Efeito
Lula: sobram empregos; empresários diminuem escalas e aumentam benefícios
dificuldade
crescente das empresas brasileiras para contratar trabalhadores tem se
consolidado como um dos principais desafios da economia nacional. Mas, ao
contrário das crises de desemprego que marcaram décadas anteriores,
especialistas e empresários destacam que o atual cenário reflete um problema
considerado positivo: o Brasil vive um mercado de trabalho aquecido, com níveis
de desemprego próximos do chamado pleno emprego.
Pesquisa
da consultoria ManpowerGroup revela que oito em cada dez empregadores
brasileiros enfrentam dificuldades para encontrar profissionais qualificados,
situação que se repete há pelo menos cinco anos. O fenômeno ocorre em um
momento em que a taxa de desemprego do país permanece próxima das mínimas
históricas.
A
escassez é ainda mais acentuada entre trabalhadores com ensino superior.
Segundo levantamento da consultoria Robert Half, a taxa de desocupação desse
grupo foi de apenas 3,3% no primeiro trimestre deste ano, praticamente a metade
da taxa geral de desemprego, que ficou em 6,1%.
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As soluções
Reportagem
publicada em O Globo deste domingo, traz entrevistas com empresários de vários
setores. Praticamente todos apontam para a mesma dificuldade, ou seja,
encontrar mão de obra. Para resolver o problema, recorrem a diversas soluções
que vão desde diminuir jornadas até mudar operações para outras regiões.
A
tendência, segundo especialistas, é de agravamento da escassez de mão de obra
nos próximos anos, impulsionada por fatores demográficos, mudanças nas
expectativas dos trabalhadores e pela expansão do emprego formal.
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No ranking das contratações
O
Brasil ocupa atualmente a quarta posição entre 42 países com maior intenção de
contratação pelas empresas entre julho e setembro, segundo outra pesquisa da
ManpowerGroup. Dos 1.080 empregadores consultados no país, 52% afirmaram que
pretendem ampliar seus quadros de funcionários.
A
dificuldade é particularmente intensa nos grandes centros urbanos e em setores
que dependem de grande volume de trabalhadores, como comércio, tecnologia,
saúde e infraestrutura. Dados da plataforma Gupy mostram que o varejo liderou a
abertura de vagas no primeiro semestre, com destaque para supermercados.
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“Não tem gente para trabalhar”
A rede
mineira de supermercados Verdemar, que possui 17 lojas na Região Metropolitana
de Belo Horizonte e emprega cerca de 5,5 mil pessoas, mantém atualmente 500
vagas abertas — quase 10% de seu quadro total. Entre os cargos mais difíceis de
preencher estão operador de caixa, atendente de padaria, estoquista, repositor,
embalador e fiscal.
—
Estamos com dificuldade tremenda de preencher. Não tem gente para trabalhar em
BH. São vagas de primeiro emprego, exigem pouca experiência, mas o varejo hoje
não é atraente para muita gente, infelizmente — afirma Alexandre Poni, sócio e
diretor comercial da rede.
Mesmo
oferecendo salários compatíveis com o mercado e benefícios como plano de saúde,
a empresa enfrenta dificuldades para atrair candidatos. Em busca de
alternativas, implantou em parte das lojas uma escala diferenciada de trabalho,
com mais períodos de descanso semanal.
Segundo
Poni, a medida melhorou a atração de trabalhadores, mas elevou
significativamente os custos operacionais.
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Empresas flexibilizam exigências
A
escassez de profissionais também tem levado empresas a reverem seus critérios
de contratação. A Livraria Leitura, presente em todo o país com 136 unidades,
passou a flexibilizar o perfil de candidatos para cargos de entrada, incluindo
trabalhadores mais velhos.
— Era
muito comum na abertura de uma seleção ter 12 ou 15 candidatos por vaga. Hoje,
esse número caiu pela metade. Com menos inscritos, temos mais dificuldade em
encontrar pessoas com o perfil desejado — afirma André Teles, um dos sócios da
empresa.
O
problema, segundo ele, não está restrito a uma região específica do país.
— Vemos
esse problema em vários pontos do país, não é particular de uma região, nem
mesmo de uma cidade.
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Nordeste se torna polo de contratação
Diante
da escassez de mão de obra nos grandes centros, algumas empresas passaram a
direcionar investimentos para regiões com maior disponibilidade de
trabalhadores. A AeC, empresa de atendimento ao cliente, iniciou ainda em 2012
uma estratégia de expansão para cidades do Nordeste.
Hoje,
dos 56 mil funcionários da companhia, mais de 45 mil trabalham na região. A
empresa priorizou cidades médias, como Campina Grande (PB), Juazeiro do Norte
(CE) e Mossoró (RN), apostando principalmente na contratação de jovens em busca
do primeiro emprego.
Segundo
Alexandre Faria, vice-presidente de Pessoas e Serviços da companhia, a
combinação entre horários flexíveis, possibilidade de trabalho remoto e
oportunidades de crescimento interno contribuiu para reduzir a rotatividade.
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Profissionais especializados
A
escassez de mão de obra é ainda mais intensa nos setores que exigem
qualificação técnica e superior, refletindo uma deficiência histórica do Brasil
na formação de profissionais especializados. Na cadeia do petróleo, por
exemplo, faltam técnicos em áreas como soldagem, química e instrumentação, além
de engenheiros, cientistas de dados e administradores. Segundo o setor, há
cerca de 64 mil vagas abertas em toda a cadeia produtiva. Especialistas apontam
que a aposentadoria de profissionais mais experientes, aliada ao crescimento
acelerado de projetos e à concorrência de áreas como tecnologia e energia
renovável, agrava o problema, mesmo com salários elevados.
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Infraestrutura e energia
A
dificuldade também afeta os setores de infraestrutura e energia, onde a
contratação de profissionais especializados pode levar meses. Esse cenário
representa um paradoxo positivo: a falta de trabalhadores decorre menos da
ausência de vagas e mais de um mercado de trabalho aquecido e próximo do pleno
emprego, reforçando a necessidade de ampliar a qualificação profissional no
país.
• Lula inaugura até canteiro de obras e
túnel sem água na corrida contra o tempo para se reeleger
“Davi,
você está fazendo o que aqui?”. A pergunta, feita por Luiz Inácio Lula da Silva
na sexta-feira, 3, no fim de uma cerimônia no Palácio do Planalto, não era para
aquele interlocutor que o presidente terá de enfrentar, de agora em diante, se
quiser que projetos de interesse do governo, como o fim da escala 6x1, saiam da
gaveta antes das eleições.
Davi,
no caso, não atendia pelo sobrenome Alcolumbre, do poderoso presidente do
Senado. Era apenas um menino que estava no Salão Nobre do Planalto, na
cerimônia onde Lula anunciou inaugurações de obras e serviços nas áreas de
saúde, educação e moradia. Sentado no meio da plateia, o garoto só queria fazer
um pedido.
Com
Lula no papel de entrevistador, segurando um microfone à sua frente, Davi não
se fez de rogado. “Tem como você mandar pintar os muros de Salvador?”,
perguntou ele, de supetão. O presidente engatou uma promessa. “Ô, Jerônimo,
escuta aqui o que esse menino está dizendo”, apelou o petista, numa referência
ao governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT). “O povo está exigindo
pintura”, emendou, pedindo a Davi que também desse o seu recado, ao microfone,
para o prefeito Bruno Reis (União Brasil), rival do PT.
A cena
retrata bem um candidato em campanha. Às vésperas do fim do prazo determinado
pela lei para que agentes públicos interessados em concorrer às eleições
fizessem entregas, Lula correu contra o tempo para tirar projetos do papel. O
prazo se encerrou neste sábado, 4.
Durante
a maratona de viagens, o presidente inaugurou até mesmo o canteiro de obras da
ponte que vai ligar a capital baiana à Ilha de Itaparica, ao custo de R$ 11,6
bilhões.
“Finalmente,
saiu a Ponte Itaparica”, anunciou Lula, na quarta-feira. O ex-prefeito de
Salvador ACM Neto (União Brasil-BA), adversário de Jerônimo na disputa pelo
Palácio de Ondina, aproveitou o ato para fustigar o PT.
“Mas
saiu onde? Saiu para quem?”, provocou Neto. “Eles prometem isso há 20 anos! Eu
espero, sinceramente, que o presidente não esteja vivendo na Jerolândia, que é
o mundo paralelo de Jerônimo Rodrigues”.
De 19
de junho até o último dia 3, Lula participou de 19 agendas políticas em sete
Estados. Os principais focos do pacote de entregas, ainda que as obras não
estivessem prontas, foram saúde, educação, habitação, infraestrutura,
agricultura e segurança pública. Na lista dos investimentos anunciados se
destacavam R$ 140 bilhões para a Nova Indústria Brasil e R$ 97,3 bilhões para o
Plano Safra, além de R$ 600 milhões para a ferrovia Transnordestina.
Em duas
semanas, Lula desembarcou em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul,
Santa Catarina, Bahia, Ceará e Rio Grande do Norte. Fez visitas-relâmpago a
Divinópolis, Belo Horizonte, Rio, Paracambi/Piraí, Três Lagoas, Ponta Porã,
Campo Grande, Corumbá, Itajaí, Navegantes, Alagoinhas, Vera Cruz, Quixeramobim,
Juazeiro do Norte e Luís Gomes.
Além
disso, na sexta-feira – dia em que conheceu o menino Davi –, o presidente
acompanhou, diretamente do Planalto, uma série de inaugurações simultâneas em
12 cidades de sete Estados (São Paulo, Rio, Amazonas, Sergipe, Piauí, Alagoas e
Pernambuco).
Ministros
como Guilherme Boulos (Secretaria-Geral) e Alexandre Padilha (Saúde) e o
vice-presidente Geraldo Alckmin apareceram nas cerimônias pelo telão, que
exibia tudo ao vivo. No Salão Nobre e em algumas das cidades beneficiadas, a
plateia puxava o tradicional refrão da campanha petista – “Olê, olê, olê, olá,
Lula, Lula” –, entremeado por “Lula, guerreiro do povo brasileiro”.
Um dia
antes, na quinta, Lula inaugurou o túnel de irrigação Major Sales, no interior
do Rio Grande do Norte, sem uma única gota d´água. Ficou furioso e sobrou
bronca para todo mundo. “Cadê o dono da empresa que fez esse túnel?”, reclamou.
Vinte e
quatro horas depois, ainda inconformado, tentou explicar o que havia ocorrido
para eleitores que estavam no Planalto. “Eu fui inaugurar o último trecho da
transposição do São Francisco. Fui lá pensando que eu ia esperar a água chegar,
ia tomar um banho na água. Mas a empresa fez o cálculo errado. Ao invés de a
água chegar ao meio-dia, chegou à meia-noite.”
O
governo afirma que o túnel tem 6,5 quilômetros de extensão e capacidade para
transportar até 20 metros cúbicos de água por segundo. Lula incumbiu o ministro
da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, de redobrar os esforços
para divulgar “a maior obra de infraestrutura hídrica” da América Latina.
Apesar
de ter perdido votos no Nordeste, o presidente ainda tem na região o seu maior
reduto eleitoral. “Depois nós vamos colocar na televisão um vídeo das pessoas
esperando a água atravessar o túnel para levar água de um Estado para outro
Estado”, avisou.
Sem
esconder a irritação com a lei que proíbe entregas oficiais nos três meses que
antecedem o primeiro turno das eleições, Lula chamou as restrições de
“papagaiada desgraçada” e se comparou a Getúlio Vargas, o “pai dos pobres”. Nos
discursos, ele nunca cita o nome do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu
principal desafiante, mas não deixa dúvidas sobre o destinatário das críticas.
“Nós
temos agora o período de defeso. O defeso é para pesca. Você não pode pescar na
época da desova. E agora a gente não pode inaugurar mais nada até as eleições”,
queixou-se Lula. Mas não se deu por vencido: “Embora não possa inaugurar, eu
vou visitar muitas coisas que ainda tenho de visitar”.
Antes
de se despedir da plateia, ele puxou Davi pelo braço. “Aqui nesse governo vocês
percebem que não é só mulher que está com a bola toda. Aqui também as crianças
reivindicam”, insistiu. No Planalto, um auxiliar do presidente disse, no
entanto, que todos ali esperam uma guerra pela frente. E, para evitar o mal
maior, será preciso combinar o jogo com o outro Davi, que está do outro lado da
Praça dos Três Poderes.
Fonte:
Fórum/Poítica Livre

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