quarta-feira, 8 de julho de 2026

Guillermo Carmona Rodríguez: Cuba - as 176 respirações de um afogado

Deitado na minha cama, tento dormir em meio ao calor, aos mosquitos e às suas picadas. Imagino que talvez, quando acordar, depois de um sonho agitado, encontre um McDonald’s na esquina da minha casa. Então, vou me levantar na varanda e, de lá, contemplar uma longa fila, que dará a volta no quarteirão e terminará exatamente onde começa. A serpente do consumismo mordendo a própria cauda.

Observarei os jovens ao saírem, enquanto limpam alguma mancha de ketchup de seus moletons com o logotipo de um Congresso da União de Jovens Comunistas de cinco anos atrás. Antigos dirigentes lamberão as costas da mão, por onde escorreram os sucos do hambúrguer. Nesse momento futuro, me perguntarei se isso pode ser chamado de “dar uma experimentada no capitalismo”.

No dia 18 de junho, uma quinta-feira, o primeiro secretário do Partido Comunista e presidente da República de Cuba, Miguel Mario Díaz-Canel, anunciou a maior abertura econômica já vista em Cuba. Entre as medidas anunciadas estão a entrada de franquias internacionais no país e a abertura para uma economia de mercado. As serras ficarão repletas de letreiros de néon. Trocaremos os grandes outdoors em que aparecem heróis e mártires da revolução por propagandas de lâminas de barbear e lenços umedecidos.

Em algum momento, a gente se acostuma a acordar sem saber em que Cuba se encontra. Você fecha os olhos e mergulha no sono REM. Ao abri-los, permanece no mesmo lugar, no seu quarto, com seus livros, seus chinelos debaixo da cama e seu cachorro babando na porta; mas já não será o mesmo país. Então, você é atingido por um jetlag tropical, um desfasamento marxista-leninista, uma amnésia da memória política.

Estamos na década de 80, sob a ampla sombra da URSS, e vivemos uma meritocracia um tanto enganosa, embora funcional. Um piscar de olhos. O Muro de Berlim cai e entramos no “período especial”, com a escassez como um nó no estômago. Caí-se em uma soneca curta. Surge o novo século e, com ele, uma fase de aparente calma, graças à ajuda da Venezuela e de outros países da região.

Um sono leve. Fidel deixa o poder devido a uma grave doença e uma pequena abertura pelas mãos de Raúl começa na praça sitiada em questões como a emigração e os negócios privados. Vinte anos depois, chega a internet com sua ágora, sua pornografia, sua parafernália e o culto à individualidade. Descanso leve. Surge Trump com seu chicote de couro com balas de chumbo na ponta para descarregá-lo nas costas de um povo pobre. Os apagões se espalham como se fossem uma besta que se alimenta de luz. Surge aquela sensação semelhante à de um sujeito prestes a se afogar que contempla o sol como um círculo difuso na superfície da água. Você nada, nada e nada para alcançá-lo. Depois de algumas braçadas, você entende que nunca vai alcançá-lo.

Quando seus braços ficam dormentes, quando seus olhos secam mesmo que você esteja cercado de água e dentro do peito cresce uma bolha que suga todo o seu ar para fora, você se esforçará ainda mais para permanecer consciente. Nesse cenário, com o sonho levado à escala de um país, é que surgem as 176 medidas.

Entre elas estão: a venda de ações de empresas estatais para nacionais e estrangeiros e a decisão de não socorrer entidades desse tipo que estejam com prejuízo. Elas, sozinhas, enfrentarão os tubarões. Além disso, serão concedidos terrenos em usufruto por até 99 anos para exploração. Serão emitidas licenças para que uma pessoa física possa possuir quantos negócios quiser e contratar mais de cem funcionários. Ou seja, teremos CEOs e sociedades anônimas em Cuba.

A formação dos preços não será regulada pelas autoridades, mas ocorrerá de acordo com as oscilações e os caprichos do mercado. Não haverá subsídios para produtos, como acontecia com a canasta de … abastecimiento – um programa em que eram fornecidos a custo muito baixo itens como pão, leite, arroz, feijão e sabonetes –; em vez disso, será prestada assistência, segundo explicam, especificamente às pessoas vulneráveis.

Quando você está prestes a morrer no meio de um mar revolto, transformado em causa de morte e sepultura, você vai se debater em busca de oxigênio, que não encontrará. Não importa. Nesses instantes, você só deseja sobreviver. Depois é que descobrirá em que empregará sua sobrevivência. As transformações ocorridas em Cuba não vão além disso: as respirações de um afogado.

Desde 1959, com a vitória da Revolução, até hoje, a economia cubana tem sido planejada por tentativa e erro. A estratégia mudou repetidas vezes, em sintonia com o contexto da ilha e da geopolítica internacional. No início, tentou-se criar um país autossustentável, que pudesse existir e agir graças aos seus próprios esforços e recursos.

Talvez o exemplo mais contundente disso tenha sido a safra dos dez milhões, na qual se tentou colher essa quantidade de açúcar. Houve muito suor e sacarose. Houve bolhas como pequenas cúpulas nas costas das mãos. Houve um povo entusiasmado que foi morar nos canaviais. No entanto, não foi possível atingir a meta definida.

O bloqueio, imposto por Kennedy desde o início dos anos 60, afastou Cuba de seu principal mercado histórico: os Estados Unidos. O governo revolucionário teve de buscar ajuda na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas como alternativa. No entanto, isso gerou uma dependência. Essa dependência provocou um atraso na industrialização e estagnação. Quando o campo socialista se desintegrou, nos encontramos sozinhos, muito sozinhos, como um barco isolado e distante de qualquer enseada.

Foi aí que se fizeram concessões. A nação se abriu, diante da falta de outras alternativas, para atividades como o turismo, e fomentou-se um investimento estrangeiro bastante restrito. Nos anos 2000, os pequenos negócios foram aprovados. O Estado, diante das diversas dificuldades, perdeu poder aquisitivo e capacidade de sustento para satisfazer as necessidades básicas da população, e esse papel foi assumido pelos chamados “cuentapropistas” (microempresários).

Várias mudanças ocorreram; algumas superficiais e outras arriscadas. Nenhuma delas rompia com a essência do socialismo; ou seja, não abriam espaço para a mão invisível de Adam Smith, com seus anéis dourados com pedras preciosas na cor do dólar e suas unhas de manicure, nem colocavam em jogo os meios de produção e a própria terra.

Enfim, o Estado cede funções, se contrai e se aproxima, perigosamente, dos métodos neoliberais. Os tomadores de decisão afirmam que se basearam nos modelos apresentados por países comunistas como a China e o Vietnã; modelos que sempre ensejam dúvidas. Além disso, a cultura e o contexto desses países asiáticos pouco se assemelham aos nossos.

As medidas constituem um cisma em todos os níveis: econômico, social, ideológico e financeiro.

Muda a percepção do país sobre si mesmo e a relação com seus habitantes. Em poucos minutos (duração da coletiva em que um Díaz-Canel cansado e desgrenhado informou as novidades), conceitos defendidos com fome, dor e cansaço atroz por mais de 60 anos foram quebrados. Parece que a Ilha de Cuba, à noite, mergulhou no Caribe e, quando reapareceu pela manhã, era outra. Um bichinho que trocou de pele em meio a uma estação hostil. Uma reencarnação forçada para não perder os restos da alma que ainda restavam.

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Sem conseguir dormir, contei a um amigo pelo WhatsApp dos meus devaneios sobre a inauguração de um McDonald’s na esquina da minha casa ou sobre a pizzaria de duzentos pesos onde almoço quando vou trabalhar sendo substituída por um Pizza Hut. Aproveitei para perguntar, de passagem, sua opinião sobre as mudanças que se aproximavam. Ele, um advogado de esquerda – desde uma época em que defender essa posição política não estava na moda –, respondeu-me de forma muito sucinta: “Não dava para fazer mais nada”. Alguns segundos depois, como se tivesse pensado bastante no assunto ou como se lhe doesse escrever isso, recebi outra mensagem: “Mas isso não vai trazer mais socialismo. Isso é certo”.

Essa atitude, entre o ceticismo e a resignação, poderia descrever o pensamento da maioria dos meus compatriotas. Em Cuba, após anos de crise econômica – que se transformou em cataclismo político, o que resultou em falta de confiança no governo e em insatisfação com sua gestão –, o leque de opiniões se ampliou demais. Podemos encontrar trumpistas, apaixonados pelo canto de sereia que antecede os bombardeios; defensores ferrenhos do governo com a máquina do tempo com um pneu furado; e pessoas apolíticas, que apenas desejam viver da forma mais digna e humana possível. Esse último grupo constitui a maioria.

Todos eles demonstram desconfiança em relação às transformações em andamento. Os trumpistas só querem uma invasão, como se as guerras fossem uma festa de aniversário com piñatas cheias de C4 e napalm, e não se importam com nenhum avanço ou retrocesso. Os defensores do governo estão confusos entre manter seu apoio contra os ventos e as marés do tempo ou se sentir traídos por verem suas crenças, há décadas inabaláveis, serem quebradas como se fossem uma concha frágil.

Os demais não sabem o que pensar. A cada dois meses, as autoridades vêm publicando pacotes de medidas – nenhum tão extremo quanto o último – que, segundo elas, resolveriam parte dos problemas do cubano comum. Isso não aconteceu. Por isso, mesmo diante da radicalização do Estado, eles permanecem desconfiados.

Depois de tantos anos aprendendo o materialismo dialético em cada série do ensino, dirão: “Para acreditar, é preciso ver”. Então, estão lá como espectadores de um cinema de bairro pobre. No entanto, alguns temem que agora o rico fique mais rico e o pobre mais pobre, como acontece quando o capitalismo se aproxima com suas presas com firmamentos de platina e seu hálito de chiclete.

Ainda não consigo dormir. Pensei que, na esquina de onde moro, há uma barraca de café; agora vendem café crioulo misturado com chícharo, forte e barato. Não passa de trinta pesos. Oferecem em duas versões: espresso, puro como um tiro de cafeína e amargor no meio do paladar; ou cortado, com uma colherinha de leite em pó para suavizar o impacto.

Talvez abram um Starbucks por lá. Não sei bem o que vou fazer quando me deparar com opções ilimitadas de preparo do meu café. Talvez eu me aproxime do balcão, depois de atravessar um mar de pessoas tirando selfies para mostrar suas canecas com a sereia verde estampada, e peça apenas um espresso.

¨      EUA pressionam aliados para impedir debate na ONU sobre bloqueio a Cuba, diz jornal

Um artigo da revista The Nation revelou que o Departamento de Estado dos Estados Unidos, sob instruções de Marco Rubio, teria sentado um telegrama diplomático às suas embaixadas para pressionar governos ao redor do mundo e impedir que a ONU debatesse a agressão econômica contra Cuba.

O documento vazado confirma o que Havana vem denunciando: Washington não só mantém o bloqueio, o embargo energético e as sanções financeiras, como também tenta silenciar o debate internacional sobre suas consequências humanitárias.

Segundo o artigo, o telegrama instrui as embaixadas dos EUA a pressionarem seus países anfitriões para que se opusessem ao debate solicitado por Cuba na Assembleia Geral da ONU na próxima terça-feira (07/07). Caso o debate ocorra, os Estados Unidos pedem a seus aliados que ataquem Cuba em seus discursos, acusando-a de incompetência, corrupção e fracasso econômico, e que evitem atribuir a culpa da crise ao embargo.

Dessa forma, o governo norte-americano pede que esses países sejam “extremamente cautelosos” em suas intervenções e os adverte de que comentários favoráveis a Cuba podem gerar “atrito” em suas relações bilaterais com os Estados Unidos.

O jornal The Nation observa que a Assembleia Geral da ONU condenou esmagadoramente o bloqueio contra Cuba em 31 votações consecutivas. No entanto, o governo Trump agora tenta impedir que o assunto seja sequer debatido, porque sabe que a maioria do mundo rejeita essa política ilegal, cruel e extraterritorial.

<><> ‘Cuba defenderá sua soberania contra uma agressão militar dos EUA’

O presidente cubano Miguel Díaz-Canel declarou que Cuba responderá firmemente a qualquer ato armado dirigido contra a nação caribenha e defenderá legitimamente sua soberania, em resposta às contínuas ameaças de invasão militar do governo Trump.

Se houver um ataque, nosso povo responderá de forma unida em defesa da soberania. Não queremos guerra, mas também não temos medo de agressão (…) Estamos nos preparando para que não haja surpresa nem derrota”, disse Díaz-Canel em entrevista ao veículo de comunicação britânico Sky News.

Díaz-Canel esclareceu que a ilha não tem intenção de iniciar um conflito militar com os EUA, embora não tenha descartado a possibilidade de agressão, apesar de esta não representar uma ameaça à segurança nacional do país.

“Cuba é um país pacífico e não representa uma ameaça para ninguém”, enfatizou o presidente, que lembrou que a nação caribenha oferece muita solidariedade ao mundo, mas “isso não deve ser interpretado como uma disposição para ceder sua soberania e independência”, acrescentou.

Díaz-Canel contextualizou a situação atual e reiterou a disposição de Cuba em dialogar com os EUA para resolver as divergências nas relações bilaterais sem comprometer sua independência e soberania.

¨      Argentina: deputado denuncia Milei por autorizar entrada de tropas dos EUA sem aval do Congresso

O presidente da Argentina, Javier Milei, enfrenta um novo processo judicial, desta vez por ter contornado o Congresso com um decreto executivo (DNU) que autorizou a entrada de tropas dos Estados Unidos no país para os exercícios “Adaga do Atlântico” e “PASSEX”. A acusação foi feita pelo deputado Juan Marino (União pela Pátria), que criticou o governo por optar por “se submeter à estratégia militar de Trump”.

Em entrevista ao jornal argentino Página 12, Marino acusou o Executivo de autorizar esses exercícios “às escondidas do Congresso, para evitar submetê-los ao debate público”. O principal motivo da denúncia é o Decreto nº 264/2026, que autorizou a entrada de tropas americanas nos exercícios “Atlantic Dagger” e “PASSEX”, nos quais, durante 42 dias, mais de 350 militares operaram em bases em Buenos Aires e Córdoba sob doutrina e comando dos EUA.

Segundo o deputado, o governo não tem autoridade para autorizar esse tipo de exercício militar e, portanto, afirmou que contornar o Poder Legislativo é “inconstitucional”. A apresentação especifica que o Artigo 75, Seção 28 da Constituição reserva exclusivamente ao Parlamento o poder de autorizar a entrada de tropas estrangeiras e o destacamento de forças nacionais, e que a Lei 25.880 proíbe a autorização por decreto.

A denúncia apresentada pelo parlamentar à Corte Federal cita não apenas Milei, mas também o ex-chefe do Estado-Maior Manuel Adorni, o ministro da Defesa Carlos Presti, o ministro das Relações Exteriores Pablo Quirno e o ex-secretário de Comunicação Javier Lanari.

Nesse sentido, a vice-presidente da Comissão de Defesa, Agustina Propato, afirmou que o Executivo pretende “flexibilizar” a entrada de tropas estrangeiras, e que isso fica evidente pelo fato de os exercícios militares planejados para este ano ainda não terem ocorrido. Por sua vez, o ex-ministro da Defesa, Agustín Rossi, falou em “ilegalidade” por ter omitido o debate na câmara, conforme exigido por lei.

Agustín Rossi, falando ao veículo, enfatizou que a decisão de Milei é “uma consequência do alinhamento do governo com os Estados Unidos, já que possui uma política de defesa que é subsidiária à sua política externa”.

Rossi acrescentou que a entrada de tropas norte-americanas “é mais um fato que concretiza essa política de alinhamento”, assim como a participação do governo no Escudo das Américas e o acordo entre a Marinha argentina e o Comando Sul para patrulhar conjuntamente o mar argentino.

O Escudo das Américas é uma coalizão de segurança militar e política promovida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que foi lançada sob o argumento de coordenar esforços em nível hemisférico contra o narcotráfico e o crime organizado.

¨      Petro anuncia saída antecipada e convoca mobilização geral na Colômbia

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, anunciou, no último domingo (05/07), que pretende antecipar a saída do governo para o próximo dia 20, dia da independência do país, três semanas antes do término oficial do seu mandato. A decisão foi anunciada na rede social X. Petro também convocou a população para uma mobilização geral.

O mandatário justificou a escolha do dia 20 de julho com o fato de que as datas previstas para a transição (6 e 7 de agosto) seriam “trágicas” para a história colombiana. 

“Faremos no dia 20 de julho, em todas as praças públicas da Colômbia. 20 de julho, grito de independência do povo livre por uma Colômbia livre e pelas reformas sociais. Espero vocês em Bosa e Ciudad Bolívar, no sul e no oeste de Bogotá, para o desfile e nosso grito de Independência Nacional. Todas e todos com as bandeiras da Colômbia limpas e alegres”, escreveu Petro.

O presidente colombiano aproveitou para defender o legado do seu governo, o que tem feito desde a derrota do Pacto Histórico nas eleições presidenciais. No último domingo, Petro disse que, quando chegou à Presidência, teria encontrado um povo “cheio de fome”, mas que saía do poder sabendo que a população estaria “comendo bem, dançando muito bem e jogando futebol bem e sem trapaça”.

Nas publicações, Petro também disse que Abelardo de la Espriella, candidato eleito, não teria vencido o pleito. “O cidadão estadunidense [Abelardo] não ganhou as eleições na Colômbia, fizeram a partir de um servidor com IP em Los Angeles, Califórnia”, afirmou. 

No governo Petro, a Reforma Agrária promovida no país vizinho formalizou a entrega de mais de 2 milhões de hectares às comunidades rurais. Ao mesmo tempo, o desemprego caiu a 9,2% (a menor taxa no século), 1,6 milhão de pessoas saíram da pobreza monetária e o salário mínimo acumulou alta de 23,4%.

No campo de apoio ao governo Petro, o senador Iván Cepeda, derrotado no pleito, pede que a população mobilize o que chamou de “desobediência civil pacífica” caso Espriella não renuncie à nacionalidade estadunidense. Ele também critica o fato de que o presidente eleito tem ameaçado processar Petro nos Estados Unidos.

 

Fonte: CTXT/Opera Mundi

 

 

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