quarta-feira, 8 de julho de 2026

 

A depravação de J.D. Vance, a falência moral do imperialismo e a vitória épica da China

“Estou bravo com a ascensão da China, mas o que mais me deixa bravo é que a liderança americana deixou isso acontecer.” A frase é de J.D. Vance, hoje vice-presidente dos Estados Unidos, em discurso proferido em 23 de maio de 2024, quando ainda era senador, na conferência “A Foreign Policy for the Middle Class”, organizada pelo Quincy Institute e pela revista The American Conservative no Senado americano, em Washington.

O trecho voltou a viralizar nas redes nesta semana porque internautas o reencontraram e, sobretudo, porque Vance é hoje cotado como possível sucessor de Donald Trump nas próximas eleições. E a política americana não mudou nada: segue inteiramente voltada para diminuir os outros países.

A frase é a falência moral do imperialismo americano em estado puro, e o discurso de Vance é a sua expressão mais caricata, porém mais explícita: ele apenas disse em voz alta, sem filtro e sem vergonha, o que gerações de líderes americanos sempre pensaram em silêncio.

Deixou acontecer. Como se a industrialização de um país de 1,4 bilhão de habitantes fosse um erro de despacho de Washington, uma porta que algum burocrata esqueceu de trancar. Como se uma civilização de cinco mil anos estivesse sentada, esperando a permissão dos Estados Unidos para se desenvolver.

Porque o que Vance chama de erro é, na verdade, a maior epopeia econômica da história da humanidade. A China foi sancionada, contida, difamada, tarifada e tecnologicamente estrangulada por Washington durante décadas, e mesmo assim tirou 800 milhões de pessoas da pobreza e se tornou a maior potência industrial do planeta.

Como demoliu ponto por ponto o analista Arnaud Bertrand, a fala de Vance é indefensável sob todos os ângulos: moral, factual, econômico, diplomático e político. Vale percorrer cada um deles.

Moralmente, a frase é repugnante. O que Vance está dizendo, traduzido do juridiquês imperial para o português claro, é que os Estados Unidos deveriam ter mantido um quinto da humanidade na pobreza, porque a miséria alheia era boa para os negócios americanos. E mais: que as lideranças políticas americanas sentem ressentimento quando outros povos prosperam, e ficam bravas quando outros países superam seus próprios problemas.

É uma declaração sociopata, e vinda justamente de um político que adora exibir seus supostos valores cristãos. Vance evidentemente nunca chegou à parte da Bíblia que fala em amar o próximo, e não foi um deslize isolado: já como vice-presidente, no auge da guerra tarifária de Trump, ele chamaria os chineses de “camponeses” dos quais a América toma dinheiro emprestado.

Factualmente, a fala é analfabeta, porque trata os chineses como se não tivessem agência nenhuma. A ascensão chinesa não foi uma concessão americana que poderia ter sido negada: foi uma conquista arrancada do mundo sob bloqueio, cerco e guerra comercial.

E se o desenvolvimento chinês fosse mesmo um presente da política americana de engajamento, por que a Índia não se desenvolveu no mesmo ritmo? A Índia tinha a população, tinha o inglês, tinha acesso anterior à OMC, tinha o selo de “democracia” e décadas de cortejo geopolítico do Ocidente.

Ainda assim, o capital escolheu a China, as fábricas escolheram a China, as cadeias de suprimento escolheram a China. Porque civilização não se constrói bajulando Washington: constrói-se com infraestrutura, disciplina, engenheiros, operários, logística, eletricidade, educação e capacidade estatal.

A verdade suja é que o objetivo do engajamento nunca foi ver a China se tornar uma competidora à altura dos Estados Unidos, e sim usufruir para sempre da mão de obra barata chinesa mantendo o país permanentemente subordinado. Essa política mágica simplesmente não existia: nenhum governo americano, nem os dois de Trump com todo o seu arsenal de tarifas e sanções, conseguiu moldar a China aos interesses de Washington.

No plano econômico, o argumento desmorona com dois números. Em 1980, a China respondia por 2% do PIB global; em 2024, por 17%. No mesmo período, a fatia americana não caiu: subiu de 25,5% para 26,3%.

Ou seja, os Estados Unidos não perderam nada, nem em termos absolutos nem em termos relativos. O país conserva mais de um quarto da produção econômica mundial com apenas 4% da população global, uma fatia desproporcional e francamente injusta, e ainda assim se apresenta ao mundo como vítima.

Diplomaticamente, a fala é um tiro no próprio pé. Ela antagoniza a China, claro, mas manda um recado ainda mais devastador para todos os demais países do mundo que querem se desenvolver, ou seja, praticamente todos: para a América, o jogo é de soma zero, e a prosperidade dos outros é uma derrota americana.

Isso torna a política externa dos Estados Unidos objetivamente mais difícil e complica a vida de cada empresa americana que tenta vender algo no exterior. É difícil conquistar um mercado quando o seu vice-presidente declara que fica “bravo” quando os clientes prosperam.

Por fim, a fala é politicamente estúpida. O bode expiatório é o truque mais velho da política, mas ele só funciona enquanto desvia a culpa de problemas que o próprio governante poderia resolver, e os Estados Unidos passaram desse ponto há muito tempo.

O país manteve sua fatia do bolo global, mas fracassou em distribuí-la internamente. Os ganhos foram açambarcados por uma pequena elite, enquanto o americano comum ficou com os custos insanos de saúde, a infraestrutura em ruínas e os salários estagnados.

Pode-se culpar a China por tudo isso à vontade, mas a conta chega. A vida do povo americano não melhora com o dedo apontado para Pequim, e cedo ou tarde as pessoas param de olhar para onde o dedo aponta e começam a olhar para quem está apontando.

Outro comentário que viralizou junto com o vídeo resumiu o novo momento com precisão cirúrgica: os próximos dez anos da América não serão de competição com a China, porque essa fase já acabou. A América agora compete com a Índia para ver quem decepciona menos o capital, enquanto o verdadeiro adversário da China é a sua própria capacidade de execução, sua própria disciplina, sua capacidade de seguir construindo sem dar ouvidos ao ruído ocidental.

Vance está bravo porque a China ascendeu. Mas o que realmente o humilha é outra coisa: a América tentou impedir com todas as suas forças, e a China ascendeu assim mesmo.

No fim, a fala do vice-presidente é irrecuperável sob qualquer ângulo: moralmente repulsiva, factualmente analfabeta, economicamente errada, diplomaticamente suicida e politicamente burra. O que é, honestamente, um fenômeno impressionante.

¨      EUA e China lideram corrida global inédita por fusão nuclear

O mundo vive uma corrida pela liderança tecnológica da fusão nuclear, defendida por alguns como potencial fonte de energia massiva e livre de gases de efeito estufa. Embora a viabilidade econômica de uma eventual usina seja incerta, cada vez mais bilhões de dólares vêm sendo aplicados por governos, empresas e investidores privado. 

No segundo semestre de 2025, os investimentos privados no setor cresceram num ritmo sem precedentes, com 85% do financiamento concentrado na China e nos Estados Unidos. O aumento global foi de 30%, alcançando 13 bilhões de dólares (R$67 bilhões), segundo relatório da organização Fusion for Energy (F4E), da União Europeia (UE).

Até 2050, o setor de energia de fusão poderia atingir um volume de mais de 350 bilhões de dólares, estima a Agência Internacional de Energia (IEA). A demanda por energia cresce continuamente — impulsionada, entre outros fatores, pela eletrificação da economia. E os centros de dados necessários para ainteligência artificial (IA) aumentaram significativamente esse apetite.

O princípio por trás da tecnologia é: núcleos atômicos leves se fundem, formando novos elementos e liberando energia na forma de calor. Esse calor pode ser utilizado para gerar eletricidade, de forma independente do clima, com segurança no fornecimento, sem combustíveis fósseis e sem emissão de gases de efeito estufa. 

Ao contrário da energia nuclear convencional, na qual a energia é obtida pela fissão de núcleos atômicos, o risco de acidente na fusão é mais baixo. Os resíduos radioativos apresentam risco menor para a saúde humana e o meio ambiente. Parte dos especialistas argumenta que mesmo um desenvolvimento tecnológico bem-sucedido não seria veloz o bastante para que a Europa alcance suas metas para proteger o clima.

<><> Startups apostam na fusão

Durante décadas, o foco no tema da fusão nuclear esteve principalmente em grandes projetos financiados pelo Estado, como o ITER (International Thermonuclear Experimental Reactor). Neste projeto, 35 países participam da construção de um reator experimental no sul da França, incluindo os países da UE, os Estados Unidos, a Rússia e a China. 

Desde o início das obras em 2007, os custos aumentaram enormemente, enquanto a conclusão foi repetidamente adiada. Atualmente, a entrada em operação está prevista para o período entre 2034 e 2036.

Em todo o mundo, também foram fundadas muitas empresas que buscam avançar na construção de reatores de fusão nuclear. Atualmente, 77 companhias trabalham para levar a fusão nuclear à maturidade de mercado, segundo a F4E.

A maioria (42) está nos Estados Unidos, contra oito na China e seis no Reino Unido. Também na Alemanha quatro startups se posicionam no mercado.

<><> Investimentos concentrados em EUA e China

A fusão nuclear não só exige muita pesquisa, como também a injeção de recursos. Excluindo os fundos públicos, cerca de 13 bilhões de euros foram investidos até o fim de 2025 na pesquisa privada em fusão. 

A maior parte (53%) vai para empresas dos EUA e cerca de um terço para empresas chinesas. "De fato, nesses dois mercados já existem alguns 'unicórnios' com avaliações superiores a um bilhão de dólares", afirma a F4E. O restante, pouco mais de 700 milhões de euros, vai para oito empresas europeias.

Enquanto na China o Estado investe fortemente na fusão nuclear, nos Estados Unidos o setor é impulsionado principalmente por investidores privados, inclusive das grandes empresas de tecnologia. Por exemplo, o Google apoia a empresa americana TAE Technologies há mais de dez anos, não apenas com centenas de milhões de dólares, mas também com engenheiros da própria empresa trabalhando diretamente no desenvolvimento tecnológico.

Além disso, o Google investiu na maior empresa de fusão dos EUA, a Commonwealth Fusion Systems (CFS), e assinou um contrato para compra de eletricidade. Já a empresa americana Helion Energy é apoiada por Sam Altman, CEO da OpenAI. A Microsoft também firmou um contrato de compra de eletricidade com a Helion Energy.

<><> Alemanha mira mesmo objetivo

Para Markus Roth, professor da TU Darmstadt que fundou em 2021 a startup Focused Energy, a Alemanha tem um ecossistema competitivo para o desenvolvimento da fusão nuclear, em razão da ampla presença de instituições de pesquisa, startups e empresas industriais.

Ao contrário da maioria dos concorrentes, a sua startup aposta em tecnologia a laser. A viabilidade do método foi demonstrada em 2022, quando pesquisadores nos Estados Unidos conseguiram, pela primeira vez, obter mais energia de uma reação de fusão em escala de laboratório do que foi necessário para iniciá-la.

Mas um dos grandes obstáculos no caminho para um reator de fusão é o rápido desenvolvimento de cadeias de fornecimento, ele aponta. "Precisamos aprender, na Alemanha, a construir sistemas a laser como construímos carros — em linha de produção, mas com alta precisão."

O governo alemão também vê grande potencial na fusão nuclear e a define como uma das seis tecnologias-chave para o futuro da Alemanha. Mais de dois bilhões de euros em investimentos públicos foram prometidos para a fusão nuclear nesta legislatura.

No entanto, ainda levará tempo até a geração efetiva de eletricidade, e as startups afirmam que estão longe de ter os recursos necessários para o longo prazo.

¨      A “esperteza chinesa” com as marcas está com os dias contados. Por Fernando Capotondo

Durante anos, Michael Jordan não pôde usar legalmente o próprio nome para vender tênis em território chinês porque uma empresa local chamada Qiaodan Sports registrou anteriormente a marca, assim como o número 23, que sempre identificou a lenda do basquete norte-americano. Manobras como essa, além de outras semelhantes que afetaram Apple e Tesla, entre outras empresas, tornaram-se casos emblemáticos daquela tênue linha que, na Argentina, é conhecida como “esperteza crioula” e, no Caribe, costuma ser chamada de “jogar esperto”. Foi justamente para fechar essa brecha especulativa que o Comitê Permanente da Assembleia Popular Nacional (APN), o principal órgão legislativo da República Popular da China, aprovou uma histórica reforma da Lei de Marcas.

A nova legislação, que entrará em vigor em 1º de janeiro de 2027, aprofundará o combate aos registros fraudulentos e às marcas enganosas que deram origem a tantos abusos. Em apenas cinco anos, a China passou de cerca de 30 milhões de marcas registradas em vigor para um total de 49,8 milhões, um crescimento próximo de 65%. Segundo a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), o país asiático concentra mais de 53% das marcas registradas em vigor no mundo, um volume tão elevado que favorece o bloqueio de concorrentes, a revenda de direitos e até mesmo uma verdadeira indústria de litígios.

Durante anos, registrar uma marca foi um negócio mais lucrativo do que fabricar um produto.

Enquanto a Administração Nacional de Propriedade Intelectual da China (CNIPA) reconhece em seus balanços que precisa barrar anualmente mais de 500 mil pedidos apresentados de “má-fé”, relatórios da Associação Internacional de Marcas (INTA) e levantamentos da Câmara de Comércio da União Europeia na China (EUCCC) estimam que o estoque de “marcas mortas”, paradas no sistema, varia entre 30% e 40% do total de registros. Trata-se de um número difícil de ignorar, inclusive para Pequim.

Embora os litígios bilionários envolvendo multinacionais sejam os que ganham destaque na imprensa internacional, consultorias concordam que as verdadeiras prejudicadas são as pequenas e médias empresas estrangeiras. Sem orçamento para enfrentar processos que podem durar cinco ou dez anos nos tribunais chineses, ou para pagar os elevados valores exigidos de má-fé para recuperar suas marcas, milhares de pequenas e médias empresas foram obrigadas a mudar de nome ou simplesmente desistiram de entrar no mercado chinês.

A reforma aprovada pela APN pretende corrigir essas distorções. Trata-se da primeira revisão abrangente da Lei de Marcas desde 1983 e busca substituir a lógica de acumular registros por outra que privilegie o uso efetivo das marcas. A própria Comissão de Assuntos Legislativos reconheceu que “o surgimento recorrente de pedidos maliciosos de registro de marcas esgotou gravemente os recursos públicos”. O órgão também afirmou que “as sanções insuficientes, o exercício abusivo de direitos por alguns titulares e a desordem entre as agências especializadas haviam se tornado problemas cada vez mais graves”, conforme destacou o jornal oficial China Daily.

<><> Má-fé, inatividade e práticas enganosas

Entre as principais mudanças está o endurecimento das condições para registrar uma marca. Pedidos apresentados sem intenção real de utilizá-la ou que ultrapassem as necessidades normais de uma atividade comercial poderão ser rejeitados. Também serão aplicadas multas a quem registrar marcas de má-fé, isto é, sem intenção genuína de utilizá-las comercialmente.

As marcas enganosas também passarão a ser alvo de maior fiscalização. Aquelas capazes de induzir o público ao erro quanto à qualidade de um produto, seu processo de fabricação, suas matérias-primas ou sua origem geográfica estarão sujeitas a sanções administrativas e financeiras. Caso a irregularidade persista, as autoridades poderão cancelar o registro.

O mesmo ocorrerá com as chamadas marcas ociosas. Registros que permanecerem três anos consecutivos sem utilização, sem justificativa válida, perderão a proteção legal. O objetivo é desestimular o acúmulo de marcas como ativos financeiros e liberar espaço para quem realmente pretende competir no mercado.

Outro setor afetado pela reforma é o das agências de propriedade intelectual. A partir de agora, elas deverão registrar formalmente tanto a empresa quanto seus funcionários junto à autoridade nacional competente, medida destinada a reduzir a participação de intermediários em operações fraudulentas.

Nos escritórios de advocacia que assessoram grandes corporações ocidentais, essas armadilhas são bem conhecidas. Especialistas como Aaron Wininger, diretor do departamento de propriedade intelectual para a China do escritório norte-americano Schwegman Lundberg & Woessner, costumam alertar que o tradicional princípio da “prioridade ao primeiro requerente” — sistema que permitiu o caso Michael Jordan — funcionou historicamente como uma barreira que obrigava empresas globais a litigar durante anos ou pagar resgates milionários para recuperar suas marcas. Por isso, o endurecimento da legislação é visto como uma correção necessária, embora tardia.

Em Pequim, porém, a questão é explicada sob outra perspectiva, sem deixar de reconhecer o problema. Acadêmicos como o professor Ma Yide, diretor da Escola de Propriedade Intelectual da Universidade da Academia Chinesa de Ciências, defendem que a reforma responde à necessidade de desenvolvimento interno, ao limpar o sistema de pedidos maliciosos, fortalecer a segurança jurídica das próprias empresas inovadoras e proteger os consumidores. Sob essa ótica, a depuração do sistema é apresentada pelas autoridades como uma condição necessária para impulsionar a inovação nacional.

Os sistemas também envelhecem. De tempos em tempos, precisam corrigir os incentivos que eles próprios criaram.

No fundo, essa mudança diz mais sobre a economia chinesa do que sobre o direito de marcas. Ela revela quais prioridades Pequim pretende imprimir à sua política industrial e integra um movimento muito mais amplo para corrigir distorções surgidas durante o intenso crescimento econômico das últimas décadas.

A mesma lógica já pode ser observada em outros setores: as patentes deixam de ser avaliadas pela quantidade e passam a ser valorizadas por sua capacidade de gerar inovação; as startups são incentivadas a competir com tecnologia própria, e não apenas pela multiplicação de empresas; e as exportações buscam se apoiar em marcas chinesas capazes de disputar segmentos de maior valor agregado.

A nova legislação pretende transformar essa mudança de modelo em uma obrigação legal. Na China do futuro, apenas registrar uma marca não será suficiente. Primeiro será preciso produzir. Depois, registrar.

 

Fonte: Brasil 247

 

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