terça-feira, 7 de julho de 2026

Expansão territorial e populacional dos EUA em 250 anos transformou o país em uma potência marcada por divisões

Nos 250 anos desde que os EUA declararam sua independência da Grã-Bretanha, a nação cresceu de um conjunto pouco povoado de assentamentos dispersos ao longo da costa atlântica para uma potência global que se estende por todo um continente e além.

Partindo das 13 colônias originais que cobriam 430.000 milhas quadradas (1,1 milhão de quilômetros quadrados), sua extensão geográfica aumentou oito vezes, para aproximadamente 3,7 milhões de milhas quadradas.

A população dos EUA passou por uma expansão igualmente dramática. Em 1790, ano do primeiro censo americano, havia aproximadamente quatro milhões de americanos, incluindo escravos. Em 2025, esse número havia crescido para 343 milhões – um aumento de 8.475%.

Embora os Estados Unidos de hoje possam ser praticamente irreconhecíveis para os fundadores da nação há 250 anos, as influências culturais e políticas no país provavelmente lhes seriam familiares.

Em retrospectiva, é possível rastrear muitas das principais promessas políticas do presidente Donald Trump — limitar a imigração e expandir o poder e o território dos EUA — até as primeiras distinções e divisões do país.

Os fundadores dos Estados Unidos tinham grandes esperanças para sua nova nação. Seu sucesso, no entanto, estava longe de ser garantido. Debates acalorados sobre a escravidão, a constituição e o sistema econômico e político criaram divisões evidentes na população.

Embora o país quase tenha dobrado de tamanho após a compra do território da Louisiana da França em 1803, quando os EUA entraram em guerra novamente com a Grã-Bretanha em 1812, não era garantido que a nação resistiria.

"Qualquer pessoa que tenha observado as colônias tentando criar esta nação diria: tudo o que precisamos fazer é ficar aqui e esperar até que elas se desintegrem para depois voltar e reconstruí-las", disse Heather Cox Richardson, professora de história dos EUA no Boston College e autora de Letters From an American, disponível no Substack.

Embora o futuro da América naqueles primeiros anos fosse incerto, as forças que contribuíram para a trajetória futura da nação já estavam estabelecidas.

Colin Woodard, diretor do Laboratório de Nacionalidade da Universidade Salve Regina, divide os EUA em uma série de identidades distintas, ligadas a essas primeiras fissuras.

A região norte, que Woodard chama de "Yankeeland", tem suas raízes nos primeiros colonos puritanos que fugiram da perseguição religiosa na Europa, com adições posteriores de colonos alemães e escandinavos ajudando a consolidar uma visão pluralista.

Uma faixa central, que ele denomina "Grande Apalaches", foi inicialmente povoada por escoceses e irlandeses de espírito independente. Sua visão política, moldada em parte pela experiência com a opressão inglesa nas ilhas britânicas, era muito mais desconfiada da autoridade governamental.

"Para eles, liberdade significa maximizar a autonomia e a liberdade do indivíduo, e qualquer aumento no poder do governo significa, axiomaticamente, que os indivíduos são menos livres", disse Woodard. "É o oposto da filosofia ianque da Grande Nova Inglaterra."

Enquanto isso, o Sul profundo era constituído por uma classe de proprietários de terras, alguns dos quais haviam se mudado de plantações escravistas no Caribe, que formavam uma "sociedade oligárquica e hierárquica".

Embora a identidade americana seja definida pelas culturas concorrentes daqueles que chegaram do exterior, o primeiro século completo da existência dos Estados Unidos incluiria a tentativa concertada de apagar a cultura dos povos indígenas que ocuparam a terra durante séculos antes da chegada dos primeiros europeus ao Atlântico.

À medida que a nação continuava a expandir-se para oeste, o movimento adquiriu uma força ideológica própria, uma vez que alguns americanos acreditavam que era o "destino manifesto" da nação expandir-se não apenas até o Pacífico, mas por todo o Hemisfério Ocidental.

Essa expansão territorial levou essas culturas a novos pontos de convergência e conflito. O interior do oeste, com sua paisagem inóspita, assemelhava-se mais à região selvagem dos Apalaches e atraía indivíduos com visões individualistas igualmente austeras. Ao longo da costa do Pacífico, esses valores entraram em conflito com os dos comerciantes e marinheiros que haviam se mudado do nordeste americano.

Na era moderna, essas divisões são evidentes em um mapa eleitoral presidencial – com os "estados vermelhos" controlados pelos republicanos e os "estados azuis" controlados pelos democratas. O nordeste dos EUA e a Costa Oeste são conhecidos como bastiões do liberalismo – e muito mais favoráveis à intervenção do governo no cotidiano – enquanto o sul americano, do Texas à Flórida, e o interior do oeste se tornaram o baluarte do conservadorismo republicano.

Embora os EUA tenham praticamente parado de se expandir geograficamente no final do século 19, a população continuou a crescer drasticamente - em grande parte devido à imigração.

"Uma das coisas que realmente está no centro dos Estados Unidos da América é a imigração", disse Richardson. "A única coisa que nos une é o conceito de que podemos construir o futuro que desejamos."

A primeira onda migratória começou na década de 1840 e durou até 1889, trazendo aproximadamente 14 milhões de pessoas para as costas do país, principalmente de nações do norte e oeste da Europa.

A onda seguinte, com mais de 18 milhões de migrantes, veio do sul e do leste da Europa e estendeu-se de 1890 até a década de 1920. Com cada onda, veio uma reação inevitável, à medida que os americanos temiam que os recém-chegados tomassem seus empregos e ameaçassem seu modo de vida. Cotas e legislação restritiva, como a Lei de Exclusão Chinesa, logo se seguiram.

A Lei de Imigração de 1924 limitou a imigração de forma tão drástica que isso pode ser percebido por uma nítida curvatura no gráfico de crescimento populacional anual dos EUA.

A onda migratória mais recente começou na década de 1960, quando essas restrições foram suspensas. Desde então, mais de 70 milhões de imigrantes entraram nos EUA, muitos vindos da Ásia e da América Latina, incluindo aproximadamente 18 milhões apenas do México.

Em 2024, 14,8% da população dos EUA era composta por imigrantes – um número equivalente ao pico histórico de 1890, segundo o Migration Policy Institute. A imigração foi responsável por 84% do crescimento populacional total dos EUA.

Segundo Woodard, as primeiras ondas de imigração – impulsionadas principalmente pela industrialização – ajudaram a aumentar o poder político do norte americano.

E esse desequilíbrio geográfico contribuiu para alimentar ainda mais as divisões ideológicas.

Os líderes do Sul pressionaram pela expansão territorial – e pela expansão dos estados escravistas – para garantir a manutenção do poder político em nível nacional, antes de se separarem completamente, dando início à Guerra Civil.

Mas as tendências modernas inverteram essa divisão geográfica. Muitos imigrantes — e pessoas vindas do norte — são agora atraídos para o sul, especialmente pelas economias pujantes das cidades do Texas e da Flórida. Enquanto isso, uma recente onda de imigrantes ilegais na fronteira sul dos EUA aumentou as tensões.

O conservadorismo populista de Trump, portanto, pode ser visto como uma resposta às mudanças nos centros de poder dos Estados Unidos.

Ao retornar à Casa Branca, Trump cumpriu sua promessa de campanha de promover deportações em massa.

Entretanto, ele expressou nostalgia pela expansão territorial do século 19, falando em adquirir a Groenlândia, repatriar o Canal do Panamá e adicionar o Canadá e a Venezuela como o "51º estado" dos Estados Unidos.

Sua versão do expansionismo americano é, portanto, uma espécie de imagem espelhada dos últimos 250 anos de história. O país passou seu primeiro século expandindo-se fisicamente, depois parou de tentar conquistar novos territórios e se concentrou — às vezes hesitante — em abrir a nação para imigrantes.

Agora, Trump mudou de rumo, com o objetivo de expandir novamente as fronteiras físicas dos Estados Unidos e limitar o número de pessoas que o país permite entrar.

Trump e seus apoiadores afirmam que o caráter da nação americana corre o risco de ser alterado de forma fundamental e permanente. "Não teremos mais um país" é um refrão comum de Trump sobre os perigos da imigração em massa.

"Isso não surge do nada", disse Woodard. "Temos a metaluta na história americana: somos uma nação cívica dedicada a... uma sociedade onde cada indivíduo possa ser igualmente, universalmente e sustentavelmente livre ao longo do tempo? Ou este é um estado que pertence a um certo grupo de pessoas que são os verdadeiros americanos por sangue e descendência?"

Na imensidão da história mundial, 250 anos são um mero instante, um lampejo, um piscar de olhos. Mas para os EUA, 250 anos foram transformadores – mesmo que as divisões no âmago da nação e as preocupações com o seu futuro tenham sido uma constante.

¨      Como EUA comemoraram aniversário de 250 anos

Os Estados Unidos comemoraram seu 250º aniversário com fogos de artifício e aviões, mas as celebrações em todo o país foram influenciadas por condições climáticas extremas.

"O sonho americano está de volta", disse o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a uma multidão entusiasmada durante um comício realizado no National Mall, em Washington, antes do que ele descreveu como a maior queima de fogos de artifício do mundo.

O feriado federal de 4 de julho comemora a assinatura da Declaração de Independência pelas 13 colônias dos EUA em 1776, que pôs fim ao domínio britânico.

Apesar das comemorações, Trump foi criticado por se colocar no centro do evento e por politizar as celebrações.

O discurso do presidente, que terminou pouco antes da meia-noite, no horário local, abordou temas políticos como a rejeição do comunismo, seu apoio ao Save America Act [projeto de lei que pretende modificar algumas regras eleitorais no pais] e o direito de portar armas.

"Viva a causa da independência", disse Trump.

"Que ela reine para sempre e sempre e sempre. Estaremos sempre no topo, nunca deixaremos nosso país cair, seremos sempre os melhores."

Ao encerrar o discurso, Trump chamou o momento de "apenas o alvorecer da era de ouro da América", cujo destino está "escrito por Deus".

As comemorações em Washington D.C. foram adiadas devido a uma tempestade, que forçou a evacuação do National Mall no início da noite.

Os visitantes que compareceram ao evento foram orientados a procurar abrigo temporário em prédios próximos.

Após a tempestade, as festividades recomeçaram, e incluíram uma apresentação aérea com o novo Air Force One, o avião presidencial, e um concerto com orquestra.

O grande final — o espetáculo de fogos de artifício — terminou por volta da 1h da manhã, no horário local.

A pequena multidão no Capitólio aplaudiu antes de se dirigir rapidamente para as saídas, quando começou a garoar.

Pessoas vieram de todo os EUA para participar das comemorações. Foi o caso de Tammy Wapshott, que veio da Carolina do Sul e planejava a viagem a Washington D.C. desde novembro do ano passado.

Ela disse à BBC que tinha vindo para celebrar "o melhor país do mundo", onde todos eram "livres para fazer o que quisessem".

Cerca de 400 membros do grupo nacionalista branco Patriot Front foram vistos carregando bandeiras dos EUA enquanto marchavam em uníssono pelas ruas da capital.

Vídeos publicados nas redes sociais mostram os membros mascarados e uniformizados marchando perto do Capitólio e da Union Station, o principal terminal ferroviário de passageiros da cidade.

<><> Shows, cachorro-quente e cerimônias de naturalização

As acusações de que Trump politizou o aniversário de 250 anos dos EUA surgiram a partir do lançamento do Freedom 250, um comitê de eventos financiado pela iniciativa privada para competir com a comissão America 250, estabelecida pelo Congresso dos EUA.

Como parte das comemorações bipartidárias do aniversário de 250 anos da América, comunidades em todo o país participaram da "Festa de Rua da América" e organizaram encontros locais.

Músicos como Ne-Yo, Mary J. Blige, The Smashing Pumpkins, Chaka Khan, Christina Aguilera e Will Smith se apresentaram por todo o país.

Na quinta-feira (2/7), membros do Congresso se reuniram no "berço da América", o local onde a Declaração foi assinada em 1776, no Independence Hall, que fica na Filadélfia.

Os organizadores do America 250 também enterraram uma cápsula do tempo, que deverá ser aberta daqui a 200 anos.

A cápsula tem uma garrafa de Coca-Cola, uma cópia assinada da Constituição e artefatos dos 50 Estados e territórios dos EUA.

Em Mount Vernon, na Virgínia — a propriedade do primeiro presidente dos EUA, George Washington — uma cerimônia de naturalização acolheu 150 pessoas de 50 países como cidadãos americanos.

A cidade de Nova York sediou seu concurso anual de quem come mais cachorro-quente, uma tradição que acontece desde 1972.

Na edição de 2026, Joey Chestnut conquistou seu 18º título. Chestnut devorou 66 cachorros-quentes em 10 minutos, segundo a CBS, parceira da BBC nos Estados Unidos.

Na competição feminina, Miki Sudo comeu 38 cachorros-quentes, e conquistou seu 12º título.

Chris Cornell, que viajou de Maryland até a capital, rejeitou a ideia de que as comemorações do 250º aniversário dos EUA tivessem se tornado políticas.

"Estamos todos aqui apenas para celebrar o nosso país", disse ele.

<><> Ondas de calor e cortes de energia

Alguns eventos relacionados ao Dia da Independência foram cancelados ou temporariamente suspensos devido ao calor intenso na costa leste dos EUA nesta semana.

O desfile do Dia da Independência organizado pelo Serviço Nacional de Parques em Washington D.C. foi cancelado na sexta-feira (3/7), e outras comemorações também foram suspensas em Nova Jersey, Pensilvânia, Maryland e Colorado.

Washington D.C. registrou temperaturas de 37°C no sábado, quando as principais comemorações começaram.

Algumas das temperaturas mais altas registradas no sábado incluíram 41°C em Nova Jersey e 38°C em Delaware.

Cerca de 750 mil propriedades em Wisconsin, Michigan, Illinois, Pensilvânia, Ohio, Nova York e Nova Jersey ficaram sem energia por causa a condições climáticas extremas, de acordo com o site Power Outage.

A empresa de energia DTE informou que as condições climáticas severas, com ventos superiores a 97 km/h na noite de sexta-feira (3/7) em Michigan, deixaram mais de 350 mil residências sem energia no estado.

<><> Ex-presidentes falaram sobre a comemoração

Os quatro ex-presidentes americanos ainda vivos compartilharam mensagens para marcar o aniversário de 250.

Joe Biden lembrou o princípio da Declaração de Independência de que todas as pessoas foram criadas iguais.

"Escolhemos esse caminho há 250 anos, mas foi aí que o trabalho começou, não onde terminou", disse ele, acrescentando que a promessa da nação de igualdade para todos era um trabalho em andamento.

O primeiro presidente negro do país, Barack Obama, compartilhou novamente trechos de um discurso recente que fez na inauguração de seu museu presidencial em junho, quando disse que "cada geração deve assumir o trabalho inacabado da anterior e levá-lo adiante".

O 43º presidente americano, George W. Bush, disse: "Os próximos 250 anos exigem que os americanos sejam cidadãos, não espectadores."

Enquanto isso, seu antecessor, Bill Clinton, aproveitou o momento para comentar sobre a política americana atual.

"Hoje, celebramos este marco em meio a outro período de profunda divisão, renovadas dúvidas sobre o futuro da América e seu papel no mundo, e sérias ameaças às nossas próprias instituições e à nossa democracia", disse ele.

 

Fonte: BBC News na América do Norte

 

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