mecanismos
legais para garantir a segurança dos territórios conquistados e das famílias
assentadas que contam com total apoio jurídico para sua proteção e integridade.
Cabe a
solidariedade internacional de movimentos sociais e agencias públicas ao povo
colombiano que, cansado da violência e da guerra, vem demonstrando seu
compromisso com as medidas populares, como a redistribuição de terras,
empreendidas pelo Presidente Gustavo Petro e seu governo.
“El acceso a la tierra es la garantía material del
derecho a la vida digna y la soberanía alimentaria del campesinado. Es por ello
que la Reforma Agraria encarna la restitución de esa dignidad históricamente
arrebatada.” (Bogotá,
26 de junio de 2026. @AgenciaTierras).
Coletivo
Resistência Camponesa no Brasil
Comissão
Pastoral da Terra / CPT
Movimento
de Mulheres Camponesas / MMC
Movimento
dos Trabalhadores Rurais sem Terra/MST
Laboratório
Vivo de Agroecologia e Educação do Campo/NEA-UFRB
Rede
Social de Justiça e Direitos Humanos
Centro
Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela PAZ/CEBRAPAZ
Rede de
Pesquisa Observatório das Nacionalidades / ON-UECE
Revista
Tensões Mundiais/TM-EdUECE
Fonte:
Viomundo

Nenhum comentário:
Postar um comentário