A
rebelião boliviana mostra o caminho para enfrentar o imperialismo e a extrema
direita
A rebelião popular que atravessa a Bolívia há
semanas é hoje o processo mais avançado de luta de classes da América Latina.
Em um continente marcado pelo avanço da extrema direita, pela ofensiva
imperialista e pela adaptação das direções reformistas à institucionalidade
burguesa, os bloqueios, mobilizações e enfrentamentos protagonizados pelo povo
boliviano são a maior mostra de que nenhuma conquista decisiva virá dos acordos
parlamentares, das frentes amplas ou da confiança nas instituições do regime. A
força capaz de derrotar a extrema-direita e o imperialismo está nas ruas, nos
locais de trabalho, nas comunidades indígenas, camponesas e na auto-organização
dos setores mais explorados da nossa classe. Destacamos neste editorial 5
pontos sobre a rebelião boliviana e a urgente solidariedade
internacionalista...
>>>> 1. A resistência exemplar do
povo boliviano mostra o caminho
Durante dezenas de dias, milhares de
camponeses, povos indígenas, trabalhadores e setores populares mantêm bloqueios
em estradas e pontos estratégicos do país, enfrentando a repressão e as
tentativas de isolamento promovidas pelo governo. Apesar de toda repressão,
lutam pela renúncia de Paz após plano de ajuste econômico neoliberal do governo
que leva ao aumento dos combustíveis, dos alimentos, a isenção de impostos de
grandes empresários e a privatização de recursos naturais. Em vez de depositar
suas esperanças nas eleições ou em negociações “por cima”, o povo boliviano
recorreu aos métodos históricos da luta de classes como os bloqueios, o
enfrentamento com a repressão e a organização de comitês de base para organizar
a luta. Mesmo com seis meses de governo, mostram que as eleições não solucionam
as crises de regime e que o programa do ajuste deve ser enfrentado nas ruas,
mesmo por setores que tiveram ilusões em Rodrigo Paz.
Essa experiência possui um significado que
ultrapassa as fronteiras da Bolívia. Em toda a América Latina, amplos setores
da esquerda adaptaram-se à lógica das frentes amplas e da administração do
Estado capitalista, como vemos no Brasil. O resultado tem sido de contenção da
luta dos trabalhadores, mas também de mostrar a incapacidade dessas
experiências de não somente resolver os problemas mais elementares das massas
mas de efetivamente derrotar a extrema-direita.
A rebelião boliviana aponta na direção
oposta. Ela demonstra que a força capaz de enfrentar a extrema direita e o
imperialismo não nasce dos pactos institucionais, mas da irrupção independente
das massas. Em um cenário internacional marcado pela queda hegemônica dos
Estados Unidos e pelas dificuldades encontradas por Washington para impor sua
ordem em diversas regiões do mundo, com a recente derrota no Irã, a luta
boliviana pode se transformar em um poderoso fator de inspiração para novos
processos de mobilização no continente contra a maior ingerência no “quintal”
de Trump.
>>>> 2. Organizar a solidariedade
internacionalista contra a repressão
A resistência do povo boliviano exige a mais
ampla solidariedade internacionalista. É necessário denunciar cada ato
repressivo, exigir a liberdade imediata de todos os presos políticos, os
sequestrados pelo Estado, responsabilizar os autores dos assassinatos e exigir
justiça para as vítimas da violência estatal, com 6 mortos nas últimas semanas.
Nossa camarada Violeta Tamayo, militante da LOR-CI, segue hospitalizada após os
ataques sofridos durante a repressão. Ela é uma das vítimas da repressão e seu
caso expressa o caráter brutal da ofensiva governamental contra aqueles que
lutam.
Por isso é necessário denunciar a
cumplicidade daqueles que, em nome da governabilidade e da diplomacia,
contribuem para fortalecer o governo boliviano. Isso passa pela colaboração de
Milei, Kast e todos os capachos da extrema direita, mas também pelo suposto
“progressismo”. A política adotada pelo governo brasileiro diante da crise
precisa ser amplamente denunciada e rechaçada. No contexto de forte repressão
aos camponeses, indígenas e trabalhadores em luta, Lula falou em “solidariedade
ao governo” de Rodrigo Paz e, mais grave, autorizou o envio de munição
"não letal" através do avião Hércules, da Força Aérea boliviana, que
tem sido usada em fortes repressões aos bloqueios de avenidas e ruas em curso.
É um absurdo sugerir que os movimentos sociais evitem o recurso à violência,
como Lula disse em tweet, como se o problema da violência estivesse do lado dos
manifestantes e não do governo que reprime e ameaça a todo momento decretar um
Estado de Exceção, o que tem vontade de aplicar e só não faz por medo da
rebelião se aprofundar. Também é necessário questionar a política cínica da
Executiva Nacional do PSOL, que evita qualquer campanha minimamente séria de
solidariedade ativa com a luta em curso encobrindo o papel do governo Lula, do
qual fazem parte.
Ao mesmo tempo, a solidariedade não pode se
limitar a declarações formais. Deve significar campanhas, atos, comitês de
apoio, denúncias internacionais e mobilização permanente contra a repressão. É
necessário furar o cerco midiático. Esse é o chamado que fazemos e pelo qual
estamos batalhando como parte da CSP-Conlutas e compondo os Comitês de
Solidariedade ao Povo Boliviano.
>>>> 3. Confiar apenas nas
próprias forças e avançar na coordenação nacional da luta
A principal lição que já marca a rebelião é
que os trabalhadores e povos indígenas devem confiar apenas em suas próprias
forças. Os bloqueios demonstram enorme capacidade de resistência. Mas para
derrotar o governo é necessário avançar para formas superiores de coordenação.
Os comitês de luta, assembleias populares, organizações territoriais e setores
em combate precisam encontrar mecanismos de centralização democrática capazes
de unificar nacionalmente a mobilização.
Ao mesmo tempo, é necessário exigir que a COB
(Central Obrera Boliviana), principal central sindical da Bolívia,rompa
definitivamente sua política de buscar dialogar com o governo e coloque toda
sua força a serviço da luta. A postura adotada por sua direção tem produzido
obstáculos ao desenvolvimento da mobilização justamente quando seria necessária
uma orientação clara para derrotar o governo. A COB usa a estratégia de
desgaste sobre os bloqueios, colaborando para a divisão entre camponeses e
trabalhadores, negando a exigência das bases que nos bloqueios diários demandam
a paralisação dos trabalhos. Não à toa, os mineiros de
Huanuni exigiram que a direção da COB fizesse a convocatória para marcharem a
La Paz, e os mineiros de base chamaram de traidores
seus dirigentes que não estão na luta e convocaram reunião em Oruro para trair
a mobilização. É preciso exigir que a COB organize efetivamente a greve geral
diante da gravidade da situação, sem depositar confiança política em sua
direção. O protagonismo deve permanecer nas mãos dos trabalhadores, dos povos
indígenas e dos organismos construídos na própria luta. É isso o que conclama
a “Carta
ao ampliado da COB”, impulsionada e assinada por figuras de
diversos movimentos, desde o Comitê de Bloqueio do Distrito 8 de Senkata até
jornalistas e grevistas de outras localidades.
>>>> 4. Pela greve geral efetiva
e pela entrada em cena dos mineiros de Huanuni
A tarefa central do momento é transformar a
enorme disposição de luta existente em uma greve geral efetiva capaz de
paralisar o país. Até agora, essa medida decisiva não foi concretizada, e as
direções apostam em uma linha de desgaste da luta. Enquanto os bloqueios
demonstram heroísmo e determinação, a ausência de uma paralisação nacional
limita as possibilidades de levar a luta a um novo patamar.
Nesse terreno, a entrada em cena dos mineiros
de Huanuni possui importância estratégica. Sua tradição de combate e seu peso
político podem contribuir decisivamente para alterar a correlação de forças. A
disposição manifestada por amplos setores da mineração deve encontrar expressão
prática imediata.
Mais decisiva ainda é a confluência entre a
classe trabalhadora organizada e os povos indígenas mobilizados. A unidade
dessas forças constitui o principal pesadelo do governo e das classes
dominantes. É nela que reside a possibilidade de transformar a resistência em
uma ofensiva capaz de abrir uma nova etapa da luta.
>>>> 5. A luta boliviana pode
impactar toda a América Latina
O que acontece hoje na Bolívia não é um
episódio nacional isolado. Trata-se de uma batalha cujo resultado poderá
repercutir em toda a América Latina. Se a mobilização avançar, demonstrando que
é possível enfrentar governos repressivos sustentados por Trump e o FMI por
meio da ação das massas, seu exemplo poderá influenciar trabalhadores,
juventude e setores populares de diversos países do continente.
É por essa razão que, a partir da LOR-CI,
organização irmã do MRT na Bolívia, e do La Izquierda Diario (bem como toda a
Rede Internacional de Diários), temos atuado incansavelmente para colaborar no
avanço das tendências de auto-organização e antiburocráticas na luta, para
romper o cerco de silêncio e levar ao mundo a voz da rebelião boliviana. Nossos
correspondentes em diferentes países acompanharam os acontecimentos,
denunciaram a repressão e organizaram iniciativas concretas de solidariedade.
Entre elas está a viagem de correspondentes do Esquerda Diário do Brasil e
também da Argentina e do Chile para fortalecer a luta das massas bolivianas
junto à LOR-CI.
A tentativa do governo boliviano de impedir o
ingresso de uma delegação argentina de direitos humanos, com nossa camarada
Alejandra Barry do PTS à frente, demonstra o temor das autoridades diante da
repercussão internacional da luta. Mas também demonstra que a solidariedade
ativa já se transformou em um fator político real.
Para nós, essa solidariedade não é uma tarefa
secundária. Ela faz parte da construção de uma estratégia internacionalista da
classe trabalhadora, capaz de unir os trabalhadores, as mulheres, negros,
indígenas além das fronteiras nacionais e lutar por um partido internacional
revolucionário da nova classe trabalhadora, como estamos batalhando na
Argentina organizando comitês de base a partir da enorme simpatia e apoio à
Myriam Bregman do PTS, que já reuniu milhares nos últimos fins de semana
buscando articular as lutas, impulsionar instituições de frente única e
coordenação, assim como debater um programa para responder à crise argentina.
Chamamos as novas gerações de trabalhadores,
estudantes e ativistas a se lançarem com todas as suas forças na defesa do povo
boliviano. Seu combate é hoje uma trincheira avançada da luta contra a
exploração, a repressão, a extrema direita e o imperialismo em toda a América
Latina. Pode ser um ponto de apoio para enfrentar os embargos criminosos em
Cuba e a ingerência na Venezuela, assim como qualquer ingerência no Brasil. A
rebelião boliviana mostra o caminho. É nossa tarefa transformá-la em uma
bandeira de toda a classe trabalhadora do continente.
¨
A crise boliviana é um
espelho que em breve poderá refletir o Brasil
Rodrigo Paz
assumiu a presidência da Bolívia no final de 2025 com uma promessa simples e sedutora: capitalismo
para todos. Poucos meses antes, mal chegava a 3% nas pesquisas de intenção de
voto. Mesmo assim, venceu. Apresentou-se como uma saída razoável ao impasse
político entre Evo Morales e Luis Arce, uma figura moderada que prometia
estabilidade após anos de turbulência interna no Movimento ao
Socialismo.
Meio ano depois, mineiros, camponeses e
professores que votaram nele marcham pelas ruas de La Paz exigindo sua
renúncia, e ao menos quatro mortes foram documentadas pela Defensoria del
Pueblo em confrontos com forças do Estado. O que aconteceu nesse intervalo de
tempo diz tanto sobre a Bolívia quanto sobre o Brasil.
Para entender a crise boliviana, é preciso
partir de um dado estrutural que Paz não criou, mas também não enfrentou com
honestidade política: o país vive desde meados da década passada um processo de
esgotamento progressivo de suas reservas de gás natural, principal base da renda estatal durante os governos de
Evo Morales. As reservas
internacionais do Banco Central, que
chegaram a 14 bilhões de dólares no auge do ciclo, estão hoje em torno de 144
milhões. O golpe de Estado
de 2019 e a subsequente fratura interna
do MAS atrasaram qualquer planejamento
consistente de transição econômica. Paz herdou uma crise real — mas respondeu a
ela com um receituário que ampliou o problema social sem resolver o estrutural.
<><> Onda inflacionária logo após
a posse
Logo após tomar posse,o governo
eliminou os subsídios estatais aos combustíveis. O diesel saltou de 3,72 para 9,80 bolivianos, quase o
triplo. A gasolina especial subiu 86%.
O resultado foi uma onda
inflacionária estimada pelo próprio FMI em 20,7% para
2026, combinada a uma contração econômica de 3%. Ao mesmo tempo, o governo
recorreu ao FMI em busca de um empréstimo de
US$ 3,3 bilhões e aboliu quatro
impostos que incidiam sobre os mais ricos:
sobre grandes fortunas, transações financeiras, promoções empresariais e jogos.
No Brasil, o FMI projeta a
dívida pública de 98,1% do PIB nos próximos anos e recomenda sistematicamente um ajuste fiscal mais
ambicioso, pressionando Brasília a cortar gastos sociais para garantir a
sustentabilidade das contas públicas.
A assimetria boliviana — mais sacrifício para
os pobres, mais alívio para os ricos — não é uma anomalia regional: é um padrão recorrente que
a literatura sobre
ajuste estrutural na América Latina documenta desde os
anos 1980 e que o caso boliviano atualiza com nitidez perturbadora.
<><> Reclassificação de
propriedades rurais foi o estopim
O estopim imediato da insurreição boliviana foi a aprovação da Lei 1720, que permitia reclassificar pequenas propriedades rurais
como médias, alterando a estrutura da reforma agrária.
As organizações
camponesas a interpretaram como o primeiro passo
para reverter conquistas territoriais de duas décadas. Promovida pelo senador e
empresário do agronegócio Branko Marinkovic e aprovada em cerimônia com
agroindustriais, a lei concentrou em um único ato os temores econômicos,
políticos e simbólicos acumulados desde a posse.
Paz a revogou em
13 de maio, mas a demanda das ruas já havia mudado: não se pedia negociação, pedia-se
renúncia. No Brasil, a disputa sobre o marco legal do agronegócio, a demarcação
de terras indígenas e a regularização fundiária percorre caminhos
institucionais distintos — mas a tensão de fundo entre capital agrário e
direitos territoriais é estruturalmente a mesma.
Em paralelo às medidas econômicas, o governo
Paz tomou decisões de política externa que configuram uma reorientação
estratégica acelerada: reintegrou a DEA
ao território boliviano, restabeleceu
relações diplomáticas com Israel, firmou
um acordo sobre o
lítio com os Estados Unidos e expandiu a
operação da Starlink no país.
Cada decisão comporta justificativas
próprias, e é legítimo que um governo soberano redefina suas alianças externas.
O que chama atenção é a simultaneidade dessas reorientações — todas nos
primeiros seis meses de mandato, todas correspondentes a demandas explícitas de
Washington — num país cuja Constituição de
2009 estabelece, no artigo 349, que os
recursos naturais são propriedade direta, indivisível e imprescritível do povo
boliviano — princípio que o direito internacional consagra, desde a Resolução 1803
da ONU de 1962, como soberania permanente sobre os recursos
naturais.
<><> Metais críticos no centro da
questão
A disputa sobre o lítio é onde o espelho
entre os dois países se torna mais nítido. O Brasil possui uma das maiores
reservas mundiais do mineral (quinta ou sétima, dependendo da fonte), concentrada no Vale do
Jequitinhonha, em Minas Gerais, onde empresas de capital estadunidense,
canadense e australiano lideram a corrida pela extração, com investimentos
projetados em até 15 bilhões de reais até 2030.
Em resposta a essa pressão, o presidente
Lula propôs em julho de 2025, na Cúpula do Mercosul, que a América do Sul processe seus próprios minerais
críticos em vez de exportá-los como matéria-prima bruta — uma iniciativa de
soberania industrial diretamente oposta ao modelo adotado por Paz na Bolívia.
O contraste entre as duas posturas revela que
a questão é simultaneamente política e jurídica: em que condições, sob que
escrutínio parlamentar e com que distribuição doméstica de benefícios um Estado
pode negociar seus recursos estratégicos sem comprometer a soberania que o
direito internacional lhe reconhece.
Investigações jornalísticas bolivianas, a
partir de documentos vazados pelo Canal Red no
chamado Honduras Gate, identificam indícios de que a campanha de Paz teria
contado com o apoio da empresa de consultoria Numen y Parscale, fundada pelo estrategista argentino Fernando
Cerimedo e por Brad Parscale, ex-chefe de campanha de Donald Trump.
Trata-se, por ora, de indícios que aguardam
confirmação judicial — mas o papel de Cerimedo em outras democracias da região
está bem documentado. De fato, a Polícia Federal brasileira o indiciou
formalmente em novembro de 2024 por
integrar o núcleo de desinformação na tentativa de golpe de Estado após as
eleições presidenciais de 2022, em inquérito supervisionado pelo ministro
Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
A presença das mesmas redes de influência
política em Brasília, Buenos Aires e agora La Paz compõe um padrão — caracterizado
pelo uso de consultorias digitais transnacionais, granjas de trolls,
desinformação eleitoral e compromissos geopolíticos negociados antes da posse —
cada vez mais preocupante.
O que está acontecendo nas ruas de La Paz é a
resposta de organizações sociais com décadas de história. A Central Obrera
Boliviana, fundada em 1952, marcha contra um modelo de
governo que prometeu inclusão e entregou exclusão. Para o Brasil, observar essa
crise com rigor analítico é um imperativo de autoconsciência política.
Soberania sobre recursos naturais, equidade
no ajuste fiscal e transparência nas alianças geopolíticas são exigências
éticas e jurídicas que nenhum país latino-americano pode delegar a organismos
financeiros internacionais, consultorias de campanha transnacionais ou acordos
negociados à margem do Congresso sem comprometer a legitimidade das decisões
que, em última instância, pertencem aos seus povos.
Fonte:
Por Diana Assunção, em Esquerda Diário/The Conversation Brasil

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