A
centralidade do Congresso nacional
A
ex-presidenta Dilma Rousseff, no seu primeiro mandato, costumava dizer que não
deveríamos “tergiversar sobre os problemas brasileiros”. O verbo, pouco usual
no cotidiano, significa evitar o enfrentamento das questões centrais,
desviar-se dos problemas fundamentais ou contornar os desafios que efetivamente
determinam os rumos da sociedade. A reflexão permanece atual e oferece uma
chave importante para compreender a conjuntura político-eleitoral brasileira de
2026.
As
eleições presidenciais de 2022 revelaram a profundidade da divisão política
existente no país. A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva ocorreu por uma
margem estreita, pouco superior a dois milhões de votos em um universo de mais
de 120 milhões de eleitores. O resultado evidenciou que a derrota do
bolsonarismo exigiu a construção de uma ampla frente política, reunindo forças
que, em diferentes momentos da história recente, estiveram em campos distintos.
A
escolha de Geraldo Alckmin para a vice-presidência simbolizou essa estratégia.
E, embora tenha provocado desconforto em setores progressistas, a estreita
margem eleitoral demonstrou que os riscos representados pela extrema-direita
não eram mera especulação.
A
composição do governo Lula III expressa essa mesma lógica: ao lado de
lideranças históricas do Partido dos Trabalhadores, representantes dos
movimentos sociais e setores da esquerda, encontram-se partidos e figuras
políticas situados ao centro do espectro político. Mas mesmo submetido às
permanentes pressões do Centrão – sintetizadas na expressão “Centrão Carcará:
pega, mata e come” – o governo garantiu espaço para setores da esquerda
anticapitalista em sua composição.
A
Federação PSol-Rede, apesar de sua limitada representação parlamentar, ocupou
ou ocupa ministérios estratégicos, demonstrando que o governo Lula III não pode
ser reduzido a uma mera coalizão de centro.
Reconhecer
essa realidade não significa ignorar as críticas legítimas formuladas pela
classe trabalhadora e por suas entidades representativas. Ao longo dos três
últimos anos, a avaliação do governo Lula III tornou-se um dos principais temas
de debate no interior dos sindicatos. Persistem insatisfações relacionadas à
não revogação da Reforma Trabalhista e da Reforma da Previdência, à manutenção
do Arcabouço Fiscal e à lentidão na recuperação das perdas salariais
acumuladas.
No
campo educacional, as críticas também são expressivas. O Novo Ensino Médio não
foi integralmente revertido, os recursos destinados às Universidades e
Institutos Federais permanecem insuficientes e os processos de negociação com
os servidores avançaram aquém das expectativas construídas pelas entidades
sindicais.
No caso
do Sinasefe (Sindicato Nacional dos/as Servidores/as Federais da Educação
Básica, Profissional e Tecnológica), a greve nacional de 2024 constituiu um dos
momentos mais importantes de mobilização recente da categoria. Mesmo com
avanços concretos, compromissos assumidos pelo governo federal ao final do
movimento paredista ainda aguardam implementação.
Essas
críticas coexistem com uma interpretação compartilhada por diferentes setores
progressistas: a de que o governo opera sob severas limitações impostas pela
atual correlação de forças políticas. O Congresso Nacional eleito em 2022
possui forte presença de partidos conservadores e de extrema-direita,
restringindo a capacidade do Poder Executivo de aprovar medidas que beneficiem
amplamente a classe trabalhadora. Em diversas ocasiões, propostas defendidas
por movimentos sociais e setores populares foram bloqueadas, desfiguradas ou
profundamente alteradas durante sua tramitação parlamentar.
A
vitória de Javier Milei na Argentina, o fortalecimento de forças
ultraconservadoras na América Latina e na Europa e a projeção global de
lideranças como Donald Trump revelam que a realidade brasileira não é sui
generis. Faz parte de um movimento mais amplo de ascensão internacional da
direita radical, que expressa, na realidade, uma ofensiva política que combina
neoliberalismo econômico, autoritarismo político e ataques sistemáticos aos
direitos sociais e às instituições democráticas.
Nem os
acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, nem as investigações sobre tentativas
de golpe de Estado foram suficientes para diminuir a influência política do
bolsonarismo. As pesquisas de opinião neste primeiro semestre demonstram a
existência de uma base social expressiva para projetos conservadores e
autoritários. Ou seja, vivemos num período marcado por intensa polarização
política, transformações na correlação de forças internacionais e
fortalecimento de correntes conservadoras, ultraliberais e neofascistas no
mundo. Como advertiu Bertolt Brecht, “a cadela do fascismo está sempre no cio”.
Nessa
areia movediça, parcela do campo anticapitalista e revolucionário defende, na
disputa eleitoral, a apresentação de candidaturas próprias como forma de
preservar programas independentes e ampliar o debate sobre questões que
considera insuficientemente enfrentadas pelo governo atual. Trata-se de uma
posição legítima, historicamente presente nas disputas da esquerda brasileira.
Contudo, a polarização persistente reduz o espaço eleitoral para alternativas
situadas à esquerda dos dois principais campos em disputa.
Diante
disso, entendemos que o debate central não deve ser apenas sobre candidaturas,
mas sobre estratégia e tática. Um apoio crítico e antecipado à candidatura de
Luiz Inácio Lula da Silva permitiria maior incidência de movimentos populares e
organizações de esquerda na construção programática da campanha e de um
eventual novo governo.
Ao
mesmo tempo, não se pode concentrar toda a atenção na disputa presidencial. Se
existe uma lição fundamental extraída dos últimos anos, é a centralidade
crescente do Congresso Nacional na definição dos rumos do país. O legislativo
brasileiro tornou-se progressivamente mais conservador. Esse fenômeno não
decorre apenas do crescimento do bolsonarismo, mas também da consolidação de
uma aliança entre setores do capital financeiro, do agronegócio, do
neoliberalismo econômico e do fundamentalismo religioso. Essa convergência
produziu uma maioria parlamentar comprometida com agendas conservadoras nos
campos econômico, social e cultural.
O
parlamento ampliou o seu poder sobre a execução orçamentária. A expansão das
emendas fortaleceu o controle individual de deputados e senadores sobre
recursos públicos, enfraquecendo o planejamento nacional e aprofundando
práticas políticas que lembram o velho coronelismo brasileiro. O orçamento
transformou-se, em grande medida, em instrumento de reprodução de poder
regional e de fortalecimento de bases eleitorais.
Essa
mudança alterou o funcionamento do presidencialismo de coalizão. Hoje, a
capacidade de um governo implementar seu programa depende cada vez mais da
composição do Congresso Nacional. Um eventual cenário de reeleição de Lula
acompanhado pela formação de uma maioria conservadora ainda mais robusta na
Câmara dos Deputados e no Senado poderá produzir graves dificuldades de
governabilidade, abrindo espaço para crises institucionais semelhantes às que
culminaram no golpe contra a presidenta Dilma Rousseff.
Por
isso, a disputa parlamentar assume importância estratégica. Para as
trabalhadoras e trabalhadores vinculados ao Sinasefe, esse debate ganha
significado ainda mais profundo, pois envolve a defesa das Universidades e
Institutos Federais como instituições públicas, gratuitas, socialmente
referenciadas e comprometidas com a produção do conhecimento, a inclusão social
e o desenvolvimento nacional.
A
experiência recente demonstrou que essas instituições não estão imunes aos
ataques das forças conservadoras e da extrema-direita. Durante o governo de
Jair Bolsonaro, sindicatos, movimentos estudantis e organizações populares
enfrentaram um ambiente hostil, marcado por perseguições políticas, ataques aos
servidores públicos, tentativas de enfraquecimento das entidades
representativas e iniciativas que ameaçavam diretamente a autonomia das
Instituições Federais de Ensino. Projetos como o Future-se simbolizaram a
ofensiva neoliberal e neofascista contra a educação pública, evidenciando que a
defesa da democracia e das Universidades e Institutos Federais são, cada vez
mais, partes inseparáveis da mesma luta.
Nesse
sentido, talvez a principal lição seja justamente aquela sugerida por Dilma
Rousseff: não tergiversar, isto é, não perder de vista aquilo que realmente
está em disputa no Brasil contemporâneo. As eleições de 2026 não se resumirão à
escolha do próximo presidente da República e parlamentares. O que estará em
jogo é o próprio futuro da democracia brasileira e a capacidade de preservar e
aprofundar conquistas históricas construídas nas últimas décadas.
Defendemos,
assim, que os movimentos populares e as organizações da esquerda construam
desde já um apoio crítico à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva no
primeiro turno das eleições de 2026 e, numa Frente povoada por bolcheviques,
reeleja Lula e mude, profundamente, o Congresso Nacional. Mas não se trata de
abdicar da autonomia política nem de silenciar críticas legítimas ao governo.
Trata-se de reconhecer a gravidade da conjuntura e atuar para ampliar a
capacidade de influência dos trabalhadores sobre o programa de governo, a
campanha eleitoral e os rumos do próximo período.
Portanto,
mais do que uma escolha eleitoral, trata-se de uma aposta estratégica e tática
na capacidade de intervenção política dos movimentos populares e organizações
de esquerda em um dos momentos mais decisivos da história recente do Brasil.
Como cantou Geraldo Vandré: “Vem, vamos embora, que esperar não é saber; quem
sabe faz a hora, não espera acontecer”.[1]
Fonte:
Por Flávia Cândida do Nascimento de Souza e Rogério de Souza, em A Terra é
Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário