Natalia
Viana: A Copa acabou. E não é porque o Brasil perdeu
Neste
domingo, a Copa de 2026 foi palco talvez da sua jogada mais histórica – e mais
tenebrosa. Nada a ver com a derrota do Brasil, que cá entre nós, mereceu. Veio
do presidente dos EUA mais uma demonstração de que não tem limites para
perseguir os instintos mais primitivos. E veio de Gianni Infantino, presidente
da FIFA, a prova de que, na Copa, quem manda é ele, e que ele vai fazer o que
pedirem os seus amigos e ditadores de estimação.
Na
noite de 1 de julho, depois da seleção dos EUA bater a Bósnia, Donald Trump
ligou para Infantino para reclamar do cartão vermelho recebido por Folarin
Balogun, atacante do time, segundo o New York Times. Folarin pisou forte no
calcanhar do jogador da Bósnia. Teve gente que achou exagerado. Mas a gravidade
da falta pouco importa: foi vermelho.
Para
agradar a Trump, Infantino apelou para o regulamento da FIFA, artigo 27, em vez
de alguma regra da Copa do Mundo. A decisão da Fifa, anunciada neste domingo,
5/7, foi suspender a punição tradicional do cartão vermelho, que impede o
jogador de participar da próxima partida.
E
voilá: o atacante estará presente no jogo mata-mata das oitavas, decisivo para
o time anfitrião num país onde pouquíssima gente liga pra futebol.
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que a entidade “fez o que
era correto”.
Mais
uma vitória que Trump pode se gabar de levar para casa, ao lado do prêmio Nobel
arranjado num quadro ridículo pela oposicionista venezuelana María Corina
Machado, e do “Prêmio da Paz da FIFA”, entregue pelo mesmo Infantino.
Claro,
foi apenas um dentre uma fileira de abusos protagonizados pelos EUA no
campeonato, que incluíram restrições de visto impostas à seleção do Irã, que
tinha que viajar pro México depois de cada jogo; o interrogatório de 7 horas ao
jogador iraquiano Aymen Hussein; a negativa de visto ao principal árbitro da
África, Omar Artan, da Somália; e revistas severas às equipes do Senegal e do
Uzbequistão no aeroporto.
Mas o
que a suspensão do cartão vermelho para os EUA revela é algo ainda mais
sinistro.
Primeiro,
nenhuma regra é válida para a direção corrupta da FIFA, e portanto, essa Copa
não vale nada.
Segundo,
ela revela que a popularidade de Trump pode cair, os EUA podem perder a guerra
com o Irã, e mesmo assim, boa parcela dos líderes mundiais estarão muito
dispostos a abaixar lamber as botas do norte-americano.
É sobre
o sorriso cúmplice dos covardes que se constrói um regime autoritário. E é por
causa da enorme disseminação de covardes e oportunistas em lugares de mando –
dentro e fora do país – que vemos com tanta rapidez a completa desmoralização
da tão exaltada democracia americana.
É
também pelo excesso de covardes – homens, em sua maioria – que a ligação de
Trump e a suspensão do cartão vermelho deveria nos preocupar aqui, neste canto
do mundo.
É
chocante que a nossa imprensa naturalize o fato com matérias do tipo “leia o
regulamento que permitiu” ou “todas as vezes que a FIFA suspendeu punições”.
Uma ladainha de panos quentes: “ah, a Fifa também concedeu anistia a três
jogadores antes do início desta Copa”, “ah, 1962 Garrincha pôde jogar na final
da Copa em Santiago do Chile”.
Algo
que ocorreu há 64 anos, quando nem existia cartão vermelho, não mitiga a
barbaridade cometida mais uma vez pelo presidente dos EUA, e acatada com gosto
pela FIFA. Mas sempre haverá uma corja de bajuladores que abraçam qualquer meia
explicação para apoiar Trump.
A maior
lição desta copa é que Trump segue fazendo o que bem quer onde bem quer – e
como ele mesmo atestou recentemente, ao compartilhar um artigo que dizia isso,
ipsis litteris, seu próximo alvo são as eleições do Brasil em outubro.
Espero
que nas urnas os brasileiros demonstrem mais fortaleza do que no campo de
futebol.
• Por que reação negativa da Europa à
intervenção de Trump na Copa não preocupa o presidente da Fifa
Gianni
Infantino é presidente da Fifa há 10 anos e, no ano que vem, ele concorre à
reeleição.
Mas a
gestão de Infantino tem sido cada vez mais polêmica — do Prêmio da Paz da Fifa
concedido ao presidente americano Donald Trump aos preços exorbitantes dos
ingressos para a Copa do Mundo.
Mas
será que a decisão sem precedentes de cancelar o cartão vermelho dado ao
atacante americano Folarin Balogun poderá ser o ponto de virada? Balogun, o
craque dos EUA, com três gols marcados nesta Copa, foi expulso no jogo contra a
Bósnia e Herzegovina.
Ele
deveria ter ficado de fora da partida de segunda-feira (06/07) contra a
Bélgica, mas teve seu cartão vermelho suspenso pela Fifa. Na partida, os
americanos acabaram derrotados por 4 a 1 pela Bélgica e foram eliminados do
torneio que estão sediando.
Apesar
de ter sido expulso, Balogun esteve em campo — mesmo que as regras da Copa do
Mundo não permitam recursos contra cartões vermelhos.
Na
segunda-feira, mais de 24 horas após sua decisão inicial, a Fifa divulgou um
comunicado de 871 palavras que pouco esclareceu os motivos da decisão. Mas
outra pessoa também se pronunciou para dar esclarecimentos.
"Fui
eu quem os convenceu a fazer isso", disse Donald Trump, quando questionado
se ele havia entrado em contato com Infantino por telefone.
Trump
disse que "tudo" o que fez foi pedir uma revisão. Ele afirmou que não
disse a Infantino para suspender a proibição de Balogun.
Mas o
simples fato de tal intervenção ter ocorrido é motivo de grande preocupação em
todo o futebol.
Entre
os americanos, a narrativa tem sido de que houve injustiça contra os EUA,
sugerindo que Balogun não deveria ficar de fora da partida contra a Bélgica.
Alguns defendem que, ao ser expulso contra a Bósnia e Herzegovina, ter perdido
o resto daquela partida já seria punição suficiente.
Esses
sentimentos foram expressados por Trump.
Infantino
rejeitou qualquer sugestão de interferência política, insistindo que a comissão
disciplinar da entidade é independente.
Mas a
percepção das pessoas é igualmente importante nesse caso.
A
decisão não beneficiou qualquer equipe — ela ajudou a seleção dos anfitriões. E
os EUA são governados por Trump — que apoia Infantino e chama o presidente da
Fifa de amigo.
A
suspensão do cartão vermelho parecia uma espécie de indulto presidencial.
"Este
é o nosso esporte, não o deles", disse o ex-técnico do Liverpool, Jurgen
Klopp. "Se Donald Trump e Gianni Infantino realmente resolveram isso entre
si, é uma loucura. Isso coloca tudo em dúvida."
As
consequências poderiam gerar pressão suficiente para colocar a posição de
Infantino em risco?
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Fifa proíbe interferência política no futebol
Os
estatutos da FIFA são claros quanto à interferência política. Ela não é
permitida.
Países
costumam ser suspensos do futebol internacional devido à interferência do
governo nas federações nacionais de futebol. O Paquistão, por exemplo, já foi
suspenso três vezes em um período de oito anos.
No caso
de Infantino e Trump, as regras são diferentes?
O
sorteio da Copa do Mundo, durante o qual Trump recebeu o primeiro Prêmio Fifa
da Paz, pareceu a culminação de dois anos em que Infantino cultivou uma relação
próxima com o presidente dos EUA.
"O
senhor sempre poderá contar, Sr. Presidente, com o meu apoio, com o apoio de
toda a comunidade do futebol, para ajudá-lo a trazer paz e prosperidade ao
mundo todo", disse Infantino a Trump ao entregar o prêmio.
Em
dezembro, o grupo de defesa dos direitos humanos FairSquare apresentou uma
queixa ao comitê de ética da Fifa alegando que Infantino violou as regras da
entidade sobre neutralidade política ao criar o prêmio.
Sem
receber resposta, no mês passado 50 deputados do Parlamento Europeu enviaram
uma nova carta ao comitê de ética exigindo providências. Como em muitas
situações envolvendo a Fifa, não houve resposta.
Até
agora, Trump não compareceu a uma única partida da Copa do Mundo. Mas ele fez
sua presença ser sentida ao assumir a responsabilidade pela situação de
Balogun.
Foi
mais um exemplo de como o futebol pode ficar em um segundo plano no jogo
político.
Já
tínhamos visto isso acontecer com o árbitro somali Omar Artan.
Artan
teve sua entrada nos EUA negada por agentes de imigração, e Infantino foi
acusado de perder o controle da própria Copa do Mundo.
No
entanto, quando foi questionado pela imprensa no mês passado — pela primeira
vez em mais de três anos — sua resposta foi, na melhor das hipóteses,
superficial.
"Simplesmente,
sabe, fiquem tranquilos, relaxem", disse Infantino sobre a situação de
Artan.
Esta
Copa sempre esteve cercada de suspeitas e polêmicas — e raramente houve
momentos de transparência.
Outro
exemplo foram as cinco horas de indefinição na sexta-feira passada, quando a
Fifa primeiro decidiu mudar o horário de início da partida das oitavas de final
entre Inglaterra e México e depois voltou atrás, fingindo que nada havia
acontecido.
A
situação de Balogun segue o mesmo roteiro: uma decisão comunicada sem qualquer
justificativa. O futebol simplesmente recebe a informação sobre uma decisão e
precisa acatá-la.
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Polêmicas nos bastidores da Copa
Se
fôssemos listar todas as controvérsias recentes do futebol, este artigo seria
bastante longo.
Mas
vamos considerar o processo de decisão das sedes das Copas do Mundo de 2030 e
2034, há dois anos, algo que muitas vezes passa despercebido.
Foi
decidido que a edição de 2030 seria realizada em três continentes — África,
Europa e América do Sul. Isso significava que o torneio de 2034 teria de ser
realizado na Ásia ou na Oceania.
Sem
concorrência real, isso praticamente garantiu que a Arábia Saudita (que fica no
extremo oeste da Ásia )— um país que enfrenta questionamentos sobre seu
histórico de direitos humanos — seria a anfitriã.
A
Arábia Saudita e a Fifa, sob a gestão de Infantino, têm hoje uma relação
próxima.
A
federação norueguesa de futebol se absteve e argumentou que o processo de
candidatura enfraquecia as "reformas da Fifa para uma boa governança"
e colocava em dúvida a "confiança na Fifa".
Outro
exemplo é o da Copa do Mundo de Clubes — que para alguns seria uma espécie de
torneio de verão indesejado criado pela Fifa para ficar com uma fatia das
receitas dos clubes.
Sergio
Marchi, presidente do sindicato global de jogadores Fifpro, afirmou no ano
passado que o torneio foi criado "sem diálogo, sensibilidade e
respeito".
E agora
temos o caso Balogun.
"O
futebol jamais deve se tornar um espaço para o poder político", escreveu o
ex-presidente da Fifa Sepp Blatter no X.
Vale
lembrar que Blatter foi forçado a deixar a presidência da Fifa após um
escândalo de corrupção — sendo substituído por Infantino em 2016.
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Uefa contra Infantino?
A Uefa
— entidade que representa o futebol europeu — entrou na polêmica na terça-feira
(07/07) ao manifestar forte oposição à decisão sobre Balogun.
A
entidade que governa o futebol europeu afirmou que a Fifa havia "cruzado
uma linha vermelha" e descreveu a medida como uma "decisão sem
precedentes, incompreensível e injustificável".
Essa
não é a primeira vez que a Uefa entra em conflito com a Fifa.
Em maio
de 2025, o presidente da UEFA, Aleksander Ceferin, liderou um grupo de
delegados europeus que abandonaram as sessões durante um intervalo do Congresso
da Fifa.
Infantino
estava em uma viagem diplomática pelo Oriente Médio ao lado de Trump e chegou
com duas horas e 17 minutos de atraso.
A Uefa
também tentou reforçar sua posição política durante a Copa do Mundo.
Assim
que o árbitro Artan desembarcou de volta em casa, na Somália, no mês passado, a
Uefa anunciou que ele havia sido convidado para apitar o jogo da Supercopa da
Uefa entre Paris Saint-Germain e Aston Villa, em 12 de agosto.
E ao
longo deste ano, a Uefa tem feito questão de destacar como os ingressos da Euro
2028 são baratos em comparação com os da Copa do Mundo. A entidade não
introduzirá pausas para hidratação nem cartões vermelhos para jogadores que
cubram a boca — duas novidades da Fifa adotadas na atual Copa.
Mas
vale ressaltar que o próprio Infantino veio da Uefa. Durante muitos anos, ele
foi o responsável pela apresentação dos sorteios da Liga dos Campeões.
Talvez
ele não seja exatamente uma persona non grata na confederação europeia — ele
discursou no Congresso da Uefa em fevereiro — mas há atritos óbvios.
Levando
tudo isso em conta, seria de se esperar que a posição de Infantino poderia
estar em risco.
Pelo
contrário. Infantino é popular entre muitas federações ao redor do mundo — e
muito disso se deve à promoção do futebol pela Fifa.
O
programa Fifa Forward, de Infantino, financiou projetos de futebol em todo o
planeta e criou oportunidades por meio da expansão da Copa do Mundo.
A Copa
agora tem 16 seleções adicionais — a grande maioria delas de confederações
menores. Já a Europa recebeu apenas três das vagas adicionais.
Esta
Copa do Mundo mostrou que as seleções da Ásia e da Concacaf ainda precisam
melhorar muito para serem competitivas.
Mas
Infantino ofereceu uma chance a nações que antes tinham pouca esperança de
disputar uma Copa do Mundo, como Cabo Verde, Curaçao, Jordânia e Uzbequistão.
Apesar
de todas as críticas ao formato com 48 equipes, ele estimulará nações com menos
tradição a desenvolver seu futebol e se fortalecer — e será que isso não é algo
positivo para o esporte em todo o mundo?
Na
verdade, existe um problema. Torneios como a Copa do Mundo, com seus preços
exorbitantes de ingressos, financiam esses projetos.
Este
ano, a Fifa espera arrecadar US$ 9 bilhões.
A Uefa
pode se opor a muito do que a Fifa e Infantino representam, mas o futebol
europeu é o mais rico do esporte e consegue, em grande medida, se financiar
sozinho.
O
restante do futebol depende de Infantino e do dinheiro que a Fifa gera.
A Fifa
é composta por 211 países. Cada um deles tem direito a um voto na eleição da
presidência da entidade, sendo necessários 106 votos para vencer uma eleição.
Vamos
analisar esses números.
Em
abril, a Conmebol — a confederação sul-americana — afirmou que seus 10 países
apoiariam Infantino. Três semanas depois, a Confederação Africana de Futebol
(CAF) confirmou o apoio unânime de suas 54 associações. Pouco tempo depois, as
47 nações da Confederação Asiática de Futebol seguiram o mesmo caminho.
Com 111
votos, Infantino já é imbatível.
Mesmo
que a Uefa acredite ser capaz de reunir um candidato de oposição viável, a
disputa já parece estar decidida.
Infantino
foi reeleito sem oposição em 2019 e 2023. Seria necessário algo realmente
extraordinário para que alguém se candidatasse contra ele em 2027.
Fonte:
Agencia Pública/BBC Sport

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