‘Brasileiros
são como nós’: como refugiados palestinos assistiram aos jogos do Brasil
Maha
Mahmmoud Mourah recebeu a reportagem da Agência Pública na entrada do campo de
refugiados de Burj Al Barajneh, no subúrbio sul de Beirute, capital do Líbano.
Ela vestia uma abaya preta – traje tradicional islâmico que cobre o corpo
feminino do pescoço aos pés – e um hijab de mesma cor – lenço tradicional usado
por mulheres muçulmanas para cobrir os cabelos e orelhas – , deixando apenas
seu rosto à mostra.
Era
segunda-feira, 29 de junho, quase oito da noite no horário local. Faltavam
poucos minutos para o jogo da Copa do Mundo entre Brasil e Japão – e a última
vitória da seleção antes de ser eliminada pela Noruega -, quando a palestina de
57 anos começou a guiar a reportagem pelas vielas do campo, decoradas com
bandeiras do Brasil. Ela explicou o motivo de tamanha identificação dos
palestinos com o Brasil. “Brasileiros são como nós. Também são pobres. E o
governo brasileiro gosta do povo palestino, critica Israel abertamente”, disse.
Para
ela, no entanto, o clima de Copa do Mundo este ano está longe de ser o mais
feliz. “Desde o genocídio em Gaza, a Copa faz menos sentido para nós”, relatou
Maha. “Em outras Copas, o campo inteiro fazia uma enorme festa, mas agora não
temos motivo para celebrar, nosso povo está sendo massacrado mais uma vez.”
Nesta
segunda-feira, dia 6 de julho, o Hamas anunciou a saída do órgão que governava
Gaza desde 2007, pressionando para que o Comitê Nacional para a Administração
de Gaza siga com a condução. No mesmo dia, um ataque de Israel no sul do
Líbano. Segundo a Al Jazeera, quatro pessoas foram mortas na área de Nabatieh
al-Fawqa.
Apesar
do memorando de entendimento firmado entre Estados Unidos e Irã em 17 de junho,
o qual inclui o fim das hostilidades no Líbano, e o suposto cessar-fogo em
vigor no país desde 16 de abril, Israel continua ocupando cerca de 20% do
território libanês e conduzindo ataques ao sul do país recorrentemente.
Para a
família de Maha, a tristeza durante a Copa carrega uma dura realidade. Sua
irmã, que não vê há décadas e é casada com um palestino de Gaza, perdeu três de
seus filhos em um ataque israelense e agora mora em uma tenda em Khan Younis,
no sul do enclave.
Burj Al
Barajneh tampouco foi poupado pelos israelenses na última guerra. Sendo um dos
doze campos de refugiados palestinos no Líbano, faz parte do complexo suburbano
de Dahieh, comumente tratado pela mídia hegemônica como “bastião do Hezbollah”
– rótulo que ignora o caráter majoritariamente civil da população e a
heterogeneidade dos grupos que compõem a região. Densamente povoada e com
muitos moradores de baixa renda, Dahieh é alvo da maioria dos bombardeios
israelenses à capital do país.
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Uma viela em Beirute que lembra o Brasil
Ao
adentrar Burj Al Barajneh, é impossível não sentir uma espécie de déjà-vu em
relação à configuração das comunidades brasileiras: construções simples e
amontoadas, vielas estreitas, fiação exposta e pouca luminosidade. Outra
semelhança marcante é o vácuo deixado pelo Estado.
Os
campos de refugiados palestinos no Líbano são complexos e autônomos, cuja
soberania hoje é dividida entre Fatah, Hamas e Jihad Islâmica. A UNRWA, agência
da ONU para refugiados palestinos, é responsável pelos serviços básicos de
assistência social, educação infantil, saúde, entre outros, dentro dos campos.
Desde
1969, com o Acordo do Cairo, o governo do Líbano não exerce autoridade dentro
dos campos. O acordo transferiu à OLP (Organização pela Libertação da
Palestina) o controle sobre os campos à época, e se reconfigurou para abarcar
outros grupos de resistência palestinos quando da saída da OLP do país em 1982,
diante da invasão israelense.
Foi
essa mesma invasão que forçou os pais de Maha, anfitriã da reportagem em Burj
Al Barajneh, a se deslocar do sul do país para Beirute. “Meus pais são
refugiados de 48”, me contou a palestina, se referindo ao ano de 1948, quando
mais de 750 mil palestinos foram expulsos de seus territórios com a guerra
deflagrada com a criação do Estado de Israel.
Os
campos de refugiados palestinos – não só no Líbano, mas em outros países
vizinhos da Palestina, como Egito, Jordânia e Síria – foram construídos para
serem temporários, até o momento em que os palestinos pudessem exercer o seu
direito de retorno. No entanto, acabaram se tornando mais uma materialização da
perenidade do não pertencimento, do não lugar de um povo inteiro.
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“Vovó, me dê 100 liras para jogar futebol”
Como o
jogo do Brasil ainda não tinha começado, Maha levou a reportagem a uma quadra
de futebol para que um de seus sete netos, Mohammad, de 10 anos, se divertisse
jogando bola com os amiguinhos.
“Pago
100 liras (cerca de 1 dólar) para cada hora que Mohammad brinca aqui”,
explicou. “Esse é o único campo de futebol do campo de refugiados, os outros
espaços são muito pequenos para brincar”.
Maha
relatou que, com as férias escolares de julho e agosto, as crianças do campo
ficam ociosas por tempo demais e aquelas cujas famílias não têm dinheiro para
pagar lugares de recreação ficam em casa por dias a fio, jogando no celular. “É
uma situação muito complicada. Ele me pede: “Vovó, me dê 100 liras para jogar
futebol’ – como vou dizer que não?”
Ali,
mais uma semelhança com as comunidades brasileiras: o futebol como fonte de
recreação e escape da realidade de pobreza vivida por crianças e adolescentes.
Ao contrário do Brasil, no entanto, o esporte não representa uma via de
ascensão social aos palestinos no Líbano. O status de refugiado se arrasta por
gerações: a naturalização de refugiados palestinos é proibida no país, e a
nacionalidade libanesa só é transmitida por descendência paterna, não por
nascimento no território libanês. Sem cidadania, os palestinos não podem
possuir imóveis e são proibidos de exercer mais de 30 profissões, entre elas as
de maior potencial de ascensão econômica, como medicina e engenharia.
Do
campo de futebol, Maha levou a reportagem da Pública direto para um café-bar em
que a partida entre Brasil e Japão seria emitida. O conceito desse
estabelecimento do mundo árabe-muçulmano é diferenciado: um ambiente
majoritariamente masculino – tanto os vendedores quanto os clientes – com
bebidas que variam entre energéticos, cafés (quentes e gelados), cervejas sem
álcool, e tudo regado a muito cigarro e shisha (ou narguilé, como conhecemos no
Brasil).
Foi
ali, em um pequeno salão cheio de cadeiras de plástico e sob fotos de Yasser
Arafat, líder do Fatah e da OLP e, ele mesmo, morador dos campos de refugiados
no Líbano antes de sua expulsão pelos israelenses em 1982, que assistimos ao
jogo. Homens de todas as idades se amontoavam para acompanhar os passes e
crianças vestiam a camiseta da seleção brasileira, vibrando a cada passe do
time.
“Qual o
seu jogador favorito?” Perguntou a reportagem a Abdul, de 7 anos, que
acompanhava o pai para assistir à partida. “Neymar!”, respondeu o menino,
mostrando o número 10 estampado nas costas.
Maha
preferiu ficar do lado de fora do café-bar e, quando questionada sobre o
porquê, sorriu timidamente e disse que mulheres se sentem um pouco inadequadas
de estar nesses locais. A repórter da Pública era, portanto, a única mulher
presente – o que não pareceu incomodar os demais.
O
primeiro gol do Japão foi marcado por indignação e inquietude. Um dos presentes
até gritou para o garçom: “traz uma cerveja (sem álcool), por favor!”. Conforme
a tensão da partida crescia e o primeiro gol do Brasil demorava a acontecer,
outros vários homens foram se juntando ao grupo.
Já no
segundo tempo, quando o volante Casemiro marcou o primeiro gol brasileiro da
partida, os gritos e buzinas inundaram o campo. “Sou fã do Brasil desde 2010,
quando eu tinha 10 anos”, contou Mustafa Achwah à reportagem em meio às
comemorações. O diretor de filmagem, de 27 anos, explicou que torcer para o
Brasil faz parte da formação dos meninos do campo desde pequenos. Seus avós,
que também se refugiaram no Líbano em 1948, se apaixonaram no campo de Burj Al
Barajneh e deram origem à família de Mustafa.”
Até
quase o final do jogo, com o empate entre os times, o silêncio na plateia era
homogêneo. Foi só com gol que marcou a virada brasileira aos 50 minutos do
segundo tempo que a comemoração tomou conta do campo novamente. Motos invadiram
as vielas buzinando, Mustafa e seus amigos saíram balançando uma enorme
bandeira brasileira, enquanto crianças gritavam, pedalando suas bicicletas de
um lado para o outro.
Até que
Maha finalmente apareceu. “O Brasil ganhou!”, ela disse. “A Palestina pode
sorrir hoje”.
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Palestina: mais de mil dias de guerra
Os
ataques israelenses à Faixa de Gaza completaram mil dias na última
quinta-feira, 2 de julho. Um estudo independente publicado em fevereiro de 2026
na revista científica The Lancet Global Health estima que desde 8 de outubro de
2023, as forças militares de Israel mataram 75,2 mil pessoas em Gaza, das quais
22,8 mil eram crianças. Outras mais de 12,2 mil pessoas continuam
desaparecidas, permanecendo incerto se estariam mortas, deslocadas sem
comunicação, ou detidas por Israel em circunstâncias não documentadas.
Desde o
anunciado cessar-fogo, estabelecido em outubro de 2025, as forças israelenses
mataram mais de mil palestinos no enclave.
O
Líbano, vizinho da Palestina ocupada, abriga em torno de 250 mil refugiados
palestinos, em sua grande maioria descendentes de refugiados das guerras de
1948 – criação do Estado de Israel – e
1967 – guerra dos seis dias, em que se deu a ocupação da Cisjordânia e Gaza
pelas forças israelenses. De acordo com a UNRWA, Agência de Refugiados da ONU
para refugiados palestinos, 80% dos palestinos no Líbano vivem abaixo da linha
da pobreza.
De
acordo com o Ministério da Saúde libanês, desde março de 2026, mais de 1 milhão
de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas no Líbano por conta dos ataques
israelenses, que mataram 4.301 pessoas e deixaram 12,1 mil feridos.
Fonte:
Por Giovanna Vial, da Agência Pública

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