O
patrimônio escondido em paraísos fiscais supera o da metade mais pobre da
humanidade
A riqueza
que os 0,1% mais ricos do planeta (5,5 milhões de pessoas) ocultam em paraísos
fiscais supera amplamente o patrimônio total da metade mais pobre da humanidade
(4 bilhões de pessoas). Esses são os dados revelados por um estudo publicado em
abril passado pela confederação de ONGs Oxfam International. A organização
estima que, em 2024, essa riqueza oculta atingiu três trilhões de euros, um
valor próximo ao PIB de países como a França e que dobra o PIB combinado dos 44
países mais pobres do mundo.
No
entanto, esse dado não reflete apenas a desigualdade patrimonial, mas também
ressalta que essa quantia colossal de dinheiro fica fora do alcance dos cofres
públicos e dos sistemas tributários, por estar escondida em paraísos fiscais,
contas opacas ou esquemas de engenharia fiscal que impedem sua tributação.
A
investigação da Oxfam coincide com o décimo aniversário dos “Panama Papers”, o
vazamento coordenado que revelou o uso massivo, por parte de empresários,
celebridades e líderes políticos de todo o mundo, para sonegar impostos. Desde
então, alguns organismos transnacionais, como a OCDE ou a União Europeia,
endureceram os mecanismos tributários, mas as grandes fortunas continuam
evitando pagar os impostos que lhes cabem.
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Os ricos sonegam porque o sistema permite
As
multinacionais e os milionários do mundo têm à sua disposição múltiplos
mecanismos e instrumentos para sonegar ou reduzir consideravelmente os impostos
que deveriam pagar. Em toda essa engenharia da fraude, os paraísos fiscais e as
empresas offshore desempenham um papel fundamental, e
estima-se que neles se encontrem cerca de 8% do PIB mundial (cerca de 10
trilhões de euros).
Além
disso, quem tem mais também possui maior conhecimento e capacidade para
explorar as brechas dos sistemas tributários, que, em alguns casos, recompensam
essa concentração de riqueza e têm um efeito regressivo sobre as rendas mais
baixas. Em muitas ocasiões, abriu-se o debate sobre a instauração de um imposto
mínimo global para as grandes fortunas, mas instituições como o EU Tax
Observatory criticam esse tipo de medida, argumentando que ela apenas confirma
e perpetua o fato de que os ultra-ricos são tributados a níveis muito inferiores aos de
outros contribuintes em proporção à sua riqueza, e que os governos não podem ou
não querem tornar eficaz o princípio da tributação progressiva.
Concretamente, os
multimilionários do mundo são tributados com alíquotas que variam de 0% a 0,5%. Isso não
significa que todos os grandes patrimônios paguem o mesmo nem que todos evadam
impostos, mas demonstra que o sistema lhes permite recorrer a artimanhas para
pagar muito menos do que o contribuinte médio.
A
responsável pela Justiça Fiscal da Oxfam na Espanha, Susana Ruiz, destaca o
caso do seu país, onde “o imposto sobre o patrimônio está concebido de tal
forma que permite aos mais ricos estruturar seu patrimônio para pagar muito
menos do que o conjunto da população”. Ruiz comenta que o resultado desse
desequilíbrio “é que oito em cada dez euros da arrecadação potencial do imposto
sobre o patrimônio são perdidos, e a alíquota efetiva paga pelos 0,1% mais
ricos é de 0,22%, muito distante dos 3,5% do imposto para as faixas mais
altas”.
Na
tentativa de alcançar a progressividade, também existe uma diferença muito
acentuada entre o norte e o sul global. O Relatório Social Mundial da ONU constata
que políticas fiscais justas são capazes de reduzir as desigualdades, mas que
isso ocorre sobretudo nos países industrializados, em comparação com os países
em desenvolvimento. Enquanto a Bélgica, a Finlândia ou a Dinamarca conseguiram
avanços para tributar suas grandes fortunas, nações como a Gâmbia ou o Camboja
carecem da capacidade técnica e jurídica para fazê-lo. Não se trata apenas dos
ricos desses países pagarem pouco, mas sim de seus governos nem mesmo
conseguirem saber quanto dinheiro e ativos eles possuem.
Ao
contrário do que se acredita, os paraísos fiscais geralmente não são ilhas
paradisíacas no Caribe ou no Pacífico; pelo contrário, é nas grandes economias
ocidentais que a fraude é permitida em primeiro lugar. Conforme afirma Bemnet
Agata, responsável pela comunicação da organização britânica Tax Justice
Network, que investiga a evasão tributária e a fraude fiscal, “os maiores
riscos costumam estar enraizados nas próprias grandes economias avançadas e nos
centros financeiros. Na UE, cerca de 34% do sigilo financeiro que ameaça os
Estados-membros provém de centros financeiros dentro da própria UE”.
Agata
destaca que essas instituições do capital desempenham um papel fundamental no
sistema financeiro mundial, facilitando a ocultação de lucros e patrimônio por
meio de sofisticados mecanismos jurídicos e financeiros: “O sigilo financeiro é
gerado e mantido por meio de decisões políticas e jurídicas deliberadas, e
muitos dos países mais envolvidos na facilitação desses fluxos de dinheiro não
constam de nenhuma lista negra, mas estão entre as maiores e mais influentes
economias e centros financeiros do planeta”.
Susana
Ruiz concorda com a ineficácia dessas listas: “Continuamos contando com listas
de paraísos fiscais que são meramente simbólicas e não cumprem sua função. Se
houvesse listagens eficazes e bem elaboradas, também seria possível implementar
sanções mais eficazes ou reforçar os controles”. Ruiz também propõe “reforçar a
transparência, tornar públicos os registros dos titulares reais de contas
bancárias, sociedades e trusts (fundos fiduciários), e coibir
as sociedades fantasmas ou de fachada, que não exercem atividade econômica real
e são um meio para a ocultação de ativos”.
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O trabalho é mais tributado do que a propriedade
Estruturalmente,
os sistemas tributários estão configurados não tanto para tributar as empresas
e a propriedade, mas sim os salários e o trabalho. Segundo a OCDE, nos países
desenvolvidos, aproximadamente metade da arrecadação provém de impostos sobre o
trabalho, enquanto o imposto sobre as sociedades representa cerca de 10% e os
impostos sobre a propriedade, cerca de 5%. Isso significa que a maior parte do
ônus fiscal recai sobre os salários e o consumo (o IVA, por exemplo, não leva
em conta a renda nem o patrimônio).
Susana
Ruiz, da Oxfam, destaca essa questão ao afirmar que “um dos problemas
essenciais é que os sistemas tributários são projetados para tributar a renda,
mas não tanto a riqueza ou o capital”. Ruiz explica que, nos níveis mais altos
da escada social, os ricos geralmente não geram renda do trabalho, mas sim
renda do capital, devido ao patrimônio que acumulam. “É evidente a incapacidade
do Imposto de Renda de Pessoa Física (IRPF) de tributar os indivíduos com maior
riqueza”, ressalta.
No caso
da UE, os dados da
Comissão Europeia mostram
que, em 2026, os impostos sobre o trabalho representarão 51,5% da receita
tributária total, enquanto os impostos sobre o capital e a propriedade ficarão
em torno de 21,6%. O Fundo Monetário Internacional (FMI) já alertou em várias
ocasiões que essa estrutura amplifica as desigualdades, uma vez que os sistemas
tributários tendem a depender de receitas mais fáceis de arrecadar, mas menos
progressivas, como o trabalho e o consumo, em detrimento de bases mais
concentradas e móveis, como o capital.
A OCDE também
destaca a
redução progressiva e a ampliação dos mecanismos de dedução e isenção do
imposto sobre as sociedades nas últimas décadas. Conhecida como race to
the bottom (competição para baixar salários e preços), essa tendência
limita a capacidade dos Estados de tributar os lucros das grandes empresas de
maneira eficaz.
A
consequência mais direta da evasão fiscal é que os Estados arrecadam menos
dinheiro e, portanto, têm menos recursos à disposição para implementar
políticas públicas. “A fraude fiscal costuma ser abordada como uma questão
técnica ou financeira, mas suas
consequências são muito tangíveis e se fazem sentir na vida cotidiana”,
afirma Agata, da Tax Justice Network. “Os efeitos recaem sobre a saúde e a
educação públicas, a habitação, o transporte, as infraestruturas, o cuidado
infantil, as aposentadorias e os sistemas de proteção social, ao mesmo tempo em
que enfraquecem a capacidade dos governos de responder de forma eficaz às
crises econômicas e climáticas, bem como às pandemias”, continua ela.
Na
Espanha, por exemplo, os cofres públicos deixam de arrecadar entre 4 e 8
bilhões de euros por ano devido à evasão fiscal das grandes fortunas –
principalmente empresas. Estima-se que, entre 2016 e 2021, a Espanha tenha
perdido 33 bilhões de euros (quase metade do orçamento destinado à Educação
Agata
comenta que, em muitas ocasiões, os governos tentam compensar essa queda na
receita pública por meio de formas de tributação regressivas, como o IVA,
cortes nos gastos públicos, contenção salarial, privatizações, austeridade e
endividamento público.
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Os mais ricos estão cada vez mais ricos
Nos
últimos trinta anos, a riqueza privada global cresceu oito
vezes mais do
que a pública (300 trilhões de euros contra 40 trilhões), o que contribuiu
enormemente para o aumento sustentado da concentração de riqueza daqueles que
se encontram no topo da pirâmide e para um aumento desproporcional da
desigualdade.
Desde
2015, o 1% mais rico do planeta aumentou seu patrimônio em cerca de 34 trilhões
de euros, uma quantia com a qual seria possível cobrir várias vezes o custo
estimado para a erradicação da pobreza extrema, de acordo com os parâmetros do
Banco Mundial. Nos anos posteriores a 2020, uma parte muito significativa de
toda essa nova riqueza gerada em escala mundial foi acumulada pelo 1% mais
rico.
Da
Oxfam, Susana Ruiz destaca que “nos últimos 15 anos, a riqueza das 200 famílias
mais ricas da Espanha cresceu 188%. A concentração de riqueza está se
acelerando e é preciso tratá-la de maneira diferente na tributação”, insiste
ela.
Com o
passar dos anos, também se consolidou o argumento de que aumentar os impostos
dos milionários faz com que eles deixem o país, mas os dados desmentem isso.
Segundo
dados da Tax Justice Network, a taxa de mobilidade anual dos milionários é de apenas 0,2%.
De
qualquer forma, Agata destaca que “a questão não é se os ricos vão embora, mas
se os governos têm a capacidade de elaborar e aplicar sistemas tributários para
tributar a riqueza de maneira justa, em vez de permitir que a política
tributária seja influenciada pelas preferências de uma elite de
megamilionários”.
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Sem vontade política para combater a fraude
Após os
vazamentos dos “Panama Papers”, a luta contra a fraude fiscal ganhou impulso,
mas esse ímpeto foi perdendo força ao longo dos anos. Vários países do G20 se
comprometeram a aprimorar seus mecanismos para identificar e punir os
fraudadores, mas a realidade é que não existe uma ação coordenada e realmente
eficaz, apesar de haver tecnologia para isso.
Basicamente,
a luta contra os paraísos fiscais gira em torno de algumas poucas diretrizes de
transparência estabelecidas por instituições como a OCDE. O eixo central é o
Common Reporting Standard, que facilita o intercâmbio de informações
financeiras entre países, mas nem todos os Estados — especialmente no Sul
Global — participam em condições equivalentes nem têm a mesma capacidade para
receber, processar e utilizar esses dados.
Em
resumo, há mais informações do que há uma década, mas ainda falta a vontade
política necessária para garantir que todo esse patrimônio sonegado, ou pelo
menos uma parte significativa dele, seja tributado como deveria. No âmbito das
Nações Unidas, também foi discutida a criação de uma convenção tributária
internacional que reforce a coordenação global, embora ela ainda esteja no
papel e não haja muito compromisso para levá-la adiante.
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Consumo dos 10% mais ricos gera prejuízos de até US$ 5,7
trilhões por ano ao planeta. Por Ana Bottallo
Enquanto
autoridades em ciência climática e governantes de todo o mundo
alertam para os efeitos da crise climática na vida e na
sociedade, os 10% da população mundial que mais consomem geram danos
ambientais estimados entre US$ 1,7 trilhão e US$ 5,7 trilhões (cerca de R$ 5,63
trilhões a R$ 18,9 trilhões, em valores ajustados à época) por ano.
O valor
supera os recursos necessários para financiar ações globais de combate às
mudanças climáticas e à perda de biodiversidade, segundo uma pesquisa
publicada no último dia 18 no periódico científico Communications Sustainability.
Em
termos individuais, os maiores consumidores do planeta causam danos
ambientais equivalentes a US$ 2.300 a US$ 7.500 (R$ 7.600 a R$ 24,8 mil)
por pessoa por ano. Mais da metade desse impacto concentra-se na perda da
biodiversidade (47% a 56% do total), seguida pelas mudanças climáticas (36% a
45%).
A
pesquisa, liderada por Paul Behrens, professor da Universidade de Oxford (Reino
Unido), com cientistas da Universidade de Leden (Holanda), comparou os danos
ambientais em quatro categorias (perda da biodiversidade, mudança climática,
ciclo do nitrogênio e uso de água e fósforo) e os maiores consumidores nos
Estados Unidos, China, Índia, Brasil, Alemanha e Egito em 2017.
No caso
do Brasil, os 10% mais ricos geram danos ambientais de US$ 1.500 a US$ 4.900
(cerca de R$ 4.900 a R$ 16,2 mil) por pessoa por ano, o equivalente a 1,6% a
5,3% da renda per capita do país. Nos EUA, os valores são significativamente
maiores e chegam a US$ 19 mil a US$ 63 mil (R$ 62,8 mil a R$ 208,4 mil) por
pessoa por ano, isto é, 6% a 20% da renda.
No
estudo, algumas das atividades com maior impacto ambiental são justamente
aquelas associadas à degradação dos ecossistemas, mas os pesquisadores não
avaliaram os impactos gerados pela mudança no uso de terra, que, no caso
brasileiro, é o principal fator que leva ao aumento das emissões de gases
estufa.
A perda
de biodiversidade responde a 53% dos dados associados ao consumo dos mais ricos
no Brasil, proporção superior à média global, o que reforça a importância desse
tipo de impacto no país.
Para o
pesquisador, o caso brasileiro é um exemplo do porquê biodiversidade e clima
não devem ser tratados como questões separadas.
“A
biodiversidade costuma ser tratada como um problema de segunda ordem, mas
precisamos enfrentar as duas crises simultaneamente.
A amazônia fornece regulação ambiental para todo o planeta, e já
vemos efeitos da crise climática sobre ela”, disse Behrens, em entrevista
à Folha.
“O
Brasil acaba de sediar a cúpula mundial do clima em Belém, que é
exatamente o lugar certo para se pensar ao ler esses números”, continuou o
autor. “Em nosso estudo, o maior custo não é o carbono, é a perda da natureza,
e isso é ainda mais verdadeiro para o Brasil do que para o mundo como um todo.”
Segundo
ele, o desmatamento reduz a biodiversidade e enfraquece a capacidade da
floresta de resistir a pressões, justamente aquelas causadas por mudança
climática. Ao mesmo tempo, o aquecimento global intensifica secas e ondas de
calor, exercendo nova pressão sobre o bioma.
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Valores bilionários, mas subestimados
Embora
os valores estimados já superem os recursos globais destinados ao combate
da crise climática e à conservação, Behrens afirma que os números são
provavelmente subestimados. “Nossos modelos são, no mínimo, muito
conservadores. E, mesmo assim, superam em muito o que os governos efetivamente
investem hoje.”
A
análise considerou apenas parte dos impactos ambientais associados ao consumo,
e o próprio autor reconhece que uma limitação é que os investimentos dos 10%
maiores consumidores devem multiplicar esses danos na ordem de dez a cem vezes.
No
entanto, a comparação entre os danos estimados e os recursos destinados à
mitigação ajuda a dimensionar a distância entre a escala global da crise
climática e os esforços mobilizados para enfrentá-lo.
“Não
queremos simplesmente falar sobre taxação [dos mais ricos], porque sabemos que
isso não funciona. Precisamos de uma responsabilização maior e uma mudança no
sistema. Se acabarmos com todos os recursos naturais, não haverá mais economia
para usufruir”, diz.
Mais do
que arrecadar recursos, essas medidas podem promover uma mudança cultural. “No
fim, não estamos falando apenas de proteger uma ave e seu habitat. Estamos
falando de condições necessárias para que nossas sociedades continuem
funcionando ao longo deste século.”
Fonte:
Por Alberto Mesas, em CTXT/FolhaPress

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