Bet
investigada por envolvimento no bicho foi comprada por empresa com ações na
Nasdaq
Um site
de apostas que, tempos depois, passou a ser investigado por ligação com o jogo
do bicho, operou por anos de maneira irregular. Depois, foi comprado por uma
grande empresa mundial, com ações na Nasdaq. Por fim, se transformou em uma
plataforma regularizada pelo governo federal.
Quando
a regulamentação das apostas deu sinais de que iria se concretizar no Brasil,
muitas das principais empresas do setor ao redor do mundo correram para tentar
abocanhar uma fatia de um mercado com potencial bilionário. Uma delas, porém,
sem presença prévia no país, decidiu ir por um caminho alternativo: ao invés de
começar do zero, resolveu comprar uma plataforma que operava no país,
adquirindo seu domínio na internet e sua base de clientes – um atalho para
chegar melhor posicionada em um ramo tão competitivo.
Esse
poderia ser apenas um caso comum, uma nota em sites especializados em uma
indústria não raramente envolta em controvérsias, não fosse por um detalhe: a
existência de uma investigação policial, desencadeada em 2025, sobre a prática
de jogo do bicho, uma contravenção penal proibida no Brasil desde a década de
1940.
Essa é
a história de como a MeridianBet, casa de apostas associada a uma empresa que
vale mais de 170 milhões de dólares, é listada em uma das principais bolsas de
valores do mundo e opera em pelo menos 15 países, está envolvida em uma
investigação sobre jogo do bicho e lavagem de dinheiro em Santa Catarina. A
venda do negócio, agora investigado por contravenção penal, rendeu pelo menos
R$ 11 milhões – e os sócios, diretores ou administradores conectados à operação
da Magicbet777 e Meridianbet romperam parte dos laços empresariais um mês
depois de uma operação policial atingir dois deles.
Para
contar esse enredo, a Agência Pública mergulhou em documentos policiais,
judiciais e financeiros e ouviu fontes familiarizadas com o caso em condição de
anonimato. Mais do que somente um episódio isolado, a transformação de um
negócio supostamente ligado ao jogo do bicho em uma plataforma de apostas
autorizada pelo governo federal levanta questionamentos sobre o processo
de verificação da idoneidade dos
gestores e controladores de empresas de apostas – e sobre a origem dos recursos
utilizados para pagar as milionárias outorgas das diversas empresas atuantes no
ramo. Recentemente, reportagem do Estadão mostrou que o governo tem imposto
sigilo de 100 anos nos processos de autorização. Depois, o governo prometeu
liberar os documentos.
A
regulamentação brasileira sobre apostas, que prevê pagamento de R$ 30 milhões
para operações no país, é ainda incipiente e, por anos, as bets funcionaram em
território nacional à margem da legalidade, com sedes em paraísos fiscais. O
primeiro passo para a liberação foi uma lei do governo Temer, em 2018, que
autorizava apostas esportivas e previa regulamentação em até quatro anos. A
gestão Bolsonaro não o fez e a lei estabelecendo regras só saiu no final de
2023, já no governo Lula, que posteriormente também passou a permitir jogos
como o popular e controverso Fortune Tiger, o jogo do tigrinho, um caça-níquel
virtual.
As
primeiras casas autorizadas começaram a operar no início de 2025. No primeiro
ano de funcionamento, a receita bruta das empresas legalizadas foi de R$ 37
bilhões, com arrecadação para a Receita Federal de quase R$ 10 bilhões. Em
2026, só nos primeiros quatro meses, a arrecadação em impostos chegou a R$ 4,5
bilhões.
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Investigação da Polícia Civil apura relação com jogo do bicho
Em maio
de 2026, a plataforma de apostas MeridianBet fez um movimento publicitário para
expandir seu público no Brasil: anunciou o ex-jogador de futebol sérvio Dejan
Petković como embaixador global da marca. Pet, como é conhecido, é um dos
estrangeiros de maior sucesso no futebol brasileiro, tendo atuado por clubes
como Flamengo, Vasco e Fluminense, além de ter sido comentarista do canal
SporTV e de ser cônsul honorário de seu país no Rio de Janeiro. A parceria
incluiu a criação da “Petkovic TV”, um canal de conteúdo digital sobre esporte
e entretenimento.
A
plataforma de apostas, que agora tem no ex-jogador seu principal rosto, foi
autorizada pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) em março de 2025. A marca
é associada ao grupo internacional Meridian Gaming, fundado em 2001 e de origem
sérvia, mas atualmente sediado em Malta. No Brasil, além de site homônimo,
também opera a PinBet.
Em
2023, o grupo foi adquirido pela companhia norte-americana Golden Matrix Group,
em um negócio avaliado em 300 milhões de dólares (mais de R$ 1,5 bilhão). Desde
então, ações da companhia são negociadas na bolsa americana Nasdaq e seu valor
de mercado passa de 170 milhões de dólares (quase R$ 900 milhões). Além de
operar sites de apostas, a Meridian Gaming também licencia sua marca para
parceiros locais. Em março, o Golden Matrix Group passou a se chamar Meridian
Holdings.
Sua
chegada ao Brasil, no entanto, se deu antes da autorização da SPA. Em setembro
de 2023, segundo documentos apresentados pela empresa à Comissão de Valores
Mobiliários dos Estados Unidos, a holding comprou um site brasileiro por 2,3
milhões de dólares (cerca de R$ 11,7 milhões, em valores da época). O relatório
apresentado pela empresa revela se tratar da MagicBet777 – uma plataforma que
operou irregularmente no país, segundo a Polícia Civil. A Pública apurou, com base nos registros
digitais da empresa, que a MagicBet oferecia jogo do tigrinho e outros cassinos
virtuais antes dessas modalidades serem permitidas no Brasil.
A
reportagem também apurou que a MeridianBet adquiriu os ativos digitais, como o
domínio do site, além da cessão dos direitos de propriedade intelectual, a base
de dados e de clientes e a receita operacional da MagicBet777.
O que o
documento norte-americano não revela, porém, é que o histórico por trás do site
comprado pela gigante do setor vai muito além de oferecer apostas esportivas à
margem da lei – como tantas plataformas fizeram no período de limbo jurídico
das bets no Brasil.
Para
entender essa história, é preciso voltar a março de 2024, quando a Polícia
Civil de Santa Catarina (PC-SC) deflagrou a “Operação Deu Zebra” em Presidente
Getúlio, município próximo a Blumenau. A ação policial, que cumpriu 14 mandados
de busca e apreensão e sequestrou bens e ativos financeiros avaliados em R$
12,5 milhões, tinha como objetivo sufocar a atividade de um grupo suspeito de
explorar o jogo do bicho há mais de duas décadas na região. O principal alvo
era um homem chamado Everaldo Germann da Rocha, posteriormente indiciado por
envolvimento com a contravenção penal.
Só que,
em meio às investigações e quebras de sigilo, os policiais acabaram se
deparando com um outro nome, que chamou a atenção: o de Verginio Germann da
Rocha, irmão de Everaldo. Em uma mensagem obtida pelos agentes, Djonathan
Rocha, sobrinho de Everaldo e Verginio, menciona que trabalhava para seu tio
“Vino” (apelido de Verginio) em “uma plataforma de jogo do bicho”. Como o
suposto envolvimento do “tio Vino” com a contravenção penal ocorria em outra
região, mais próxima ao litoral catarinense, os autos foram separados e uma
nova investigação foi iniciada.
O que
antes era mais uma apuração policial sobre jogo do bicho, porém, acabou indo
muito além. Em endereços vinculados ao grupo em Itajaí (SC), além de máquinas
de pagamento programadas para emitir apostas no jogo do bicho, os policiais
apontaram que funcionara, por alguns anos, sedes físicas de uma bet com atuação
irregular, que oferecia apostas esportivas e cassinos on-line.
Os
achados vieram a público em junho de 2025, quando o órgão deflagrou a “Operação
Cartão Vermelho”, cumprindo 17 mandados de busca e apreensão e sequestrando
bens e ativos financeiros no valor de R$ 30 milhões. A investigação também
registrou movimentações para lavar o dinheiro ilícito. A descoberta dos agentes
ia ao encontro do que outros inquéritos policiais já vêm demonstrando ao redor
do país: uma relação íntima entre bets clandestinas com atividades criminosas.
A
particularidade desse caso, porém, é que a atuação da bet com histórico de
atuação irregular não foi interrompida nem ocultada – ela se transformou.
O texto
divulgado pela própria corporação policial afirma que uma bet irregular, ligada
ao jogo do bicho, teria sido sucedida por uma bet regularizada pelo governo – o
que por si só poderia contaminar a idoneidade da plataforma autorizada. Ambas,
diz a polícia, seriam “supostamente constituídas a partir de recursos
ilícitos”. Por correr em sigilo e o inquérito ainda não ter sido concluído, no
entanto, a operação não revelava nomes, nem de pessoas físicas, nem das
empresas envolvidas.
Cruzando
documentos da Receita Federal e da plataforma CruzaGrafos, certidões
comerciais, registros recuperados do site da bet irregular(hoje fora do ar),
buscas no LinkedIn e informações sigilosas, a Pública descobriu que as duas
plataformas visadas pela Polícia Civil catarinense são justamente a brasileira
MagicBet777 e a multinacional MeridianBet. Também conseguimos confirmar a
identidade de alguns dos investigados pelas supostas ilegalidades – em uma
intrincada relação empresarial que remonta a mais de uma década atrás.
A
primeira peça desse quebra-cabeça são dois habeas corpus (HCs)julgados pelo
Superior Tribunal de Justiça (STJ), que revelam o nome de dois dos implicados
na operação. Além do já mencionado Verginio, que, segundo as investigações
policiais, seria um operador do jogo do bicho, o outro envolvido é Elder Cesar
Carlos Caturani Junior, que trabalhou entre 2018 e 2024 em diferentes cargos na
MagicBet777, conforme registrou em seu LinkedIn.
Os dois
investigados por associação criminosa, lavagem de dinheiro e contravenção penal
de jogo de azar recorreram ao tribunal em busca de tirar o caso da Justiça
Estadual e levá-la para a Federal. Os habeas corpus foram negados no início de
2026, mas as investigações estão paradas enquanto não há decisão final sobre a
competência do processo.
Os
habeas corpus revelam que a MagicBet777, de origem brasileira, operava no país
por meio de um site internacional, estava sediada em Curaçao (um conhecido
paraíso fiscal) e era autorizada por órgão curaçauense – este foi, inclusive,
um dos argumentos utilizado pela defesa para evocar “transnacionalidade” e
tirar o caso das mãos da Polícia Civil catarinense.
Antes
de ser vendida para a Meridian, a plataforma ganhou alguma notoriedade no
estado ao patrocinar o segundo principal campeonato do futebol catarinense, a
Copa Santa Catarina, além de campeonatos de futevôlei e futebol de várzea e um
clube local, o Grêmio Esportivo Juventus, que atualmente disputa a série B do
Catarinense.
Registros
de LinkedIn e do site da MagicBet arquivados na internet mostram que ela operou
pelo menos desde 2018 e comprovam que, além de apostas esportivas de quota
fixa, que o governo Temer havia permitido no Brasil, a empresa também operava
cassinos e caça-níqueis on-line pelo menos desde junho de 2023, o que era
proibido no país até julho de 2024.
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Empresa autorizada pelo governo manteve pessoas ligadas à bet com histórico de
atuação irregular
Após a
milionária aquisição, a Meridian ainda seguiu operando a marca MagicBet777 até
agosto de 2024, quando o site da bet irregular passou a exibir um pop-up
redirecionando o apostador para o site da nova marca. Nesse período, já sob o
comando da nova dona, o antigo site seguiu ofertando modalidades proibidas no
país, como o jogo do tigrinho. Depois, no novo site, já sob o nome MeridianBet,
a oferta de caça-níqueis virtuais teria continuado, mesmo com a ilegalidade,
mostram registros salvos no Internet Archive.
Na
mesma época, a plataforma começou a se movimentar para obter a autorização da
SPA, abrindo uma nova empresa no Brasil, a Meridian Gaming Brasil SPE Ltda, que
meses depois recebeu o aval do governo federal.
A
adoção da nova marca, no entanto, não encerrou a participação e nem os laços
dos investigados pela Polícia Civil catarinense com a operação da bet no país.
Um dos investigados e a esposa de outro foram absorvidos em cargos de direção
na empresa nova.
Elder
Caturani Junior – um dos investigados pela corporação – era administrador da
Meridian SPE segundo registros da Junta Comercial de Santa Catarina, além de
ter sido nomeado diretor de Atendimento aos Apostadores e Ouvidoria. Ele deixou
os cargos em julho de 2025, um mês após a deflagração da operação policial – o
que se repetiu em outras empresas do mesmo grupo. Apesar de ter deixado a
função, no LinkedIn de Caturani Junior consta que ele continuou no grupo, e
atuou como Diretor de Operações (COO) da MeridianBet até abril de 2026. É o
mesmo cargo em que ele encerrou sua trajetória na MagicBet777.
Além
disso, Queila Katiuscia Rios Burin da Rocha, esposa do investigado pela Polícia
Civil, Verginio Rocha, foi diretora contábil e financeira da Meridian Gaming
Brasil SPE de sua constituição até o mês seguinte à operação policial.
Procurado
pela reportagem, Caturani Junior disse que não vai se manifestar “por
orientação jurídica e em respeito ao sigilo do procedimento”, mas pontuou que
sua atuação na MagicBet777 e na MeridianBet se deu como empregado e que “nunca
teve participação societária ou financeira em nenhuma das duas empresas”.
Verginio
Rocha respondeu ao primeiro contato da Pública, mas não deu retorno após a
reportagem enviar as perguntas. Sua esposa, Queila Rocha, disse que não vai se
manifestar.
A
MeridianBet Brasil e a Meridian Gaming também foram contatadas e não deram
retorno até a publicação.
Em nota
enviada à Pública, a SPA disse que segue critérios definidos pela Portaria nº
827/2024 para autorizar uma bet a funcionar legalmente no país. “A Secretaria
analisa a documentação societária apresentada, incluindo o contrato social e
suas alterações, bem como os demais documentos exigidos para a verificação da
estrutura societária e da composição do quadro de controle e administração da
empresa”, afirma.
No caso
da Meridian Gaming Brasil SPE Ltda., a SPA “não identificou registros que
comprometessem o atendimento aos requisitos de idoneidade previstos na
regulamentação”. “Cumpre destacar que inquéritos e procedimentos
investigatórios submetidos a segredo de justiça ou a sigilo legalmente
decretado não são acessíveis à Administração Pública Federal”, continua o
órgão.
A SPA
diz que adota procedimentos de conformidade para avaliar o capital social da
empresa e o valor destinado ao pagamento da outorga, incluindo análise de
declarações de imposto de renda dos sócios. “Contudo, a análise técnica
conduzida pela Secretaria possui natureza estritamente administrativa e não
substitui eventuais investigações realizadas pelas autoridades policiais,
judiciais ou fiscais”, diz.
Por
fim, a pasta afirma que os fatos investigados ocorreram antes da plena
implementação do modelo atualmente em vigor, quando o mercado operava em um
vácuo regulatório e sem os instrumentos de fiscalização e responsabilização
existentes hoje. “Caso surjam novos fatos que indiquem descumprimento das
regulamentações vigentes, a SPA procederá à abertura de procedimento
fiscalizatório, podendo ocasionar eventual aplicação de sanções, caso
confirmadas as irregularidades”, conclui. Leia a íntegra da nota aqui.
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Teias societárias
Como é
recorrente no setor de bets no Brasil, a empresa principal aparece associada a
outros CNPJs. No caso da autorizada pela SPA, são duas empresas que aparecem
como sócias: a MeridianBet Brasil Ltda (que, por sua vez, é ligada à Meridian
Tech D.O.0 Limited Liability, sediada em Belgrado, capital da Sérvia) e a
Meridian Brasil Participações Ltda. Os representantes das duas empresas são
Renato Kasten Dória, no caso da MeridianBet Brasil, e Roberto Carvalho Brasil
Fernandes, no caso da Meridian Brasil Participações.
Dória,
segundo sua página no LinkedIn, era sócio de um escritório de contabilidade que
consta com o mesmo endereço da empresa de apostas registrada na SPA, a Meridian
Gaming Brasil SPE Ltda, mas desde agosto de 2025 passou a atuar como CEO da
Meridian no Brasil. Ele também aparece como administrador ou representante
legal de uma série de outras empresas. É ele quem representa a empresa sediada
em Belgrado no Brasil.
Já
Roberto Carvalho Fernandes é sócio de um escritório de advocacia que atua no
ramo de apostas esportivas. Ele é uma das principais referências jurídicas do
setor no Brasil. A Meridian Brasil Participações, aberta em 2019, tem Caturani
Junior como administrador desde 2024. Tem também o argentino Juan José Mantese,
que é vice-presidente para América Latina da MeridianBet internacional há 12
anos.
Há
ainda uma outra empresa, que indica um elo entre MagicBet, Meridian e membros
da família Rocha – supostamente ligados ao jogo do bicho, segundo a
investigação da PC-SC. Trata-se da Mavith Holding, fundada em maio de 2024 e
que tem dois sócios: Matheus Henrique Caturani, que compartilha o sobrenome e
uma sociedade com Elder Caturani, na B&S Participações Ltda, e Vinicius
Burin Germann da Rocha, filho de Verginio Germann da Rocha – o outro
investigado – também citado no inquérito da Polícia Civil contra seu tio,
Everaldo, como tendo atuado com jogo do bicho.
Roberto
Carvalho Fernandes e Renato Dória, representantes das empresas sócias da
MeridianBet no Brasil, não responderam os questionamentos da Pública.
Documentos
da Junta Comercial de Santa Catarina revelam também que a Mavith Holding é
administrada e representada por Queila Rocha, mãe de Vinicius e esposa de
Verginio Germann da Rocha.
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Deputado federal foi sócio de investigados
As
relações societárias ainda envolvem um deputado federal: Jorge Goetten de Lima,
empresário catarinense eleito pelo Republicanos. Ele mantinha sociedade com
Roberto Carvalho Fernandes, o advogado que representa a MeridianBet no Brasil,
na holding patrimonial EBA Participações Ltda, que ainda tinha como sócios
Vergínio e Caturani, os dois investigados pela Polícia Civil catarinense por
jogo do bicho e lavagem de dinheiro. Aberta em 2003 como “Bruno Papéis
Especiais”, uma fabricante de papéis em Campo Novo (SC), a empresa foi
esvaziada em 2011 e renasceu com uma mudança total do quadro societário e
objeto social.
A
holding só foi formalmente dissolvida em julho de 2025, um mês depois de a
operação policial se tornar pública.
Goetten,
que já teve participação em uma empresa de exploração de jogos lotéricos
(chamada Bam Games Exploração de Atividades Lotéricas, baixada em 2012), é uma
das vozes mais ativas em Brasília justamente na cruzada contra o jogo ilegal. O
parlamentar apresentou o PL 5.144/2023, que propõe criminalizar a captação de
apostas e a publicidade de plataformas não autorizadas, com penas de até seis
anos de prisão. A proposta, que atualmente está na Comissão de Constituição e
Justiça da Câmara, pretende endurecer a punição dada a quem se envolve com
jogos clandestinos.
“De
nada adianta regulamentar se o jogo ilegal continuar sem punição. Ninguém vai
querer migrar para a legalidade”, ele já disse. Em setembro de 2025, o deputado
se reuniu com o então secretário de Prêmios e Apostas, Régis Dudena, para
avançar no projeto. Defendeu que “sem punição, os operadores sérios acabam
pagando pelos maus”.
O
deputado se licenciou do mandato em abril de 2025 para tratamento de saúde e
interesse particular por 120 dias e retomou o cargo em agosto daquele ano – o
período coincide com os meses seguintes à deflagração da Operação Cartão
Vermelho.
Goetten
disse à Pública que “a EBA foi constituída há mais de 10 anos e teve suas
atividades encerradas no ano passado, sem nunca ter desenvolvido operações,
auferido receita, possuído funcionários ou mantido qualquer vínculo com o
mercado de apostas”. Sobre as investigações sobre jogo do bicho e lavagem de
dinheiro que envolvem alguns de seus ex-sócios, Goetten diz que “o assunto está
sendo devidamente conduzido pelos órgãos competentes, não cabendo a mim a
adoção de qualquer providência adicional.”
O
deputado também diz que as atividades empresariais e parlamentares são
“situações completamente distintas e sem qualquer relação entre si”, e que sua
atuação legislativa “vai justamente no sentido de combater a ilegalidade no
setor de apostas, entendendo que a simples regulamentação não é suficiente se
não houver a devida criminalização de condutas ilícitas”.
Por
fim, Goetten afirma que não sabia da Operação Cartão Vermelho, que a dissolução
da empresa que mantinha com investigados não tem relação com esse fato, e que
pediu licença do cargo para fazer um procedimento cirúrgico e para permitir que
seus suplentes também exercessem o mandato.
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Para advogada, investigação pode fazer autorização ser revista
Com a
disputa pela competência do caso travada na Justiça, a investigação está parada
há meses e a MeridianBet segue operando normalmente no Brasil.
A
Pública buscou advogados especializados em bets para abordar o caso retratado
nesta reportagem. A maior parte dos nomes procurados preferiu não falar por
advogar para empresas do setor e enxergar conflito de interesse. A advogada
Thaís Tereciano, que atua nas áreas de penal empresarial, compliance e
investigações e já trabalhou em casos relacionados a plataformas de apostas,
aceitou falar conosco.
Para
ela, não dá para presumir que a SPA teria conhecimento prévio da situação, já
que não há uma integração entre a secretaria e os órgãos de informação.
Tereciano ressalta, no entanto, que a publicização do caso pode mudar o
cenário. “Todo fato novo envolvendo uma bet com autorização para operar no
Brasil que sugira o uso de recursos ilícitos, a ocultação de beneficiários
efetivos, uma fraude no processo de autorização ou o descumprimento dos
requisitos de idoneidade pode levar, sim, a uma revisão e à abertura de um
processo de fiscalização e de sanção”, aponta.
Em
relação à compra da MagicBet777 pela Meridian, uma empresa listada na Nasdaq, a
advogada do escritório Bichara Advogados destaca que se trata de uma aquisição
em “um setor de elevado risco regulatório, de lavagem de dinheiro. “Esse tipo
de aquisição exige diligências reforçadas de compliance, know your client
[procedimento de verificação de um cliente], prevenção à lavagem de dinheiro e
verificações reputacionais, além das regulatórias e criminais”, diz.
Questionada
sobre a necessidade da Meridian comunicar seus investidores sobre a
investigação contra a MagicBet, ela afirma que “depende da materialidade”. “Se
é identificada uma investigação criminal relevante já tornada pública, se há
riscos regulatórios definidos, se existe potencial de perda de licenças, isso
pode ser materialmente relevante para o mercado, do ponto de vista econômico e
jurídico, e portanto deveria ter sido comunicado”, completa.
Fonte:
Por Amanda Audi e Rafael Oliveira, da Agência Pública

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