Editoras,
poder e silêncio: a geografia desigual do livro no Brasil
Em
reportagem para a coluna Painel das Letras do jornal Folha de São Paulo, Walter
Porto informou, em 19 de junho de 2026, o resultado do mapeamento do mercado
editorial no país. Os dados atuais
referentes as editoras demonstram haver “…1.047 editoras. Destas, 77% estão na
região Sudeste – e 70% só nos estados de São Paulo E Rio de Janeiro –, 13% na
região Sul, 5% no Nordeste, 3% no Centro-Oeste e 2% no Norte do país”.
A
hiperconcentração do mercado editorial brasileiro na região Sudeste,
especialmente nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, onde se localizam 70%
das editoras e se concentra 97% do faturamento do setor, não configura
meramente uma distorção econômica ou logística, mas revela um problema social
profundo que afeta a própria construção da identidade cultural do país e o
exercício democrático da cidadania. Os dados apresentados pelo Sindicato
Nacional dos Editores de Livros em parceria com a Nielsen escancaram uma
realidade em que a produção cultural e simbólica do país é filtrada por uma
“visão de mundo” centrada na “realidade e nas vontades” do eixo Sudeste do
Brasil, gerando um apagamento sistemático da diversidade constituinte das
demais regiões do país que vai muito além da questão autoral.
Quando
97% da receita do setor fica restrita a dois estados, o que é produzido, o chega às prateleiras e, consequentemente, o
que é visto, lido e entendido pelos quase 214 milhões de brasileiros, é uma
parcela mínima da diversidade cultural que o país possui, pois as histórias, os cenários, os sotaques, as
necessidades e as problemáticas sociais das regiões Norte, Nordeste e
Centro-Oeste são relegados a um papel de inferioridade, exotismo ou
simplesmente ignorados, não complexificando a realidade nacional, empobrecendo a formação política, econômica,
social e cultural da população e reforçando estereótipos que consolidam o
“colonialismo interno” executado pelo poderio econômico empresarial existentes
no Rio de Janeiro e em São Paulo frente as demais áreas do território nacional.
Esse
desequilíbrio geográfico produz, uma barreira simbólica intransponível para os
profissionais que atuam fora do circuito Rio-São Paulo, uma vez que, como
aponta a Folha de São Paulo a editora Patrícia Vasconcellos, enquanto um livro
mediano produzido no Sudeste alcança visibilidade naturalmente, as obras feitas
em outras regiões precisam atingir um “nível de excelência muito grande” para
serem notadas, o que submete autores, ilustradores, designers e editores
periféricos a um escrutínio muito mais severo em busca do mesmo reconhecimento,
gerando uma sobrecarga que desgasta a criatividade e a produção, além de
transmitir a mensagem deletéria de que a qualidade está intrinsecamente
atrelada seu local de produção ou origem geográfica.
Essa
dinâmica é agravada pelo fato de que as relações de trabalho e as oportunidades
de networking, cada vez mais importantes para o sucesso no meio literário, são
construídas em encontros presenciais, festivais badalados como a Flip e a Feira
do Livro, e eventos majoritariamente restritos ao circuito sudestino. A esses
eventos, os profissionais de outras regiões só têm acesso com custos logísticos
e financeiros “absurdamente maiores”, o que configura um circuito fechado e
elitizado que perpetua a exclusão de talentos que não podem arcar com esse
deslocamento. Paralelamente, as indicações para prêmios, as resenhas na grande
mídia, entrevistas e as parcerias comerciais são decididas em conversas
informais nos cafés e corredores, acessíveis apenas a um grupo seleto.
Para
além das relações de poder simbólico, a concentração do mercado editorial
produz efeitos perversos na cadeia produtiva e na vida das populações das
demais regiões do pais, pois a falta de gráficas, distribuidoras e
profissionais de promoção e divulgação fora do Sudeste implica menos empregos
formais nas áreas de edição, tradução, revisão, design gráfico e marketing no
Norte, Nordeste e Centro-Oeste, ao mesmo tempo em que as editoras locais arcam
com fretes mais caros e prazos de entrega mais longos, o que encarece o preço
final dos livros exatamente nas regiões onde a renda per capita já é
historicamente mais baixa, criando um ciclo vicioso em que o produto cultural
se torna menos acessível para quem mais precisa de estímulo à leitura.
Esse
aspecto é particularmente grave quando se considera a formação de novos
leitores, pois crianças e jovens do interior da Amazônia ou do sertão do
Centro-Oeste, ao terem contato prioritário com livros que retratam
majoritariamente a vida urbana e os problemas do Sudeste, podem sentir que suas
próprias realidades não são dignas de serem conhecidas histórica e
literariamente. Isso afeta negativamente o engajamento com a leitura, que passa
a parecer distante e alheia ao seu cotidiano, fragilizando assim as políticas
públicas de incentivo à leitura. Quando essas políticas são feitas com um
acervo de conteúdos restritos e concentrado de forma exacerbada em uma única
realidade nacional, falham, dessa forma, em criar identificação e
pertencimento, elementos essenciais para a formação de uma sociedade leitora
crítica e participativa.
Outro efeito colateral desse insulamento da
produção bibliográfica pode ser percebido nos critérios de premiações e
reconhecimento público que sob essa “lógica econômico-organizacional” torna-se mais um vetor de desigualdade, pois
a proximidade física entre a mídia, os organizadores de festivais, as
universidades centrais e as grandes editoras do Sudeste faz com que a curadoria
do que é relevante ou premiado seja influenciada por essa proximidade
geográfica e social, de modo que a consagração literária no Brasil não reflete
a produção intelectual do país como um todo, mas tão somente a produção de uma
fração territorial, o que priva o público de conhecer a pluralidade da produção
literária brasileira e reforça a ideia
de que existem culturas de primeira e de segunda classe no mesmo país. As
primeiras devem ser conhecidas e as segundas devem ser esquecidas.
Apesar
de não haver culpados individuais nesse processo, como ponderam os próprios
editores ouvidos na pesquisa divulgada pela Folha de São Paulo, o mercado opera
como uma engrenagem que se retroalimenta, na qual as editoras consolidadas no
eixo têm mais recursos para investir em divulgação e distribuição, enquanto as
editoras regionais operam com margens de lucro mínimas, gastando
proporcionalmente muito mais para produzir e distribuir, mas sem conseguir
cobrar preços mais altos sob pena de perder mercado, o que as mantém em
vulnerabilidade financeira crônica e impede que invistam em novos autores,
prejudicando o desenvolvimento de gerações inteiras de escritores e
profissionais do livro em vastas porções do território nacional.
Diante
desse quadro, fica evidente que a hiperconcentração do mercado editorial não é
apenas um problema logístico ou mercadológico, mas uma questão de justiça
social, cultural e educacional, pois ela cria um país onde a cultura de uma
determinada área é indevidamente elevada à categoria de “cultura nacional”, por
meio do efeito metonímia (a parte pelo todo), enquanto as demais são
marginalizadas e forçadas a um esforço hercúleo para existirem, aprofundando o
fosso das desigualdades regionais e transformando a cultura, que deveria ser um
direito universal, em um privilégio socioespacial, tanto para quem produz
quanto para quem consome, razão pela qual se torna imperativo, como sugerem os
editores consultados na matéria jornalística, que políticas públicas de fomento
à descentralização da cadeia produtiva e à formação de leitores em todas as
regiões sejam implementadas, não apenas com recursos financeiros, mas sobretudo
com o reconhecimento de que o Brasil, sendo “radicalmente diverso” e contendo
múltiplas realidades, precisa de um mercado editorial que reverbere essa
bibliodiversidade.
Fonte:
Por Eduardo Henrique Barbosa de Vasconcelos, em A Terra é Redonda

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