Rudá
Ricci: Brasileiros mudaram de posição ideológica ao longo da última década
O
Datafolha acaba de divulgar mais uma pesquisa da série histórica iniciada em
2013 sobre o posicionamento ideológico dos brasileiros.
No dado
divulgado, 44% dos eleitores se identificam com a direita e 39% com a esquerda.
Outros 17% foram classificados como de centro.
O
levantamento foi realizado nos dias 17 e 18 de junho e ouviu 2.004 eleitores em
139 municípios, sendo que a margem de erro da pesquisa é de dois pontos
percentuais. A matriz ideológica não se baseia na autodeclaração dos
entrevistados.
O
Datafolha apresenta 16 perguntas, sendo dez sobre comportamento e seis sobre
pensamento econômico. A partir das respostas, o instituto classifica os
entrevistados em cinco faixas: direita, centro-direita, centro, centro-esquerda
e esquerda.
O
cenário representa uma inversão em relação a 2022, quando, durante o governo de
Jair Bolsonaro, a esquerda somava 49% e a direita, 34%. Acontece que esta
mudança ocorreu ao longo da década, a partir da análise da série histórica
construída pelo próprio Datafolha.
A
situação é mais definida no caso das mulheres. Elas são mais progressistas que
os homens.
Com
efeito, entre mulheres, esquerda soma 44% e direita, 37%; entre homens, direita
chega a 50%, ante 33% à esquerda.
A
divisão interna da escala mostra que, entre mulheres, 16% são classificadas
como esquerda, e 28%, como centro-esquerda. Entre homens, os percentuais são de
10% e 24%, respectivamente.
Na
economia, a esquerda fica à frente nos dois grupos, mas com vantagem maior
entre mulheres. Entre elas, 51% são classificadas à esquerda ou
centro-esquerda, ante 24% à direita ou centro-direita. Entre homens, a esquerda
soma 40%, e a direita, 33%.
O
centro reúne 18% das mulheres e 16% dos homens.
A
constatação de que mulheres brasileiras se encontram mais à esquerda que homens
segue uma tendência mundial.
Dados
da revista britânica The Economist que ganhou o título “Why young men and women
are drifting apart” apontam que, globalmente, as mulheres jovens estão se
tornando o grupo social mais progressista, resultando em uma crescente
divergência ideológica em relação aos homens da mesma faixa etária.
Especialmente nos Estados Unidos e na Europa, mulheres jovens estão optando por
pautas mais de esquerda, exigindo mais igualdade e direitos sociais.
Em
contrapartida, os homens jovens vêm demonstrando uma inclinação maior a apoiar
partidos conservadores ou de extrema-direita, distanciando-se das posições de
gerações anteriores.
Há
muitos fatores que a matéria sugere como definidor desta mudança. Uma delas
seria a disparidade nos níveis de educação, com mais mulheres ingressando no
ensino superior e se graduando, enquanto homens com menor nível de educação
formal tendem a buscar refúgio em valores tradicionais.
Estudos
internacionais sugerem, contudo, que se trata de uma reação ultraconservadora
dos homens em virtude do aumento da participação das mulheres no mercado de
trabalho e maior independência financeira e sexual.
Daí
surgiriam coletivos masculinos de rejeição à figura feminina, como os Incels
(abreviação em inglês “involuntary celibate” que significaria “celibatário
involuntário”).
Os
Incels foram retratados na minissérie “Adolescência” como jovens que não
conseguem estabelecer relações amorosas ou sexuais, e frequentemente atribuem a
culpa dessa frustração às mulheres e à sociedade.
A
minissérie cita a teoria 80/20, que sugere falsamente que 80% das mulheres se
atraem por 20% dos homens, alimentando o radicalismo e o isolamento dos jovens.
A
matéria da The Economist indica que a partir de 2012 as mulheres em vários
países desenvolvidos foram se destacando como segmento progressista.
Dados
do Estudo Cooperativo de Eleições (CES) revelam que, em média, uma proporção
maior de mulheres jovens se identifica como liberal em comparação com os homens
jovens.
Curiosamente,
esses resultados também mostram que, para ambos os sexos, a proporção de jovens
adultos liberais diminuiu em relação à proporção de jovens conservadores no
início da década de 2010 e, de modo geral, tem apresentado uma tendência de
alta desde aproximadamente 2017.
Atualmente,
a proporção de homens jovens liberais é cerca de dez pontos percentuais maior
do que a proporção de homens jovens conservadores. A representatividade de
mulheres liberais é ainda maior.
Portanto,
além da diferença de gênero, a ideologia também tem um fator geracional.
Retornando
ao caso brasileiro, temos indícios de que somente uma ínfima porção sabe
exatamente do que está dizendo quando se autodefine como de esquerda ou
direita.
Pedro
Henrique Marques, a partir de um amplo conjunto de dados colhidos em 2017
escreveu um interessante ensaio intitulado “Estudo Dimensão e Determinantes do
Pensamento Ideológico entre os Brasileiros”.
O
estudo, assim como no caso do Datafolha conceitua o espectro ideológico a
partir de um sistema de crenças pessoais para distinguir quem é de esquerda ou
direita. Trata-se de um critério exógeno muito empregado nos EUA.
O
primeiro critério empregado se relacionava à dimensão econômica da ideologia,
ou seja, posições mais próximas da defesa da presença reguladora do Estado na
economia é hoje mais associado à esquerda.
Um
segundo critério de distinção entre esquerda e direita associava-se à dimensão
ideológica dos costumes e valores morais tradicionais.
Assim,
para aqueles que se autolocalizaram na esquerda isso significa que alguém que
fosse (1) favorável à propriedade estatal, (2) favorável à expansão ou pelo
menos manutenção da quantidade de famílias beneficiárias do programa Bolsa
Família e que (3) concordasse que o Estado brasileiro devesse implementar
políticas firmes para reduzir a desigualdade de renda, foi atribuído o score
mais alto, ou seja três, na nossa variável de “estruturação ideológica do
sistema de crenças”.
Os
resultados foram bem significativos e demonstraram o quanto os brasileiros
dizem ser uma coisa e pensam o oposto em termos ideológicos.
Dos
29,1% da população dos autolocalizados à esquerda em 2017, 65% tinham mais
opiniões compatíveis com o corolário pró-estado e igualitário do que opiniões
contraditórias, marcando, assim, um ou mais de um ponto na variável
“estruturação ideológica das crenças”. Isso dá, cerca de 18,91% da amostra
total dos eleitores e é talvez uma boa aproximação do que deve ser o tamanho da
esquerda economicamente consistente na população em 2017.
Contudo,
somados os eleitores autolocalizados à esquerda e à direita que possuem
sistemas de crenças ideologicamente estruturadas em relação à dimensão
econômica, mal chegavam a 23% da amostra total da população brasileira.
Em
outras palavras, pouco mais de 1/5 dos brasileiros mantém coerência entre seus
valores e a autoidentificação ideológica que proferem. Os mais coerentes são os
que se definem de esquerda, mas, mesmo assim, perfazendo um número ínfimo.
Política é algo realmente estranho para a grande maioria.
No caso
dos costumes, entre os 21,9% daqueles que na amostra se autolocalizaram à
direita, 61% apresentam scores negativos na variável de “grau de estruturação
ideológica das crenças em relação à dimensão moral”, ou seja, sendo mais
liberais nos costumes do que sendo conservadores, mesmo não percebendo isso.
Já
entre os 29,1% da amostra que se autolocalizaram à esquerda do espectro
ideológico, 65% destes (ou 18,9% da amostra total) apresentaram scores
positivos na variável de grau de estruturação ideológica dos sistemas de
crenças em relação à dimensão dos costumes, adotando, desta maneira, mais
posições liberais nos costumes do que conservadoras.
Somados
aqueles autolocalizados à direita e à esquerda, os eleitores que se
autolocalizaram em um desses polos de forma consistente em relação à dimensão
moral representam 26,7% da amostra total do eleitorado brasileiro.
A
conclusão a que se chega é que os homens são mais conservadores no mundo e no
Brasil porque estão acuados e reagindo às mudanças de comportamento, em
especial, ao papel das mulheres na sociedade que os deixa sem o lugar de
destaque e mando definido por séculos.
Com
tanta confusão, é evidente que fica fácil manipular opiniões políticas. O que
demonstra que sem educação política e clareza conceitual, as manobras de
políticos inescrupulosos e Big Techs continuará em voga.
• Direita cresce na preferência do
eleitorado, mas Lula segue no jogo
A
direita voltou a superar a esquerda na matriz ideológica do Datafolha, mas o
dado exige uma leitura mais cuidadosa do que a simples ideia de “onda
conservadora”. Segundo o levantamento, 44% dos brasileiros hoje se posicionam à
direita ou centro-direita, contra 39% à esquerda ou centro-esquerda. Outros 17%
aparecem no centro.
O
movimento representa uma virada em relação a 2022, quando a esquerda alcançava
49% e a direita somava 34%. A pesquisa foi feita presencialmente nos dias 17 e
18 de junho, com 2.004 eleitores em 139 municípios, margem de erro de 2 pontos
percentuais e registro no TSE sob o número BR-09956/2026.
O
resultado mostra que o país voltou a se inclinar mais à direita em temas de
comportamento, segurança pública, costumes e valores morais. Ao mesmo tempo, a
pesquisa indica que posições econômicas associadas à esquerda — como defesa do
Estado, políticas sociais e proteção trabalhista — continuam fortes no
eleitorado.
Essa
contradição é decisiva para entender o Brasil de 2026. O eleitor médio pode
rejeitar parte da linguagem cultural da esquerda, mas ainda defender políticas
públicas típicas do campo progressista. É o brasileiro desenvolvimentista na
economia e conservador nos costumes.
Para
Lula, o dado acende um alerta, mas não representa derrota automática. Pesquisas
recentes mostram o presidente ainda liderando Flávio Bolsonaro em cenários de
primeiro e segundo turno. Em levantamento Datafolha de junho, Lula aparecia com
41% no primeiro turno, contra 31% de Flávio, e venceria o segundo turno por 47%
a 43%.
O
desafio do governo é transformar sua agenda econômica e social em identidade
política. Se emprego, renda, programas sociais e investimentos públicos não
forem comunicados como projeto de país, a direita continuará ocupando o
imaginário moral e cultural de parte da população.
Para a
oposição, o crescimento da identificação à direita é uma boa notícia, mas não
resolve o problema central: unidade e candidato competitivo. Mesmo com um
ambiente ideológico mais favorável, o campo conservador segue fragmentado e
ainda enfrenta dificuldade para transformar antipetismo em maioria nacional.
A
fotografia do Datafolha mostra um Brasil dividido, complexo e menos linear do
que a polarização sugere. A direita cresce como identidade. A esquerda resiste
como agenda econômica. E Lula, mesmo pressionado por um ambiente cultural mais
conservador, segue competitivo porque fala a uma dimensão concreta do
eleitorado: renda, emprego, Estado e proteção social.
Fonte:
Viomundo/O Cafezinho

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