terça-feira, 7 de julho de 2026

Bahia passa por tensão em meio às investigações do Master, que impulsionam ofensiva eleitoral

Enquanto as imagens dos caboclos seguiam pelas ruas estreitas do centro antigo de Salvador, no cortejo do 2 de Julho, grupos de militantes estavam estrategicamente posicionados nas esquinas para vaiar e provocar os adversários.

Cartazes com a frase "Jaques do Master" foram colados nos muros, em referência às relações do senador Jaques Wagner (PT) com o banco de Daniel Vorcaro. Paredões de som tocavam em sequência jingles que fustigavam o governador Jerônimo Rodrigues (PT), enquanto ACM Neto (União Brasil) era alvo de apupos da militância petista.

A crise do Master acirrou as tensões em torno da disputa eleitoral na Bahia, dando o tom da campanha que vai opor Jerônimo Rodrigues e ACM Neto, em uma reedição do embate de 2022. A expectativa é de uma eleição apertada, que pode ser decidida nos detalhes.

Jerônimo vinha em maré favorável, impulsionado por obras e pela retomada da popularidade do presidente Lula (PT). Mas sua base sofreu um abalo após operação da PF que investiga Jaques Wagner por suspeita de ter recebido pagamentos ligados ao banqueiro Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master. O senador nega ter cometido irregularidades.

A ação da PF deixou a base governista na Bahia atordoada. Cerca de dez dias após a operação, o PT iniciou uma reação no campo político, que passa pela construção de um discurso de unidade e uma defesa enfática de Jaques Wagner, considerado um pilar do grupo que governa a Bahia há 20 anos.

Na semana passada, o PT colocou nas redes uma campanha publicitária que reforça a parceria entre Jerônimo Rodrigues, Jaques Wagner e o ex-ministro Rui Costa.

A peça publicitária, batizada de "Três Irmãos", traz um jingle que ecoa uma canção gospel, com uma letra com versos como "com um amigo a gente nunca está só" e "na hora certa a gente dá a mão".

A propaganda já estava planejada e teve a sua veiculação antecipada. O objetivo era mostrar o grupo alinhado em meio às turbulências e disputas internas que opõem Jaques Wagner e Rui Costa.

Nos bastidores do PT, prevalece a leitura de que o impacto político da operação dependerá da evolução das investigações. Enquanto não houver novos desdobramentos, a orientação é evitar uma postura defensiva, sem permitir que o assunto domine a agenda política.

O governador Jerônimo Rodrigues reiterou sua confiança no senador: "O grupo sempre foi unido e a gente vai superar. Wagner se afastou, se reuniu com Lula para fazer a sua defesa e fazer a nossa campanha", disse ao jornal Folha de São Paulo na última quinta-feira (2).

Ao contrário de Lula, que afastou Jaques Wagner da liderança do governo no Senado, o governador manteve no cargo o secretário estadual de Meio Ambiente, Eduardo Sodré, enteado de Wagner que também é investigado pela Polícia Federal.

"Eu não pedi [o cargo] porque ele vai ter direito à defesa. Se tiver alguma coisa de condenação, voltaria a conversar com ele", disse.

Do outro lado, a oposição vem adotando uma postura mais contida sobre a operação da Polícia Federal em declarações públicas. A estratégia tem sido delimitar o tema ao campo da Justiça, levando o debate político para o embate em torno da gestão de Jerônimo.

"Nós vamos jogar dentro das quatro linhas da política. O que é assunto referente à Justiça, cabe à Justiça dar o direito ao contraditório, ampla defesa e julgar conforme a lei. E quem cometeu qualquer ato de improbidade deve ser responsabilizado", afirmou o prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil).

A crise do Master também resvala na oposição. Relatórios do Coaf apontaram que uma empresa de ACM Neto recebeu R$ 3,6 milhões do banco Master e da gestora Reag. O ex-prefeito de Salvador disse ter prestado serviços de consultoria e que os valores recebidos são lícitos e declarados.

Mesmo com sinalizações de uma possível trégua em torno da crise do Master, o tema voltou ao primeiro plano após declarações de Rui Costa na quinta (2). Ele citou o contrato da firma de ACM Neto com o Master e mencionou a esposa do ex-prefeito, sócia da empresa.

"Acho que é do contrato da esposa de ACM Neto, que também é consultora com ele do banco Master. Eu não sabia que ela era consultora também", disse Rui Costa após ser questionado pelo site Aqui só Política sobre as vaias aos petistas no cortejo do 2 de Julho.

Pré-candidato ao Senado na chapa de ACM Neto, o ex-ministro João Roma (PL) classificou o episódio como uma "agressão gratuita" à família do aliado.

Desde que deixou a Casa Civil do governo Lula, em abril, Rui Costa assumiu a linha de frente do embate com ACM Neto, com críticas ao ex-prefeito nas redes sociais e postura assertiva.

Enquanto isso, a oposição mira sua artilharia contra o governador Jerônimo. A avaliação é que a crise do Master envolvendo Wagner é um ingrediente adicional, mas o desgaste de duas décadas de gestão do PT na Bahia e temas como a segurança pública serão determinantes para o resultado da eleição.

Para criticar a chapa com Jerônimo, Rui e Wagner, os oposicionistas passaram a classificar o grupo como uma "panelinha", mesmo termo que o PT usou para atacar o grupo carlista nas eleições de 2006, primeira vencida pelo partido no Estado.

"É uma panelinha, as mesmas pessoas com vontade incansável pelo poder. Não é possível que na Bahia não existam pessoas que possam dar uma contribuição melhor do que os mesmos que estão governando o estado há 20 anos", afirmou ACM Neto.

Os petistas desdenham da tese da fadiga de material. Afirmam que o grupo não tem um líder, atua de forma coletiva e soube se reciclar ao longo das últimas duas décadas.

O desempenho do PT na Bahia é encarado como crucial para o presidente Lula, que em 2022 teve uma frente de 4 milhões de votos no estado na disputa contra Jair Bolsonaro (PL).

•        Wagner entre o Master e o TikTok

Mesmo sob o peso das investigações que apuram sua relação com o empresário Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master, o senador Jaques Wagner (PT) segue tentando exibir tranquilidade. Ontem (30), apareceu ao lado do governador Jerônimo Rodrigues (PT) e do ex-ministro Rui Costa (PT) na entrega da Policlínica de Saúde, em Camaçari. Nas redes sociais, Wagner faz questão de publicar fotos dos eventos e até mensagens de solidariedade, como a do próprio governador. Pelo visto, a estratégia é simples: manter o sorriso, posar para as câmeras e fazer de conta que nada aconteceu.

<><> Irritante

O problema é que a postura de Wagner de “fingir costume” tem irritado até correligionários nacionais petistas e psolistas, para os quais o senador foi, de fato, desmoralizado politicamente com as revelações sobre as suas relações perigosas com Guga, um ex-vendedor de abadá que ninguém conhecia na Bahia até sua fenomenal ascensão por meio do Credcesta, com a colaboração do governo estadual, que o catapultou à condição de player do sistema financeiro nacional. Para a maioria, Wagner deveria submergir até que os fatos fossem superados por novos.

<><> Tiktoker

Por falar no senador petista, ele decidiu usar o Facebook para impulsionar o próprio TikTok, onde tem mais de 58 mil seguidores. Segundo o portal da transparência do Senado, o baiano gastou R$ 7,5 mil com esse objetivo no mês de março deste ano. O valor é inferior aos R$ 12 mil que o senador Angelo Coronel (Republicanos) utilizou em janeiro, fevereiro e março. O outro membro da Bahia na Casa, Otto Alencar (PSD), que não está em campanha, não gastou nada da verba.

•        O PT venceu o timing da crise

desde o início da pré-campanha, sendo que a operação de busca e apreensão contra o senador Jaques Wagner (PT) colocou o campo governista na defensiva exatamente quando o caso “Dark Horse” ainda sangrava a pré-campanha de Flávio Bolsonaro.

A ação da Polícia Federal funcionou como um desafogo temporário para Flávio, que rapidamente buscou construir uma equivalência retórica entre o PT e os demais partidos parceiros de Daniel Vorcaro e Augusto Lima nas fraudes do Banco Master. O cálculo projetado por alguns no ambiente político local e em Brasília foi que o presidente Lula se afastaria da Bahia para se blindar de possíveis desgastes.

No entanto, a presença de Lula aqui na Bahia na semana passada deu fim às especulações. A agenda governista foi um sinal inequívoco de que o petista não cogita qualquer isolamento político do núcleo petista baiano, na medida em que inaugurou um hospital regional em Alagoinhas — impactando mais de 20 municípios da região com atendimento de média e alta complexidade —, deu pontapé inicial nas obras da Ponte Salvador-Itaparica e participou da reabertura do Teatro Castro Alves, o tempo inteiro ao lado de Jerônimo Rodrigues e do próprio Wagner.

Um segundo aspecto é que Lula sabe que depende da força coletiva da chapa para sair da Bahia com ampla votação na disputa presidencial. A fala do presidente contra ACM Neto durante a agenda deu o tom do cálculo que está posto: Lula não hesitará em se manter leal a Wagner e seguirá entendendo que o PT baiano é insubstituível na estratégia eleitoral nacional, quem sabe até para uma vitória ainda no primeiro turno.

Um terceiro ponto é a leitura que os baianos parecem ter feito da operação da PF, sendo que a pesquisa da Paraná Pesquisas realizada após a ação da PF e divulgada na véspera do feriado de independência não mostrou sinais de riscos reais à reeleição do senador. Wagner e Rui Costa seguem líderes na corrida ao Senado e Jerônimo Rodrigues alcançou aprovação de 52% com avaliação positiva de 37,1%, ligeiramente acima da negativa de 36,1%. A batalha do governador pela reeleição ainda reside nos 24,9% que avaliam o governo como regular.

Há ainda um elemento que devemos considerar neste momento: ACM Neto não pode encarnar o discurso anticorrupção enquanto carrega o bolsonarismo como alma mater da sua chapa e ainda pairam as perguntas sobre como se investiga Augusto Lima isolando do foco a sua relação com o ex-prefeito e com o ex-ministro João Roma.

De uma maneira geral, Lula e o PT baiano parecem ter vencido o timing da crise com altas doses de confiança política e coesão interna, são dimensões essenciais para seguir em frente rumo à disputa eleitoral.

•        Sidônio Palmeira tentou blindar presidente de aproximação com Jaques Wagner

Ministro-chefe da Secretaria de Comunicação do Governo, Sidônio Palmeira ficou mal com o PT da Bahia depois de orientar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a se afastar do senador Jaques Wagner (PT), com o objetivo de evitar que o chefe da Nação fosse contaminado pelo envolvimento do parlamentar com a lama do Banco Master. As informações são da coluna de Lauro Jardim em O Globo.

De acordo com o colunista, Sidônio, que comandou as campanhas de Wagner e do ex-ministro Rui Costa (PT) ao governo da Bahia, tentou "blindar" o presidente do escândalo que acabou por envolver o senador baiano, acusado pela Polícia Federal de atuar em favor do banqueiro Daniel Vorcaro na Bahia.

A avaliação de petistas próximos ao ex-líder do governo no Senado é que o ministro "quebrou a cara”. Na quarta-feira passada, Lula fez um desagravo público ao “companheiro de longa data” ao dividir palanque com Jaques Wagner em um evento na Bahia. Chegou a compará-lo a um irmão.

 

Fonte: Política Livre/A Tarde

 

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