terça-feira, 7 de julho de 2026

‘Hipótese de incursão armada dos EUA às vésperas das eleições brasileiras é preocupante’, diz a jurista Luciana Bauer

A jurista Luciana Bauer afirmou que a movimentação de Flávio Bolsonaro junto ao governo dos Estados Unidos representa um risco à soberania brasileira e expõe uma articulação política de setores da extrema direita contra interesses nacionais. “Estou muito preocupada com a possibilidade de os Estados Unidos fazerem incursões armadas próximas da votação para presidente da República, para todo o Congresso”, afirmou a estudiosa nesta semana, em entrevista ao programa Giro das Onze, da TV 247.

Em sua análise, a jurista mencionou a hipótese de uma intervenção dos EUA no Brasil em caso de uma possível prisão do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República. A analista também citou incursões em presídios de segurança máxima e a captura de lideranças criminosas como hipóteses que poderiam criar forte impacto político midiático e, por consequência, serem apoiadas por forças estadunidenses para justificar uma eventual interferência do governo Donald Trump em solo brasileiro.

“A minha perspectiva é que, se prenderem o Flávio justamente pelos crimes em tese que ele está cometendo, ele é um candidato e isso incendeia essas intervenções”, afirmou a jurista.

<><> Possível ofensiva contra o governo Lula

Em outra parte da entrevista, Luciana alertou para a construção de narrativas que buscam associar o governo Lula a crimes financeiros, ao narcoterrorismo e às facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), que nasceram nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, respectivamente. “Na extrema direita, tudo é uma narrativa”.

Segundo Luciana Bauer, o avanço de medidas unilaterais dos EUA no cenário internacional sinaliza uma crise do direito internacional. Bauer afirmou que esse ambiente aumenta o risco de ações de força contra países latino-americanos. “Estamos vivendo à margem, a gente está vivendo na barbárie, é a barbárie do direito internacional”.

No Brasil, lideranças do campo progressista denunciam que a classificação do PCC e do CV como grupos terroristas tem como objetivo estimular sanções contra o país sul-americano por causa da condenação de Jair Bolsonaro (PL) pelo Supremo Tribunal Federal no inquérito da trama golpista. O ex-mandatário recebeu a pena mais alta entre os 29 condenados: 27 anos de cadeia.

<><> Raio X da atuação dos EUA e da extrema direita brasileira

Na entrevista ao 247, Luciana Bauer afirmou que os EUA passaram décadas ampliando sua influência sobre a América Latina e, em especial, sobre o Brasil. A analista mencionou escolas, igrejas, ONGs, instituições financeiras, redes de propaganda e organismos vinculados à segurança e à inteligência norte-americana como instrumentos de projeção política e cultural.

A jurista associou esse processo à formação de uma elite brasileira alinhada aos interesses de Washington. “A gente vê que os Estados Unidos plantam uma grande influência em toda a América Latina, não só na Nicarágua, não só no Chile, mas principalmente no Brasil”, disse.

No país governado atualmente pelo presidente Lula, a extrema direita brasileira combina duas dimensões: uma vertente “americanizada” e outra de base religiosa, pontuou Luciana. “Nós temos dois grandes players, como você mesmo falou, Flávio Bolsonaro e agora a Michelle Bolsonaro”, afirmou.

A jurista fez críticas ao que chamou de cultura política subordinada a interesses estrangeiros. Ela citou como exemplo setores da elite brasileira formados em instituições dos EUA e ligados a organismos financeiros internacionais.

“Essa elite que se vê americana, eu moro nos Estados Unidos e eu vejo que brasileiros se acham americanos, se acham norte-americanos, se acham estadunidenses, quando os próprios estadunidenses não reconhecem eles”, afirmou.

<><> Cerco a Flávio Bolsonaro

Ao comentar o documento enviado por Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, Bauer disse que o senador tenta orientar o governo norte-americano sobre como atuar contra o Brasil. Na avaliação dela, a iniciativa mostra uma elite política disposta a prejudicar o próprio país para obter ganho eleitoral.

“É verdade. Sim. E é uma elite brasileira muito triste, porque ela vai contra até seus próprios interesses”, declarou.

O senador Flávio Bolsonaro enviou um documento ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). O parlamentar defendeu mais espaço para empresas estrangeiras, especialmente dos EUA, no mercado de cartões de crédito.

O parlamentar da extrema direita manifestou posição favorável à implementação de acordos comerciais fora do Mercosul e sugeriu que o Pix não seja integrado aos sistemas de pagamento dos BRICS, bloco sediado na China e visto como uma das principais articulações internacionais de contestação à hegemonia dos EUA.

A estudiosa defendeu respostas institucionais mais firmes diante da atuação de Flávio Bolsonaro. A condição de pré-candidato amplia a gravidade do caso, observou a jurista. “Flávio Bolsonaro é um candidato e um candidato a presidente da República não pode cometer o tipo penal de traição, que é o que a gente vê”, disse.

<><> Alerta sobre o Judiciário

A analista Luciana Bauer apontou ainda fragilidades dentro das instituições brasileiras, com ênfase no Judiciário e na Polícia Federal. Conforme a jurista, estruturas influenciadas pelo lavajatismo permanecem ativas e podem produzir instabilidade política por meio de vazamentos e dossiês.

“O lavajatismo desde o Moro, desde o Dallagnol, ele usou muito a Polícia Federal, usou muito a Justiça Federal para aliciar pessoas que depois vão ser recompensadas com altos cargos”, afirmou na TV 247.

Na entrevista, Bauer disse acreditar que ministros do Supremo Tribunal Federal sejam alvo de levantamentos internos usados como instrumentos de pressão política. “Eu tenho certeza que os 11 ministros do STF têm dossiê”, declarou.

A jurista também criticou o acúmulo de funções do Supremo. Para Luciana, o STF se tornou uma corte exposta demais, ao reunir atribuições que poderiam estar distribuídas em outras instâncias. Bauer defendeu um modelo mais concentrado na função constitucional, semelhante ao de cortes de outros países. “O STF foi acumulando. Além de ser uma Corte Constitucional, é uma corte de tudo”, disse.

•        O Brasil precisa se armar com urgência, diz Paulo Nogueira Batista Júnior

 O economista Paulo Nogueira Batista Júnior defendeu, em entrevista à TV 247, que o Brasil precisa se armar com urgência para enfrentar um cenário internacional cada vez mais perigoso, marcado pela decadência dos Estados Unidos, pelo avanço da extrema direita na América Latina e pela disputa geopolítica em torno dos recursos naturais estratégicos da região.

“O Brasil é um país para se armar”, afirmou Paulo Nogueira Batista Júnior. Segundo ele, embora o país tenha graves deficiências sociais em áreas como saúde, educação, moradia e qualidade de vida nas grandes cidades, a realidade internacional impõe ao Estado brasileiro a necessidade de investir de forma permanente em defesa nacional.

“É uma pena porque nós temos deficiências sociais gravíssimas, saúde, educação, moradia, qualidade de vida nas grandes cidades. Seria muito melhor se a gente pudesse usar o dinheiro para isso. Mas vamos ter que usar uma parte do orçamento importante”, disse.

<><> Estados Unidos em decadência, mas ainda perigosos

Na avaliação do economista, os Estados Unidos vivem uma fase de decadência, e não apenas de declínio. Ele afirmou que Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, expressa esse processo de deterioração política, moral e institucional da maior potência militar do planeta.

“Essa decadência se expressa, entre outras coisas, na escolha de um presidente como Trump. É um presidente aloprado, um presidente de nível baixíssimo, tanto do ponto de vista intelectual quanto do ponto de vista moral e político”, afirmou.

Paulo Nogueira Batista Júnior alertou, no entanto, que a perda relativa de poder dos Estados Unidos não torna o país menos perigoso. Ao contrário: uma superpotência em decadência, partindo de um patamar muito elevado de poder militar, financeiro e tecnológico, ainda conserva enorme capacidade de destruição.

“Mesmo em declínio acentuado, acelerado agora com Trump, ela conserva uma capacidade de fazer um estrago tremendo”, disse.

<><> Ameaça externa real vem dos Estados Unidos

Para Paulo Nogueira Batista Júnior, a principal ameaça externa ao Brasil não está em países vizinhos nem em potências emergentes, mas nos próprios Estados Unidos, especialmente na fase atual de agressividade imperial.

“A única ameaça real que nós temos externa são os Estados Unidos, especialmente os Estados Unidos na fase em que se encontram”, afirmou.

Por isso, ele defendeu uma revisão completa da doutrina militar brasileira, incluindo as escolas de formação das Forças Armadas. O economista criticou o que chamou de “americanização da visão de mundo dos militares brasileiros”, fenômeno que, segundo ele, enfraquece a capacidade do país de pensar sua própria defesa a partir dos interesses nacionais.

“Houve uma americanização da visão de mundo dos militares brasileiros, que é a pior coisa que pode acontecer”, disse.

<>< Defesa nacional não pode depender de equipamento americano

O economista também advertiu que o Brasil não pode depender de equipamentos militares fabricados pelos Estados Unidos, pois eles podem ficar sujeitos a bloqueios, sanções ou mecanismos de controle externo.

“Nós não podemos ter nem a doutrina militar importada dos Estados Unidos, nem os preconceitos que ela carrega e nem podemos depender do equipamento americano que pode ser desligado à distância ao bel prazer do governo americano”, afirmou.

Segundo Paulo Nogueira Batista Júnior, uma política de defesa soberana deve formar militares capazes de compreender o Brasil “a partir da ótica brasileira”, e não de uma visão subordinada a interesses estrangeiros.

“Nós temos escolas militares que formem militares, comandantes capazes de entender o Brasil a partir da ótica brasileira”, disse.

<><> América Latina sob cobiça

Na entrevista, Paulo Nogueira Batista Júnior afirmou que a América Latina vive um “cabo de guerra” entre China e Estados Unidos. De um lado, Pequim oferece cooperação econômica, investimentos, comércio e infraestrutura. De outro, Washington tenta recuperar espaço pela força política, militar e diplomática.

“A tendência na América do Sul é um cabo de guerra entre a China e os Estados Unidos”, afirmou.

Ele destacou que os Estados Unidos estão de olho nos recursos naturais da América Latina, especialmente os do Brasil. Entre os ativos estratégicos citados estão terras raras, minerais críticos, petróleo, minério de ferro e biodiversidade.

“Os americanos estão de olho nos recursos naturais abundantes da América Latina, especialmente do Brasil, entre eles, terras raras, minerais críticos, petróleo, minério de ferro, biodiversidade”, disse.

<><> China não será aliada militar do Brasil

Apesar de reconhecer a importância econômica da China para o Sul Global, Paulo Nogueira Batista Júnior advertiu que o Brasil não deve alimentar ilusões sobre uma eventual proteção militar chinesa na América Latina. Segundo ele, Pequim não disputará militarmente a região com Washington.

“A China é uma potência econômica, mas não tem com nenhum país da nossa região uma aliança militar”, afirmou.

Ele lembrou que os Brics nunca foram uma aliança militar, embora muitas vezes sejam apresentados assim pela imprensa. Para o economista, isso reforça a necessidade de o Brasil construir sua própria capacidade de defesa.

<><> Interesse nacional como estrela-guia

Paulo Nogueira Batista Júnior também rejeitou a ideia de que o Brasil deva substituir os Estados Unidos pela China como “estrela-guia”. Para ele, nenhuma potência estrangeira deve ocupar esse papel.

“A China também não vai ser estrela guia para nós. Ela é muito diferente, tem seus próprios interesses. A estrela guia pro Brasil tem que ser o próprio interesse nacional”, afirmou.

Na visão do economista, a soberania brasileira dependerá da capacidade do país de recuperar um projeto nacional, fortalecer sua indústria, proteger seus recursos estratégicos e construir uma defesa compatível com o tamanho e a importância do Brasil.

 

Fonte: Brasil 247

 

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