terça-feira, 7 de julho de 2026

Benedito Tadeu César: A Copa da vergonha e o jogo do medo

A Copa de 2026 já entrou para a História como a Copa da Vergonha. Não pelo futebol, mas pelo que aconteceu fora dele: uma competição marcada por discriminações políticas, pelo tratamento desigual entre seleções, pelo silêncio conveniente da FIFA e pela naturalização de critérios que jamais seriam aceitos se atingissem outros países que não os EUA. O futebol voltou a servir de palco para a política — e as instituições preferiram olhar para o outro lado.

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Se esta é a Copa da Vergonha, Brasil 1 x 2 Noruega foi o Jogo do Medo.

Talvez a síntese da partida tenha acontecido logo aos quatorze minutos.

Matheus Cunha recebeu a bola, ganhou de Kristoffer Ajer naquilo que o futebol brasileiro sempre fez de melhor: talento. O zagueiro norueguês, mais alto, mais forte e incapaz de acompanhar o atacante na habilidade, só encontrou uma saída: a falta. O árbitro precisou do VAR para enxergar o óbvio, mas o pênalti foi marcado.

Parecia um sinal de que o Brasil havia escolhido o caminho certo.

Então veio a cobrança.

Bruno Guimarães caminhou para a bola, denunciou o canto e facilitou a defesa do goleiro Ørjan Nyland.

Em poucos segundos, a partida contou sua própria história.

Primeiro, o talento venceu a força.

Depois, o medo venceu o talento.

Era para ser o confronto entre duas maneiras de entender o futebol. De um lado, a técnica, a criatividade, o drible, a capacidade de conversar com a bola. Do outro, uma equipe forte, disciplinada, rápida, alta e fisicamente dominante, comandada por um gigante chamado Haaland. Ele fez os dois gols da Noruega e decidiu a partida. Mas nem ele nem seus companheiros transformavam aquele time numa seleção tecnicamente superior ao Brasil.

Pelo contrário.

Sempre que pressionados, os noruegueses erravam passes, perdiam bolas relativamente simples e revelavam dificuldades para jogar em espaços curtos. Era ali que estava o caminho da vitória brasileira.

Não vou discutir tática. Carlo Ancelotti entende disso milhões de vezes mais do que eu. Mas estratégia é outra coisa. Estratégia diz respeito à identidade de um time, à forma como decide enfrentar o adversário.

E o Brasil resolveu enfrentar a Noruega jogando o futebol que interessava à Noruega.

Existe uma velha lenda do futebol brasileiro segundo a qual, na Copa do Mundo de 1958, justamente a primeira conquistada pelo Brasil, Garrincha chamava todos os jogadores da União Soviética simplesmente de “Ivans”. Não fazia diferença quem era o lateral, o zagueiro ou o ponta. Eram todos “Ivans”. O importante não era saber seus nomes, mas descobrir por onde passaria o drible.

Não deixa de ser simbólico que essa história tenha nascido justamente na Copa em que o Brasil encontrou o futebol que o transformaria em pentacampeão do mundo. Naquele momento, o adversário não era um gigante a ser temido. Era apenas mais um “Ivan” que precisava ser driblado.

Contra a Noruega, durante alguns minutos, Vini Jr. fez exatamente isso. Transformou o lateral norueguês em mais um “Ivan”. Ganhou no um contra um, desmontou a marcação e mostrou que havia uma diferença técnica evidente entre quem sabe tratar a bola com intimidade e quem depende, sobretudo, da força física.

Era esse o jogo que o Brasil precisava impor.

Mas desistiu dele.

Aos poucos, recuou. Entregou a posse de bola, o território e a iniciativa justamente para quem mais se beneficiava disso. E, quando o relógio passou a correr contra a Seleção, veio o gesto mais revelador da noite: começaram os cruzamentos para uma área ocupada por jogadores de quase dois metros de altura.

Foi como tentar vencer Haaland jogando o jogo de Haaland.

Os noruegueses nunca deveriam ter deixado de ser “Ivans”. Não por arrogância, mas porque o futebol brasileiro construiu sua história olhando para qualquer marcador como alguém que podia ser driblado. Nunca como um gigante a ser temido.

Foi assim que conquistamos cinco Copas do Mundo.

Nenhuma outra seleção conseguiu fazer o mesmo.

Durante décadas, a Europa estudou o Brasil porque nós jogávamos um futebol que eles não sabiam jogar.

Curiosamente, houve um tempo em que o país também acreditava poder construir um caminho próprio fora dos gramados. Era o Brasil da Era Vargas, que apostou na industrialização, nas empresas nacionais, na infraestrutura, na ciência e na ideia de que desenvolvimento não se importava: construía-se.

Depois fomos perdendo essa confiança. Fosse pelo “entreguismo” de alguns dirigentes, fosse pela pressão dos “mercados”, passamos a seguir, cada vez mais, cartilhas escritas pelos países que já haviam alcançado o desenvolvimento — curiosamente, cartilhas bem diferentes das que eles próprios seguiram quando ainda estavam construindo suas economias.

Talvez não exista relação entre uma coisa e outra.

Ou talvez exista.

Porque o futebol brasileiro nunca foi grande quando tentou copiar a Europa. Assim como o Brasil nunca sonhou grande quando acreditou que seu destino era apenas seguir o caminho prescrito pelos outros.

Nossa força sempre nasceu da confiança em fazer diferente.

Há estatísticas que impressionam. Faz muitos anos que a Seleção Brasileira não vence uma grande seleção europeia em partidas decisivas. A Noruega, por sua vez, continua sendo a única seleção que o Brasil jamais conseguiu derrotar.

São números incômodos.

Não justificam medo.

O futebol brasileiro nunca foi grande porque copiou a Europa. Tornou-se grande porque obrigou a Europa a estudá-lo.

Perder faz parte do futebol.

O que dói é perder renunciando justamente àquilo que sempre nos fez diferentes.

Foi acreditando naquilo que sabia fazer melhor que o Brasil inventou um estilo de jogar admirado no mundo inteiro.

Foi assim que conquistou cinco Copas do Mundo.

Todas nasceram da coragem de ser Brasil.

¨      Mais uma Copa que foi para o vinagre. Por Leonardo Lucena

Mais um vexame do futebol masculino. Mais uma Copa do Mundo que foi para o vinagre. A expressão “foi pro vinagre” é uma gíria popular que significa que algo deu muito errado, quebrou, estragou, faliu ou deixou de existir. É o equivalente a dizer que uma situação “foi por água abaixo” ou “danou-se”.

Esse é o fato.

Por que esse tema merece atenção dos nossos leitores? Porque o futebol é muito mais do que um esporte. Poucas manifestações culturais conseguem mobilizar emoções, construir pertencimento e produzir memória coletiva com a intensidade que ele alcança. No Brasil, sua história se confunde com a própria formação da identidade nacional. Durante mais de um século, o futebol ensinou o país a celebrar vitórias, elaborar derrotas e reconhecer em campo parte de sua diversidade social e cultural.

O futebol do século XXI passou a viver uma evidente contradição. De um lado, continua sendo patrimônio cultural imaterial do povo brasileiro; de outro, transformou-se em uma das atividades econômicas mais lucrativas do planeta.

O jogo continua despertando paixões, mas passou também a movimentar bilhões de dólares em direitos de transmissão, publicidade, transferências internacionais de atletas, fundos de investimento e, mais recentemente, pelas gigantescas corporações de apostas esportivas.

A força do futebol brasileiro não reside apenas nos estádios lotados ou nos títulos conquistados. Ela está presente nas ruas, nos campos de terra, nas praias, nas escolas e nas lembranças afetivas de sucessivas gerações. Trata-se de uma prática social incorporada ao cotidiano, transmitida de pais para filhos e recriada permanentemente pela criatividade popular.

Quantas tardes e noites vivi no Majestoso ao lado dos meus filhos e do meu sobrinho, comemorando vitórias, sofrendo derrotas e aprendendo que o futebol também é uma forma de construir família e memória.

O futebol é uma expressão privilegiada da sociedade brasileira, nele estão presentes a miscigenação, a improvisação, a ginga e a inventividade, analisadas por Gilberto Freyre, características que ajudaram a construir aquilo que se convencionou chamar de “estilo brasileiro” de jogar futebol, que o “mercado” parece querer destruir. O futebol brasileiro é mais que o jogo, é metáfora da própria identidade nacional. Essa identidade que está sendo destruída pelos interesses do mercado.

Da trajetória pioneira de Arthur Friedenreich à genialidade de Pelé, o futebol permitiu que o brasileiro enxergasse em si mesmo uma imagem positiva, capaz de superar preconceitos e afirmar talentos que ultrapassavam as limitações econômicas e sociais do país.

O verdadeiro patrimônio do futebol não está apenas nas taças ou nos estádios, mas na memória compartilhada, nos símbolos, nas torcidas, nos cânticos e nas histórias que atravessam gerações.

Daí a importância de instituições dedicadas à preservação dessa memória. Museus, centros de documentação e pesquisas acadêmicas cumprem papel essencial para impedir que a história do futebol seja reduzida ao espetáculo televisivo ou à lógica efêmera das redes sociais. Preservar essa memória significa preservar parte significativa da história cultural brasileira.

Se o futebol permanece patrimônio cultural, ele também se consolidou como um dos segmentos mais poderosos da indústria global do entretenimento.

Os clubes que buscam sucesso deixam de ser apenas associações esportivas e passam a operar como organizações empresariais altamente profissionalizadas. Direitos de transmissão, plataformas digitais, contratos de publicidade, programas de sócio-torcedor, licenciamentos e exploração comercial das arenas transformaram-se nas principais fontes de receita do esporte.

Nesse ambiente, o atleta deixou de representar apenas um ídolo esportivo para converter-se em ativo financeiro de elevado valor econômico. A formação, a negociação e a transferência de jogadores movimentam cifras bilionárias, aproximando o futebol da lógica dos mercados internacionais de investimento. No Brasil, a expansão das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) representa talvez a expressão mais evidente desse novo modelo de gestão.

Até que ponto isso é positivo ou negativo?

Mas nenhuma transformação recente foi tão profunda quanto a expansão das casas de apostas esportivas.

Em poucos anos, as chamadas bets passaram a ocupar o centro da economia do futebol brasileiro. Tornaram-se patrocinadoras principais da maioria dos clubes, adquiriram os direitos de nomeação de campeonatos, dominaram os espaços publicitários das transmissões esportivas e passaram a integrar praticamente toda a experiência de consumo do espetáculo.

Sou a favor da extinção das bets, pois, a paixão vem sendo substituída pela obsessão de apostar, substituindo parte da emoção esportiva pela expectativa do retorno econômico.

Essa mercantilização suscita inevitáveis questionamentos éticos. Quando o interesse financeiro passa a ocupar espaço crescente dentro do espetáculo esportivo, surgem dúvidas sobre os limites entre entretenimento, publicidade e indução ao jogo, especialmente diante da intensa exposição de jovens e populações economicamente vulneráveis.

O futebol brasileiro vive uma tensão permanente entre duas dimensões igualmente reais.

De um lado, permanece sendo um dos mais importantes patrimônios culturais do país, expressão da memória coletiva, da criatividade popular e da identidade nacional. De outro, tornou-se uma sofisticada engrenagem do capitalismo contemporâneo, submetida às exigências dos mercados financeiros, das grandes plataformas de mídia e, mais recentemente, das corporações de apostas esportivas.

Não há, necessariamente, incompatibilidade entre essas duas realidades. O problema surge quando a lógica do lucro passa a obscurecer a dimensão cultural do esporte, convertendo torcedores em consumidores permanentes e o futebol em simples mercadoria.

Talvez o maior desafio do nosso tempo seja preservar aquilo que fez do futebol um patrimônio do povo brasileiro sem ignorar que ele também se tornou um dos negócios mais rentáveis da economia global. Afinal, quando a bola começa a rolar, ainda é a paixão que ocupa o centro do campo; mas, fora das quatro linhas, o mercado já disputa, com vigor crescente, o protagonismo dessa história.

Essas são as reflexões.

 

Fonte: Brasil 247

 

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