terça-feira, 7 de julho de 2026

O bom combate

O site A Terra é Redonda desempenha um papel importantíssimo ao promover o bom combate, abrindo espaço para o “fogo amigo”, mesmo que cause desconforto intelectual àqueles que são aliados. Afinal, o conhecimento sobre o real é uma construção coletiva, portanto, colaborativa, necessitando, apenas, que certos pressupostos sejam garantidos: rigor, método, objetividade dos fatos histórico-sociais, radicalidade (ir até a raiz dos problemas, fazendo as mediações necessárias entre o micro e macrossocial, considerando as contradições da realidade, suas permanências e mudanças), análise de conjunto da totalidade social e honestidade para dizer de onde se situa. Ainda que seja o sujeito que conheça, o conhecimento é condicionado historicamente, daí a materialidade do real. Logo, a subjetividade é objetivada.

Tendo por princípio o bom combate e o fogo amigo, permito-me trazer e compartilhar algumas ponderações visando acrescentar mais munição para a discussão, reflexão e posicionamento perante algumas das questões aventadas. Para isso, irei tomar emprestada algumas assertivas de Daniel Afonso da Silva “Notas sobre as universidades públicas”; Thiago de Araújo Pinho “Em defesa do anti-identitarismo”, Felipe de Sena e Silva “Uma reflexão sobre o Manifesto” – todos postados em 2026 no site A Terra é Redonda – e como não poderia faltar, o próprio “Manifesto pelo pluralismo e pela liberdade de cátedra”.

Iniciamos com Daniel Afonso da Silva, um dos professores assinantes do manifesto. A certa altura, afirma: “Salvo ilhotas de ar puro, as universidades brasileiras – especialmente em seus nichos de Ciências Humanas e Humanidades – transformaram-se em lugares inóspitos e irrespiráveis”. Todos os espaços e instituições sociais são condicionados pelo modo de vida societal, refletindo nos seus intramuros o que acontece no extramuros. Os espaços institucionais das universidades públicas não seriam exceção. O que se vive dentro deles é o que se vive fora deles.

Por isso mesmo, a materialidade do real depõe contra a impressão de Thiago de Araújo Pinho, que diz não acreditar “que existe nas universidades uma perseguição de professores pelo identitarismo. Sem dúvida, casos específicos existem, mas oferecer esse cenário como uma regra absoluta é um exagero absurdo”.

Em momento algum, se está insinuando tratar-se de uma hegemonia (“uma suposta tomada da universidade pelos identitários”, como diz Pinho), mas sim da presença e atuação desses grupos nas universidades, agindo mais pelo fígado do que pelo cérebro, mais pelo julgamento moral do que pela análise das determinações e contradições histórico-sociais do real, sem utilizar do rigor, do método e da radicalidade científica para realizar as mediações necessárias, investigar e se aproximar da verdade.

Muitos desses grupos, histórica e socialmente, correspondem a “vozes nunca escutadas anteriormente, tidas como incapazes, ruídos inescrutáveis, corpos não reconhecidos, experiências descartadas, quando não patologizadas e criminalizadas, e que agora são legítimas de reconhecimento, participação e consideração nas inúmeras arenas de embate”, como enfatiza Marco Aurélio Máximo Prado.

Contudo, é preciso questionar e refletir sobre o móvel de alguns desses protestos, assim como as atitudes e condutas assumidas e manifestadas, pautadas em dissonância cognitiva, deturpações, tergiversações, idiossincrasias, manuais de militância, como também naquilo que é considerado “politicamente correto”, tornado um “novo par de algemas”.

O fígado sobrepuja e soterra o cérebro. Não se dialoga, parte-se logo para a difamação porque acredita-se ter sido agredido de alguma forma (pessoal, moralmente).

Em parte, os próprios intelectuais progressistas e das esquerdas contribuíram para este fato ao silenciar perante as situações ocorridas, relevando por tratar-se de dar voz e expressão àqueles(as) que foram oprimidos, massacrados e calados por décadas, o que é fato inconteste. O problema não está em garantir voz e expressão, mas sim tomar cuidado para que essas vozes e expressões, por falta de conhecimento rigoroso, metódico, histórico, social, sistemático, radical e de conjunto da totalidade social não acabem promovendo a outros o que foi feito com eles(as) mesmos(as) no passado recente.

Daniel Afonso da Silva tem razão ao dizer que devido, em grande medida, ao silenciamento dos intelectuais “a tentação identitária foi se impondo. Afirmando-se como regra mental e moral de ação e conduta”.

A assertiva de Daniel Afonso da Silva contrasta com a de Marco Aurélio Máximo Prado. Este último denomina de “comunidade ressentida” os próprios pares que escreveram o Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica, sustentando que pregam um “pluralismo desencarnado”, entendido como “um debate de ideias não ancorado na responsabilidade histórica e social (…), de modo que “agem como identidades feridas, depurando termos à luz de seus próprios interesses e se apresentando como vítimas de ataques, pois se entendem como ‘iluminados da liberdade acadêmica’. (…) [Trata-se de] opinião constituída e movida pela melancolia da ferida e pelo ressentimento”.

Pelo teor da crítica de Prado, por utilizar as expressões “Estado Democrático de Direito”, “cidadania”, “pluralismo”, “igualdade e democracia constitucional” é possível identifica-lo como sendo do campo “progressista” e não do campo revolucionário. Entretanto, sua contraposição precisa ser iluminada pelo conteúdo que critica, o Manifesto. Embora o documento apresente alguns problemas, ao lê-lo é inegável que os(as) redatores fizeram a defesa da voz, manifestação e liberdade de expressão desde que fundamentadas racional e cientificamente, ainda mais por se tratar de espaço acadêmico de transmissão-assimilação de conhecimento histórico, científico, filosófico, artístico, cultural que é patrimônio histórico-cultural da humanidade, e não de “iluminados” com “ideia (…) cinicamente iluminada de liberdade” (Marco Aurélio Máximo Prado).

Citando o próprio Manifesto: “o pluralismo não significa que qualquer afirmação é válida. O questionamento a consensos estabelecidos deve ser mediado pelo método científico e pela argumentação honesta”. Logo, o método científico é indutivo (objetivo, parte do empírico) e não dedutivo (hipotético, dando vazão a “opiniões”), isto significa que necessariamente é histórico-social e a historicidade dos fatos e fenômenos é imanente e garante de sua legitimidade.

Tal pluralismo também deve ter a “capacidade de engajar o dissenso de forma rigorosa”, e o rigor, na produção científica, significa a produção de um conhecimento sistemático, metódico, superando a sabedoria popular, o senso comum, a doxa (opinião) e mesmo a sophia (vivência/experiência). De antemão, frisa-se: não se trata de negar, negligenciar ou desvalorizar as vivências, as práticas sociais, as experiências dos indivíduos sociais, ao contrário, parte-se delas para poder ir além delas, isto é, compreender como são engendradas, quais as determinações que as condicionam, por quais razões, estabelecendo os nexos entre as diferentes esferas da realidade: singular, local, particular, universal; regional, nacional, internacional. Só assim é possível ir além “do empirismo sem consequências”, partindo dos fatos para poder ir além deles, usando-os “como andaimes para o conhecimento das leis mais gerais do desenvolvimento da sociedade”, como alerta Clóvis Moura (1978, p. 29).

Na verdade, a qualificação dos(as) signatários(as) do Manifesto feita por Marco Aurélio Máximo Prado, através de predicativos como: “comunidade ressentida”, indivíduos tomados por “melancolia”, “elite intelectual e iluminada” que “promove a ‘opinião’ como direito absoluto e irredutível” também pode ser aplicada aos coletivos e grupos da perspectiva reparadora, que não é capaz de entender que uma discussão, um debate histórico-social-científico sobre as questões, problemas sociais candentes, não têm um vencedor ou um perdedor imediatamente transformado em inimigo a ser odiado, mas sim o convencimento e persuasão pela capacidade de desvendar e se aproximar, adequada e apropriadamente (histórica-socialmente), da verdade objetiva (que não é neutra) da realidade.

O acerto de Prado é apontar que não há neutralidade possível na produção científica, assim como, acrescentamos nós, em qualquer produção humana enquanto estivermos vivendo em sociabilidades desiguais, cujos modos de produção da vida social estejam estruturados/organizados a partir das desigualdades sociais da produção social da riqueza e sua apropriação privada. Enquanto essa situação histórico-social perdurar, “a tomada de partido não é, necessariamente, um obstáculo para a compreensão científica da realidade. Pelo contrário, desde que assumida a perspectiva da classe que, naquele momento histórico, fundamenta o padrão cognitivo mais elevado possível, a tomada de partido se revela uma condição positiva e imprescindível para a elaboração do conhecimento científico”.

A pergunta a ser feita em relação aos posicionamentos, às concepções de mundo em disputa e suas proposições é: qual delas é capaz de transcender os interesses e necessidades de grupos, segmentos e classes e se colocar em prol dos interesses e necessidades de todos os seres humanos (sócio-humano-genéricos), para além de todos os marcadores sociais, priorizando a criação das condições materiais de existência isonômicas para todos a fim de que possam desenvolver suas habilidades e potencialidades conforme as possibilidades historicamente postas pelo desenvolvimento efetivo das forças produtivas alcançadas ao longo da história humana, superando o reino da necessidade e instaurando o reino da liberdade (emancipação humana, liberdade universal, ou na terminologia socrática, platônica e aristotélica, o bem comum e a vida boa) para todos, porque socialmente pressuposta?

A classe capitalista, e todas as frações que a compõe, jamais radicalizarão as reformas progressistas a ponto de verem ameaçada a sua própria posição política, econômica, social e ideológica. Dentro do “Estado Democrático de Direito”, por excelência burguês, logo liberal, porque um Estado do capital (preocupação central é garantir a valorização do valor) e um Estado capitalista (por sua finalidade, termina beneficiando a classe capitalista, seu séquito e suas personificações), algo elucidado por Friedrich Engels em A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado e Anti-Duhring (2015), todas as reivindicações, todos os “direitos”, a própria “cidadania” têm limites claros, demonstrando a incapacidade do capital em se reformar estruturalmente.

“Cidadania” é própria de indivíduos sociais cindidos em duas vidas: uma pública e outra privada, como analisado por Marx em Sobre a Questão Judaica, deixando de ser um ser integral. Daí a necessidade de superá-la. Quanto aos “direitos”, provém de nossa sujeição ao Estado de Direito, logo, ao fato de sermos sujeitos assujeitados. Assim, deve-se decodificar a expressão “sujeito de direitos” para alcançar seu verdadeiro significado: “sujeitos do direito”, sem nenhuma autodeterminação.

Se a produção científica não é neutra, por outro lado ela é objetiva, ainda que seja a subjetividade que dê voz ao mundo, que é mudo. Porém, mesmo mudo ele tem propriedades materiais, objetivas que permitem sua tradução. Decorre daí que a subjetividade precisa ser objetivada, ou seja, a objetividade do mundo é que orienta a apropriação, assimilação, aproximação e adequação da captura do real pela subjetividade. Isto é que permite dizer se a nossa apropriação do real é a mais aproximada e adequada (razoável) possível. Como diz Lukács aqueles que “conseguindo captar – mesmo que aproximadamente – o inesgotável dinamismo do mundo, sabem evoca-lo em termos adequados”.

A relatividade do conhecimento não diz respeito à negação da verdade objetiva, mas evidencia a “condicionalidade histórica dos limites da aproximação dos nossos conhecimentos em relação a esta verdade” (Lênin). Por isso as condições e circunstâncias histórico-sociais das situações concretas experenciadas e vividas são elementos essenciais para a retotalização das múltiplas determinações contidas nos fatos da realidade, nos problemas sociais enfrentados. De modo que “o caráter aproximativo não conduz a uma postura cética e relativista, mas ratifica a historicidade constitutiva de todo ser existente: o mundo natural, o ser social e suas objetivações” (Della Fonte). Isto significa que o mundo não é “interpretação da interpretação”, discursos que se contrapõem, narrativas plurais…

Tudo isto pode contribuir para que se chegue à conclusão de que as universidades “públicas”-estatais, assim como todas as instituições educativas/culturais, precisam garantir, impreterivelmente, a defesa e sustentação da verdade objetiva e de sua busca, “doe a quem doer”, posicionando-se a partir do critério exposto por Ivo Tonet, que é ao lado daqueles(as) que “fundamentam o padrão cognitivo mais elevado possível” para os interesses e necessidades do gênero humano.

Isto não pode ser distorcido e lido/entendido como querer ser o “dono da razão”, o “iluminado”, o “superior”, ou qualquer outra tergiversação de que se valha quem discorde. A discordância tem que ser honesta intelectualmente, provando e comprovando, com fatos histórico-sociais, de maneira rigorosa, sistemática, metódica, científica, que não se trata do padrão cognitivo mais elevado possível.

Há, portanto, critério para definir qual de nós está com a razão histórico-social objetiva, subjetivamente objetivada – e aqui me refiro à razão histórico-social-rigorosa-radical, capaz de pensar a realidade por contradição, estabelecendo as mediações entre os fatos histórico-sociais, entre suas diferentes instâncias (singular, particular, universal), considerando suas múltiplas determinações e tendo sempre como horizonte a emancipação humana (fim de todas as formas de opressões, dominação, exploração de um ser humano por outro).

Um outro aspecto ressaltado por Felipe de Sena e Silva é que a divulgação do Manifesto no momento atual pode se tornar um “tiro pela culatra”, munindo a extrema-direita para os ataques às esquerdas e aos progressistas no pleito eleitoral que se aproxima. Ao iniciar este escrito, mencionei que o que vem acontecendo nas universidades é reflexo do que acontece no seu extramuros, na sociedade.

Sendo assim, precisa sim ser analisado, discutido, refletido por aqueles(as) que a integram: estudantes, pesquisadores(as), professores(as)/educadores(as), técnicos(as), servidores(as) em geral (terceirizados: segurança, limpeza, alimentação, manutenção, etc.).

O manifesto publiciza o mal-estar instaurado nos ambientes universitários nos últimos tempos. Apesar de seus problemas está instando o debate e reflexão entre os(as) profissionais e trabalhadores da educação. Esse é seu grande feito. Recordo quando a estátua do “bandeirante” Borba Gato (os bandeirantes foram responsáveis pelo assassinato, estupro, torturas e outras atrocidades contra os povos indígenas e africanos no período da interiorização da colonização), em São Paulo, foi incendiada pelos membros do movimento da revolução periférica. O feito e fato acendeu o debate nos meios de comunicação e bateram recorde nas mídias digitais. Com isso, eles pautaram o debate público por cerca de três meses.

Parece que o Manifesto está tirando os(as) profissionais e trabalhadores(as) da educação da invisibilidade e expondo um de seus problemas, já que há vários, igualmente periclitantes, como é o caso dos cortes orçamentários. Por isso, entendo ser benéfico e necessário, até mesmo porque vem sendo motivo de muita dor de cabeça e adoecimentos emocionais.

Reitero, novamente, que isto se replica em outros espaços sociais. “Lugar de fala”, infelizmente, está sendo usado como um dado proibitivo, definindo quem pode ou não falar, a depender da cor da pele, do sexo, da sexualidade, da nacionalidade, etc., como explicado por Rita Von Hunty/Guilherme Terreri. Em contraposição, “lugar de fala” corresponde ao lado que a pessoa se posiciona para falar: da perspectiva do capital ou da perspectiva do trabalho? Se é da perspectiva do trabalho, de modo reparador/reformista/progressista ou de transformação social radical/revolucionária? Defendendo os interesses e necessidades de grupos, segmentos, classe ou os interesses e necessidades do gênero humano, para além dos grupos, segmentos, classes e todas as formas de marcadores sociais? Eis uma das razões de ao invés de Djamila Ribeiro optar por Audre Lorde, pois fundamenta o padrão cognitivo mais elevado possível, algo que Ribeiro não alcança.

Continuando, Marco Aurélio Máximo Prado ao fazer a contraposição ao Manifesto, diz que seus signatários são “identidades feridas, depurando termos à luz de seus próprios interesses e se apresentando como vítimas de ataques”, e enquanto “comunidade do ressentimento não age: ela reage, imputa e acusa”. Pergunto: trata-se, mesmo, de uma “comunidade ressentida”? Muitas das questões que colocam não são factuais? Engels dizia que contra os fatos não há tergiversações possíveis. E, indubitavelmente, os fatos existem.

Ao tempo que estou redigindo esta reflexão, uma nova matéria é publicada no site A Terra é Redonda, de Alípio de Souza Filho, outro assinante do Manifesto: “O crepúsculo da razão acadêmica – o ativismo identitário e a dissolução dos critérios científicos”. Parece que o vespeiro foi cutucado, e é preciso cutuca-lo mesmo para “depurá-lo”, termo usado por Franz Fanon, isto porque “antes de enveredar por uma voz positiva, cabe à liberdade um esforço prévio de desalienação”. Afinal, “é por meio de um esforço de resgate de si mesmo e de depuração, é por meio de uma tensão permanente da sua liberdade que os seres humanos podem criar as condições ideais para a existência de um mundo humano. Superioridade? Inferioridade? Por que não tentar simplesmente tocar o outro, sentir o outro, revelar-me o outro?”.

A “depuração” exigirá tempo porque a contaminação é quase generalizada. Frise-se aqui o quase! Muitos(as) temem expor, racional e cientificamente, seu posicionamento com receio de ficar mal perante os pares e a comunidade acadêmica. É preciso coragem, e não é pouca! Particularmente, embora o Manifesto traga à lume um problema real, não o assinarei, dado que há aspectos e questões equivocadas. Neste ponto, causou surpresa constatar que o professor Ricardo Antunes, pesquisador e autor renomado, tenha assinado. Gostaria muito de ler sua réplica às críticas que vem sendo tecidas, como a de Marco Aurélio Máximo Prado, sobre o teor do Manifesto.

De toda forma, continuemos cultivando o bom combate, ele é extremamente necessário nesses tempos que deixaria a própria “barbárie social” sobressaltada e boquiaberta. Talvez por isso, István Mészáros tenha dito, ao se referir a frase de Rosa Luxemburgo: “socialismo ou barbárie”, barbárie se tivermos sorte!

 

Fonte: Por Iael de Souza, em A Terra é Redonda

 

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