quarta-feira, 8 de julho de 2026

Dossiê entreguista enviado a Trump desgasta Flávio Bolsonaro, aponta pesquisa

O envio de um dossiê de 86 páginas pelo senador e pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, ao governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, provocou desgaste entre os chamados eleitores pendulares, grupo considerado decisivo em uma eventual disputa presidencial. A informação, segundo a coluna da jornalista Míriam Leitão, de O Globo, consta da oitava rodada da pesquisa qualitativa do Instituto Democracia em Xeque.

O documento enviado por Flávio Bolsonaro ao governo dos EUA pede que o governo estadunidense suspenda por 180 dias as tarifas impostas a produtos brasileiros, adiando sua vigência para depois das eleições. Para o instituto, a iniciativa teve repercussão negativa entre eleitores que costumam alternar seus votos entre candidatos da esquerda e da direita.

<><> Carta é vista como preocupação eleitoral

De acordo com o diretor de Relações Institucionais do Instituto Democracia em Xeque, Beto Vasques, os entrevistados avaliaram que Flávio Bolsonaro demonstrou maior preocupação com os impactos eleitorais das tarifas do que com a defesa dos interesses das empresas brasileiras atingidas pela medida.

Outro aspecto apontado pela pesquisa foi a referência ao Pix na carta encaminhada ao governo dos EUA. Conforme o levantamento, parte dos participantes interpretou a menção como um gesto favorável às empresas estadunidenses de cartões de crédito, em detrimento de um sistema de pagamentos desenvolvido no Brasil e amplamente utilizado pela população.

Flávio Bolsonaro está inscrito para discursar nesta terça-feira em uma sessão da Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos (USITC), em Washington.

<><> Instituto aponta perda de autonomia política

A pesquisa indica que, pela terceira semana consecutiva, a agenda do senador permanece dominada por polêmicas, explicações consideradas insuficientes e pela percepção de que haveria fatos ainda não esclarecidos.

Ao comentar os resultados, Beto Vasques afirmou que a sequência de episódios recentes vem afetando a imagem política do parlamentar.

“A carta a Trump, o ruído com Michelle Bolsonaro, a fala de Paulo Figueiredo sobre o voto feminino, a sequência de polêmicas fazem o senador deixar de ser visto como um candidato autônomo para ser percebido como uma extensão de uma família em conflito permanente, envolvida em sucessivas controvérsias, subordinada aos Estados Unidos e pouco preocupada com os interesses da população”, afirmou.

<><> Lula avança entre eleitores pendulares

Segundo o levantamento, esse cenário contribuiu para fortalecer a percepção positiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entre os eleitores pendulares. Embora esse segmento não demonstre entusiasmo pelo presidente, os entrevistados o associam mais às políticas sociais e à defesa dos interesses nacionais.

A pesquisa também concluiu que esse eleitorado diferencia uma relação diplomática equilibrada com os Estados Unidos de uma postura considerada subordinada aos interesses estadunidenses. Nesse contexto, a defesa dos interesses brasileiros por Lula foi avaliada positivamente, embora alguns participantes ainda façam críticas ao que classificam como um discurso “antiamericanista” do presidente.

<><> Caso Jaques Wagner continua no radar

O estudo também analisou os efeitos políticos envolvendo o senador Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do governo no Senado. Segundo Beto Vasques, o tema perdeu intensidade nas últimas semanas, mas continua presente na percepção dos entrevistados.

“O afastamento do senador da liderança do governo foi bem recebido. Por outro lado, o abraço de Lula em Jaques Wagner reabriu suspeitas de proteção a aliados, criando um ruído no campo moral”, avaliou o diretor do Instituto Democracia em Xeque.

•        ‘Extrema direita tenta entregar no exterior o que não conseguiu nas urnas’, afirma Uczai ao denunciar crimes de Flávio Bolsonaro

O líder do PT na Câmara dos Deputados, Pedro Uczai, criticou nesta segunda-feira (6) a viagem marcada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aos Estados Unidos, onde o parlamentar da extrema direita participa de uma audiência nesta terça (7). Será a sexta viagem do pré-candidato à Presidência da República para o território estadunidense.

Em postagem publicada na rede social X, o petista afirmou que o parlamentar da extrema direita “não foi defender empregos, empresas, agricultores, trabalhadores nem a soberania brasileira”.

“Foi atuar na linha auxiliar de uma ofensiva contra o país: tarifaço sobre produtos brasileiros, sanções políticas pela via da Magnitsky, ataques ao Pix, pressão sobre minerais críticos e até a vergonhosa oferta de uma ‘equipe de transição’ que não existe na lei brasileira. É o bolsonarismo tentando entregar no exterior aquilo que não venceu nas urnas”, escreveu o líder do PT.

“Flávio Bolsonaro transformou o mandato em instrumento de sabotagem contra o Brasil. Um senador eleito pelo povo brasileiro não pode viajar ao exterior para estimular tarifaço, sanções, chantagem econômica, ataques ao Pix e pressão sobre setores estratégicos do país. Essa conduta tem nome político: traição à Pátria. Flávio precisa responder se representa os brasileiros que o elegeram ou se virou a casa para defender os interesses de Washington”, ressaltou.

<><> Lei Magnitsky

Um instrumento de pressão mencionado no debate é a Lei Magnitsky, criada em 2012. Quatro anos depois o Congresso dos EUA ampliou a norma e permitiu sanções contra pessoas e entidades acusadas de corrupção.

A Lei Magnitsky permite o bloqueio de bens mantidos nos EUA, como contas bancárias, aplicações financeiras e imóveis. A legislação também autoriza a proibição de entrada em território estadunidense e impede negócios com cidadãos e empresas dos EUA.

<><> Tarifaço

Em 25 de maio, Flávio Bolsonaro viajou aos EUA e voltou ao Brasil três dias depois, pouco antes de Washington ampliar pressões comerciais e políticas contra o país. O deslocamento do senador ocorreu às vésperas de medidas que atingem exportações brasileiras, sistemas de pagamento e temas sensíveis da agenda geopolítica.

No início de junho, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, conhecido pela sigla USTR, defendeu a aplicação de uma tarifa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros vendidos ao mercado estadunidense. A iniciativa surgiu no mesmo período em que os EUA passaram a classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, decisão que abriu caminho para novas sanções contra o Brasil.

As retaliações ocorreram após a condenação de Jair Bolsonaro (PL) no inquérito da trama golpista. Ministros do Supremo Tribunal Federal impuseram ao ex-presidente pena de 27 anos de prisão, decisão que elevou a tensão entre setores bolsonaristas e instituições brasileiras, além de alimentar movimentos em Washington contra autoridades e interesses do Brasil.

<><> Pix e BRICS

O parlamentar da extrema direita encaminhou ao USTR um documento em que defendeu maior abertura do mercado brasileiro a empresas estrangeiras na operação de cartões de crédito. O senador também apoiou acordos comerciais fora do Mercosul e pediu que o Pix não integre sistemas de pagamento ligados ao BRICS.

O Pix, criado pelo Banco Central do Brasil, ganhou centralidade na disputa por soberania tecnológica e financeira. Em 2025, o sistema registrou 30,1 bilhões de transações, avanço de 20% em relação ao ano anterior, segundo a Pesquisa de Tecnologia Bancária da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), divulgada em 26 de junho.

O volume de operações via Pix ficou quase três vezes acima do total de pagamentos de contas, que somou 9,9 bilhões de transações no mesmo período. Essa modalidade também avançou em ritmo forte, com alta de 99% frente a 2024, o que reforçou o papel do sistema brasileiro nos canais digitais.

A menção ao BRICS no documento enviado por Flávio Bolsonaro ocorre em um momento de disputa global por influência econômica. O bloco reúne países que representam 37% da economia mundial, segundo o Fórum Econômico Mundial, e 26% do comércio internacional, conforme dados da Organização Mundial do Comércio.

A aliança também concentra mais de 40% da população do planeta, apontaram dados divulgados pelo grupo. Levantamentos divulgados pelo Ministério de Minas e Energia indicam que os BRICS possuem 44% das reservas globais de petróleo e 53% das reservas de gás natural. O bloco ainda responde por 43% da produção mundial de óleo e 35% da produção de gás.

<><> Terras raras

Além dos pagamentos digitais e do comércio internacional, outro ponto estratégico envolve as terras raras. O Brasil ocupa a segunda maior posição mundial em reservas desses minerais, com 21 milhões de toneladas. O país fica atrás apenas da China, que detém 44 milhões de toneladas, segundo dados de 2024 do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). A Índia aparece em terceiro lugar, com 6,9 milhões de toneladas, conforme números divulgados pelo Valor Econômico em 25 de julho do ano passado.

As terras raras reúnem 17 elementos químicos: lantânio, cério, praseodímio, neodímio, promécio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, escândio, túlio, itérbio, lutécio e ítrio. Esses minerais assumem papel decisivo na transição energética e na indústria de alta tecnologia.

Empresas utilizam esses elementos na fabricação de turbinas eólicas, veículos híbridos, televisores de tela plana, celulares, lâmpadas fluorescentes compactas, ímãs permanentes, catalisadores de gases de escapamento, lentes de alta refração e mísseis teleguiados. Por isso, as reservas brasileiras entram no centro da disputa entre grandes potências por cadeias produtivas estratégicas.

<><> ‘Equipe de transição’

No documento encaminhado ao parlamentar de extrema direita, o aliado do governo Donald Trump menciona a “generosa oferta” atribuída ao senador para “colocar uma equipe de transição à nossa disposição”. Rubio ainda acrescentou, na carta, a expressão: “Caso o senhor seja eleito”.

A referência, porém, esbarra nas regras previstas pela legislação brasileira. No Brasil, uma equipe de transição só pode ser constituída entre o governo em exercício e o presidente eleito que assumirá o cargo.

O procedimento foi disciplinado por lei e decreto editados em 2002, durante o governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), no ano da primeira vitória eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (T). A norma autoriza a criação de 50 cargos comissionados destinados à coleta de informações em órgãos da administração pública federal, com a finalidade de preparar os atos iniciais da futura gestão.

•        Lindbergh desmente o clã Bolsonaro sobre tarifaço dos EUA e afirma: ‘são traidores da Pátria’

O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) publicou nesta segunda-feira (6) um vídeo crítico à extrema direita brasileira e afirmou, pela rede social X, que a família Bolsonaro foi responsável por estimular o tarifaço de 25% sobre parte dos produtos brasileiros por causa da condenação de Jair Bolsonaro (PL) no inquérito da trama golpista. O Supremo Tribunal Federal condenou o ex-mandatário a 27 anos de prisão.

“Flávio Bolsonaro é cara de pau. Quem começou a campanha pelas tarifas foram eles”, pontuou Lindbergh. “A família Bolsonaro construiu o tarifaço contra o nosso país. Não adianta agora querer apagar ou reescrever a história. Eduardo Bolsonaro e Flávio agiram contra o nosso país para tentar livrar o Jair Bolsonaro da cadeia. Eles pagarão caro por isso. A resposta do povo brasileiro será nas urnas em outubro!”, acrescentou.

Na plataforma, o petista publicou um trecho de uma fala em que o senador Flávio Bolsonaro diz que irá “proteger o Brasil do Lula e das tarifas”.

<><> Alexandre de Moraes e a Lei Magnitsky

Conforme destacou o parlamentar do PT, os EUA queriam uma ofensiva contra o ministro do STF Alexandre de Moraes, relator da investigação sobre a trama golpista. Mas o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, diz Lindbergh na postagem, entende que “só pode agir com o respaldo de um establishment político, empresarial e institucional, que compactua com essa escalada autoritária”.

Os EUA chegaram a defender a aplicação da Lei Magnitsky contra o magistrado. A legislação surgiu em 2012 e, em 2016, ganhou alcance mais amplo após o Congresso estadunidense autorizar sua aplicação contra indivíduos e organizações acusados de envolvimento em corrupção.

Pela norma, autoridades estadunidenses podem congelar ativos localizados nos EUA, incluindo contas bancárias, investimentos e imóveis. A lei também permite barrar a entrada de alvos no país e restringir transações comerciais com empresas e cidadãos estadunidenses.

“A partir de 1º de agosto, empresas brasileiras que desejarem acessar o maior mercado consumidor do planeta estarão sujeitas ao que se pode chamar de tarifa Moraes”, observou Lindbergh.

>>>> Veja quais produtos brasileiros ficaram isentos da tarifa de 25%

A lista de exceções ao tarifaço de 25% aplicado pelos Estados Unidos inclui alimentos, produtos agrícolas, combustíveis, minerais, itens farmacêuticos, insumos químicos, componentes aeroespaciais e equipamentos de tecnologia.

Entre os produtos poupados da medida estão carnes, café, frutas, petróleo, minério de ferro, fertilizantes, vacinas, motores de aeronaves e semicondutores, de acordo com o G1.

<><> Alimentos e produtos agrícolas

No setor de alimentos, ficaram fora da tarifa cortes de carne bovina frescos, refrigerados ou congelados, com ou sem osso, incluindo carcaças, miúdos, carnes enlatadas, secas ou defumadas.

Também entraram na lista de exceções produtos ligados a frutos do mar, como corais, conchas e materiais semelhantes.

Entre hortaliças, fungos e vegetais, foram excluídos da tarifa itens como chuchu, brotos de bambu, castanhas-d’água, orelha-de-pau e cogumelos shiitake secos.

Raízes e tubérculos também aparecem na relação. A isenção alcança mandioca fresca, seca ou congelada, taro, mangarás, jicama e araruta.

No grupo das frutas, a lista inclui tomates frescos ou refrigerados, cocos desidratados ou frescos, com ou sem casca, fruta-pão, bananas, plátanos, abacaxis, abacates, goiabas, durians, mangas, laranjas, limões, papaias, kiwis e etrogs.

As nozes e castanhas também foram preservadas, entre elas coco, castanha-do-pará, castanha-de-caju e macadâmia.

Café, chá, erva-mate e cacau ficaram entre os produtos de maior relevância econômica mantidos fora da sobretaxa. A exceção vale para café torrado ou não torrado, com ou sem cafeína, além de cascas, substitutos, chá verde, chá preto e erva-mate.

No caso do cacau, a isenção inclui grãos, cascas, pasta, manteiga e pó sem açúcar.

A lista ainda contempla especiarias como pimenta, baunilha, canela, cravo, noz-moscada, gengibre, açafrão e cúrcuma.

Entre os processados, ficaram fora do tarifaço o amido de mandioca, a tapioca, sucos de frutas — como laranja, limão, abacaxi e açaí — e preparações à base de açaí.

<><> Minerais, energia e combustíveis

Na área de recursos naturais, a relação inclui minérios de ferro, manganês, cobre, níquel, cobalto, alumínio, zinco, estanho, cromo, tungstênio, urânio, titânio e prata.

Também foram preservados minerais como grafite natural, caulim, fosfatos de cálcio, barita, magnésita e amianto.

No campo energético, escaparam da tarifa carvão antracito e betuminoso, coque, gás de carvão, petróleo cru e refinado, querosene, lubrificantes, gás natural liquefeito, propano, butano e energia elétrica.

<><> Químicos, fertilizantes e medicamentos

A lista de exceções também alcança produtos químicos industriais, entre eles iodo, silício, arsênio, selênio, óxidos de zinco e de titânio, além de diferentes compostos orgânicos e inorgânicos.

No setor de fertilizantes, ficaram fora da cobrança ureia, sulfato de amônio, nitrato de sódio, cloreto de potássio e fertilizantes fosfatados.

A área de saúde reúne alguns dos itens mais sensíveis da lista. Foram excluídos da tarifa vacinas humanas e veterinárias, sangue humano, antissoros, toxinas, antibióticos como penicilinas, estreptomicinas e tetraciclinas, hormônios como insulina, cortisona e estrogênios, além de vitaminas, contraceptivos químicos e kits para ensaios clínicos.

<><> Aeronaves, indústria e tecnologia

O setor aeroespacial também aparece de forma ampla entre as exceções. A lista inclui motores de pistão, turbojatos, turbopropulsores e peças relacionadas.

Componentes de aeronaves, como hélices, rotores, trens de pouso e fuselagens, também não foram atingidos pela tarifa de 25%.

Entre os equipamentos internos de voo, ficaram de fora assentos de aeronaves, aparelhos de respiração, caixas-pretas, pilotos automáticos, bússolas e outros instrumentos de navegação aérea.

A isenção ainda vale para materiais usados em aeronaves, como tubos de plástico, pneus de borracha, juntas de vedação e vidros de segurança laminados.

Produtos de madeira também aparecem na lista, incluindo teca, mogno, balsa e virola, tanto em toras quanto serradas.

No setor de papel e celulose, a exceção abrange polpa química de madeira e diferentes produtos de papel.

Metais preciosos como ouro, prata e platina, em formas brutas ou manufaturadas, também ficaram fora da sobretaxa.

Na área de tecnologia, a lista inclui máquinas utilizadas na fabricação de semicondutores, circuitos integrados eletrônicos e processadores.

 

Fonte: Brasil 247

 

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