quinta-feira, 9 de julho de 2026

Nicolás Salas: Sob ofensiva de Milei, piqueteiros completam 30 anos de luta contra neoliberalismo na Argentina

Em junho último completaram-se trinta anos do levante ocorrido em Cutral-Co e Plaza Huincul, que deu origem ao que, com o passar dos anos, ficou conhecido como o movimento piqueteiro argentino.

Em um pequeno povoado situado no coração da Patagônia argentina, milhares de trabalhadores e trabalhadoras se levantaram diante do cancelamento da instalação de uma empresa petroquímica que prometia recuperar os postos de trabalho que haviam desaparecido anos antes com a privatização da YPF, a petroleira estatal.

O aprofundamento do modelo neoliberal, inaugurado pela ditadura militar em 1976, provocara um nível de desemprego estrutural no país que, no caso das cidades mencionadas, alcançara cerca de 5 mil pessoas, o que representava quase 20% da população economicamente ativa daquela região.

Não era para menos. Em poucos anos, a multinacional espanhola Repsol havia desmontado a unidade da YPF instalada na região, que passou de 4 mil operários para 400. Do total de demissões e programas de desligamento voluntário, cerca de 1,7 mil pessoas decidiram iniciar pequenos empreendimentos que, na maioria dos casos, tornaram-se obsoletos ou fracassaram em pouco tempo.

Em 20 de junho de 1996, depois que o governador de Neuquén, Felipe Sapag, confirmou a suspensão da construção da petroquímica, reuniu-se uma assembleia multissetorial que decidiu bloquear a Rodovia Nacional 22, interrompendo a circulação dos caminhões que transportavam petróleo e tornando visível a demanda por trabalho imediato para as famílias desempregadas.

Depois de resistir ao embate da Gendarmaria e das forças repressivas, o levante consolidou seu caráter massivo, conseguindo romper o cerco informativo e ganhar espaço nos grandes meios de comunicação. Depois de horas de tensão, a Justiça decidiu retirar as tropas do local, provocando a euforia das 30 mil pessoas presentes que, sem saber, conquistavam uma vitória histórica que dava início ao movimento piqueteiro.

Um ano depois, os levantes voltaram a ocorrer na mesma região (3) e se estenderam para outras províncias, como Salta e Jujuy. Em todos os casos, repetiu-se a mesma cena: diante da impossibilidade de impor a repressão, o Estado criou programas sociais (4) para reduzir a pressão das milhares de pessoas que, embora os aceitassem, mantinham firme a reivindicação pela recuperação dos postos de trabalho.

Esse fenômeno foi acompanhado de perto por uma militância dispersa por todo o país, que começou a reproduzir os bloqueios de estradas e as assembleias que exigiam do Estado a recuperação dos empregos perdidos, ao mesmo tempo em que organizava o trabalho comunitário e territorial em bairros populares, vilas e assentamentos.

<><> Milei e uma ofensiva histórica

A onda da extrema-direita e a chegada de Javier Milei ao governo ofereceram às classes dominantes um objetivo histórico: desarticular definitivamente as organizações piqueteiras, territoriais e da economia popular.

A iniciativa governamental baseou-se em uma estratégia de quatro frentes. A primeira consistiu no esvaziamento das políticas públicas, expresso no congelamento dos benefícios dos programas sociais, na suspensão do envio de alimentos aos refeitórios comunitários e na interrupção do financiamento de cooperativas e programas de obras em bairros populares.

Ao mesmo tempo — a segunda frente — intensificaram-se os ataques midiáticos, que, paradoxalmente, já vinham sendo promovidos por alguns setores do massismo durante o governo de Alberto Fernández. A terceira frente foi a repressão, iniciada com a implantação do protocolo antipiquetes e com ações repressivas em cada marcha e manifestação. A quarta e última frente consistiu na judicialização de grande parte das direções das organizações, fossem elas de esquerda ou ligadas ao massismo.

Na outra ponta, os movimentos sociais, com dificuldades, precisaram absorver o impacto inicial. Esses ataques do Estado reduziram consideravelmente a capacidade de mobilização, mas não alcançaram seu objetivo: a desarticulação.

A ofensiva governamental levou à formação de uma frente única do setor, organizada a partir de uma aliança reivindicatória entre a União de Trabalhadores da Economia Popular (UTEP), a Frente de Luta Piqueteira e Territórios em Luta. Essa unidade conseguiu impedir, por meio de ações diretas e de iniciativas judiciais, o encerramento definitivo do programa Voltar ao Trabalho, principal programa social recebido por 900 mil pessoas desempregadas, em situação de trabalho precário ou submetidas ao pluriemprego.

Até o momento, as organizações resistiram à mais dura ofensiva sofrida em três décadas de existência. Embora atravessem um processo de transição quanto à forma de acumulação de forças, ainda mantêm níveis importantes de organização nos territórios e continuam contribuindo diretamente para as lutas e a resistência ao governo de Javier Milei.

O destino dos movimentos sociais depende, em alguma medida, da capacidade de construir uma resposta unificada a partir da base da classe trabalhadora, de elaborar novas e criativas formas de acumulação de forças e dos êxitos ou fracassos do modelo econômico e político libertário.

<><> De frente e de pé

Em todo o mundo existe desemprego, mas não em todo o mundo existe um movimento piqueteiro como o concebido na Argentina. Sobre condições objetivas de empobrecimento e desemprego, grupos de ativistas conseguiram se organizar, criar métodos de luta e conquistar espaço na cena pública e política argentina. Fizeram isso, não por acaso, durante o auge do consenso neoliberal dos anos 1990. Oriundos das mais diversas correntes ideológicas, militantes que atuavam de forma quase isolada encontraram ali uma brecha da qual emergiu a raiz de um movimento que permanece vivo até hoje.

A árvore genealógica do movimento piqueteiro possui uma ramificação extensa e variada: vai das correntes consideradas institucionalistas às revolucionárias, passando pelas ligadas ao massismo e ao marxismo. Todas compartilham intensos debates internos e um crescente nível de dependência do Estado ao qual se opõem. A existência desses movimentos está diretamente ligada à expulsão de trabalhadores e trabalhadoras do emprego formal e da indústria, setor que Karl Marx qualificava como a parcela “estagnada” da população excedente produzida pelo próprio sistema capitalista.

Ao longo desses trinta anos, analistas de toda espécie anunciaram a extinção do movimento piqueteiro. Alguns argumentavam que os ciclos de recuperação econômica eliminariam as condições objetivas para sua existência. Outros acreditavam que balas e cassetetes seriam suficientes para alcançar esse objetivo. Em ambos os casos, fracassaram.

Em um país com uma vasta tradição de lutas operárias, a pobreza sempre será motivo de indignação, tanto para aqueles que, do alto do poder, negam a organização da classe trabalhadora quanto para aqueles que, movidos por uma consciência revolucionária, recusam-se a aceitar as condições desumanas desta vida. O desafio permanece o mesmo: como enfrentar essa realidade e dotá-la de uma estratégia revolucionária e anticapitalista. Em princípio, correndo o risco de fazer uma afirmação modesta, pode-se dizer que ninguém perde de vista que, na Argentina, o desemprego se organiza. E isso não é pouca coisa.

¨      Argentina paralisa projeto de reator nuclear: 'Estamos jogando tudo fora', afirma especialista

O governo argentino paralisou o projeto CAREM, seu reator modular que estava 85% concluído e havia recebido um investimento de US$ 600 milhões, e anunciou um investimento privado de US$ 1,2 bilhão para construir um reator diferente com capital americano. "Estamos jogando fora", disse um especialista à Sputnik.

O governo argentino paralisou seu próprio projeto de reator modular, que estava 85% concluído e havia recebido um investimento de US$ 600 milhões (mais de R$ 3,08 bilhões), e, na mesma semana, anunciou um investimento privado de US$ 1,2 bilhão (cerca de R$ 6,17 bilhões) para construir um reator de projeto diferente com a maioria do capital estrangeiro, enquanto parte do pessoal qualificado que trabalhava no projeto estatal migrou para o setor privado.

O projeto foi apresentado em 2 de julho ao Ministério da Economia pela Meitner Energy, uma empresa constituída nos Estados Unidos, da qual 60% pertencem ao Grupo Ansari e 40% à Black River Technology, subsidiária norte-americana da INVAP, empresa de tecnologia local da província patagônica de Río Negro (sul da Argentina).

O plano propõe a construção do ACR-300, um pequeno reator modular de 300 megawatts de projeto argentino, no complexo de Atucha, que abriga duas das três usinas nucleares do país. A operação seria gerenciada pela estatal Nucleoeléctrica Argentina. O Ministro da Economia, Luis Caputo, descreveu o projeto como "o primeiro do gênero no mundo".

"O projeto terá um investimento estimado em US$ 1,2 bilhão e será financiado por capital privado norte-americano com base em uma patente argentina. Este projeto criará aproximadamente 2.000 empregos diretos durante as fases de desenvolvimento, construção, comissionamento e operação", publicou o ministro nas redes sociais após a reunião com os executivos da empresa.

Por sua vez, o secretário de Assuntos Nucleares, Federico Ramos Napoli, definiu o esquema como "exatamente o modelo que temos promovido: o Estado cria as condições e garante a previsibilidade, e o setor privado investe o capital, assumindo o risco".

Para garantir o financiamento, Meitner busca ingressar no programa "Super RIGI", um regime de incentivos para grandes investimentos acima de US$ 1 bilhão (aproximadamente R$ 5,14 bilhões), que oferece benefícios fiscais significativos por 30 anos e livre acesso a moeda estrangeira. O programa foi aprovado pela Câmara dos Deputados, mas ainda aguarda aprovação do Senado. Nesse caso, o investimento seria inteiramente privado, sem qualquer desembolso governamental.

O anúncio ocorre em um momento em que a Comissão Nacional de Energia Atômica (CNEA), agência estatal criada em 1950 que pesquisa usos pacíficos da tecnologia nuclear e opera usinas nucleares existentes, atravessa sua pior crise orçamentária em décadas. Seu orçamento para 2026 é 58% menor, em termos reais, do que o orçamento executado em 2023, antes da posse de Javier Milei, segundo dados oficiais.

Em 30 de junho, mais de 60 profissionais da CNEA receberam notificações de que seus contratos não seriam renovados, incluindo o único operador de microscópio eletrônico de varredura em todo o país. Os salários reais na agência caíram 32% desde novembro de 2023.

Nesse contexto de subfinanciamento, alguns dos funcionários qualificados da CNEA migraram para a Meitner Energy, que possui uma subsidiária na província de Río Negro. Representantes sindicais do setor indicaram que vários dos demitidos trabalhavam no projeto da Usina Nuclear de Elementos Modulares Argentinas (CAREM), o primeiro reator modular projetado e construído inteiramente na Argentina.

A CAREM acumulou US$ 600 milhões em investimentos públicos desde 2014 e está paralisada desde maio de 2024 devido à falta de financiamento, com 85% do projeto concluído. São necessários entre US$ 200 e US$ 300 milhões (entre R$ 1,02 bilhão e R$ 1,5 bilhão) adicionais para finalizá-lo. O presidente da CNEA, indicado pelo governo, declarou o projeto "inviável comercialmente" e descartou a possibilidade de uma versão comercial.

O prazo de cinco anos anunciado para o ACR-300 está sendo questionado por especialistas: o licenciamento pela Autoridade Reguladora Nuclear leva entre quatro e cinco anos após a aprovação do projeto, condição que Meitner ainda não cumpriu. Sob a atual administração, a CNEA acumulou uma perda de 389 postos de trabalho entre novembro de 2023 e maio de 2026.

<><> Estará a janela de oportunidade se fechando?

"A maioria dos demitidos pertence justamente à equipe de gestão do CAREM, onde todo o investimento que o país fez em conhecimento, treinamento de equipes técnicas e infraestrutura está sendo jogado fora", disse à Sputnik Adriana Serquis, física nuclear e ex-presidente da CNEA (2020-2023).

"Levaram os chefes dos diferentes grupos, todas as equipes que haviam sido formadas", enfatizou a especialista e ex-funcionária. "Havia um acordo de que eles não instalariam operações na Argentina, muito menos levariam os profissionais que trabalhavam no projeto, e não só esse acordo foi quebrado, como eles instalaram operações em Bariloche", alertou.

"O projeto CAREM foi completamente dizimado", afirmou Serquis. "Sem manutenção, provavelmente começará a se deteriorar, e estamos jogando fora US$ 750 milhões [mais de R$ 3,8 bilhões] que a Argentina já investiu nesse projeto. E eles estão matando-o aos poucos", alertou.

Consultado pela Sputnik, Rodolfo Kempf, físico nuclear e secretário-geral da Associação de Profissionais da Comissão Nacional de Energia Atômica e Atividade Nuclear, enfatizou que "o objetivo dessas demissões é, acima de tudo, o primeiro passo em um plano para desmantelar o sistema nuclear argentino, o que abre as portas para a necessidade de capital estrangeiro, especialmente dos Estados Unidos".

Kempf ressaltou que os cortes não representam nenhuma economia fiscal real. "O sistema nuclear argentino está superavitário", afirmou. "A Argentina é autossuficiente em radioisótopos e tem capacidade para participar de um mercado de US$ 10 bilhões [cerca de R$ 51,4 bilhões] em nível regional. O ajuste, do ponto de vista fiscal, não tem impacto", afirmou.

<><> O debate sobre o modelo nuclear

Para Serquis, a situação atual do desenvolvimento nuclear representa "uma oportunidade perdida, porque se o reator CAREM tivesse prosseguido conforme o cronograma, a intenção era que estivesse operacional em 2028, antes mesmo de outras potências mundiais do setor".

Consultado pela Sputnik, Nicolás Malinowski, engenheiro eletricista com mestrado em Gestão de Energia, considerou que "o anúncio fazia parte de uma operação para mostrar ao público que havia desenvolvimentos positivos na área nuclear, mas é importante ter em mente que Meitner não dispõe do financiamento declarado e a tecnologia do reator é desconhecida; não existem projetos".

O especialista descreveu a política nuclear implementada pelo governo nacional como uma "mudança de paradigma", visto que "interrompe uma política estatal ininterrupta há décadas: o desenvolvimento científico soberano".

Malinowski alertou que o desinvestimento em ciência "implica um custo muito alto para o país, pois envolve profissionais formados com verbas públicas em nossas universidades, e também estamos perdendo uma oportunidade única de fortalecer a posição do país no mapa mundial da energia nuclear".

Por sua vez, Kempf afirmou que "chegamos a um ponto sem retorno, pois estamos sacrificando anos de esforço e trabalho de milhares de profissionais, e do Estado como um todo, para alcançar um prestígio que até então era internacional".

¨      Desaprovação de Kast, no Chile, atinge 60%, maior nível desde início do governo, aponta pesquisa

A desaprovação do governo do presidente José Antonio Kast atingiu 60%, o nível mais alto desde 11 de março, segundo a última pesquisa do Cadem Opinião Pública referente à primeira semana de julho. Já sua aprovação chegou a 37%, um ponto percentual a menos que na pesquisa anterior, enquanto a desaprovação subiu dois pontos.

O estudo identifica esta como a semana mais complexa para o chefe de Estado desde a sua chegada a La Moneda, num contexto em que a percepção pública do desempenho do governo e as perspetivas económicas do país também se deterioraram.

Em relação às suas habilidades de gestão, apenas 20% acreditam que o presidente “consegue manter sua coalizão política unida”, uma queda de 11 pontos percentuais, em meio a tensões dentro da coalizão governista e divergências entre o Chile Vamos, o Partido Republicano e o Partido Libertário Nacional.

Em relação aos atributos associados à gestão presidencial, o mais bem avaliado é “ele tem capacidade para gerir as relações internacionais do Chile“, com 52%. No entanto, a categoria “tem uma boa equipe de governo” atingiu 33%, enquanto a capacidade do presidente de “manter sua coalizão política em ordem” caiu 11 pontos, para 20%, constituindo a maior queda registrada nessa métrica. Apenas 18% consideram que ele “tem um bom relacionamento com a oposição”.

O levantamento também reflete uma deterioração na percepção geral da situação nacional, 61% dos entrevistados acreditam que o Chile está no caminho errado, oito pontos percentuais a mais do que na pesquisa anterior, enquanto o pessimismo em relação ao futuro do país também aumentou.

Nessa mesma linha, a porcentagem de pessoas que se declaram pessimistas ou muito pessimistas em relação ao futuro nacional subiu de 52% para 57%.

Segundo a Plaza Pública, 84% dos entrevistados acreditam que a economia chilena está estagnada ou em declínio, oito pontos percentuais a mais do que na pesquisa anterior. Em contrapartida, apenas 14% acreditam que a economia está progredindo.

Em termos de emprego, a percepção também piorou. 88% classificaram a situação do emprego como ruim ou muito ruim, representando um aumento de sete pontos percentuais em comparação com a pesquisa anterior e a maior porcentagem registrada desde meados de 2021, durante os últimos meses do segundo mandato do ex-presidente Sebastián Piñera.

Entre os atributos mais bem avaliados estão “responsável”, com 45% (uma queda de dois pontos percentuais), “autoritário e líder”, com 41% (uma queda de quatro pontos percentuais), e “corajoso”, com 40% (uma queda de seis pontos percentuais).

No extremo oposto do espectro, as características com pior avaliação são “orientado para o diálogo”, com 33% e uma queda de cinco pontos; “próximo”, com 31% e dois pontos a menos; e “empático”, com 30%, também com uma queda de dois pontos.

 

Fonte: Agência de Notícias RedAcción/Sputnik Brasil/Opera Mundi

 

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