terça-feira, 7 de julho de 2026

Efeito Lula: sobram empregos; empresários diminuem escalas e aumentam benefícios

dificuldade crescente das empresas brasileiras para contratar trabalhadores tem se consolidado como um dos principais desafios da economia nacional. Mas, ao contrário das crises de desemprego que marcaram décadas anteriores, especialistas e empresários destacam que o atual cenário reflete um problema considerado positivo: o Brasil vive um mercado de trabalho aquecido, com níveis de desemprego próximos do chamado pleno emprego.

Pesquisa da consultoria ManpowerGroup revela que oito em cada dez empregadores brasileiros enfrentam dificuldades para encontrar profissionais qualificados, situação que se repete há pelo menos cinco anos. O fenômeno ocorre em um momento em que a taxa de desemprego do país permanece próxima das mínimas históricas.

A escassez é ainda mais acentuada entre trabalhadores com ensino superior. Segundo levantamento da consultoria Robert Half, a taxa de desocupação desse grupo foi de apenas 3,3% no primeiro trimestre deste ano, praticamente a metade da taxa geral de desemprego, que ficou em 6,1%.

<><> As soluções

Reportagem publicada em O Globo deste domingo, traz entrevistas com empresários de vários setores. Praticamente todos apontam para a mesma dificuldade, ou seja, encontrar mão de obra. Para resolver o problema, recorrem a diversas soluções que vão desde diminuir jornadas até mudar operações para outras regiões.

A tendência, segundo especialistas, é de agravamento da escassez de mão de obra nos próximos anos, impulsionada por fatores demográficos, mudanças nas expectativas dos trabalhadores e pela expansão do emprego formal.

<><> No ranking das contratações

O Brasil ocupa atualmente a quarta posição entre 42 países com maior intenção de contratação pelas empresas entre julho e setembro, segundo outra pesquisa da ManpowerGroup. Dos 1.080 empregadores consultados no país, 52% afirmaram que pretendem ampliar seus quadros de funcionários.

A dificuldade é particularmente intensa nos grandes centros urbanos e em setores que dependem de grande volume de trabalhadores, como comércio, tecnologia, saúde e infraestrutura. Dados da plataforma Gupy mostram que o varejo liderou a abertura de vagas no primeiro semestre, com destaque para supermercados.

<><> “Não tem gente para trabalhar”

A rede mineira de supermercados Verdemar, que possui 17 lojas na Região Metropolitana de Belo Horizonte e emprega cerca de 5,5 mil pessoas, mantém atualmente 500 vagas abertas — quase 10% de seu quadro total. Entre os cargos mais difíceis de preencher estão operador de caixa, atendente de padaria, estoquista, repositor, embalador e fiscal.

— Estamos com dificuldade tremenda de preencher. Não tem gente para trabalhar em BH. São vagas de primeiro emprego, exigem pouca experiência, mas o varejo hoje não é atraente para muita gente, infelizmente — afirma Alexandre Poni, sócio e diretor comercial da rede.

Mesmo oferecendo salários compatíveis com o mercado e benefícios como plano de saúde, a empresa enfrenta dificuldades para atrair candidatos. Em busca de alternativas, implantou em parte das lojas uma escala diferenciada de trabalho, com mais períodos de descanso semanal.

Segundo Poni, a medida melhorou a atração de trabalhadores, mas elevou significativamente os custos operacionais.

<><> Empresas flexibilizam exigências

A escassez de profissionais também tem levado empresas a reverem seus critérios de contratação. A Livraria Leitura, presente em todo o país com 136 unidades, passou a flexibilizar o perfil de candidatos para cargos de entrada, incluindo trabalhadores mais velhos.

— Era muito comum na abertura de uma seleção ter 12 ou 15 candidatos por vaga. Hoje, esse número caiu pela metade. Com menos inscritos, temos mais dificuldade em encontrar pessoas com o perfil desejado — afirma André Teles, um dos sócios da empresa.

O problema, segundo ele, não está restrito a uma região específica do país.

— Vemos esse problema em vários pontos do país, não é particular de uma região, nem mesmo de uma cidade.

<><> Nordeste se torna polo de contratação

Diante da escassez de mão de obra nos grandes centros, algumas empresas passaram a direcionar investimentos para regiões com maior disponibilidade de trabalhadores. A AeC, empresa de atendimento ao cliente, iniciou ainda em 2012 uma estratégia de expansão para cidades do Nordeste.

Hoje, dos 56 mil funcionários da companhia, mais de 45 mil trabalham na região. A empresa priorizou cidades médias, como Campina Grande (PB), Juazeiro do Norte (CE) e Mossoró (RN), apostando principalmente na contratação de jovens em busca do primeiro emprego.

Segundo Alexandre Faria, vice-presidente de Pessoas e Serviços da companhia, a combinação entre horários flexíveis, possibilidade de trabalho remoto e oportunidades de crescimento interno contribuiu para reduzir a rotatividade.

<><> Profissionais especializados

A escassez de mão de obra é ainda mais intensa nos setores que exigem qualificação técnica e superior, refletindo uma deficiência histórica do Brasil na formação de profissionais especializados. Na cadeia do petróleo, por exemplo, faltam técnicos em áreas como soldagem, química e instrumentação, além de engenheiros, cientistas de dados e administradores. Segundo o setor, há cerca de 64 mil vagas abertas em toda a cadeia produtiva. Especialistas apontam que a aposentadoria de profissionais mais experientes, aliada ao crescimento acelerado de projetos e à concorrência de áreas como tecnologia e energia renovável, agrava o problema, mesmo com salários elevados.

<><> Infraestrutura e energia

A dificuldade também afeta os setores de infraestrutura e energia, onde a contratação de profissionais especializados pode levar meses. Esse cenário representa um paradoxo positivo: a falta de trabalhadores decorre menos da ausência de vagas e mais de um mercado de trabalho aquecido e próximo do pleno emprego, reforçando a necessidade de ampliar a qualificação profissional no país.

•        Lula inaugura até canteiro de obras e túnel sem água na corrida contra o tempo para se reeleger

“Davi, você está fazendo o que aqui?”. A pergunta, feita por Luiz Inácio Lula da Silva na sexta-feira, 3, no fim de uma cerimônia no Palácio do Planalto, não era para aquele interlocutor que o presidente terá de enfrentar, de agora em diante, se quiser que projetos de interesse do governo, como o fim da escala 6x1, saiam da gaveta antes das eleições.

Davi, no caso, não atendia pelo sobrenome Alcolumbre, do poderoso presidente do Senado. Era apenas um menino que estava no Salão Nobre do Planalto, na cerimônia onde Lula anunciou inaugurações de obras e serviços nas áreas de saúde, educação e moradia. Sentado no meio da plateia, o garoto só queria fazer um pedido.

Com Lula no papel de entrevistador, segurando um microfone à sua frente, Davi não se fez de rogado. “Tem como você mandar pintar os muros de Salvador?”, perguntou ele, de supetão. O presidente engatou uma promessa. “Ô, Jerônimo, escuta aqui o que esse menino está dizendo”, apelou o petista, numa referência ao governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT). “O povo está exigindo pintura”, emendou, pedindo a Davi que também desse o seu recado, ao microfone, para o prefeito Bruno Reis (União Brasil), rival do PT.

A cena retrata bem um candidato em campanha. Às vésperas do fim do prazo determinado pela lei para que agentes públicos interessados em concorrer às eleições fizessem entregas, Lula correu contra o tempo para tirar projetos do papel. O prazo se encerrou neste sábado, 4.

Durante a maratona de viagens, o presidente inaugurou até mesmo o canteiro de obras da ponte que vai ligar a capital baiana à Ilha de Itaparica, ao custo de R$ 11,6 bilhões.

“Finalmente, saiu a Ponte Itaparica”, anunciou Lula, na quarta-feira. O ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil-BA), adversário de Jerônimo na disputa pelo Palácio de Ondina, aproveitou o ato para fustigar o PT.

“Mas saiu onde? Saiu para quem?”, provocou Neto. “Eles prometem isso há 20 anos! Eu espero, sinceramente, que o presidente não esteja vivendo na Jerolândia, que é o mundo paralelo de Jerônimo Rodrigues”.

De 19 de junho até o último dia 3, Lula participou de 19 agendas políticas em sete Estados. Os principais focos do pacote de entregas, ainda que as obras não estivessem prontas, foram saúde, educação, habitação, infraestrutura, agricultura e segurança pública. Na lista dos investimentos anunciados se destacavam R$ 140 bilhões para a Nova Indústria Brasil e R$ 97,3 bilhões para o Plano Safra, além de R$ 600 milhões para a ferrovia Transnordestina.

Em duas semanas, Lula desembarcou em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Bahia, Ceará e Rio Grande do Norte. Fez visitas-relâmpago a Divinópolis, Belo Horizonte, Rio, Paracambi/Piraí, Três Lagoas, Ponta Porã, Campo Grande, Corumbá, Itajaí, Navegantes, Alagoinhas, Vera Cruz, Quixeramobim, Juazeiro do Norte e Luís Gomes.

Além disso, na sexta-feira – dia em que conheceu o menino Davi –, o presidente acompanhou, diretamente do Planalto, uma série de inaugurações simultâneas em 12 cidades de sete Estados (São Paulo, Rio, Amazonas, Sergipe, Piauí, Alagoas e Pernambuco).

Ministros como Guilherme Boulos (Secretaria-Geral) e Alexandre Padilha (Saúde) e o vice-presidente Geraldo Alckmin apareceram nas cerimônias pelo telão, que exibia tudo ao vivo. No Salão Nobre e em algumas das cidades beneficiadas, a plateia puxava o tradicional refrão da campanha petista – “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula” –, entremeado por “Lula, guerreiro do povo brasileiro”.

Um dia antes, na quinta, Lula inaugurou o túnel de irrigação Major Sales, no interior do Rio Grande do Norte, sem uma única gota d´água. Ficou furioso e sobrou bronca para todo mundo. “Cadê o dono da empresa que fez esse túnel?”, reclamou.

Vinte e quatro horas depois, ainda inconformado, tentou explicar o que havia ocorrido para eleitores que estavam no Planalto. “Eu fui inaugurar o último trecho da transposição do São Francisco. Fui lá pensando que eu ia esperar a água chegar, ia tomar um banho na água. Mas a empresa fez o cálculo errado. Ao invés de a água chegar ao meio-dia, chegou à meia-noite.”

O governo afirma que o túnel tem 6,5 quilômetros de extensão e capacidade para transportar até 20 metros cúbicos de água por segundo. Lula incumbiu o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, de redobrar os esforços para divulgar “a maior obra de infraestrutura hídrica” da América Latina.

Apesar de ter perdido votos no Nordeste, o presidente ainda tem na região o seu maior reduto eleitoral. “Depois nós vamos colocar na televisão um vídeo das pessoas esperando a água atravessar o túnel para levar água de um Estado para outro Estado”, avisou.

Sem esconder a irritação com a lei que proíbe entregas oficiais nos três meses que antecedem o primeiro turno das eleições, Lula chamou as restrições de “papagaiada desgraçada” e se comparou a Getúlio Vargas, o “pai dos pobres”. Nos discursos, ele nunca cita o nome do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu principal desafiante, mas não deixa dúvidas sobre o destinatário das críticas.

“Nós temos agora o período de defeso. O defeso é para pesca. Você não pode pescar na época da desova. E agora a gente não pode inaugurar mais nada até as eleições”, queixou-se Lula. Mas não se deu por vencido: “Embora não possa inaugurar, eu vou visitar muitas coisas que ainda tenho de visitar”.

Antes de se despedir da plateia, ele puxou Davi pelo braço. “Aqui nesse governo vocês percebem que não é só mulher que está com a bola toda. Aqui também as crianças reivindicam”, insistiu. No Planalto, um auxiliar do presidente disse, no entanto, que todos ali esperam uma guerra pela frente. E, para evitar o mal maior, será preciso combinar o jogo com o outro Davi, que está do outro lado da Praça dos Três Poderes.

 

Fonte: Fórum/Poítica Livre

 

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